2 INSERÇÃO PROFISSIONAL DOS DIPLOMADOS UNIVERSITÁRIOS:
6.1 EXPECTATIVAS DE INSERÇÃO PROFISSIONAL
6.1.4 Estimativas quanto ao exercício profissional
As estimativas de exercício profissional abrangeram quatro questões do questionário, a saber: expectativas quanto às chances de inserção profissional; previsão de tempo para o início da carreira profissional; perspectivas de remuneração salarial; e previsão de tempo para alcançar estabilidade profissional.
Em relação à primeira questão, os participantes deste estudo manifestaram suas expectativas de inserção profissional em Salvador utilizando as escalas: “muito grande” a “nenhuma” expectativa de inserção profissional. Observando os resultados, apenas com base na modalidade de ingresso na universidade, verificou-se que não existe diferenças estatisticamente significativa entre as expectativas de não cotistas e cotistas. No caso dos primeiros, a maior parte da população apresentou expectativa “razoável” (29,4%), seguida de “pequena” (24%), 23,5% “grande”, 13,7% “muito grande” e 9,3% “nenhuma”. No grupo de cotistas pretos ou pardos, 41,2% assinalaram expectativa “razoável”, 21,6% “pequena”, 19,6% “grande”, 9,8% “muito grande” e 7,8% “nenhuma”. Já entre os cotistas de qualquer
etnia, 42,9% têm expectativa “razoável”, 17,1% “pequena”, 17,1% “grande”, 14,3% “muito grande” e 8,6% “nenhuma”.
Tabela 16 – Expectativas de inserção profissional em Salvador por modalidade de ingresso
Não cotista Cotas: pretos ou pardos
Cotas: qualquer etnia ou cor n % n % n % Muito grande 28 13,7 5 9,8 5 14,3 Grande 48 23,5 10 19,6 6 17,1 Razoável 60 29,4 21 41,2 15 42,9 Pequena 49 24 11 21,6 6 17,1 Nenhuma 19 9,3 4 7,8 3 8,6 Total 204 100 51 100 35 100
Fonte: Pesquisa de campo P-valor: 0,773
É válido destacar que as expectativas de inserção profissional nos três grupos (não cotistas, cotistas pretos ou pardos e cotistas de qualquer etnia ou cor) também foram observadas atendo-se às variáveis gênero e escore do curso (maior e menor no vestibular 2005 da UFBA). Todavia, também não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas. Situação contrária foi verificada ao analisar expectativas de inserção profissional com base, apenas, na variável escore dos cursos.
Gráfico 15 - Expectativas de inserção profissional em Salvador por escore do curso
Fonte: pesquisa de campo P-valor: 0,019
O gráfico 15 mostra que os estudantes dos cursos de maior escore, em comparação com os de menor escore, tendem a ter expectativas mais positivas de inserção profissional. Entre os primeiros, 18% apresentam expectativa “muito grande”. Já entre os segundos, apenas 5%. O inverso ocorre quando se observa quem são os estudantes com expectativa “pequena”. Entre os primeiros, a percentagem é de 20%; entre os segundos, 28%.
Compreendendo que parte dos cursos de menor escore oferecem, normalmente, menos oportunidades de inserção profissional, os dados mostrados no gráfico 15 corroboram os achados de Neiva (1996) quando aponta que estudantes de profissões com fraco mercado de trabalho trazem uma visão menos otimista quanto ao seu futuro profissional.
Em relação à segunda questão, que trata do tempo para o início da carreira profissional, observou-se que as expectativas são boas nos três grupos. Entre os nãos cotistas, 62,8% acreditam que vão se inserir profissionalmente no mercado de trabalho em, no máximo, 12 meses (21,6% imediatamente; 25,5% em até 6 meses; e 15,7% de 7 a 12 meses). Entre os cotistas, o resultado foi similar, uma vez que 68,7% dos cotistas pretos ou pardos (25,5% imediatamente; 27,5% em até 6 meses; 15,7% de 7 a 12 meses) e 54,3% dos cotistas de
qualquer etnia (14,3% imediatamente; 37,1% em até 6 meses; 2,9% de 7 a 12 meses) também esperam ingressar no mercado de trabalho em até 12 meses.
Tabela 17 - Previsão do tempo para o início da carreira profissional por modalidade de ingresso
Não cotista Cotas: pretos ou pardos
Cotas: qualquer etnia ou cor n % n % n % Já trabalha na área 35 17,2 9 17,6 9 25,7 Imediato 44 21,6 13 25,5 5 14,3 Até 6 meses 52 25,5 14 27,5 13 37,1 De 7 a 12 meses 32 15,7 8 15,7 1 2,9 De 13 a 18 meses 10 4,9 3 5,9 1 2,9 De 19 a 24 meses 5 2,5 0 0 2 5,7 Mais de 24 meses 3 1,5 1 2 1 2,9
Não sabe responder 23 11,3 3 5,9 3 8,6
Total 204 100 51 100 35 100
Fonte: Pesquisa de campo P-valor: 0,578
Assim, apesar da “desqualificação” do diploma vivida pela sociedade atualmente (BÉJI; FOURNIER, 2006) e do reconhecimento de que a passagem da universidade para o mercado de trabalho tornou-se cada vez mais longa, os formandos da UFBA estavam otimistas quanto à previsão de tempo para a sua inserção profissional, no momento da realização do presente estudo.
Nessa direção, é importante lembrar que, assim como na questão anterior, alguns cruzamentos foram feitos, e diferenças estatisticamente significativas foram observadas quando se referiram às variáveis gênero e escore do curso. Entre os formandos com expectativa imediata de inserção profissional, a maioria é dos cursos de maior escore no vestibular. Nesse grupo, a participação foi de 29% da população. Já entre aqueles formandos dos cursos de menor escore, a percentagem é de apenas 8%.
Gráfico 16 - Previsão do tempo para o início da carreira profissional por escore do curso.
Fonte: Pesquisa de campo P-valor: 0,000
Em relação à variável gênero, as diferenças quanto às expectativas de uma inserção profissional “imediata” também nos chama a atenção. Enquanto entre as mulheres 17% acreditam num ingresso imediato no mercado de trabalho, entre os homens a percentagem é de 25%. Além disso, destaca-se o fato de que enquanto 23% dos homens já estavam trabalhando na área de formação, na população de mulheres o percentual é de 13%. Tal resultado exemplifica a situação desfavorável da mulher no mercado de trabalho brasileiro.
Gráfico 17 - Previsão do tempo para o início da carreira profissional por gênero.
Fonte: Pesquisa de campo P-valor: 0,008
Em relação à terceira questão, que tratou das perspectivas de remuneração salarial, percebeu-se que a maioria dos cotistas e não cotistas espera receber no máximo 4,5 salários mínimos - SM (55,9% dos não cotistas; 68,6% dos cotistas pretos ou pardos; e 65,7% dos cotistas de qualquer etnia ou cor). Especificamente, uma grande parte dos não cotistas (28,9%), dos cotistas pretos ou pardos (41,2%) e cotistas de qualquer etnia ou cor (45,7%) preveem salários de 1,5 a 3 SM. Assim, novamente, cotistas e não cotistas apresentam expectativas similares de salário.
Tabela 18 – Perspectivas de remuneração salarial por modalidade de ingresso
Não cotista Cotas: pretos ou pardos Cotas: qualquer etnia ou cor
n % n % n % Nenhuma 12 5,9 2 3,9 0 0 Até 1,5 SM 21 10,3 5 9,8 1 2,9 De 1,5 a 3 SM 59 28,9 21 41,2 16 45,7 De 3 a 4,5 SM 34 16,7 9 17,6 6 17,1 De 4,5 a 6 SM 18 8,8 4 7,8 1 2,9 De 6 a 10 SM 26 12,7 5 9,8 7 20 De 10 a 30 SM 18 8,8 4 7,8 3 8,6 Acima de 30 SM 2 1 0 0,0 0 0
Não sabe responder 14 6,9 1 2 1 2,9
Total 204 100 51 100 35 100
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,594
De forma idêntica ao que ocorreu nas questões anteriores, não foram identificadas diferenças, estatisticamente significativas, entre cotistas e não cotistas, com base no gênero e escore do curso. Entretanto, ao eliminar-se a forma de ingresso na universidade, as diferenças apareceram como mostram os gráficos a seguir:
Gráfico 18 - Perspectivas de remuneração salarial por escore do curso.
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,000
Como sinaliza o gráfico 18, embora a maior percentagem (7%) de pessoas sem expectativas salariais esteja entre os formandos dos cursos de maior escore no vestibular, esse grupo apresenta melhores perspectivas. Entre esses indivíduos, 13% esperam receber de 10 a 30 SM. Já entre aqueles dos cursos de menor escore, apenas 2% têm a mesma expectativa salarial. Em relação aos formandos com expectativas de até 1,5 SM, observou-se uma percentagem de 5% nos cursos de maior escore e 17% nos cursos de menor escore.
Diferenças significativas também foram observadas nas análises com base no gênero. Conforme mostra o gráfico 19, as mulheres são as que apresentam as piores expectativas
salariais. Sobre isso, 14% das mulheres esperam auferir “até 1,5 SM”, enquanto entre os homens, 6% têm a mesma perspectiva. Além disso, 40% das mulheres creem que vão receber “de 1,5 a 3 SM”, enquanto na população de homens o valor é de 27%. O inverso ocorre com aqueles com aspirações salariais “de 6 a 10 SM”, pois a participação das mulheres é menos representativa (7% da população de mulheres e 18% de homens).
Gráfico 19 - Perspectivas de remuneração salarial por gênero
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,002
Assim, tais disparidades reafirmam o que foi destacado anteriormente: a situação desfavorável das mulheres no mercado de trabalho brasileiro faz com que elas construam expectativas mais negativas quanto à sua inserção profissional.
No que se refere à quarta questão, que discutiu as previsões de tempo para estabelecimento profissional, verificou-se que 56,4% dos não cotistas (25,5% “de 2 a 3 anos” e 30,9% “4 anos ou mais”), 51% dos cotistas pretos ou pardos (19,6% “de 2 a 3 anos” e 31,4% “4 anos ou mais”) e 40% dos cotistas de qualquer etnia ou cor (20% “de 2 a 3 anos” e 20% “4 anos ou mais”) acreditam que vão precisar de 2 (dois) anos ou mais para se estabelecerem profissionalmente. Assim, cotistas e não cotistas têm expectativas que variam entre o médio e o longo prazo para alcançarem uma estabilidade profissional.
Tabela 19 – Previsão de tempo para estabelecimento profissional por modalidade de ingresso
Não cotista Cotas: pretos ou pardos
Cotas: qualquer etnia ou cor n % n % n % Já é estabelecido 7 3,4 4 7,8 4 11,4 Até 1 ano 31 15,2 6 11,8 6 17,1 De 1 a 2 anos 23 11,3 9 17,6 4 11,4 De 2 a 3 anos 52 25,5 10 19,6 7 20 4 anos ou mais 63 30,9 16 31,4 7 20
Não sabe responder 28 13,7 6 11,8 7 20
Total 204 100 51 100 35 100
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,481
Diante da ausência de diferenças estatisticamente significativas entre cotistas e não cotistas, por gênero e escore dos cursos, novas análises foram realizadas, excluindo-se a variável forma de ingresso.
Ao contrário do ocorrido com as questões anteriores, os estudantes dos cursos de maior escore têm as piores expectativas quanto ao tempo necessário para alcançar a estabilidade profissional, uma vez que 40% da população acreditam que vão precisar de 4 anos ou mais para se estabelecerem no mercado de trabalho. Já entre aqueles vinculados aos cursos de menor escore, a participação foi de apenas 12%.
Gráfico 20 – Previsão de tempo para estabelecimento profissional por escore do curso
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,000
Tal resultado é interessante, pois os estudantes dos cursos de maior escore apresentaram melhores perspectivas de inserção profissional, de salário e de tempo para o ingresso no mercado de trabalho.
Em relação à questão de gênero, observa-se que, embora a maior percentagem de pessoas já estabelecidas profissionalmente (8% dos homens e 2% das mulheres) esteja entre os homens, as mulheres apresentam melhores expectativas. Entre as mulheres, 17% acreditam que vão precisar de até 1 ano para se estabelecer. Já entre os homens, o valor é de 13%. O inverso ocorre entre aqueles com expectativas de longo prazo para a estabilidade profissional. Entre as mulheres, 24% acreditam carecer de 4 anos ou mais para obter estabilidade. Entre os homens, o valor é de 35%.
Gráfico 21 – Previsão de estabelecimento na profissão por gênero
Fonte: Pesquisa de campo. P-valor: 0,021
De posse dos dados que mostraram não haver diferenças entre cotistas e não cotistas quanto às expectativas profissionais, far-se-á, a partir do próximo tópico, uma apresentação e análise dos principais resultados quanto às dificuldades previstas de inserção profissional.