na questão do meio ambiente. Criou uma Secretaria Extraordinária de Tecnologia de Meio Ambiente, a
FATMA e os respectivos conselhos. Mesmo universitários, aparentemente comprometidos com soluções
mais sofisticadas não compreenderam a multiplicidade de mecanismos. Acharam em demasia a Secretaria
e a Fundação.11
O Plano de Govemo Konder Reis, de um modo geral foi uma adequação do II Plano Nacional de Desenvolvimento para as condições estaduais, confirmando o alinhamento do Govemo de Antonio Carlos Konder Reis com as diretrizes do Regime Militar. Além e antes desta condição, afinidade com o regime militar, que inclusive o havia levado ao comando do poder estadual ao desafio de refrear a crise de legitimidade que esse vinha sofrendo.
O plano de govemo estadual, em sua “Estratégia do Desenvolvimento Econômico”, acolhe as opções básicas de uma estratégia global para realizar o desenvolvimento nacional citadas no II PND, no que se refere à problemática tecnológica e ambiental. Este propõe o “Uso de tecnologia industrial moderna, como forma de adquirir poder de competição, em grande número de setores industriais e de infra-estrutura. Além do problema de emprego, é preciso atentar para os efeitos de poluição, e em geral, de agressão ao meio ambiente.”12
Diferentemente do plano federal, o plano de Govemo Estadual faz sucintas, para não dizer nenhuma, referência ao teor da política ambiental que se implantaria. De certa forma isso pareceu o bastante para satisfazer os motivos para criação do novo aparato institucional.
No nível federal, a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente e as referências aos problemas ambientais no II PND, representavam uma forma de neutralizar as críticas internas e principalmente, externas ao modelo de desenvolvimento adotado. Internamente, enquanto reivindicações de novas demandas populares, a política ambiental era enquadrada no rol de políticas sociais lançadas pelo govemo Geisel, necessárias para assegurar uma descompressão e transição seguras ao regime
9 “(...)iaiamente alguém o viu quebrar protocolos ou abrir mão da formalidade.” A Notícia. “O político catarinense com ílêuma britânica”. Joinville, 01 nov. 19%. p. 80.
10 Alceu Natal Longo, ambientalista, entrevista em 20/06/97.
11 Diário Catarinense. Suplemento Especial. “Konder Reis”. Florianópolis, 25 mar. 1997, p. 19.
12 SANTA CATARINA. Gabinete do Vice-Goveraador. Plano de Govemo e Orçamento Plurianual de Investimentos 1976-1978.1975, p. 24.
autoritário.13
Assim, é necessário considerar o potencial de legitimidade que as questões ambiental e tecnológica poderiam produzir naquele momento político ao regime autoritário e aos seus representantes
regionais.
A politização dos problemas ambientais em nível estadual se tomava assim, mais14 uma forma de reconquistar o espaço perdido nas eleições de 1974 para a oposição e mesmo ampliar a base social das forças conservadoras estaduais, junto, principalmente, ao eleitorado de regiões urbano-industriais. Eleitoralmente, trabalhava-se com o calendário que indicava o sufragio para prefeitos em 1976 e eleições diretas para governador em 1978 (posteriormente adiadas para 1982). Essa tese parece provável se consideradas a tradição conservacionista e o incipiente, mas ativo, movimento ambiental na região do Vale do Itajaí, sobretudo em Blumenau, na época, administrada pelo MDB.
A predominância de determinantes pessoais combinados com os de legitimidade política na criação do aparato institucional do meio ambiente em Santa Catarina, parece razoável diante das condições de organização das demandas sociais por respostas a tal ordem de problemas. Embora já se pudesse reconhecer problemas ambientais objetivos no estado, esses ainda careciam de uma expressão política mais consistente para conquistarem um lugar na agenda pública antes de 1975.
Antes da posse do governador Antonio Carlos Konder Reis, alguns problemas ambientais já podiam ser identificados em decorrência de fatores naturais, e, como agravantes desses, principalmente, da intensa atividade econômica das últimas décadas.
Os tipos de problemas mais notórios associados mais diretamente ao que se viria definir como objetos da política específica do meio ambiente podem ser aqui apresentados como: a) as enchentes no Vale do Itajaí, registradas desde 1852, e mais recentemente, em 1974, no sul do estado15; b) o desmatamento das florestas do litoral e do planalto catarinense que já haviam sido, inclusive, objeto de outras políticas desde fins da década de 40, é verdade, mais preocupadas com os efeitos do esgotamento desses recursos para a economia estadual, que demarcara na década de 60 o fim do ciclo econômico da madeira no estado; c) a poluição das águas balnearias evidenciada já no inicio década de 70 com a ascensão da indústria do turismo e a quase inexistência de sistemas de captação e tratamento de esgotos
13 Ver CARVALHO. Paulo G. M. Meio Ambiente e Políticas Públicas: A atuação da FE EMA no controle da poluição industrial. Dissertação de mestrado, UNICAMP. 1987. p. 66.
14 Este objetivo se mostrou mais evidente em outras políticas com produção de retornos percebidos como mais concretos. Assim, na gestão Konder Reis as políticas setoriais desenvolvidas “priorizavam a construção de estradas, o que num processo de transição política, estrategicamente, garantiria apoio político das regiões beneficiadas com a construção de pontes, abertura e asfaltamento de estradas vicinais, e asfaltamento de rodovias estaduais, etc. Esta relação com os municípios (“bases políticas”) era importante, pois o govemo da ARENA precisava reconquistar seus espaços perdidos para o MDB e a forma de fazê-lo era através da priorização dos recursos da Secretaria de Transporte e Oteas. O lema do Govemo ara “Governar é encurtar distâncias.” SILVA, Valdir. Op. cit, p. 245.
15 A enchente ocorrida em março desse ano atingiu principalmente as bacias dos rios Tubarão e Aranmguá, com impactos catastróficos principalmente na cidade de Tubarão. Segundo relatórios oficiais, as enchentes atingiram 28 municípios, com 2.682 casas destruídas, 45.000 desabrigados e o questionado número de 192 mortos. Entre as razões dos efeitos destruidores da surpreendente “tromba d’água” foi apresentado o desmatamento predatório e ilegal das matas próximas aos rios, provocando a erosão e assoreamento dos mesmos. SANTA CATARINA. Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. Relatório: enchentes no sul de Santa Catarina. Florianópolis, 23-25 mar. 1974. VETTORETO, A. História de Tubarão: dás origens ao século XX. Tubarão: Prefeitura Municipal de Tubarão, 1992.
no estado, e principalmente, d) dos problemas ambientais resultantes da exploração do carvão mineral na bacia carbonífera no sul do estado.
De um modo geral, inexistiam no estado movimentos ambientais organizados em torno destes problemas específicos, e que confrontassem o poder público estadual. Em geral isto ocorria pelo caráter da discussão, o elevado grau de integração da sociedade ao projeto ideológico desenvolvimentista catarinense, e a não percepção de graves problemas ou ameaça de escassez de recursos naturais. No ano de 1973 é criada a primeira entidade ambientalista do estado, que durante quase toda a década de 70 desenvolveu uma relação de relativa cooperação com a administração pública municipal e estadual, inclusive na implantação da SETMA e da FATMA.
Um dos importantes marcos da politização dos problemas ambientais ao nível da sociedade civil em Santa Catarina foi a criação, em 05 de maio de 1973, na cidade de Blumenau, da Associação Catarinense de Preservação da Natureza - ACAPRENA, primeira entidade do gênero no estado. Contribuíram para este fato, primeiro, a existência de grupos de discussão conservacionistas em colégios da cidade, que prosseguiam seus estudos e atividades em um curso de História Natural fundado em 1968, atualmente designado de curso da Ciências Biológicas da FURB.
Outro fator de grande importância para sua criação foi a influência do biólogo e professor da Universidade de São Paulo, e presidente da SEMA durante os 12 anos de govemo militar, Paulo Nogueira Neto. Em visita de estudo ao estado catarinense em 1972, aconselhou e colaborou com o então estudante de biologia da FURB, Lauro Eduardo Bacca e outros interessados na fundação de uma associação na cidade, inspirada na entidade conservacionista de São Paulo dirigida por ele, a Associação de Defesa da Flora e da Fauna - ADEFLOFA (atualmente ADEMA).16
A criação e a atuação da ACAPRENA tiveram uma significativa influência no futuro da política ambiental no estado. A existência de um movimento atuante de cunho conservacionista, na cidade de Blumenau, e com raio de ação estadual, mais atuante sobretudo na Região do Vale do Itajaí, teria influenciado no processo de decisão da criação e organização da estrutura política do meio ambiente. Segundo um dos participantes desse processo, tal influência teria se dado através de: