Os conceitos de estratégia, competitividade e concorrência estão ligados à dinâmica da economia capitalista e são privilegiadas as interpretações institucionalistas (Possas, 1984;
Kupfer, 1991; Porter, 1991, 1992; Possas, 1999), conforme adiante. Os movimentos estratégicos das firmas se referem à busca de uma vantagem competitiva no espaço econômico onde se desenrola o processo de concorrência. Esses temas estão conceitualmente interligados, são indissociáveis. Como, no caso deste trabalho, a indústria de energia elétrica, reestruturada, busca emular um processo concorrencial com um produto (energia elétrica) assimilado a uma commodity , é válido analisar esses conceitos em uma visão institucionalista.
A concorrência, no enfoque institucionalista, deve ser examinada essencialmente sob uma perspectiva dinâmica; o mesmo vale para a competitividade, pois é competitivo quem consegue alcançar bons resultados na disputa de mercado e, para fazê-lo é preciso criar e manter vantagens competitivas, numa eterna luta contra os concorrentes. A busca por monopólios temporários, vantagens que permitam maior lucro, torna-se compulsória, pois quem não luta constantemente para ganhar terreno corre o risco de perdê-lo (a evolução permanente do capitalismo). A constante renovação do processo competitivo implica que as vantagens competitivas que vão sendo adquiridas tenham efeito sobre o mercado e fazem com que tudo nele se modifique.
Dos mecanismos estratégicos gerais da concorrência, alguns são mais relevantes que outros, como a redução de custos, a diferenciação, a mobilidade, a emulação (benchmarking), as alianças cooperativas (Porter, 1985). É importante enfatizar e reforçar o caráter dinâmico da concorrência - os competidores buscam permanentemente vantagens competitivas, em um monopólio transitório, que lhes permita um diferencial para apropriação de riqueza. A busca da diferenciação entre produtores é o principal mecanismo da concorrência, subordinando todos os demais - a mobilidade permite igualar o desempenho e anular vantagens competitivas, assim como as alianças estratégicas, que visam estabelecer ou anular vantagens competitivas dos concorrentes. Essa movimentação estratégica pode ser observada na IEE brasileira, conforme adiante. O processo de concorrência, arbitrado pelo ambiente seletivo (padrão de concorrência), é contínuo e nunca deixa de ocorrer; essa visão evolucionista distingue a teoria institucionalista de outros enfoques teóricos: "a busca perpetuamente renovada de vantagens competitivas, que servem de trunfos para a apropriação da maior quantidade de valor possível, é o traço fundamental desse processo" (Possas, 1999, pág. 61).
A economia neoclássica sugeria que a competição e cooperação eram atitudes opostas e alternativas em relação à produção e ao mercado. Hoje em dia, no moderno capitalismo, esta
visão está superada pela possibilidade de alianças estratégicas: entre produtores rivais, com clientes, empregados. Mas a decisão de se fazer ou não uma aliança, e com quem, é parte do processo de formulação da estratégia competitiva e está, portanto, incluída no processo de concorrência. O objetivo é o mesmo dos agentes econômicos do capitalismo, isto é, ampliar o poder econômico para prevalecer na concorrência. Inclusive a cooperação através de alianças criterios amente selecionadas pode favorecer a inovação e o desenvolvimento econômico (Teece, 1989): entre rivais, entre grupos de adversários ou entre membros de uma mesma cadeia produtiva. As formas desses arranjos cooperativos no processo concorrencial são inúmeras: cartéis, licenciamentos, fusões, subcontratações privilegiadas. Atualmente, até foi criado o termo coopetition para se referir a essa mescla de atitudes concorrenciais.
Fazer uma aliança significa eleger prioridades de quem são os amigos e quem são os adversários em determinada estratégia competitiva; a dinâmica do processo concorrencial faz com que essas prioridades mudem e que as alianças sejam refeitas/desfeitas, ocasionalmente, como o demonstram a dissolução de alianças no caso da transformação da indústria de energia elétrica brasileira em um ambiente competitivo; algumas dessas possibilidades de alianças estratégicas têm tido relativo grau de sucesso, como as associações entre grandes consumidores (VBC, CSN, CVRD) e entre concessionárias (AES, EDF, EDP); outras perderam a validade e foram desfeitas (casos AES-EDF e VBC-EDP), ao contrário do ocorrido na indústria de telecomunicações, chegando até ao caso da disputa judicial entre o Banco Opportunity e os Fundos de Pensão e a Brasil Telecom (Itália).
Escolhas Estratégicas e Competitividade
É importante lembrar aqui os conceitos sobre escolhas estratégicas e competitividade, na visão neo-schumpeteriana, que definem o novo ambiente concorrencial desejado para a indústria de energia elétrica (IEE). Port er (1992) conceitua estratégia competitiva como a busca de uma posição competitiva favorável em uma indústria (setor), a arena fundamental onde ocorre a concorrência.
Para avaliar o novo posicionamento estratégico das concessionárias e outros agentes no novo ambiente institucional do setor de energia elétrica, que busca emular um mercado concorrencial atribuindo à energia elétrica as mesmas características de uma commodity , separando o transporte do produto transportado, recorre-se às noções teóricas de concorrência em uma economia capitalista, conforme explicitadas por Nelson & Winter (1982), Possas
(1984), Michael Porter (1985), L. Haguenauer (1989), D. Kupfer (1991), S. Possas (1999), defensores da escola evolucionista; é necessário conceituar os principais fatores que balizam o processo concorrencial em outros mercados. Um deles é o conceito de competitividade, atributo que deveria ser buscado pelos agentes, de modo a obter melhor posicionamento estratégico no mercado, uma vantagem competitiva. O conceito de competitividade não é consensual, sendo apreendido de várias formas por diferentes autores (Haguenauer, 1989), mas os mais comuns referem-se aos conceitos de desempenho e eficiência:
• conceito desempenho associa competitividade aos resultados obtidos no mercado, quantificando os efeitos na participação no mercado do produto (market-share). Se o produto ou serviço está tendo boa aceitação no mercado, ele teria competitividade. É um conceito amplo de competitividade, quase intuitivo, com a vantagem da facilidade de construir indicadores; trata-se de um conceito ex-post, pois sua avaliação é feita à posteriori, baseado nos resultados obtidos.
• conceito eficiência define competitividade como uma característica estrutural, inerente ao processo de produção (relação insumo-produto). É um conceito potencial, ex-ante, geralmente restrito às condições de produção, envolvendo preço, qualidade, tecnologia, produtividade, entre outros fatores.
Na primeira visão, a competitividade é definida pelo mercado, que sanciona ou não as ações produtivas, comerciais e/ou de marketing que as empresas tenham realizado; na segunda visão, é o produtor que define sua competitividade, ao escolher as técnicas que utiliza, dentro das restrições impostas pelas suas capacitações técnicas, financeira, gerencial e comercial. Existe uma dificuldade teórica entre as duas perspectivas sobre a competitividade, pois não é possível estabelecer relações de causalidade no conceito ex-post e a dimensão tempo não está incorporada no conceito ex-ante; ou seja, os conceitos de desempenho e de eficiência são insuficientes para discutir a competitividade, já que ambos se restringem à avaliação, em pontos distintos no continuum do tempo, dos resultados de estratégias competitivas adotadas pelas empresas.
As diferenças conceituais decorrem da existência simultânea de uma teoria da firma e de uma teoria das estruturas de mercado. Segundo Possas (1984), Kupfer (1991) e Possas (1999), o elemento unificador das duas correntes teóricas seria a noção de concorrência, o processo de enfrentamento de várias firmas em um espaço econômico (a indústria ou o mercado), mediado pelas estruturas de mercado, que distinguem as especificidades dos ramos de atividade no
processo competitivo. O padrão de concorrência seria um vetor contendo uma ou várias formas de concorrência que se mostrariam dominantes nesse mercado (v.g. preços, tecnologia, qualidade, distribuição, marketing.).
Em outras palavras, as empresas buscariam adotar, em cada momento, estratégias de conduta voltadas para capacitá -las a concorrer por preço, esforço de vendas, diferenciação de produtos. compatíveis com o padrão de concorrência da indústria. A firma seria mais ou menos competitiva conforme sua estratégia fosse aderente a esse padrão de concorrência vigente, que é mutável no tempo, de acordo com circunstâncias outras, como alterações institucionais, fatores exógenos, ação de concorrentes poderosos. Essa variabilidade no ambiente definidor da competitividade é que confere a dimensão de incerteza na avaliação (análise) econômica. É o padrão de concorrência a variável determinante e a competitividade a variável determinada..
O reconhecimento da importância dos chamados "fatores sistêmicos" da competitividade é algo recente e tende a deslocar a ênfase das empresas e das indústrias, foco mais natural na análise da competitividade, para as condições do ambiente competitivo, do sistema institucional e das infra-estruturas que geram "externalidades" para as empresas. Para uma melhor fundamentação da pertinência do enfoque evolucionista (neo-schumpeteriano) para tratar desse tema e para a análise das relações entre concorrência e meio ambiente, incluindo mercados, que é o seu locus, e entre concorrência e estratégia da empresa capitalista, que é sua unidade elementar, veja-se Porter (1990) e Possas (1999).
Nessa perspectiva, concorrência é o processo de criação constante, ainda que descontínuo (via inovações tecnológicas ou organizacionais), de assimetrias competitivas entre agentes. De certo modo, a norma da concorrência é a ausência de normas. Daí a dificuldade de análise teórica nesse enfoque que aparenta ser a-teórico (Nelson, 1998, Hodgson, 1999). Essa característica permite uma analogia com os processos de "poder" e da "guerra", tão citados nos textos de administração e economia e nos quais também não há regras.
O poder como ponto de partida na análise da vantagem competitiva não tem sido adequadamente analisado, pelas suas conotações valorativas e ideológicas. O poder permite o controle sobre elementos fundamentais de um processo produtivo baseado em extrema divisão de trabalho. Esta visão não nega a relevância da escassez como elemento importante para a
apropriação de riqueza, mas propõe que ela pode ser construída por meio de processo inovativo, do aprendizado e da obtenção de outros ativos não imitáveis (reprodutíveis) para produção de bens e serviços. Se esse poder não for legítimo, os organismos de poder legítimo da sociedade devem criar regulamentos, também legítimos, que devem considerar, nas suas regras, uma das maneiras fundamentais pelas quais se cria poder econômico: a concorrência.
Concorrência
Uma das grandes rupturas com a tradição, como no caso da indústria de energia elétrica, é a introdução de concorrência em um campo que, normalmente, era interpr etado como um monopólio natural. A concorrência, na visão evolucionista, não é entendida como um conjunto de características morfológicas de um mercado, mas como um processo seletivo em qualquer economia mercantil. Em razão desse processo, as firmas elabor am estratégias para sobreviver e se expandir. A concorrência consiste, fundamentalmente, na busca de vantagens competitivas que servem de característica distintiva superior para a apropriação de maior quantidade de valor possível; essa busca é constantemente renovada, pois outros competidores anulam periodicamente as vantagens obtidas anteriormente. A busca do novo é o que Schumpeter chamou de inovação - novos produtos, novas formas de produção e organização, novos espaços de valorização do capital, no conceito marxista. Essa inovação nem sempre implica uma ruptura radical com as formas anteriores de produzir (a destruição criativa); a inovação seria a tentativa de criação de um espaço para valorizar o capital, espaço que necessita permanecer como monopólio da firma inovadora durante algum tempo para garantir ganhos extraordinários. Isso pode se dar pela criação de novo produto, processo, mercado, forma de organização etc., sem mencionar as transformações não-econômicas que provoca (sociais e políticas). Ou seja, sempre há um elemento de monopólio e de poder na apropriação de riqueza.
Os conceitos subjacentes às reestruturações empreendidas no setor elétrico de vários países são que a energia é uma commodity (produto comum a vários processos e regiões, com o mesmo valor de uso), podendo, portanto, ser substituído rapidamente por produtos sucedâneos (outros energéticos) e com possibilidade de transporte e importação, isto é, separando-se o transporte do produto transportado - separando-se o produto dos serviços . Dentro desses pressupostos, buscou-se introduzir a concorrência na IEE, não só a brasileira, como de diversos países emergentes (Chile Argentina, Colômbia, Peru) e desenvolvidos (EUA,
Inglaterra, Noruega e Suécia). Os resultados têm sido diversos, de acordo com a tradição cultural do país e as práticas históricas do setor (conforme a teoria evolucionista).
As transformações institucionais na IEE brasileira, basicamente desregulamentando o setor, desverticalizando e privatizando as empresas, e permitindo a competição nos segmentos de geração e comercialização, visaram declaradamente aumentar a eficiência sistêmica e permitir a captação de recursos financeiros para a expansão do setor, já que a solução estatal estava esgotada, pela crise financeira da dívid a, externa e interna. Esse era o consenso da época (década de 1990), considerando a situação da dívida externa do Brasil, a pressão do FMI, os exemplos divulgados de liberalização na Inglaterra de Margareth Thatcher, do Chile, o colapso soviético e a formalização do Consenso de Washington.