Desde que a tradução se revelou como atividade inter e intralinguística que surgiu uma pletora de situações problemáticas no que toca à transparência da transposição de um texto que resulta da descodificação da mensagem de um TP. Existe a possibilidade de que estas situações literárias possam resultar de vários fatores: as combinatórias de palavras poderiam ter originado uma construção ambígua, poderiam estar presentes palavras que não davam conta de uma realidade na LC, as concordâncias verbais poderiam estar empregues incorretamente, entre um vasto leque de muitos outros exemplos. Viu-se, deste modo, a necessidade de evitar que estas situações interrompessem a tarefa tradutória. Para tal, foram estabelecidas certas regras, as quais serão aplicadas de acordo com a natureza da situação em questão. Foram assim estabelecidas as estratégias de tradução.
Estas estratégias são aprendidas por tradutores – ou alunos de tradução – e são implementadas no seu trabalho, sendo passadas por gerações. No entanto, estas estratégias, embora tenham sido equiparadas a regras no parágrafo anterior, não são «fixas». O seu uso não é tão unilateral ao ponto
de a estratégia X só poder ser aplicável na situação Y. As estratégias são maleáveis, adaptáveis, variam no tempo e no espaço, evoluem, variam em função de um problema especifico de tradução, não havendo uma solução unicamente aplicável a um problema específico, já que um mesmo problema pode ter múltiplas soluções.
Etimologicamente, estratégia vem do grego antigo stratègós, de stratos (exército) e ago (liderança ou comando), tendo significado inicialmente «a arte do general». Porém, vários académicos em múltiplas áreas do conhecimento já determinaram a sua própria definição para o que constitui uma estratégia, dentro do contexto da sua área de especialidade. Quer isto dizer que o que pode ser considerado uma estratégia segundo uma perspetiva militar, não corresponde à mesma definição de estratégia num contexto empresarial. No entanto, dentro da diversidade de definições que existem para o termo, no caso presente, devemos olhar para uma definição que se enquadre dentro de um contexto linguístico e de tradução, como atividade comunicativa. Sendo a tradução uma atividade comunicativa, seria lógico investigar estratégias de comunicação, pois estas visam a resolução de problemas que surgem durante a situação comunicativa. Isto é corroborado pelo facto de os tradutores serem especialistas da linguagem que trabalham dentro de uma área que revolve em torno da resolução dos mais variados problemas que resultam do ato comunicativo, problemas esses que devem ser superados para se atingir uma tradução ideal.
Com estes elementos presentes, Andrew Chesterman, no capítulo 4 da sua obra, Memes of
Translation, tem o seguinte a acrescentar, relativamente à definição do termo «estratégia»:
«A strategy is thus a kind of process, a way of doing something. To speak of translation strategies is thus to look at translation as an action, to place it in the wider context of action theory.»
(Chesterman, 1997: 88) Sendo assim, o processo tradutório pode ser considerado como um processo hierárquico em que a prioridade atribuída à tradução de um texto, como um todo, e à resolução de problemas de tradução, através de estratégias de tradução, ocuparão diferentes posições na cadeia hierárquica. É possível concluir, então, que, dentro do contexto linguístico-comunicativo, as estratégias de resolução podem ser consideradas como ferramentas conceptuais, úteis explicitamente para a manipulação textual. Como ferramentas, estas são observáveis a partir da resolução adotada para uma tradução, por outras palavras, à medida que o tradutor produz o TC, os tipos de operações por ele adotadas são reveladas, e, de igual modo, são reveladas as relações estabelecidas com os fatores contextua is que o tradutor determinou.
De uma forma um tanto simples, poder-se-ia afirmar que o propósito de qualquer estratégia é oferecer uma solução a um problema, daí se estabelece que o problema é a base, ou o ponto de partida, de qualquer estratégia adotada. Porém, Lorscher, citado por Chesterman, define as
estratégias como:
«(…) a potentially conscious procedure for the resolution of a problem which an individual is faced with when translating a text segment from one language to another.»
(Chesterman, 1997: 91) Através da formação recebida pelos tradutores e a propagação das estratégias entre tradutores, por norma, as estratégias são apresentadas como tendo uma aplicação ampla, embora a sua aplicação possa não ser estritamente correta ou sequer fiável, aspeto que já foi referido. Portanto, num contexto referente aos estudos de tradução, as estratégias são elementos de aprendizagem de fácil acesso. Do mesmo modo, as mesmas podem ser designadas como conhecimento descritivo de fácil acesso, cuja função é proporcionar um tipo específico de procedimento cognitivo.
Relativamente à opinião de Lorscher, Chesterman responde da seguinte forma:
«At its simplest, such a taxonomy might consist of a single strategy only: change something. This would well illustrate the domain in which strategies operate: the space between source and target texts. “Change something” could be informally glossed as follows: if you are not satisfied with the target version that comes immediately to mind – because it seems ungrammatical, or semantically odd, or pragmatically weak, or whatever – then change something in it. The “being not satisfied” is thus evidence of the existence of a translation problem.»
(Chesterman, 1997: 92) Esta perspetiva simples e generalista apresenta uma nova perspetiva relativamente às estratégias, podendo estas serem consideradas simplesmente como um tipo de mudança. Contudo, não é um tipo de mudança que ocorre a um nível interlinguístico ou intertextual, visto que este fenómeno ocorre durante o processo tradutório, independentemente da intenção do tradutor. O que esta perspetiva permite concluir é que as mudanças implementadas a um texto requerem uma escolha entre diferentes alternativas, entre outras soluções viáveis.
A partir deste aspeto surge a necessidade de se formular uma distinção entre os diferentes tipos de estratégias de tradução. Chesterman sugere uma distinção entre estratégias de compreensão e estratégias de produção. Segundo o próprio, as estratégias de compreensão dizem respeito a fatores que advêm da análise do TP e da natureza da incumbência (commission) emitida ao tradutor, enquanto as estratégias de produção resultam das várias estratégias de compreensão em efeito, as quais estão diretamente relacionadas com o material linguístico manipulado pelo tradutor para a produção textual ideal de um TC.
texto envolve a escolha de uma solução entre várias. Para tal, e consequentemente, Chesterman reformula esta distinção entre estratégias de tradução, estabelecendo, então, um modelo tripartido. Por meio deste modelo é possível distinguir entre estratégias sintáticas/ gramaticais, estratégias semânticas e estratégias pragmáticas, uma vez que a classificação destas estratégias visa apresentar uma possível estruturação para as propostas delineadas por outros académicos, até à altura.
Tendo em conta os aspetos defendidos por Chesterman, relativamente às estratégias e à sua classificação, passar-se-á à exposição e análise dos problemas de tradução presentes na obra em estudo e à respetiva justificação das estratégias de tradução adotadas. Note-se que não se pretende desenvolver casos particulares de tradução que deem conta de cada tipo de estratégia enunciada por Chesterman, nem se pretende explicar o uso das estratégias de tradução como ferramentas linguísticas. O objetivo do próximo ponto de discussão passa pelo mero relato dos processos seguidos e a lógica seguida no procedimento da tradução, para a determinação de uma solução de produção textual ideal face aos problemas de tradução existentes na obra em estudo.