CAPÍTULO II – STRESSE NO ESTÁGIO PEDAGÓGICO
3. CONCEITO DE COPING
3.1. ESTRATÉGIAS DE COPING
Ainda que se afirme que é difícil superar situações indutoras de stresse, mais do que identificar o que pode ser gerador de stresse, importa olhar este problema pelo lado positivo e descobrir estratégias que permitam ultrapassá-lo. Este aspecto levou ao desenvolvimento de conceitos e abordagens, que não só procuram introduzir perspectivas mais optimistas do problema, como também proporcionar uma porta aberta para o encontro de processos de intervenção.
Daí que se torne pertinente falarmos de seguida das estratégias de coping que o futuro professor poderá accionar para poder lidar com situações de stresse, bem como toda a rede social que poderá utilizar, fazendo face aos desafios que lhes surgem em situação de estágio.
Pelos possíveis efeitos e prejuízos causados pelo stresse, Francisco et al. (2006a) reconhecem a “urgência de descobrir estratégias de forma a levar os alunos estagiários a aprender a lidar com o stresse do dia-a-dia (estágio enquanto situação difícil), aprendendo a treinar novas competências pessoais”.
Das pesquisas obtidas duma investigação efectuada por Head e colaboradores (1996), foram várias as formas identificadas entre os alunos estagiários, utilizadas como estratégias para lidar com o stresse. Entre elas, destacam-se o fumar e beber mais do que o habitual, comer em demasia e fazer exercício físico. Em alguns casos, o recurso a anti depressivos foi também identificada como uma das estratégias utilizadas. Revelou o estudo que alguns
alunos diziam recorrer à oração e às idas à igreja, e uma pequena minoria recorria à psicoterapia e ao aconselhamento. A partilha dos problemas com os colegas foi uma das estratégias que se revelou mais eficaz e uma das mais procuradas.
No estudo levado a cabo por Galvão (1996) identifica-se como estratégia de coping, o recurso dos alunos estagiários ao grupo de amigos como importante factor de ajuda e equilíbrio.
Também Stone, Helder & Scheneider (1988) e Pereira (1992; 1997) acrescentam que as estratégias de coping podem ser classificadas da seguinte forma: como resolução de problemas, redefinição da situação, evitamento, suporte social e redução da tensão pela procura de informação ou religião. As estratégias pessoais de coping são resultado da socialização e da história de aprendizagem da pessoa.
A indagação sobre o que se procura saber e o que está disponível no momento de avaliação, leva Mota Cardoso a concluir que “as estratégias de coping representam a nossa acção no contexto de uma transacção de stress e destinam-se a restabelecer o nosso bem- estar (1999:41) ”.
Para Caíres (2001:110-111) a solução conjunta dos problemas discutidos em grupo são “igualmente apontadas como um bom suporte social” ajudando-o a desdramatizar as situações difíceis e a encontrar as soluções mais adequadas. Salienta ainda que “entre os alunos que se limitavam à realização de actividades de rotina, eram maiores os níveis de depressão, revelando-se esta passividade como uma estratégia de coping menos adequada.” (pp. 113).
Na opinião de vários autores (Olson & Osborne, 1991; Caíres, 2001) a existência desta rede social construída na universidade ou ao nível do estágio para além de constituir uma oportunidade de crescimento conjunto, é muitas vezes um importante ponto de referência. Permite-lhe não só partilhar as suas experiências vividas, comparar o grau de eficácia das suas respostas às exigências que lhe são colocadas, bem como os progressos que vão efectuando.
Dentro deste suporte social, a quem o futuro professor poderá recorrer é aos supervisores, uma vez que estes poderão funcionar como um importante apoio emocional e factor de redução de tensões (Oliveira, 1992; Alarcão, 1996; Francisco, 2001).
De todas as investigações realizadas no sentido de construir um instrumento de avaliação dos processos de coping e para medi-los em variadas situações contextuais, Lazarus, (1993, cit. Mendes, 2002:49-50) sistematiza assim as principais conclusões:
• O conceito de coping é complexo. Tem-se levantado a questão se existem estratégias de coping específicas para determinadas situações ou se as mesmas são escolhidas por processos de “tentativa e erro”. Lazarus responde que possivelmente existem ambas;
• O coping depende da avaliação acerca do que deve ser feito para modificar a situação. Se a avaliação é de que alguma coisa pode ser feita, então predominam as estratégias centradas no problema; se pelo contrário, a avaliação diz que nada pode ser feito, emergem as estratégias centradas nas emoções;
• Quando há uma constância no tipo de transacção geradora de stresse, como por exemplo nas situações de trabalho, saúde ou nas relações familiares, não se evidenciaram, quanto ao sexo, diferenças nos padrões de estratégias de coping utilizadas;
• Algumas estratégias de coping são mais estáveis ao longo de diversas transacções, enquanto outras parecem estar mais relacionadas com determinado tipo de circunstâncias. Assim, o “pensar positivamente” acerca das situações parece ser relativamente estável e dependente em larga medida da personalidade, enquanto que o “procurar apoio social” é instável e depende consideravelmente do contexto social;
• As estratégias de coping mudam de acordo com o cenário de uma transacção de stresse complexa para outro;
• O coping actua como um poderoso mediador das respostas emocionais; as respostas positivas estão associadas a algumas estratégias de coping e as negativas a outras; • A utilidade de qualquer padrão de coping varia com o tipo de transacção de stresse
que se esteja a verificar, com o tipo da personalidade do indivíduo envolvido e com o resultado que se pretende estudar. O que é funcionante num contexto pode ser contraproducente noutro.
Num estudo realizado por Francisco e colaboradores (2003) com alunos estagiários portugueses, foram encontrados dois tipos de estratégias de coping utilizadas pelos
estudantes para lidarem com as situações vividas no estágio: “o coping centrado no indivíduo e o coping centrado no outro”. É de referir que no primeiro, as estratégias mais utilizadas consistiam em “desviar o pensamento para coisas positivas, procurar ver o lado positivo da questão, evitar estar sozinho”. No coping centrado no outro, os alunos estagiários utilizavam como estratégias “as saídas nocturnas, o sair para se distraírem, ou, saem com os amigos para conversar ou desabafar”.
Mesmo perante um cenário pouco animador, há quem vença o desafio da mudança, experimentando as suas relações de uma forma positiva. Partilhamos da opinião de Picado (2005:67) ao afirmar que “para se alcançar uma boa relação pedagógica, significativa, vital e humana, há que construí-la diariamente, descobrindo o outro, redescobrindo-se no outro, dando de si e recebendo também”.
Como salienta Pereira (2006), as estratégias de coping compreendem os mecanismos que o indivíduo utiliza, permitindo-lhe lidar de forma adequada, ou não, com as situações indutoras de stresse.