2. PERCURSOS E CONTEXTOS DA PESSOA EM SOFRIMENTO
2.2. ESTRATÉGIAS DE COPING
A palavra coping, deriva do idioma inglês, do verbo “to cope” (with, com), que significa “lidar” com um problema; “enfrentar” o perigo; “fazer frente” a, (cope in Dicionário infopédia de Inglês-Português [internet], 2003 - 2018).
Richard Lazarus, foi talvez o investigador que mais contributos deu para o estudo do coping, (Martz & Livneh, 2007) o que faz dele, autor de referência nesta matéria. A sua definição de coping prende-se com “esforços cognitivos e comportamentais em constante mudança, para gerir exigências específicas internas e/ou externas, que são avaliadas como sobrecarga ou que excedem os recursos da pessoa”, (Lazarus & Folkman, 1984, p. 141).
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A Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem define coping como a “atitude de gerir o stress e ter uma sensação de controlo e de maior conforto psicológico”, (Ordem dos enfermeiros, 2011).
O modelo transacional de stress e coping (“Transactional Model of Stress and Coping”) de Lazarus e Folkman (1984), baseia-se no pressuposto no qual o stress é resultado da interação pessoa/ situação, sendo o agente stressor, definido como o julgamento subjetivo de uma situação percebida como ameaçadora, nociva ou que excede os recursos da pessoa. Townsend (2011) explica que há uma variedade de elementos que influenciam o modo como um indivíduo percebe e responde a um evento stressante, os fatores predisponentes. Esses fatores influenciam a qualidade da resposta, que pode ser adaptativa ou mal-adaptativa (Lazarus & Folkman, 1984;Townsend, 2011; Leventhal, Philips, & Burns, 2016).
Lazarus & Folkman (1984), classificam as estratégias de coping como: centradas no problema ou centradas nas emoções. Defendem que, se o agente stressor for modificável, é mais adaptativo a utilização de estratégias de coping focadas no problema; se o agente stressor não for modificável, é mais adaptativo um coping focado nas emoções,
O modelo teórico de Leventhal, tem muitas semelhanças ao descrito anteriormente, contudo, distingue-se pelo interesse em estudar as representações e processamento cognitivo de doença ou crenças “leigas” associadas à doença. Surge assim o modelo teórico de senso comum de autorregulação, (Leventhal H, 1997).
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Leventhal e colaboradores descrevem cinco componentes dessas representações da doença: (1) identidade – rótulo ou nome dado à condição e os sintomas que parecem acompanhá-la; (2) causa – as ideias sobre a causa percebida da condição, representações baseadas em informações recolhidas da experiência pessoal, das opiniões e discursos de outras pessoas, profissionais de saúde, meios de comunicação social; (3) linha do tempo (“time-line”) - a crença preditiva sobre quanto tempo a condição pode durar, são crenças reavaliadas à medida que o tempo avança; (4) consequências - crenças individuais sobre as consequências da condição vivida, qual será o seu impacto físico e social, estas só evoluem para crenças mais realistas ao longo do tempo; (5) curabilidade/ controlabilidade - as crenças sobre se a condição pode ser curada ou controlada e o grau em que o indivíduo desempenha um papel nesse sentido, (Leventhal H, 1997).
Isto é, o indivíduo, quando confrontado com uma doença, cria uma representação baseada na sua experiência da doença e nas informações que recebe sobre ela, incluindo fatores como: causa, consequências, tempo e controlabilidade.
O modelo teórico de senso comum de autorregulação, é um modelo que está estruturado para descrever transições de comportamento, da não adesão até à adesão terapêutica, (Hale, Treharne, & Kitas, 2007). É uma ferramenta que, na área da saúde, permite explicar os processos pelos quais os pacientes tomam consciência de uma ameaça à saúde, respondem afetivamente à ameaça, formulam perceções de ameaça e potenciais ações de tratamento, criar planos para conduzir a ameaça e integrar feedback contínuo sobre a
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eficácia do plano de ação e sobre a progressão de ameaças, (Leventhal, Philips, & Burns, 2016).
Considerando que as representações da doença formam cognições que são potencialmente alteráveis, com a aplicação do modelo de representações da doença, podem adaptar-se intervenções cognitivo-comportamentais para influenciar positivamente os resultados, por exemplo, de uma doença, (Hale, Treharne, & Kitas, 2007).
Townsend (2011), dá alguns exemplos de estratégias de coping adaptativas: o desenvolvimento da “sensibilização” - reconhecimento dos fatores desencadeantes e sentimentos associados à resposta stressante; “relaxamento” - exercício físico, exercícios respiratórios, técnicas de relaxamento; “meditação”; “comunicação interpessoal”, com uma pessoa que se preocupa; “resolução do problema” - avaliação objetiva do problema e resolução; “animais de estimação”; “música”.
Num estudo qualitativo com doentes hemodialisados Jordãos, verificou-se que os mecanismos de coping mais utilizados foram a fé religiosa e o apoio prestado por familiares e amigos, (Nazly, Ahmad, Musil, & Nabolsi, 2013). A família é identificada, em vários estudos, como um importante instrumento de coping em situações de doença. De acordo com o relato de doentes críticos, ser admitido numa unidade de cuidados intensivos significa estar entre vida e morte, sendo uma experiência de sofrimento assustador e exasperante, (Castro & Botelho, 2017). A família desempenha um papel fundamental na medida em que representa o porto de abrigo, a resposta à necessidade emergente de segurança. Esta segurança também está relacionada a
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momentos que proporcionam a oportunidade de falar sobre a doença, tratamento, mudanças na família e adaptações, resultando num melhor confronto com a doença, (Teixeira, et al., 2016). As famílias disfuncionais são geralmente associadas a desnutrição, diabetes, pneumonia e pressão arterial elevada, (Carrazco-Peña, Tene, & Elizalde, 2015).
Vários autores também falam de coping religioso e espiritual, como importante instrumento para o alívio do sofrimento, pois permite a utilização da fé de cada um para lidar com o stress, mostrando-se associado a melhores índices de qualidade de vida e saúde física e mental, (Panzini & Bandeira, 2005; Koening, 2007).
O coping espiritual e religioso reporta-se ao modo como as pessoas utilizam a fé, as crenças, a relação com a transcendência, a ligação aos outros, para se adaptarem/gerirem situações de crise, (Wright L. M., 2005); é o “uso de crenças ou práticas religiosas para reduzir o stress emocional causado por uma perda ou mudança”, (Koening, 2007). O coping religioso tem objetivos como a procura de significado e transformação de vida, sentimento de controlo, conforto espiritual, intimidade com Deus e com os outros.
Carqueja (2009) revela que no seu estudo, o grupo dos doentes com maior prática religiosa foi o que apresentou o nível mais elevado de experiências positivas no sofrimento. Um outro estudo com doentes hemodialisados revelou que o principal mecanismo de coping utilizado pela amostra foi a fé em Deus, afirmando que é assim que obtêm a força para lidar com os stressores associados à doença e seus tratamentos, (Nazly, Ahmad, Musil, & Nabolsi, 2013).
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Em suma, a doença crónica é um evento adverso que irrompe a vida de qualquer pessoa abalando as suas estruturas internas e externas, implicando mudanças tanto para a pessoa que está doente como para a familia e meio em que está inserida, (McIntyre T. M., 1995; Meleis A. I., Sawyer, Im, Hilfinger Messias, & Schumacher, 2000; Barbosa, 2010; Wright L. , 2017). São processos complexos que podem causar um sofrimento profundo (Wright L. , 2017), resultante do desequilibrio persistente ou ruptura da integridade individual, (Townsend, 2011). As estratégias de coping surgem no sentido de tentativa de adaptação, contudo esta nem sempre acontece, (Lazarus & Folkman, 1984; Townsend, 2011; Leventhal, Philips, & Burns, 2016). “É essencial que estejamos preparados para responder com sensibilidade espiritual aos clientes e membros da família, que estão a passar pela experiência de doenças sérias, morte, adição, abuso, perda, guerra, catástrofes terroristas, e aprender que tipo de conversações terapêuticas e práticas espirituais, podem assistir melhor ou inibir a esperança e a cura”, (Wright L. , 2017, pp. 2-3). A espiritualidade é uma potencialidade que tem sido apontada como importante mecanismo de coping e por esse motivo passaremos a analizá-la no próximo sub-capítulo.