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Capítulo 4 – Economia em movimento

4.2 Caça, pesca e coleta

4.2.1 Caça

4.2.1.1 Estratégias e instrumentos

A forma de caça mais comum entre os Yanomae é denominada rama huu. Trata-se da caça cotidiana individual ou realizada em pequenos grupos nos arredores da casa-coletiva (em média 5 km de raio). Normalmente, os homens são acompanhados de seus cães e despendem em média seis horas na atividade (SAFFIRIO, 1982). O caçador sai ao amanhecer (próximo às 6:00h) por uma das trilhas que irradia da aldeia, na busca de rastros ou sinais sonoros que indicam a presença de alguma presa. As trilhas costumam dar acesso a zonas de concentração de frutíferas, apreciadas por grandes animais, igarapés, lagos e barreiros, onde a chance de encontrá-los é maior.

A baixa densidade populacional, associada à grande dispersão e aos hábitos noturnos da maioria das espécies torna a caça uma atividade altamente imprevisível.

Entretanto, a ciência sobre as relações ecológicas entre as caças e as espécies vegetais, aliado ao conhecimento sobre a fenologia e a distribuição das plantas, permite aos caçadores yanomami preverem com grande acurácia os animais com maior probabilidade de serem encontrados em determinados lugares, em diferentes estações do ano (ALBERT

& MILLIKEN, 2009).

138 Outra estratégia importante é o uso de acampamentos (naa nahi pë), nos quais, de acordo com Good (1989), a taxa de sucesso nas caçadas sobe de 42% (no Rama huu) para até 70%. Essa segunda forma de caça é denominada Hwenimou, caça conjunta que acontece em residências temporárias, localizadas distantes das casas-coletivas, e que, na maioria dos casos, está associada às festas reahu. É realizada por um grupo de homens adultos e jovens, de tamanho variável, que pode permanecer por até 15 dias caçando, dependendo de o rendimento da caçada atingir a quantidade desejada para a festa.

Tradicionalmente, os acampamentos de Hwenimou estão interligados por trilhas terrestres, distantes cerca de 10 km, em linha reta, das aldeias de referência. No Médio Catrimani, afora as trilhas, muitos acampamentos são acessados também pelo rio, diferentemente do modelo da maioria das aldeias nas terras altas, distantes de grandes corpos d’água (ALBERT & TOURNEAU, 2007).

Os animais preferidos, segundo os critérios dos meus interlocutores são o jabuti, o mutum, a queixada, a anta, o macaco-aranha, o caititu e o tatu110. O universo de animais caçados no Médio Catrimani, contudo, é muito mais amplo. Ao todo, contabilizei 81 espécies consumidas111, sendo 36 mamíferos, 11 répteis e 34 aves (ver ANEXO C). Além da alimentação, algumas partes de animais caçados, como ossos e penas, são utilizadas para a fabricação de objetos e ornamentação corporal.

Nota-se que, comparado a outros grupos indígenas, como os Parakanã (FAUSTO, 2001), por exemplo, os Yanomami, levando em conta o universo de animais consumidos, podem ser considerados caçadores generalistas, o que imprime menos pressão sobre a população cinegética como um todo.

O principal instrumento utilizado pelos caçadores é o arco e flecha. Os arcos (Raha sihi a) são feitos da madeira de algumas palmeiras, especialmente a paxiuba, e de cordas, que podem ser trançadas com a fibra de Yama asi (Ananas sp.) ou feitas de nylon.

As flechas (Xaraka pë) são confeccionadas dos pedúnculos das inflorescências da cana-de-flecha (Gynerium sagittatum), tendo na sua base penas de mutum, fixas com linha de costura e breu, e três tipos de ponta, que variam conforme a presa. A ponta larga (Lahaka), de taboca ou ferro (de facas ou facões antigos), serve para matar caças grandes, como anta e porco. A ponta fina de pupunha (raxasi) é utilizada especialmente para matar

110 Único animal que é caçado utilizando o fogo. A fumaça é colocada nos buracos, obrigando-o a sair e se colocar vulnerável à captura.

111 A partir de entrevistas coletivas.

139 macacos e, por isso, recebe um veneno feito à base de yãkoana (Virola elongata)112. A terceira ponta (atahi) é feita de osso de macaco e é usada para matar aves, peixes e animais de pequeno porte.

As pontas de flecha podem ser rapidamente trocadas na haste das flechas em função das presas, pois as suas amarrações são fáceis de desatar. Os caçadores, quando partem em uma trilha, sempre levam consigo uma aljava de bambu (wana a), amarrada ao pescoço, onde guardam os três tipos de pontas de flecha, multiplicando assim suas opções.

Em menor número são utilizadas também espingardas. As primeiras armas de fogo foram introduzidas na região por gateiros113, no período que antecedeu a instalação da Missão na década de 1960. Em seguida, a FUNAI e os próprios missionários foram fontes importantes de novas espingardas e munição para a população local.

Para diversos povos indígenas da Amazônia, a introdução das armas de fogo modificou completamente a experiência da caça. Em comparação com a tecnologia tradicional, as armas de fogo resultam em um aumento de até dez vezes no sucesso da caçada, o que significa uma enorme economia de tempo e esforço para os caçadores. Por outro lado, elas tornaram a caça uma atividade cara, e em alguns casos, levaram à extinção de espécies sensíveis nas imediações de assentamentos humanos. Alguns autores consideram, portanto, que a difusão das armas de fogo produziu mudanças análogas aos efeitos da introdução de ferramentais de aço na agricultura indígena (SHEPARD, LEVI, et al., 2012).

Nas comunidades do Catrimani, porém, as armas de fogo tiveram uma difusão muito menor do que a observada em outros povos. Saffirio (1982) registra que, no começo da década de 1970, cerca de 20% dos caçadores yanomami da região possuíam uma espingarda. Na década seguinte esse número caiu para 9% dos caçadores e hoje deve ser ainda menor. Haja vista que o número de caçadores cresceu e a quantidade de espingardas não aumentou na mesma proporção.

São vários os fatores que ajudam a explicar a não substituição do arco e flecha pelas espingardas na região. Há naturalmente o problema dos custos de obtenção e manutenção de uma arma. Uma espingarda usada, no mercado regional, custa algo como R$ 1.300,00 e R$ 1.500,00, e uma caixa de cartucho sai ao preço de R$ 250,00. Elas são

112 A substância, quando entra na corrente sanguínea do animal, relaxa os seus músculos, o que faz com que ele solte os galhos onde está agarrado e caia do alto das árvores para ser capturado.

113 Caçadores de pele.

140 adquiridas de pescadores ou agricultores em vilas e pequenas cidades de Roraima. Em Boa Vista, por causa das exigências de cadastro, os Yanomae têm mais dificuldade de comprá-las novas.

Outra característica desfavorável das espingardas é o barulho do disparo. Os Yanomae dizem que, muitas vezes, elas mais atrapalham do que ajudam numa caçada, pois o tiro espanta outras presas potenciais. Ademais, como anota Albert, a experiência auditiva é fundamental para a caça:

(…) the thick tangle and great diversity of vegetation in the forest—50,000 species of plants and trees—create a vegetal screen that, beyond a very short distance, is impenetrable to the eye. This means that hunters are only able to discern or, at best, glimpse their ever-elusive prey, after observing possible clues as to their presence on the ground.

Consequently, it is mainly through the experience of listening to their environment that they are able to detect the presence or movement of game in the undergrowth or up in the treetops. It is thus understandable that Amazonian hunters not only acquire an extensive knowledge of the sounds of the forest from a very young age, but also that the concert of animal sounds that constantly surrounds them deeply informs the language and the cosmology of their people114. (ALBERT, 2016, p. 320).

Por fim, eu acrescentaria à questão da não substituição do arco e flecha pela espingarda um terceiro fator, que diz respeito ao valor cultural da caça para os Yanomae.

Diferentemente das tarefas agrícolas, a caça não possui o status de “trabalho/penúria”.

Ela, ao contrário, é fonte de prazer, de experiências corporais e estéticas (BECHELANY, 2018). Assim, a economia de tempo e esforço que a espingarda proporciona ao caçador não pode ser comparada aos ganhos de produtividade com as ferramentas de aço na atividade agrícola, simplesmente porque são pensadas e vividas pelos indígenas como coisas diversas. Apesar de os brancos teimarem em considerá-las apenas como duas dimensões de um suposto sistema econômico115, elas possuem rendimentos sociológicos muito distintos.

114“o espesso emaranhado e a grande diversidade de vegetação da floresta - 50.000 espécies de plantas e árvores - criam uma tela vegetal impenetrável aos olhos para além de uma curta distância.

Isso significa que os caçadores só são capazes de discernir ou, na melhor das hipóteses, vislumbrar sua presa, depois de observar possíveis pistas sobre sua presença no solo.

Consequentemente, é sobretudo através da experiência auditiva que eles são capazes de detectar a presença ou movimento de caça no sub-bosque ou na copa das árvores. Compreende-se, portanto, que os caçadores amazônicos não só adquirem um amplo conhecimento dos sons da floresta desde muito jovens, mas também que o concerto de sons de animais que os rodeiam constantemente informa profundamente a linguagem e a cosmologia de seu povo.” (Tradução nossa)

115 Mea-culpa.

141 Garcia (2016) lembra, por exemplo, que as estratégias de caça não são elaboradas pelos povos amazônicos como atividades simplesmente predatórias; em muitos casos, ela são mais bem descritas como um jogo de engano e sedução. Apresento este trecho em que Kopenawa fala sobre a sua formação como caçador e os detalhes da caçada da anta:

Os xamãs daquele tempo também me adornaram com os enfeites do espírito anta, para que eu me tornasse um grande caçador. Pois quando um rapaz usa esses objetos preciosos, as antas se apaixonam por ele. Preferem-no a qualquer outro. Quando o veem andando pela floresta, pensam: “Que caçador magnífico! Está à minha producra, devo ir em sua direção!”. Sem isso, nenhuma anta iria se deixar flechar com tanta facilidade, só para a fome de carne dos anciãos!” (KOPENAWA & ALBERT, 2015, p. 96)

Mas se a arma de fogo não encontrou grande repercussão na caça yanomae, o mesmo não pode ser dito dos cães, outro “instrumento” de caça introduzido com a chegada dos colonizadores e também muito difundido na Amazônia.

Na Venezuela, devido ao seu grande valor e relativa escassez, os cachorros foram, por muito tempo, o principal objeto de troca entre as aldeias que compunham uma complexa rede de comércio regional que se estendia do norte do rio Orinoco até as comunidades Yanomami localizadas ao sul, perto da fronteira brasileira (GOOD, 1989).

Hoje, eles são adquiridos nas cidades ou trocados nas festas reahu. Cito um ex-professor da região que refletia sobre as técnicas de caça durante nossa conversa: “Hoje Yanomami não vive sem cachorro”.

Os cães são criados como membros da própria família, alimentando-se de carne, beiju e banana, como os filhos do caçador. Acompanham o homem em todas as viagens que realiza, auxiliando na captura de animais terrestres, servem para proteger as mulheres quando vão sozinhas às roças e para espantar visitas mal-intencionadas (õka pë).

Como visto na seção anterior, um número razoável de plantas cultivas são manejadas com o objetivo de preparar os cachorros para caçada, o que pode ser considerado como um bom indicador da relevância desse animal na vida cotidiana yanomae. De acordo com Albert & Milliken (2009), acredita-se que o cheiro dessas plantas pode aumentar a sensibilidade olfativa dos cães, ou ajudar a disfarçar o seu próprio cheiro, facilitando a sua aproximação da presa.

Os cães, entretanto, assim com as espingardas, são frequentemente acusados de ter um efeito negativo sobre a população da fauna cinegética na Amazônia, à conta do ganho de eficiência que eles proporcionam. Em algumas regiões, como na Terra Indígena

142 Parakanã, os cachorros chegaram a ser abolidos das aldeias sob essa alegação (EMÍDIO-SILVA, 1998). Há, por outro lado, pesquisas que questionam essa correlação. Para Araujo & Constantino (2018), que investigaram a caça com cachorros entre os Huni Kuin, no Acre, não há evidências que demonstrem um impacto significativo dessa modalidade de caça na conservação dos recursos faunísticos.

Entre os Yanomae, por seu turno, não existe a percepção de que os cães têm afetado a disponibilidade de caça na região. Pelo o que pude observar, existe uma espécie de consenso de que a principal causa para a diminuição de animais no entorno das casas está relacionado ao tempo de permanência das residências em um mesmo lugar e não às técnicas utilizadas. Mas, apesar das queixas de que é preciso ir mais longe para acessar zonas mais abundantes, são raros os indivíduos que consideram que existe uma situação crônica de escassez de caça. E, mais uma vez, as festas, com verdadeiras montanhas de carne moqueada, contribuem para questionar a imagem de uma inópia proteica no interior das casas com décadas de baixa mobilidade residencial.