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CAPÍTULO 4 DA COMPREENSÃO DA PROPOSTA À LUZ DA EDUCAÇÃO POPULAR

4.2 A relação dos/as jovens com o saber no ProJovem

4.2.3 Estratégias para aprender

O que você vai fazer agora, pra mudar a regra, o que você vai fazer agora, pra mudar a real? (Trecho da música “A voz do excluído” de MV Bill e Cidade Negra)

A partir da epígrafe acima, que surgiu da priorização de um certo saber por um dos jovens, procuramos então compreender as estratégias utilizadas pelos/as jovens para aprender durante o processo vivenciado no ProJovem, trabalhadas de forma integrada. Assim retomamos aqui alguns elementos que anteriormente já havíamos abordado.

Temos no contexto do ProJovem uma experiência que é desenvolvida de forma autônoma por Recife, a que os/as jovens foram inicialmente submetidos conforme mostrou-se a realidade vivenciada; contudo percebemos que esses jovens submetidos a uma proposta integrada e a processos educativos baseados em inovações pedagógicas passam então a se relacionar com ela e a desenvolver suas próprias formas de lidar com o/s saber/es que são então desenvolvidos de forma a serem ensinados pelos/as docentes, que por sua vez elaboram seus dispositivos de diferenciação pedagógica para que os/as jovens aprendam e assim os/as

jovens passam a responder de forma positiva ou negativa a esses dispositivos elaborando conforme observamos não apenas na realidade observada mas também nos encontros, suas formas próprias de lidar com o aprender.

Assim sendo, ao observarmos o material coletado e seguirmos os passos para a análise dessa unidade, buscamos nos fragmentos dos discursos dos/as jovens participantes do estudo perceber as estratégias utilizadas por eles para aprender e em um dos textos encontramos a primeira estratégia formulada e utilizada pelos/as jovens participantes,

Eu iria sentar com ele lá na sala e daí ia começar a colocar várias músicas para ele ouvir, todos os meus CDs de rap e mais eu ia depois “bolar” um rap com ele, tenho certeza que ele iria se “amarrar” e aprenderia tudo (Duda, concluinte da EJ V, núcleo 08 -“escrita do saber”).

Já havíamos, durante o processo que vivenciamos junto aos jovens no ProJovem, percebido que eles sempre tinham preferências por músicas de ídolos jovens, de estilo rap, funk entre outras, e a partir das músicas expressavam formas próprias de se comunicar uns/mas com os/as outros/as e com o mundo ao redor deles/as. Foi por isso que resolvemos também nos aproximar através da música, buscando conhecer um pouco o que pensava cada um/uma deles/as. O que nos surpreendeu foi perceber que a música não era apenas uma forma de identificar-se com algo e sim de também pensar sobre algo, matutar e aí aprender, construir saberes tendo como estratégia a música, o fazer rap enquanto uma síntese de um certo conhecimento, de uma certa área ou conteúdo. E temos nessa síntese, como é expressa pelo jovem, a possibilidade de compartilhar saberes.

Observando a fala da jovem Bel, também percebemos a presença dessa estratégia que caracterizamos como sendo de natureza complexa, conforme as abordagens psicológicas apontam, por haver uma criação por parte dos/as jovens subsidiadas, por uma compreensão de um certo saber.

Ressaltamos, porém, que não temos o intuito de entrar em uma discussão da psicologia cognitiva; aliás, em nossos estudos acerca das estratégias de aprendizagem percebemos que existem poucos trabalhos na área e que inclusive observa-se uma preocupação em verificar os efeitos dessas estratégias de aprendizagem no desempenho escolar dos alunos como aponta Costa (2004).

Assim, ao elencarmos as estratégias apresentadas pelos/as jovens buscamos entender o que eles fazem para aprender, o que, portanto, implica também mais um elemento que nos permite compreender a relação com o saber. Desta forma analisamos as estratégias a partir do

ato cognitivo condicionado por fatores dependentes da situação de cada indivíduo na sociedade e de como ele interpreta sua própria situação, em que a pessoa vai apreendendo um conteúdo, que, mediante esse ato, se transforma em uma série de conceitos, enunciados ou preposições que são as que lhe permitem edificar os saberes (RAMOS, 2006).

A possibilidade do ser humano associar, sintetizar, analisar, classificar, memorizar e tantas outras habilidades cognitivas, uma vez em interação com outros seres humanos, quebra fronteiras conforme afirma Guedes (2004).

Estratégias como leitura e releitura também foram observadas nas “escritas do saber” conforme se apresenta no texto da jovem Meg:

Depois que o ET, já tivesse assistido televisão eu daria um livro pra ele. Quando a gente quer aprender a gente tem lê e depois lê de novo e assim a gente vai aprendendo, com ET deve ser a mesma coisa (Meg – escrita do saber)

Percebe-se que ao ensinar ao ET a jovem reproduz em seu texto uma estratégia que ela aponta como possibilidade para aprender, ou seja, ler e reler. Essa estratégia também foi apontada por outros jovens no momento da entrevista em que perguntamos como é que eles/as faziam para aprender. Ao responder a essa questão os jovens pararam, refletiram e expuseram:

A gente fica lembrando o que a professora falou e aí eu pego livro e vou lendo, lembrando e lendo de novo até entender daí quando a professora manda apresentar se aprende mesmo (Jú, Concluinte da EJ V, núcleo 03 – entrevista coletiva). Que pergunta difícil “professora”, eu decoro o que tem no livro, eu respondo as atividades, dos assuntos que vão cair na prova (Cassiana, Concluinte da EJ V, núcleo 03 - entrevista coletiva).

É “bronca” mesmo, mas eu aprendo muito quando eu pego a idéia, que vê êxodo rural, por exemplo, e aí faço uma grafitagem, mostrando o que significa o êxodo rural (Fê, concluinte da EJ V, núcleo 02 - entrevista coletiva).

Ao observarmos essas falas percebemos que elas nos apontam mais algumas estratégias utilizadas, lembrar, memorizar/decorar, apresentar e resolver atividades que os jovens desenvolvem durante o processo de aprendizagem das áreas principalmente de Formação Básica que estão mais diretamente ligadas aos conteúdos. Consideramos então que ao falar das estratégias para aprender, do como eles/as fazem para aprender, houve uma compreensão geral por parte dos/as jovens que remeteram às formas de aprender a

aprendizagem dos saberes teórico/intelectuais não se referindo a outros saberes de natureza

ético-moral ou saberes prático, tendo como exceção apenas uma das “escritas do saber”, que foi produzida pelo jovem Duda e que faz referência a estratégias utilizadas para a compreensão de saberes de natureza ético-moral.

Percebemos também que há em algumas situações a opção dos/as jovens por estratégias ligadas ao ato de transformar os conteúdos que precisam ser aprendidos em outras formas de linguagem como, por exemplo, uma peça teatral ou um desenho, ou uma grafitagem, que reflita a compreensão do conteúdo que se deseja ser aprendido. Neste caso, percebemos que há certa semelhança dessa estratégia em relação à primeira, de elaboração; no entanto, aqui percebemos a formulação em que, nessa situação, o domínio das habilidades ligadas à arte de desenhar, de interpretar e de atuar não são presentes entre todos/as os jovens e daí faz-se necessária a formulação de outras estratégias para que possa então aprender.

Em algumas situações percebemos que alguns jovens apenas consideram a estratégia do fazer, responder as atividades, realizar os trabalhos como uma forma de aprender. E aí ao retomarmos essa estratégia considerada simples temos algumas considerações presentes na entrevista,

Tem que se pegar o que mais gosta. Eu não gosto de matemática então eu sei lá fico só tentando resolver as tarefas. Mas eu gosto muito de história então eu vou faço pesquisa sobre o assunto na internet, eu escrevo no caderno as coisas que eu acho interessante, mas só se eu gostar. Quando não gosta, mas tem que estudar é “pau” pra aprender (Paulinho, concluinte da EJ V, núcleo 04- entrevista).

Essa é uma questão que nos chama muita atenção quando percebemos que há, por um lado, situações em que os jovens não aprendem e culpam a si mesmos, denominando-se de incapazes e daí muitas vezes desistindo do processo; no entanto, temos situações como a apresentada pelo Paulinho em que há uma barreira entre certos saberes e o sujeito aprendente que nesse caso assumi-se não como incapaz, mas sim como sujeito capaz de realizar opções e daí aprender com base na motivação para aprender um saber e outro não. Temos então a considerar que essa motivação implica então as estratégias docentes que serão utilizadas para o processo de aprendizagem desses saberes que “não são queridos” pelos/as jovens mas que no entanto fazem parte do contexto de aprendizagem. Seja a Matemática ou a Língua Portuguesa, cada indivíduo expressará esse gostar, ou como anteriormente trabalhamos, essa priorização.

Diante das considerações acerca dessas estratégias não apontamos ou indicamos as demais áreas presentes na proposta pedagógica do ProJovem e em seu desenvolvimento. Por tudo que foi obtido através das falas e escrita dos/as jovens, percebemos que o fato de não terem feito referências a estratégias para aprender a ocupação de chapista ou de vendedor ambulante, não significa que nessas situações utilizem estratégias diferentes principalmente porque estes saberes práticos também estão sendo vivenciados no interior das salas de aula e desenvolvidos pelos/as educadores/as como dispositivos pedagógicos diferenciados e personalizados a partir de cada conteúdo que será ensinado.

Desta forma, as estratégias de elaboração, de ler e reler, de memorizar/decorar, lembrar, responder/fazer atividades, formular, apresentar, fazer raps, desenhos, encontram-se entre as estratégias simples quando são comumente utilizadas e complexas quando passam a exigir habilidades específicas para que assim seja possível aprender. No entanto, percebemos que ao elegermos essa unidade de análise, ficamos apenas no campo introdutório da questão abordada, mas encontramos o que para nós é de uma relevância imprescindível e que traz contribuições deste estudo para a compreensão das estratégias, que assim compreendemos como dispositivos de retorno pedagógico, ou seja, diante dos dispositivos pedagógicos oferecidos pela instituição para que os/as jovens educandos/as aprendam, do que esses/as jovens possam privilegiar em uma proposta de ensino elaborada, com vistas às suas necessidades e quais serão os saberes que irão priorizar nesta proposta, elaboram assim estratégias que (re)definimos do ponto de vista pedagógico, como dispositivos que são desenvolvidos e postos em prática para relacionar-se com os diversos saberes e assim o ato de aprender não é um processo de mão única.