CAPÍTULO IV – A ascensão e o empoderamento feminino: descrição e análise dos
4.4 Caracterização das mulheres líderes entrevistadas e análise de caso
4.4.6 Estratégias para o exercício da liderança feminina
Neste espaço organizacional de predominância masculina, algumas estratégias são utilizadas para o exercício da liderança feminina.
Os caminhos construídos pelas mulheres procuram fortalecer a liderança como um facilitador das atividades da equipe, conhecer o trabalho para construir soluções, visando à qualidade e o que melhor atenda a todos da equipe.
“Às vezes acham que o chefe está para ferrar, mas é um facilitador. Procuro acompanhar os trabalhos das equipes e aí alguns pensam o que ela quer com isso...ficam desconfiados, mas preciso interagir com as atividades para ver onde posso ajudar. O resultado é comum e se for bom, é bom para mim e para todos”.
As mulheres líderes procuram atuar com profissionalismo e valorizam a ética. O relato a seguir demonstra uma postura genuína da liderança que busca rever seus conceitos tendo uma escuta ativa e compartilhando a tomada de decisão.
“Eu sempre procurei fazer meu trabalho com profissionalismo, com ética, me cobro muito, sou muito exigente comigo mesma e troco bastante ideia, tenho procurado desenvolver essa minha capacidade de escutar mais. Muitas vezes tenho procurado rever alguns conceitos meus para buscar um entendimento entre as partes, para não impor algo que muitas vezes eu julgo ser correto, algo que eu julgo ser um posicionamento meu. Então tenho procurado ouvir bastante, para tentar buscar parceria, não tomar decisões por única e exclusiva conta”.
Como diferenciais da liderança feminina referem atitudes empáticas, de valorização do outro, procurando tratar as pessoas com imparcialidade, respeito, demonstrando sensibilidade e compreensão. Essas características do líder situam-se na horizontalidade, que é “ser, sobretudo, um (a) educador (a). Desenvolver em si e nos demais integrantes a vontade de aprender e aperfeiçoar-se em seu trabalho” (CARREIRA, AJAMIL e MOREIRA, 2001, p. 64).
“Eu acho que o fato de ser mulher em alguns casos ajuda bastante... Procuro escutar bastante, se colocar no lugar das pessoas, tentar falar e se expressar, da forma de que dariam feedback. Procuro tratar todos da mesma forma, respeito e educação e me colocar no lugar do outro”.
O foco em pessoas e o foco em resultados são dimensões ideais em que o líder atua. Mandelli (2015, p. 53-54) ressalta que os líderes eficazes possuem atributos como a empatia, habilidades de comunicação e simpatia. São processuais em foco e possuem atributos como assertividade e capacidade de organização.
“Resultado tem que ser produzido, mulher é mais cuidadosa com a linguagem e com os detalhes, isso faz diferença lá no final e organização. Cuida mais, analisa mais as coisas, na hora de tomar uma decisão, certo cuidado a mais que os homens, até mesmo no feeling, parece que temos um pouquinho a mais. Muda a atitude, estilo de homens, ouvia palavrão constante, jeito mais direto, mais bruto, tem que se igualar, com mulher mais delicado, cuidar com o tipo de brincadeira que faz, mulher é mais sensível, tipo de cuidado, o resto tecnicamente é tudo igual. Mulher é mais organizada, nem todas, de modo geral, mais organizada”.
Alguns relatos expressam expectativas culturais sobre o estereótipo de gênero, cujas líderes poderiam ser motivadas a agir de acordo com um padrão esperado ao papel feminino. Pelo contrário, procuram observar e sentir a situação vivenciada de modo que possam agir eficazmente como líderes adotando um comportamento assertivo e profissional, que ainda assim, não a deixam de serem femininas.
“Primeiro fico quieta ouvindo, deixo falar, fala bastante, depois eu falo, porque é mais tranquilo assim. Primeiro você sente como está o clima como estão as coisas”.
“Não deixar que o feminino sobressaia, que fique aquela impressão, ‘ah é mulher’. E me posicionar, olha é assim, exercendo a liderança”.
“Talvez se eu fosse aquela mulher mais tradicional, mais feminina no extremo...se eu fosse muito feminina..., talvez ficassem fixados no meu jeito, na minha aparência, não desse muito valor ao conteúdo, me coloco como assexuada...que não olham para mim...não uso os recursos femininos na empresa...sei que tem mulheres mais sensual que usam isso para uma ajudinha, evitar uma bronca... coisa da minha cabeça e da educação... o que deve contar, fato de ser homem e mulher...Consigo contar uma piada, consigo ouvir uma piada sem me ofender, é minha característica...se eu fosse uma mulher tradicional, talvez fosse mais difícil... Questão de entender que faz parte de um grupo, não pode impor ou te impor, se eu quero fazer parte, aprender a dinâmica dele e vou até onde eu acho que consigo ir...”.
De acordo com Vargas (2016), a gestão das organizações pode incorporar princípios e valores feministas nas suas diversas dimensões, citando: a dimensão estrutural e organizacional interna; a dimensão da administração/processos de tomada de decisão; a dimensão da relação com as usuárias/público alvo de nossos serviços/projetos e a dimensão das relações interpessoais, do trabalho em equipe.
Deacordo com a autora, alguns valores feministas poderiam caracterizar uma gestão especificamente feminista, tais como uma gestão mais democrática, que valoriza a diversidade e uma relação mais igualitária, de promoção das mulheres em posição de comando, onde no ambiente de trabalho prevalece a integração e a cooperação entre as pessoas.
Organizações em que o processo de planejamento é participativo, em que a tomada de decisão é compartilhada e que prevalece a transparência, inclusive discute-se abertamente o poder e a autoridade, estimulando relações saudáveis em que esses papéis possam circular entre os diversos sujeitos participantes. Ainda, são organizações que visam à criação de estratégias de mudança efetiva das condições de vida das mulheres e contribuir com os usuários dos serviços/produtos, numa relação de respeito e de escuta das reais necessidades em que possam avaliar e participar ativamente da construção de melhoria desses serviços e produtos.