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9.6 Estratigrafia e correlação espacial no Quaternário

A estratigrafia ocupa-se da sequência dos depósitos no tempo.

Se houvesse, para toda a superfície da Terra, um registo sedimentológico completo ao longo de todo o Quaternário, com vários níveis datados com precisão, a correlação entre as várias colunas estratigráficas seria relativamente fácil.

Porém, como vimos, os métodos de datação para o Quaternário nem sempre são aplicáveis. Por serem caros e tecnologicamente evoluídos, muitas vezes não são acessíveis à

generalidade dos investigadores.

Além disso, são raros os locais que dispõem de registos sedimentológicos completos. Na maior parte dos casos os afloramentos estão fragmentados ou semidestruídos.

Para completar o quadro da evolução dos ambientes no Quaternário é necessário estabelecer correlações, demonstrando a contemporaneidade entre os depósitos de diferentes áreas.

A estratigrafia pode ser considerada segundo vários critérios: Litostratigrafia:

- baseada em mudanças das características dos sedimentos; Biostratigrafia:

- baseada na variedade e abundância de fósseis. A esse respeito, o Quaternário é um período ingrato. Atendendo à sua pequena duração, facilmente se compreende que os fósseis sejam muito semelhantes às formas actuais de vida, pelo que nem sempre definem níveis cronológicos.

Além disso, os depósitos quaternários, frequentemente cascalhentos, são, em regra, demasiado porosos para permitir a conservação de fósseis. Se isso é possível, apesar de todas as dificuldades referidas, nas áreas de substrato calcário, em áreas como a nossa área de estudo, com um substrato cristalino e solos ácidos, a matéria orgânica quase nunca se conserva.

O estabelecimento duma estratigrafia baseada nos artefactos humanos nem sempre é uma boa solução porque, frequentemente, estes não se encontram "in situ", tendo sido

integrados, posteriormente ao momento da sua fabricação, em diversos tipos de depósitos39.. Por isso, a sua ocorrência, mesmo que definam horizontes temporais

39 No nosso caso, por exemplo, é muito frequente encontrar materiais com aparente talhe humano na base

da formação areno-pelítica de cobertura. Que significado poderá ter este facto?

relativamente precisos – o que nem sempre acontece – apenas significa que o depósito que os contém herdou alguns elementos de depósitos preexistentes, sendo praticamente

impossível determinar o grau de anterioridade dos artefactos em relação aos depósitos que hoje os contêm.

Cronostratigrafia:

- as sequências são divididas em sectores limitados por horizontes isócronos. Ao contrário da litostratigrafia e da bioestratigrafia, as diferentes unidades cronostratigráficas (por exemplo: sistema, série, andar) não são directamente observáveis, mas sim inferidas, a partir das características de muitas sequências.

Morfostratigrafia:

- baseada em rochas identificáveis através da sua forma de superfície. São exemplo de unidades deste tipo as moreias, terraços marinhos ou fluviais, dunas, etc.

Climatoestratigrafia:

- muitas vezes, os registos estratigráficos podem ser relacionados com as mudanças climáticas.

As unidades climato-geológicas de ordem superior são os períodos glaciários e interglaciários; estadiais e interestadiais, as de ordem menor.

A dificuldade do uso destas unidades é que detectamos apenas as consequências das mudanças climáticas e não as variações em si mesmas. Ora, essas consequências

manifestam-se de forma diversa dum local para o outro. Sobretudo, elas podem manifestar- se mais cedo nuns locais do que noutros.

As unidades bio, lito, morfo e climatoestratigráficas são, muitas vezes, diacrónicas. Quer dizer: não se subordinam aos cortes estabelecidos para as unidades cronostratigráficas. Por isso, as sequências estabelecidas com base em critérios diferentes, muitas vezes não

são equivalentes, o que dificulta o trabalho de correlação, que procura articular as sequências encontradas em diversos locais.

Além disso, a repetição de climas análogos, criando condições para a formação de

depósitos semelhantes, mas de idades diferentes, dificulta a destrinça local entre eles e cria dificuldades adicionais à sua correlação espacial, porque se torna muito difícil saber se dois depósitos semelhantes são contemporâneos, ou, pelo contrário, correspondem a fases climáticas diversas.

Mesmo assim, há alguns processos de correlação utilizáveis na nossa área de trabalho, que passamos a referir:

Paleosolos bem desenvolvidos:

- Os paleosolos podem constituir unidades pedoestratigráficas, com uma relação de sincronismo geralmente superior ao dos critérios bio e litoestratigráficos (ver Alex???). Também o horizonte com podzol de Cortegaça

Linhas de costa:

- Se o mar estacionar durante bastante tempo a uma determinada cota, de modo a permitir o aparecimento das formas e dos depósitos característicos, eles poderão ser utilizados, desde que suficientemente desenvolvidos e pouco afectados pelo diastrofismo, como horizontes sincrónicos com um valor local e mesmo regional.

Assim, além das dificuldades inerentes à atribuição cronológica dos artefactos, é necessário contar com a hipótese de eles não serem correlativos da formação em que se encontram, apenas podendo afirmar-se, nesse caso, que são anteriores a ela.

Porém, a quase coincidência do nível do mar em diferentes épocas (ver fig. 9.1), torna, por vezes, difícil saber (a não ser com recurso a datações absolutas, cf. C. Zazo et al., 1989) a qual dos níveis do mar corresponde um determinado depósito litoral.

Uma outra dificuldade não despicienda tem a ver com a existência de uma amplitude de marés que pode atingir perto de 4m na área de trabalho. Por isso, a definição das cotas de estacionamento do nível do mar está longe de poder ter a precisão que por vezes, se lhe atribui. Nomeadamente, como é referido por A. Dias, 1997, parece pouco plausível definir o estacionamento do nível do mar com uma precisão de um metro quando a amplitude das marés é de cerca de 4m…

O interesse das antigas linhas de costa é mais acentuado quando, como é o caso, por exemplo, do litoral mediterrânico da Península Ibérica, a amplitude das marés tem valores muito baixos, da ordem do 0,5m e os depósitos litorais podem ser correlacionados com depósitos eólicos consolidados, contemporâneos de fases regressivas. Essa circunstância facilita a distinção dos diversos depósitos marinhos, já que alguns se podem caracterizar como sendo fossilizados por um determinado depósito eólico, cuja distinção pode ser facilitada pela composição do cimento, grau de consolidação ou cor dos depósitos (Anarp, 1990???=.

Estudo dos fundos oceânicos:

- Dado o carácter fragmentário com que muitos dos depósitos litorais situados nas áreas emersas se apresentam, é nas áreas submersas que parece residir a solução para muitos dos problemas postos pelo estudo do Quaternário.

Os sedimentos marinhos constituem um registo geralmente não fragmentado e contínuo da sedimentação. As rochas basálticas do fundo oceânico, por vezes interestratificadas ou sobrepostas por camadas sedimentares, são datáveis através do método do Potássio-Árgon. Quer nelas, quer nos sedimentos que se sobrepõem a elas, é possível fazer análises

paleomagnéticas.

Nos restos de conchas pode fazer-se o estudo da relação O18/O16, o que permite

determinar as oscilações climáticas contemporâneas da sua formação . Com efeito, quando a água do mar se evapora, há uma tendência para as moléculas de água formadas pelo isótopo mais leve do oxigénio (O16) sejam favorecidas no processo de evaporação. Nos períodos glaciares, quando muita dessa água rica em O16 é retida nos inlandsis e glaciares de montanha, a água do mar fica, naturalmente, empobrecida em O16, o que significa um aumento da permilagem de O18 na água do mar.

O processo é reforçado pelo facto de que as baixas temperaturas reinantes nestes períodos dificultarem a evaporação de moléculas de água ricas em O18, naturalmente mais pesadas que as outras, e cuja evaporação necessita de mais energia térmica.??? Deste modo o gelo dos inlandsis enriquece em O16, durante os períodos mais frios, ao contrário da água do mar ???,

O registo dos isótopos de oxigénio apresenta um grau de sincronismo muito superior ao verificado para as variações climáticas continentais. Além disso, os vários acontecimentos são datáveis por referência ao registo paleomagnético.

O problema do estudo dos fundo oceânicos é que a sua observação directa só é possível através de sondagens pontuais e caras. Além disso, nem sempre é fácil estabelecer a

Em síntese:

Tentámos demonstrar, com esta análise geral da problemática do Quaternário, que qualquer estudo sobre este período é, necessariamente, complexo. Há como que um "puzzle" em que aspectos muito variados se combinam de diferentes modos para construir um padrão de pequenas unidades geomorfológicas de idade, posição e evolução variadas. Essa

complexidade é ainda mais acentuada nos litorais, onde a movimentação tectónica é muito frequente, interferindo com variações eustáticas de grande amplitude, que, por sua vez, estão na origem de modificações ambientais intensas e relativamente rápidas.

Para balizar essa evolução rápida e multímoda é necessário recorrer a processos de datação seguros, de utilização generalizada. Infelizmente, os processos que permitem obter

datações "absolutas" (com a excepção pontual do C14) raramente são aplicáveis à área em estudo, ou estão, ainda, em fase de experimentação (termoluminescência)..

C

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No capítulo 5, demos um relevo especial à oposição entre os partidários de teorias eustático-fixistas e dos decorrentes critérios altimétricos e aqueles que defendiam a influência da neotectónica, propondo o uso de critérios de índole variada, com

predomínio dos de tipo sedimentológico, para a distinção entre os diversos depósitos. No capítulo 9, procurámos fazer uma breve resenha dos problemas gerais que se colocam no estudo do Quaternário, nomeadamente nas regiões litorais.

Pretendemos, agora, apontar algumas questões específicas da área de trabalho que escolhemos.

Trata-se de problemas de ordem metodológica, que nos surgiram no decorrer da investigação, e para os quais procurámos obter soluções simultaneamente pessoais e adaptadas aos temas em análise. Nunca será demais lembrar que o presente trabalho se insere numa determinada perspectiva, dentro da evolução das ideias e dos

conhecimentos sobre a área, perspectiva essa .que nos parece a mais adequada quer à realidade local quer ao estádio actual do desenvolvimento científico.

10.1 - Análise crítica da representação dos depósitos "plio-

plistocénicos" na cartografia geológica existente

Fomo-nos apercebendo, à medida que confrontávamos a cartografia geológica

preexistente com as nossas observações de campo, do seu carácter pouco preciso no que diz respeito à representação dos depósitos.

A nossa primeira tarefa foi, pois, a de criticar a cartografia existente e procurar entender a razão de ser do seu desajuste relativamente às observações que íamos realizando. Acabámos por compreender que eles se deviam, essencialmente, a uma inadequação das teorias em que essa cartografia se baseava, teorias que pareciam desajustadas face aos fenómenos a representar (cf. A. Reynaud, 1971).

Já num trabalho publicado em 1984 (M. A. Araújo, 1984-a) fizemos uma resenha de algumas dessas situações e apontámos alguns dos equívocos em que se baseiam as cartas geológicas de escala 1:50.000 da área de trabalho, no que diz respeito à forma de

cartografar os diferentes depósitos. Com efeito, eles, não só são identificados e

correlacionados apenas de acordo com uma avaliação grosseira da cota a que se situam, como, frequentemente, a área coberta pelos mesmos está muito exagerada.

Por via de regra, os limites utilizados para circunscrever as manchas de depósitos são estritamente paralelos às curvas de nível. Além disso, curiosamente, está assinalada a existência de depósitos de "praias antigas e terraços fluviais" em quase todas as áreas

Citando J. Tricart (1968), poderíamos dizer:

-"O período de 1910 a 1950 foi marcado por uma crença cega no eustatismo. Numerosos investigadores tentam encontrar, a qualquer preço, os níveis clássicos às altitudes

regulamentares. A ideia de deformações tectónicas foi sistematicamente afastada. (...) Com este estado de espírito e estas ideias era fatal que o ciclo vicioso se fechasse: à força de procurar os níveis clássicos, conseguia-se sempre encontrar um vago testemunho nas altitudes requeridas: calhaus rolados escorregados numa vertente ou apanhados numa cavidade cársica, tudo servia! Estes argumentos, por sua vez, ajudavam ao triunfo da teoria. A atitude não era a dum investigador, mas dum apologeta."

Como estes depósitos são bastante antigos (Neogénico e Quaternário antigo), a sua superfície de enchimento foi, seguramente, trabalhada pela erosão diversas vezes e em contextos climáticos variados.

Um dos últimos episódios estará relacionado com a formação areno-pelítica de cobertura, que estudaremos no capítulo 15. Se esta corresponde, como pensamos, aos últimos tempos do Würm, isso significa que houve um grande intervalo de tempo entre a formação dos depósitos subjacentes e os episódios solifluxivos que lhe deram origem. Por isso é provável que a base da referida formação apresente algumas irregularidades. Todavia, nas cartas geológicas 9-C (Porto), 13-A (Espinho) e 9-A (Póvoa de Varzim) optou-se por cartografar a cobertura areno-pelítica como se ela e os depósitos "plio- plistocénicos" fossem estratigraficamente concordantes, o que, em última análise

significa que a referida formação teria coberto aqueles depósitos imediatamente a seguir à sua génese.

Ora, parece-nos claro que sedimentos formados em condições genéticas e cronológicas muito diversas só excepcionalmente poderiam dar origem a manchas com contornos paralelos entre si.