2.2. MODELO DE GESTÃO AMBIENTAL E TERRITORIAL ITAIPU-CULTIVANDO ÁGUA BOA
2.2.2. Estruturação do Programa Cultivando Água Boa
Assumindo-se que as operações para geração de energia da Itaipu Binacional não produzem os impactos ambientais mais significativos monitorados no Reservatório e que os mesmos são gerados por múltiplas atividades antrópicas, instaladas ao longo dos territórios das bacias hidrográficas influentes, fontes de poluição. Para mitigar esses impactos é necessário o controle das suas causas, nas fontes geradoras, ou a dragagem do material sedimentado nas coleções hídricas aonde se acumulam. Sem a adoção de uma ou de outra estratégia, o corpo d’água, ou parte dele pode desaparecer relativamente rápido (VON SPERLING, 1994).
Considerando a área do Reservatório de Itaipu, de 135 mil hectares, a hipótese de dragagem mostra-se absurda, restando somente a proposição de medidas corretivas para controlar as contribuições das fontes geradoras. Isto ocorrendo espontaneamente, por livre adesão, ou pela força de fiscalização.
Para orientar suas ações e, também, as das fontes geradoras de poluição hídrica, instaladas nos territórios das bacias hidrográficas influentes no Reservatório, a Itaipu desenvolveu seu novo modelo de gestão, denominado Programa Cultivando Água Boa, adotando algumas importantes definições metodológicas.
Ao formular-se a estruturação do Programa houve uma decisão estratégica: focar o Programa no conceito da Gestão e não nos resultados de projetos isolados, começan do por esta decisão a opção por um modelo sistêmico.
Historicamente, o conceito de gestão surgiu no domínio privado e diz respeito a administração dos bens possuídos por um proprietário. Neste sentido gerir é “tomar conta do negócio”. Duas idéias importantes estão em jogo no conceito original de gestão:
a) os bens a gerir são suscetíveis de serem apropriados por pessoas, mas eles podem ser separados dessas pessoas a ponto de sua administração poder ser confiada a um terceiro;
b) repousando sobre uma relação entre um sujeito (o titular do direito de propriedade ou seu representante) e um objeto (o bem possuído), a relação de gestão pressupõe que o vir-a-ser do objeto, incluindo-se aqui sua destruição, submete-se aos projetos, usos e preferências do sujeito, o que manifesta a concepção plenamente desenvolvida do direito de
propriedade que e, de forma ultima, um direito de destruir.
Parte-se do pressuposto de que a natureza só se torna utilizável para fins sociais se for convenientemente administrada para tornar-se funcional (GODARD, 1997).
Gerir bens, atividades e processos é adotar procedimentos para compatibilizar os objetivos destes, com as condicionantes externas a eles, mas que lhes determinam padrões a obedecer, ou seguir, como em relação às atividades econômicas, as leis em geral, sejam comerciais, tributárias, ambientais e outras, assim como as regras de mercado, que impõe exigências de consumidores e normas gerais de comercialização (MOREIRA M.S, 2001).
Indo um pouco além, a gestão está condicionada, também à noção da capacidade da empresa de exercer seu poder legítimo, executando os procedimentos de gestão necessários, uma vez que a discussão se limita àqueles que são prescritos segundo a ordem democrática. Dentro desta, o tema da governabilidade, transcende a preocupação meramente técnica ou gerencial na implementação de projetos de desenvolvimento socioeconômico que predominava até há pouco tempo (MEYER, 2005).
Gerir ainda um processo, uma atividade, um ambiente, entenda-se uma região, ou mesmo um território, significa também acompanhar a evolução dos fenômenos de interesse, comparando as situações encontradas no presente com as que foram previstas no plano de ação e principalmente promover a intervenção quando realmente necessária, segundo informação relevante e baseada em novos dados, mediante o consentimento da autoridade competente (SILVA, 2001).
Ao optar pela doutrina da gestão ambiental para conduzir as suas próprias atividades e as proposições que faria aos co-usuários das águas da Bacia Paraná III, a Itaipu oferece um novo padrão de trabalho ambiental, diferente da usual administração de projetos e de processos, que se orientam pelos fins. Enquanto a integração, a interdisciplinaridade, a matricialidade são os valores essenciais da Gestão Ambiental (MOREIRA M.S, 2001).
2.2.2.1. Ênfase no meio rural, sem perder a perspectiva urbana
As atividades geradoras de impactos ambientais na bacia hidrográfca Paraná III ocorrem tanto em zonas urbanas, como em zonas rurais e em ambas, deve haver
controle das emissões de poluentes. Contudo, como não se têm notícias de programas de saneamento rural, a não ser experimentais, como o conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado do Paraná, dentro do Programa Nacional do Meio Ambiente (PNMAII), que trata da poluição hídrica gerada por dejetos suínos (BLEY, 2004), os esforços do Programa Cultivando Água Boa foram direcionados para sensibilizar o meio rural.
Uma outra justificativa para a opção pelo foco rural do programa de Itaipu tem origem na comparação da magnitude dos impactos gerados pelo potencial poluidor dos dejetos de animais (suínos com mais evidência), sempre maior do que o potencial gerado pelos esgotos humanos. Sendo este quadro agravado, em geral, pela influência do reduzido nível tecnológico e econômico dos responsáveis pelos esgotos animais, produtores rurais.
Não bastasse esta vulnerabilidade estrutural geradora de permanente ameaça sobre os recursos naturais, notadamente sobre as águas, há projeções científicas alertando que até 2020 se completará uma profunda alteração mundial na área da produção dos alimentos (DELGADO, 2002) com a conversão de proteína vegetal em proteína animal sendo produzida nos locais aonde são geradas as proteínas vegetais, conferindo mais eficiência e racionalidade para a cadeia produtiva das carnes, pela redução de desperdícios de logística. Isto implica, segundo o mesmo autor, em triplicar o rebanho de animais estabulados no Brasil, o que em termos de suínos representa aproximadamente 33 milhões de cabeças (IBGE, 2002) para aproximadamente 100 milhões de cabeças. O autor denomina este fenômeno de Revolução da Proteína. Neste mesmo artigo consta ainda que a expansão do plantel de animais produzirá três importantes conseqüências, a social, a de saúde pública e a ambiental, o que o autor denominou de Efeito SHE (S social-social, H health-saúde e E environment-meio ambiente).
Resumidamente o autor destaca:
a) o efeito social será sentido na desestruturação do sistema fundiári;
b) o efeito saúde pública, terá como indicadores graves zoonoses e pandemias, tal como já se evidenciam as síndromes da Vaca Louca e da Gripe Asiática, além de aftosa, peste suína, mal de Audjewski e outras; c) o efeito ambiental se abaterá principalmente sobre as águas,
O estudo alerta ainda que há necessidade dos países nos quais o fenômeno da Revolução da Proteína se instala, adotarem medidas concretas para mitigar o efeito SHE, intensificando seus mecanismos de Comando e Controle e oferecendo aos produtores o necessário acesso a informações e assistência técnica ambiental.