Fase 11: Ordenamento e análise dos dados.
N. Análise e apresentação dos conteúdos Finalmente os blocos temáticos foram "transversalizados" pelas categorias analíticas construídas da forma recém
7. A REFORMA ADMINISTRATIVA SETORIAL
7.2. Estrutura administrativa e conflito setorial.
Em nível nacional, a discussão entre técnicos e políticos com relação à reforma setorial que se desenvolvia no país também indicava a unificação das estruturas como ação intermediária importante para viabilizar a efetiva transformação das práticas de saúde. Nesta direção, no Rio de Janeiro, Fórum de debates sobre a reforma sanitária indicou a unificação dos serviços de saúde prestados por todos os orgãos federais como uma das principais sugestões a serem levadas à Assembléia Nacional Constituinte pelo Ministério da Saúde, Ministério da Previdência e Assistência Social e Ministério da Educação e Cultura. O Ministro Roberto Santos, no encontro, colocou "a oportunidade para se repensar a política nacional de medicina, porque se está elaborando uma nova constituição. É necessário rever as normas da saúde. A unificação dos serviços é um dos temas em discussão. Tanto a prevenção como a cura devem ter as mesmas fontes de financiamento e fazer parte dos mesmos
237
programas". Em reunião dos Secretários Estaduais de Saúde em Brasília, o Ministro acrescentou ainda que "a Saúde e a Previdência estão com os pontos de vista ajustados para aplicar as diretrizes da Reforma Sanitária".238
O Secretário Adjunto da Saúde, Orasil Coelho Pina, que participou do encontro, apontou em seu retomo alguns projetos que eram discutidos no govemo
236 GHIZZO, Martinho Herculano. E ntrevista ao autor. 1992. 237 Diário Catarinense, 03/04/87, p. 14.
federal como conflitantes com a proposta de reforma sanitária por ele defendida, como a do médico de família e a falta de um Conselho Nacional de Saúde. Contextualizando a situação institucional em Santa Catarina, Orasil sublinhava que "o histórico privilegiamento orçamentário da FHSC em detrimento do DSP, que produziu a falta de condições mínimas para o funcionamento dos 500 postos de saúde do estado", seria superado com a proposta de unificação dos orgãos.
Reforçando o diagnóstico de desmantelamento da rede estadual de saúde, o Coordenador de Planejamento da Secretaria da Saúde, Biaze Manger Knoll incluiu a própria estrutura administrativa da Secretaria na situação de crise, informando a realização de um levantamento para "tentar fazer com que a máquina ande, pois além da falta de pessoal, o orgão não dispõe de material e até mesmo condições de prestar um bom atendimento, principalmente na área preventiva e ambulatorial"239. O Coordenador de Planejamento da SES também sintetizou os princípios que apoiavam a proposta de unificação do DSP e FHSC: "um sistema universalizado e igualitário sob um só comando, considerando a saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado, tende a eliminar a dicotomia entre a assistência ambulatorial e hospitalar".240
O Secretário Martinho Ghizzo, ao comentar os obstáculos para a efetiva implantação do sistema de saúde em novos moldes indicou a existência de contradições no próprio núcleo de governo, o Palácio Barriga Verde.
"Existiam pessoas extremamente contrárias a este objetivo de governo, e aí eu faço justiça ao Governador Pedro Ivo, porque ele queria realmente implantar o SUDS. Só que algumas pessoas... levavam prá ele dúvidas, dificuldades, receios ou até a visão da necessidade de aproveitamento das instituições... . O fato é que ele não conseguia fazer com que o processo deslanchasse. Mas ele, o discurso dele, as falas que ele tinha comigo, ele se mostrava realmente a favor do SUS e de todos aqueles objetivos que estavam no quarto cademinho do programa de govemo dele"241.
O que se viu, no entanto, retomando o tema da reforma administrativa setorial em suas questões mais objetivas, foi um confronto surdo no qual a proposta de integração dos dois orgãos deixou de ser uma questão central e se colocou como pano de fundo de um conflito que pouco questionou a necessidade da reforma e o conteúdo que a definia, mas a natureza jurídica da nova estrutura e os interesses que supostamente seriam atingidos pela mesma.
239 Diário Catarinense, 08/04/87, p. 8. 240 Idem, ibidem.
À proposta inicial de uma Fundação, sugerida pelo grupo setorial da saúde ao recém eleito Governador Pedro Ivo, o mesmo recomendaria mais ousadia242. O grupo setorial desenvolveu assim, a estrutura de uma Secretaria autárquica incorporando as funções da FHSC, do DSP e da própria SES em um novo arranjo mais integrado em relação às atividades-fím, ao mesmo tempo que respeitava uma diretriz sistêmica comum a todos os projetos de reforma então em execução ao nível do executivo estadual. Esta proposta, absolutamente coerente com relação aos propósitos de governo e diretrizes setoriais que já conformavam um arcabouço político-jurídico em discussão em nível de Congresso Constituinte foi, nas palavras do próprio Secretário, um dos motivos para o rompimento e exoneração da equipe da Coordenação de Planejamento, questão já desenvolvida no capítulo anterior.
A seguir, senhor da situação, o Secretário nomeou nova Comissão para produzir o projeto de reforma setorial, que optou finalmente por uma figura jurídica de direito privado, a Fundação Estadual de Saúde, submetendo a totalidade da estrutura setorial à lógica e aos interesses da Fundação Hospitalar de Santa Catarina, sem dúvida nenhuma desde à muito detentora da hegemonia em relação à definição das políticas públicas setoriais de iniciativa estadual. Apesar das reações corporativas dos funcionários do DSP por um lado, e mais ideológicas do movimento sanitário por outro, o projeto tramitou por alguns meses na Assembléia Legislativa, sendo retirado daquele poder por iniciativa do Executivo, que ponderou pela inoportunidade da matéria, já decorrida mais da metade da gestão peemedebista em Santa Catarina. O governo explicitava finalmente a impossibilidade de uniformizar o seu propósito de governo nesta área após consumido metade do mandato, abdicando de realizar, a partir daquele momento, qualquer movimento mais articulado de intervenção política na estrutura setorial.
O Coordenador de Planejamento da Secretaria da Saúde da época assim colocou a questão dos limites da proposta apresentada:
"Na verdade a proposta do Martinho foi a proposta do governo, ou seja, foi a proposta que ele conseguiu negociar com o govemo. E não passaria nem essa reforma. E exatamente por conta daquele segundo obstáculo, um poder extra-setorial que se colocava ao nível do palácio de govemo e que impedia qualquer avanço. E era uma barreira certamente construída e municiada a partir dos interesses da Associação Catarinense de Medicina, da Associação Catarinense de Hospitais e da própria Fundação. Foi construída lá uma barreira fora da Secretaria. Nós não a superaríamos."243
242 SERRANO, Alan índio e PINA, Orasil Coelho. Com unicação ao autor. Esta versão do episódio, incluindo ainda a determinação do Governador de que o novo orgão tivesse administração direta foi também relatada por Biaze Knoll a DA ROS, Marco. Um dram a estratégico: o movimento sanitário e sua expressão num município de Santa C atarina. Dissertação de mestrado. ENSP/Fio Cruz, 1991, p. 242.
Os depoimentos de alguns atores sociais do período salientaram outro rol de questões, como a ausência de unidade de propósitos e o descompromisso puro e simples do governo com a proposta da reforma sanitária.
"Na verdade, naquele momento, na relação estado-União, eu acho que o estado, através de seus dirigentes, não compreendia o princípio da universalização, da construção do sistema único. Eles não estavam se apercebendo disso. Só queriam, ou vislumbravam apenas a questão dos recursos, mas não os compromissos que adviriam da construção de um sistema unificado, descentralizado. Então o que a gente depreendeu daquele momento das discussões
i • n244
em todos os momentos, era isso.
"Na verdade a gente era apenas um ator secundário, num estado desmantelado pelo crescimento intenso das suas atribuições. Então o período que a gente vivenciou foi um momento extremamente difícil. A equipe não era harmônica, os dirigentes não eram comprometidos com a proposta, não havia coerência entre o que se propunha e o que se executava. Então foi extremamente difícil a gente conseguir alcançar objetivos"245.
"Na minha avaliação, a questão da unificação das três estruturas - da Secretaria, do DSP e da Fundação - era uma proposta restrita a um grupo de interesse ao qual eu me incluo. Porque a proposta de unificação, na minha avaliação, nunca foi proposta do govemo. Ela foi proposta desse grupo de pessoas, que avaliando como as coisas caminhavam, avaliando a discrepância que existia entre recursos do DSP e recursos da Fundação, propunha que houvesse modificações estruturais. Ou seja, uma estrutura única que administrasse os seus vários braços. E por isso ela não houve. Além disso, não acontecendo a reforma no começo do govemo, onde se teria mais quatro anos para consertar qualquer reação que houvesse, não ia ocorrer no segundo ano, e no terceiro muito menos, porque 89 já era o terceiro ano de govemo. Ou seja, o desgaste que o govemo corria acabaria não dando nenhuma chance de reeleição, que sempre existe essa preocupação na cabeça dos homens. Em síntese: não era a proposta de govemo, foi proposta do grupo que trabalhou na questão da saúde e não foi encampada já de início. A proposta nasceu morta."246
Do lado da defesa corporativa, vários depoimentos explicitaram os movimentos intra-institucionais que se posicionavam com relação à proposta:
"O pessoal dizia: vamos extinguir a Fundação. O resto respondia: mas tem uma Lei que criou. Todo mundo andava com aquele negócio debaixo do braço - não pode extinguir. A Secretaria ameaçava: nós vamos extinguir porque é proposta de govemo. Então ficavam esses dois grupos brigando, quando na realidade a briga não era prá acabar com a Fundação, mas prá criar o SUS"247.
"O Dr. Aurélio, como pessoa era formidável, homem direito, mas realmente a minha solicitação da sua saída foi em função de ele não querer. O Aurélio não era partícipe do SUS. Ele
VTANNAFILHO, Abelardo. Entrevista ao autor. 1993. 245 BARATIERI, Ricardo. E ntrevista ao autor. 1993. 246 LOCKS, Maria Tereza. Entrevista ao autor. 1992. 247 BONASSIS, João Batista. Entrevista ao autor. 1993.
representava aqueles que achavam que a Fundação deveria permanecer, deveria continuar como Fundação. Mas que o Aurélio realmente não via o SUDS, e eu não tenho contra a pessoa do Aurélio absolutamente nada, só que ele mesmo dizia que ele objetivava melhorar a Fundação, fazer com que a Fundação fosse bem administrada, tivesse sucesso, mas não queria a sua extinção. Ele queria a permanência da Fundação, ou seja, ele obstaculizava a unificação, que era um objetivo de govemo"248.
A reforma administrativa, entendida pelo grupo que conduzia o processo de transformação setorial como um pré-requisito importante para o avanço da proposta, em meio a tantos interesses contraditórios e à falta de uma vontade política suficientemente acumulada de poder para concretizá-la, colocou-se como tantos outros projetos sem paternidade definida nos labirintos burocráticos da máquina pública: foi esquecida e deixou de fazer sentido poucos meses depois, sendo retirado da Assembléia antes de submetido à análise legislativa. O próximo capítulo tentará aprofundar o entendimento deste processo, que explicitou algumas formas de ação seletiva da máquina pública, privilegiando alguns interesses em detrimento de outros.
125
8. ALGUNS TÓPICOS PARA DISCUSSÃO: REFORMA ADMINISTRATIVA,