1 INTRODUÇÃO
1.5 ESTRUTURA DA TESE
Esta tese está estruturada em cinco capítulos. O Capítulo de Introdução contém a apresentação do tema e do problema de pesquisa estudado, a proposição central da tese, os objetivos geral e específicos e as justificativas teórica e prática. O segundo capítulo propõe os fundamentos teórico-empíricos, discorrendo sobre os seguintes tópicos: (1) instituições, organizações e contextos, que trata das dimensões contextuais institucional e relacional, além de situar os APLs enquanto redes interorganizacionais; (2) a nova vertente do institutional work e seus fundamentos; (3) o conhecimento em organizações e sua difusão em redes interorganizacionais.
18 Machado (2003) propõe que a evolução dos APLs pode ser dividida em quatro fases: nascimento/embrionário, crescimento, maturidade e pós-maturidade, sendo que nesta última fase, o APL pode sofrer declínio ou haver mudança nas tendências para manter sua sustentabilidade.
Após a revisão da literatura, o terceiro capítulo apresenta os procedimentos metodológicos utilizados, com as categorias de análise envolvidas e suas definições constitutivas e operacionais e de outros termos relevantes. O capítulo apresenta também o delineamento de pesquisa adotado, a descrição da população de organizações e das amostras pesquisadas, a forma como os dados foram coletados, bem como as facilidades e dificuldades encontradas. No desfecho do capítulo, estão descritos os tratamentos efetuados sobre os dados e as limitações da pesquisa.
O Capítulo 4 apresenta, em seu início, a descrição global da amostra coletada e as características do modelo prescrito de APL que foi induzido nos arranjos alvos de políticas públicas. Em seguida, os três casos são apresentados, com a descrição respectiva dos contextos institucional e relacional. Em cada caso, é realizada a análise qualitativa, a partir dos dados coletados na primeira fase da pesquisa com o dimensionamento dos constructos envolvidos. Tal análise é complementada pela análise quantitativa, operacionalizada na sequência, que permitiu o teste de hipóteses e a determinação da consonância e/ou dissonância dentro e entre os três APLs investigados. No desfecho do capítulo, é apresentada a análise comparativa entre os três casos de modo a se confrontar os dados empíricos com os pressupostos teóricos que embasaram a pesquisa. E, finalmente, no último capítulo, apresentam-se as principais conclusões e contribuições alcançadas pelo trabalho de tese, bem como algumas recomendações e sugestões para estudos futuros.
Os fundamentos teórico-empíricos apresentados neste Capítulo dão suporte à presente tese, revisam e analisam a literatura sobre os tópicos envolvidos, de modo a subsidiar a elaboração do problema de pesquisa e, juntamente com a análise de dados empíricos, possibilitaram a formulação das hipóteses que são testadas ao longo do trabalho. Tais hipóteses são apresentadas nesta base teórica e os resultados da análise empírica foram obtidos com base nos dados qualitativos e quantitativos que constam do Capítulo 4 de Apresentação e Análise dos Dados.
A conformação do conhecimento difundido num determinado campo organizacional está, de algum modo, relacionada com os tipos de institutional work que são realizados naquele campo. A partir da visão dos atores imersos num campo organizacional é possível construir uma investigação que dimensione o fenômeno da institucionalização dessas práticas, levando-se em conta os contextos institucional e relacional.
Na sequência, são apresentados os fundamentos dos contextos em que se inserem os arranjos pesquisados de modo a se compreender a relação deles com as ações sociais e com o conhecimento difundido no nível micro para, em seguida, situar, no âmbito da teoria institucional, a nova vertente do institutional work que é a abordagem norteadora do trabalho.
2.1 INSTITUIÇÕES, ORGANIZAÇÕES E CONTEXTOS
As considerações a seguir se referem às condições vigentes num determinado contexto. Esse é um aspecto importante na análise institucional, uma vez que a ênfase na microanálise proposta deve levar em conta as instituições vigentes, as condições econômicas e relacionais que afetam o institutional work e o conhecimento difundido em redes interorganizacionais como os APLs, ou seja, esses contextos já existiam antes de os APLs serem implementados. Desta forma, é pertinente considerar essa influência no modelo de análise da presente tese.
Na teoria institucional, os norteadores das práticas sociais são as instituições que modelam e conferem certas probabilidades maiores de ação em detrimento de outras. Não se afirma que há pré-determinismo, ou seja, que as coisas vão acontecer de determinada maneira, independente da vontade dos atores sociais, e sim que eles nascem numa realidade institucionalizada com tipificações que dizem como as coisas devem ser.
Scott (2008) ressalta que a análise institucional foi inicialmente encabeçada por Émile Durkheim e Max Weber. Durkheim estava preocupado em entender as bases variáveis da ordem social, mas parece ter mudado sua visão ao longo do tempo. Weber (1994), embora não tenha empregado explicitamente o conceito de instituição, seu trabalho é permeado com a preocupação em entender as formas como as regras culturais definem as estruturas sociais, estando atento aos efeitos mais gerais das forças institucionais modelando e apoiando diferentes sistemas administrativos. Dessa forma, Scott considera a influência destes pensadores em sua obra.
Scott (2008) distinguiu, para as várias vertentes de análise institucional, os pilares institucionais regulativo, normativo e cultural-cognitivo como elementos que sustentam as instituições e que explicam melhor o relacionamento entre as organizações e o seu ambiente.
Analiticamente, esses elementos foram separados e seletivamente enfatizados por diferentes teóricos, contribuindo significativamente para um maior desenvolvimento da teoria institucional. Scott (2008, p. 48) definiu instituições como “estruturas e atividades cognitivas, normativas e regulativas que fornecem estabilidade e significado ao comportamento social.
Instituições são disseminadas por vários carriers – culturas, estruturas e rotinas – e elas operam em múltiplos níveis de jurisdição”.
Meyer e Rowan (1977) observaram que valores institucionalizados na sociedade permeiam as estruturas e formas organizacionais, destacando que a análise de aspectos instrumentais deve ser enriquecida com a presença de elementos culturais e simbólicos no estudo organizacional. As organizações são direcionadas para incorporarem as práticas e os procedimentos definidos por conceitos racionalizados predominantes e institucionalizados na sociedade. Assim, as organizações aumentam sua legitimidade e sua perspectiva de sobrevivência independente da eficácia imediata das práticas e procedimentos adquiridos.
Deste modo, o contexto institucional se refere ao conjunto dos elementos ambientais de natureza institucional e técnica que envolve as organizações e com o qual elas interagem.
Pode apresentar-se em três níveis: local/regional, nacional e internacional, formando, assim, o contexto institucional de referência adotado por uma organização (SCOTT, 1992; GUARIDO FILHO; MACHADO-DA-SILVA, 2001; GREENWOOD et al., 2008; MACHADO-DA-SILVA; FONSECA, 2010a), uma vez que os dirigentes, ao definirem suas ações, levam em conta o nível do contexto. A referência de mundo dos atores sociais imersos nos APLs permite explicar, por meio da microanálise, porque certas condições circunstanciais em cada caso afetam a situação de modo específico e como a interação entre eles ajudou a reforçar a adoção de certos padrões.
A influência do contexto institucional sobre as organizações pode conduzir a um fenômeno denominado de isomorfismo, que consiste na tendência de as organizações assemelharem-se a outras, dentro de uma população, quando submetidas a um mesmo conjunto de condições ambientais. DiMaggio e Powell (1983) descrevem três tipos de pressões institucionais – mecanismos institucionais – que levam a mudanças isomórficas, denominadas de coercitivas, normativas e miméticas.
O isomorfismo coercitivo resulta de pressões formais e informais exercidas sobre uma organização pelo Estado, por outras organizações, ou ainda por expectativas culturais da sociedade, das quais ela é dependente. Assim, a organização é obrigada a adotar estratégias similares às outras do mesmo setor, decorrentes de pressões e expectativas dessas entidades, que impõem mecanismos de regulação (regras, leis e sanções) sobre suas atividades.
O isomorfismo normativo decorre do processo de profissionalização que tende a tornar as condições e os métodos de trabalho mais homogêneos, a partir de interpretações e modos de atuação comuns em face das exigências organizacionais. Esse processo leva as organizações a adotarem padrões de atividade semelhantes, para assegurar aos profissionais os mesmos benefícios oferecidos pelas organizações concorrentes.
E, por fim, as organizações podem perceber que, quando submetidas a ambientes de incerteza e ambiguidade, a melhor forma de agir é imitar organizações tidas como modelo de sucesso, gerando o isomorfismo mimético. Carstens e Machado-da-Silva (2006) mencionam que as organizações que utilizam as mesmas práticas usadas por outras, são vistas pelos reguladores e pela sociedade em geral como sendo mais legítimas do que as organizações que adotam um comportamento fora do que consideram natural ou habitual. Meyer e Rowan (1977) lembram que, independentemente de sua produção eficiente, as organizações imersas em ambiente altamente institucionalizado, têm sucesso tornando-se isomórficas a esses ambientes, o que garante a legitimidade e os recursos necessários para a sua sobrevivência.
O trabalho de Gonçalves (2006, p. 98), contudo, demonstra que “dimensões organizacionais distintas apresentam níveis de isomorfismo distintos, principalmente quando considerados em relação à totalidade organizacional”, e desta forma, “os mecanismos isomórficos, que são tratados na literatura como deterministas, são, ao contrário, responsáveis pela manutenção da diversidade organizacional” (ibid., p. 103). O autor constatou que o processo isomórfico nunca será totalmente homogêneo ou divergente, podendo variar de acordo com as características do campo.
Isto contrasta com a afirmação de DiMaggio e Powell (1983) sobre as organizações serem pressionadas pelo ambiente a fim de se tornarem mais homogêneas, configurando o
conceito de isomorfismo, podendo resultar tanto de demandas competitivas técnicas quanto de demandas institucionais. Machado-da-Silva et al. (2005) consideram que, embora se reconheça que forças isomórficas pressionam as organizações para a conformidade e homogeneização, isso não significa que elas estejam atadas quanto à sua capacidade de ação.
Para esses autores, a autonomia e a diversidade organizacional podem ser entendidas a partir da análise da recorrência processual entre estrutura, agência e interpretação, em relação a cada organização ou a uma rede ou conjunto de organizações (MACHADO-DA-SILVA;
GUIMARÃES, 2005).
Dessa forma, é preciso visualizar as dimensões do contexto institucional para melhor compreender como as instituições influenciam (e não exatamente determinam) as ações de atores imersos nesse contexto.
2.1.1 Dimensão Ambiental Institucional
O ambiente institucional diz respeito a regras e procedimentos socialmente elaborados que vigoram num determinado contexto social, entendidos como guias para a ação que, sob a devida conformidade da organização, lhe proporcionam legitimidade e suporte contextual (GUARIDO FILHO; MACHADO-DA-SILVA, 2001; SCOTT, 2002;
MACHADO-DA-SILVA; FONSECA, 2010a).
Scott (2008) atribui pesos iguais aos elementos institucionais – regulativo, normativo e cognitivo – e ressalta a importância de identificar as condições que caracterizam determinado tempo e lugar e que influenciam a forma, o funcionamento e a legitimidade das organizações. O Quadro 1 resume os três pilares.
O pilar institucional regulativo é o mais convencional e é consistente com a perspectiva realista social em que os atores têm interesses naturais que eles perseguem racionalmente. Esta visão racional enfatiza que os indivíduos são instrumentalmente motivados a tomar decisões de acordo com a lógica utilitarista de custo-benefício. O estabelecimento de leis e regras impõe sanções (punições ou prêmios) ao comportamento dos membros da organização, logo, o mecanismo institucional de controle é coercitivo. As manifestações da estrutura institucional regulativa, são mais fáceis de serem observadas, pois normalmente se expressam por elementos explícitos formais e coercitivos (SCOTT, 2008).
Segundo o autor, embora o conceito de regulação evoca visões de repressão e restrição, muitos tipos de regulamentos prevêem permissões, conferindo licenças, poderes especiais e benefícios para alguns tipos de atores.
Os processos de regulação envolvem a capacidade de estabelecer regras, fiscalizar a conformidade dos outros e, se necessário, manipular sanções [...], numa tentativa de influenciar o comportamento futuro. Esses processos podem operar por meio de mecanismos informais e difusos, envolvendo tradições [...], ou eles podem ser altamente formalizados e atribuídos aos atores especializados, tais como a polícia e os tribunais (SCOTT, 2008, p. 52).
Quadro 1 – Pilares Institucionais e suas Ênfases
Regulativo Normativo Cognitivo
Base de submissão Obediência Obrigação social Admitido como certo
Mecanismos Coercitivo Normativo Mimético
Lógica Instrumental Conformidade Ortodóxica
Indicadores Regras, leis e sanções Certificação e credibilidade
Predomínio e Isomorfismo Base de legitimidade Legalmente sancionado Moralmente governado Culturalmente sustentado e
conceitualmente correto Fonte: Adaptado de Scott (2008, p. 51).
O pilar institucional normativo, por sua vez, ressalta a importância dos valores e das normas sociais como mecanismos institucionais, bem como aspectos morais e alinhamento cultural, que podem dificultar a implementação de certas ações e incentivar outras, determinando, muitas vezes, metas e objetivos para a organização e a forma adequada para alcançá-los. Segue, portanto, uma lógica de conformidade orientada por uma base moral fundamentada no contexto social e que leva à legitimidade (SCOTT, 2008).
Os valores são concepções do que é preferível ou desejável, em conjunto com a construção de padrões para os quais as estruturas ou comportamentos existentes podem ser comparados e avaliados. As normas especificam como as coisas devem ser feitas, pois definem os meios legítimos para perseguir os fins valorizados. Sistemas normativos são geralmente vistos como a imposição de restrições sobre o comportamento social e, ao mesmo tempo, capacitam e habilitam a ação social, pois conferem direitos, responsabilidades, privilégios, funções, licenças e mandatos (SCOTT, 2008, p. 54-55).
Já o pilar institucional cognitivo apresenta uma lógica de ação decorrente de um conjunto de conhecimentos culturalmente sustentados e socialmente aceitos que fundamentam aquilo que os membros de uma organização concebem como realidade. A lógica de ação é a convicção de que as rotinas são seguidas por serem consideradas certas (taken for granted), sendo que a legitimidade decorre da adoção de um referencial comum para definir as situações. A compreensão ou a explicação de alguma ação exige a consideração de condições objetivas, bem como a interpretação subjetiva do ator (SCOTT, 2008).
A noção de realidade socialmente construída do pilar cognitivo (BERGER;
LUCKMANN, 2005) coloca a interpretação como um elemento mediador em função dos valores e das crenças subjacentes ao cálculo da ação e a relação que se estabelece entre a cognição dos membros organizacionais e o ambiente (GONÇALVES, 2007). Na visão cognitiva da ação, “o pressuposto fundamental é que existe um conjunto de crenças e valores comuns que permeia as visões e as interpretações individuais e representa um sistema cognitivo compartilhado, possibilitando, assim, que se fale em cognição do grupo ou da organização” (ibid., p. 3). As instituições são frequentemente definidas como fenômenos que são auto-reproduzidos por meio de veículos condutores, quer devido ao status dado como certo (PHILLIPS; MALHOTRA, 2008; SCOTT, 2008), quer por causa de sua associação com mecanismos normativos e regulativos que garantem a sua sobrevivência (JEPPERSON, 1991;
LAWRENCE, WINN; JENNINGS, 2001).
Scott (2008) coloca que a difusão entre organizações no nível do campo se dá por meio de condutores institucionais (carriers), tanto para a manutenção das instituições vigentes como para a institucionalização ou interrupção de padrões num campo organizacional ou no interior das organizações. Carriers, segundo Scott (2008), são veículos materializados que carregam consigo um padrão ou uma prática, como por exemplo: vínculos numa rede social, participações em eventos e boas práticas (JEPPERSON, 1991). O uso de uma nova tecnologia ou conhecimento, enquanto carrier, pode institucionalizar ou desinstitucionalizar práticas.
Outro fenômeno é a reinstitucionalização quando se retomam padrões abandonados. O Quadro 2 apresenta a relação entre os carriers e os pilares institucionais.
Scott (2003) elenca quatro tipos de carriers: (1) sistemas simbólicos, que incluem um vasto leque de regras, valores e normas, classificações, representações, modelos e esquemas que guiam o comportamento dos atores; (2) sistemas relacionais, que são redes de relacionamento social compartilhadas pelas organizações, podendo levá-las a um isomorfismo estrutural (formas similares) ou uma equivalência estrutural (relações similares entre posições sociais pelo princípio de homofilia1); (3) rotinas, que são condutores que dependem das ações padronizadas que refletem o conhecimento tácito dos atores sociais e envolvem padrões repetitivos de atividades, contemplando o aprendizado de modos de agir e de resolver problemas e (4) artefatos, que são objetos distintos, produzidos ou transformados conscientemente pela atividade humana, sob a influência de um ambiente físico e/ou cultural.
1 Atores imersos numa rede social com atributos em comum tendem a formar vínculos sociais mais fortes, ou seja, semelhança gera relação. Segundo McPherson, Smith-Lovin e Cook (2001), as distâncias em termos de características socioeconômicas e culturais se traduzem em distâncias relacionais – o que corresponde ao princípio de homofilia, segundo o qual, similaridade social produz conexões sociais.
Quadro 2 – Carriers e os Pilares Institucionais
Carriers Pilares
Regulativo Normativo Cultural-Cognitivo
Sistemas Simbólicos
Leis e regras Valores e expectativas Categorias, tipificações e esquemas de maneira divergente ou de maneira convergente, ou seja, essa classificação analítica permite compreender um leque de mecanismos pelos quais ideias se movem através do tempo e do espaço e ainda quem ou o que está transportando-as. Considerando que o ambiente institucional é construído socialmente, os carriers não podem ser considerados modelos neutros de transmissão, pois este conteúdo é afetado pela interpretação e pela recepção da sua mensagem. Assim, deve-se considerar que as ideias e os artefatos movem-se de tempo em tempo e de lugar para lugar, e que são alterados, modificados e sofrem influência de outras ideias e de outras interpretações, num ciclo imperfeito de reprodução.
Scott (2003, 2008) ressalta que as organizações estão inseridas num ambiente institucional podendo incorporar elementos institucionais e são conduzidas, sob a forma de carriers, na reprodução social, permitindo dessa forma a institucionalização das formas organizacionais em variados graus.
Analiticamente, os três pilares são elementos separados e foram seletivamente enfatizados por diferentes teóricos. Uma consequência disso tem sido a cristalização das duas abordagens nascentes dos anos 1980 (instituições como modelos culturais e instituições como marcos regulatórios), e, preocupantemente, uma desconexão crescente entre elas, diante de ênfases econômicas ou políticas concentradas num determinado pilar. Na prática, como Scott reconheceu mais tarde, os três pilares são frequentemente encontrados juntos, mas o pilar cultural-cognitivo fornece os fundamentos mais profundos das formas institucionais, como uma infraestrutura em que não só crenças, mas as normas e regras se apóiam.
É inegável que os fatores ambientais interferem continuamente nas organizações, de modo que os seus processos internos não estão imunes às influências de um contexto mais amplo que as circundam. Segundo Scott (2008, p. 178), “organizações são afetadas e até
mesmo penetradas, por seus ambientes, mas elas também são capazes de responder a estas influências atuando criativa e estrategicamente”.
A tendência à homogeneização não exclui a competição, de modo que existe espaço para uma postura proativa da organização sobre o seu ambiente, visando ao alcance de objetivos (MACHADO-DA-SILVA; FONSECA, 2010a). Tal pressuposto é válido em APLs e essa concepção possibilita uma análise que pode abranger tanto aspectos relativos à ação quanto à interpretação, ou seja, admite que as organizações criam uma representação de seu ambiente e que possuem a capacidade de modificá-lo, ressaltando a interdependência do ambiente e da organização (SCOTT, 1992). Assim,
Hipótese 1: As instituições vigentes no ambiente institucional dos APLs reforçam a implementação do modelo APL via institutional work dos atores sociais imersos2. Encarar as organizações como socialmente imersas no contexto ambiental (POLANYI, 1944) pressupõe, de acordo com Machado-da-Silva e Fonseca (2010b, p. 72)
“redirecionar o raciocínio no sentido de [...] que as propriedades do nível macro da relação entre organização e ambiente geram efeitos recíprocos no nível micro da conduta organizacional”. Dessa forma, a Hipótese 1 é construída como algo provável e não determinante. Em relação ao ambiente técnico, tal constatação também é válida.
2.1.2 Dimensão Ambiental Técnica
Scott (1992) enfatiza que existem vários ambientes institucionais, uma vez que as convicções culturais variam não apenas entre as sociedades, mas também entre setores organizacionais. Esses ambientes podem ser criados por um grupo de organizações, como é o caso da governança de um APL, que detém o controle de recursos e a autoridade, ou ainda por influência do Estado, de ocupações profissionais, de sindicatos e associações comerciais.
Todas as organizações, em maior ou menor grau, sofrem influência de dois ambientes: o técnico e o institucional que devem ser tratados como dimensões, ao longo das quais o ambiente varia, conforme mostra o Quadro 3.
O ambiente técnico caracteriza-se pelo espaço de competição na ótica econômica, cuja dinâmica de funcionamento desencadeia-se por meio da troca de bens e serviços, de modo que as organizações que nele se incluem são avaliadas pelo processamento
2 As categorias analíticas que se referem ao microprocedimento da institucionalização, como é o caso da
2 As categorias analíticas que se referem ao microprocedimento da institucionalização, como é o caso da