enquanto, tem sido gerada e modelada por elas. Aqui ocorre um fenômeno no qual, nesse mesmo processo, retroalimentam-se as formas de poder e dominação social, dado que o capitalismo desta época racionalizou as relações sociais segundo as bases materiais da sociedade e o desenvolvimento das diferentes fundamentações ideológicas e éticas do protestantismo. Pois bem, a ciência espalha seu resultado baseado nas opções racionais- experimentais segundo o contexto, o que torna indispensável compreender o contexto no qual se desenvolverá, ou seja, conhecendo quase por completo a área de atuação dos projetos científicos, ajustados à forma de crescimento e controle de interesses dos processos.
Baseado nesses contextos de atuação nos quais operam na lógica dominante da sociedade, a acumulação e o poder estão inseridos em uma racionalidade da ciência nos contextos cotidianos. Por isso, sempre existe uma inovação permanente, como espécie de “linha de fuga”. A sociedade sempre procurando ter uma harmonia na relação fins racionais e acumulação, para conseguir a sua vez, eficácia e eficiência na produção do conhecimento passando dos meios aos fins.
Enquanto, a práxis no conhecimento e na sociedade têm uma ação que se dá em um contexto. Uma das maneiras frequentes de ampliar e recuperar esse contexto é ver ao ser humano segundo a tecnologia e ali, dessa maneira, atuar nos mais variados cenários.
A tecnologia aparece nesta visão como a aplicação de um campo específico do quefazer, e portanto, é limitada, enquanto faz referência das aplicações que se dão em diferentes esferas da ação humana. Assim, a tecnologia atual, é fruto do desenvolvimento
da sociedade capitalista, centrada sobre essa racionalidade orientada aos fins, produzindo que existam múltiplos interesses sobre a tecnologia tornando-a um objeto legitimador do domínio da aqueles que a controlam. Este domínio tenta ser afastado pela ideologia do progresso tecnológico ilimitado, tornando-se a tecnologia um fator de produção e elemento ideológico, orientado pela relação de poder que lhe dá sentido. Ora, entrando na filosofia da tecnologia, Ihde(1998) coloca em manifesto esta concepção.
Podemos considerar que o cientificismo está superado. Faz algum tempo que diferentes posições doutrinais (alguma bem divergentes entre si) incidirem no problema da mitificação da ciência como algo similar a um saber absoluto capaz de substituir à antiga filosofia prima92
mediante uma nova metodologia que, com tudo, mantem a mesma atitude mistificada dessa mesma filosofia. Porém, o processo de desmitificação há testado não ser suficiente. Algo tão obvio como a preeminência da técnica a respeito da teoria segue sendo silenciado. Por isso, Ihde (2012) no livro Technics and Praxis, mantem hoje seu interesse e vigência apesar de ter sido escrito há mais de 36 anos. Esta tentativa para perfilar uma filosofia da tecnologia que incluía desde sua caraterização até uma elucidação de suas estruturas não-variantes, passando pelo papel fundamental na relação homem-mundo, seria contudo, algo atrativo desde qualquer olhar. Nos trabalhos prévios,
Ihde (2012b), parte desde uma perspectiva não teórica e fenomenológica, em que a visão da tecnologia seria similar a visão heideggeriana, na qual impede o autor tomar em consideração temas tipicamente husserlianos como por exemplo, a Lebenswelt, a percepção como modo originário do conhecer ou a variação eidética com o fim de coincidir com os objetivos propostos.
Ihde (2012) fornece ao leitor uma série de conclusões muito interessantes. Em primeiro lugar, constata a não-neutralidade da tecnologia na relação homem-mundo; o instrumento media toda experiência. A sua vez, as relações que se podem dar entre os elementos do trinômio homem-tecnologia-mundo são submetidas como uma tipificação. Por uma parte, teríamos as relações de “incorporação”, nas quais experimenta-se o mundo mediante o uso de instrumentos e nas que, no marco de seu mesmo uso, o próprio instrumento se “rascunha”. Assim, por exemplo, o dentista tem noção do dente do paciente mediante o uso de sua sonda dental e, nesse uso, esta torna-se uma espécie de “prolongação” corporal; somos mais conscientes do que experimentamos que do instrumento com que o experimentamos. No segundo lugar, aparecem as relações hermenêuticas, nas que se faz necessária uma interpretação dos dados fornecidos pelo instrumento; pois, necessitamos interpretar o instrumento para “ler” o mundo quando comprovamos as leituras que lança ao exterior um aparato medidor de temperatura que situamos em uma habitação fechada ou quando enfrentamos as fotografias obtidas graças a um potente microscópio eletrônico. Obviamente, o primeiro tipo de experiência hermenêutica é testável corporalmente mas o
92 Aristóteles (2002) em seu livro “Filosofia Primeira”, chamou o que hoje conhecemos com o nome de
Capítulo 1. Falemos sobre tecnologia como... 134
segundo não. Isto propõe uma bivalência na estrutura invariável de toda relação técnica especificada pelo binômio melhoramento-perdida com respeito à relação corporal. Mas a análise de Ihde, não se detém ali e tenta supra valorar as ganâncias enquanto minimizamos as perdas, o que nos leva a cair no realismo instrumental. A neutralidade do instrumento é resultado de sua mesma intencionalidade, exercitada em virtude de um fim (telos) com caráter constituinte (como se observará, a terminologia é totalmente husserliana, só que foi trasladada do ego ao instrumento).
Segundo Ihde (2012) ao constatar a existência de um mundo instrumentalmente constituído frente a (ou lado da) realidade ordinária. Obviamente, o perigo do realismo instrumental reside em tomar o mundo instrumentalmente constituído pelo mundo real, já que tal mundo instrumental tende a ser unidimensional devido a o que a tecnologia pode supor de perdas sensoriais (pensemos no telefono como instrumento mono-sensorial, por exemplo). Mas com isso não pode constatar a presença do instrumento como ingrediente desse mesmo mundo ordinário.
Se na relação de “incorporação” o instrumento se “rascunha” e na hermenêutica se converte em um quase-outro, na chamada por Ihde (2012) “relação de transfundo” o instrumento passa (dentro de uma sociedade tecnificada como a nossa) a ser parte da textura geral de nossas vidas, a nosso mundo, ou se quisermos expressá-lo husserlianamente, passaria a integrar nosso mundo-da-vida concreto. É neste ponto em que Ihde(2012) faz entrar no mundo da reflexividade: a “imagem” que nós fazemos do mundo repercute na mesma imagem que de nós temos (e isto com tanto que estamos nesse mundo).
Assim, pois, se em certo grau percebemos o mundo tecnologicamente e em tanto que a tecnologia é parte de sua textura, esta reverte-se sobre nós mesmos. Contudo, leva a Ihde (2012) e especialmente em Ihde (2010), da mão de Heidegger, que a relação que mantemos com a tecnologia é de tipo existencial e que mediante ela o mundo se desvela segundo a categoria de reserva que-está-ali (standing reserve) para sua utilização a disposição do desenvolvimento técnico. Ihde nos recomenda exercitar uma crítica que nos livre do reducionismo tecnológico, embora não se mostra excessivamente partidário do desenvolvimento da heurística do medo como a proposta feita pelo Jonas ao supor que isto pode embaçar o caráter essencial da técnica com respeito à humanidade.
Por outra parte, Ihde (2010) (apoiando-se também em Heidegger) dá um golpe ao cientificismo: a práxis (a práxis técnico-tecnológica neste caso) tem como função o estrato básico através do qual o mundo é revelado e como terreno básico desde o que as ciências podem emergir (como processos de desenvolvimento teorético do ente-presente, em terminologia heideggeriana). Contudo, pode ser uma clarificação histórica desta afirmação assim como uma adequada diferenciação entre técnica e tecnologia que a complemente. Em certa medida ambos pontos funcionam implicitamente ao longo da obra, mas sua explicitação poderia haver dotado a Technics and Praxis de uma ainda maior profundidade.
Capítulo
2
Tecnohumanismo
Um problema histórico da filosofia da tecnologia é que não só há nascido algo retrasada, senão que ademais, não há surgido de uma concepção única. A filosofia da tecnologia se há gestado como um par de gêmeos que exibem um bom número de rivalidades aparentadas desde a matriz. A “filosofia da tecnologia” pode significar duas coisas completamente diferentes. Quando “da tecnologia” toma-se como genitivo subjetivo, indicando qual é o sujeito ou agente, a filosofia da tecnologia é uma tentativa dos tecnólogos ou engenheiros por elaborar uma filosofia da tecnologia. Quando “da tecnologia” toma-se como um genitivo objetivo, indicando o objeto sobre o que trata, então a filosofia da tecnologia alude a um esforço por parte dos filósofos por tomar seriamente à tecnologia como um tema de reflexão sistemática. A primeira tende a ser mais benévola com a tecnologia, a segunda, mais crítica e interpretativa (MITCHAM, 1994, p. 17)93.No começo do século XX, a filosofia destaca-se por refletir sobre a técnica como se desdobra na citação anterior. Sendo concordantes com esta postura, existem duas tradições na filosofia da tecnologia, a primeira, a saber respondem a questões mecânicas e de manufatura denominada filosofia da tecnologia que compete aos engenheiros e a segunda, é a filosofia da tecnologia das humanidades, que seria própria da reflexão filosófica. Esta divisão for mantida por os principais autores sobre esta temática tais como,Mitcham
(1994), Rueda (2007),Sarsanedas (2015) e será a posição teórica que retomarei para esta tese desenvolvendo o segundo fotograma proposto na introdução.
Fazendo um uso de uma das metodologias utilizadas nesta tese, trago a hermenêutica para analisar em primeiro Technic and Civilization (1934) de Lewis Mumford como história
93 One historical complication in the birth of the philosophy of technology is that not only was it somewhat
overdue, it was not even the outgrowth of a single conception. The philosophy of technology gestated as fraternal twins exhibiting sibling rivalry even in the womb. “Philosophy of technology” can men two quite different things. When “of technology” is taken as a subjective genitive, indicating the subject or agent, philosophy of technology is an attempt by technologists or engineers to elaborate a technological philosophy. When “of technology” is taken as an objective genitive, indicating a theme being dealt with, the philosophy of technology refers to an effort by scholars from the humanities, especially philosophers, to take technology seriously as a theme for disciplined reflection. The first child tends to be more pro-technology and analytic, the second somewhat more critical and interpretative.
Capítulo 2. Tecnohumanismo 136
da técnica, o segundo texto La meditación sobre la técnica (1939) de José Ortega e Gasset no qual, apresenta a técnica como uma tragicomédia, pois tudo o que podemos imaginar pode-se tornar realidade e, portanto, seus produtos podem ter tanto efeitos positivos (comédia), como negativos (tragédia); o terceiro texto, Die frage nach der technik (1953), em que Marin Heidegger realiza uma importante contribuição expondo sua preocupação sobre a verdadeira essência da técnica desde um aspecto metafisico e um quarto texto, La technique ou l’enjeu du siècle de Jacques Ellul, no qual se expor principalmente a primeira parte do texto, deixando o problema técnico como um conjunto para ter consciência de sua importância nas reflexões atuais da sociedade tecnológica.
Para finalizar esta breve introdução à temática citarei a Jhon Zerzan, que desde a anarquia apresenta uma das perspectivas mais críticas e revolucionarias a respeito da tecnologia, em que propondo uma volta ao primitivismo, afirmando que, o ser humano era um simples coletor-caçador, era muito mais feliz do que na atualidade.
A divisão do trabalho, que tanto contribuiu para nos submergir na crise global de nosso tempo, atua cotidianamente para impedir-nos de com- preender a origem do horror atual. Mary Lecron Foster (1990) e outros acadêmicos afirmam, com muito eufemismo, que, hoje em dia, a antropo- logia está “ameaçada por uma fragmentação grave e destrutiva”. A voz de Shanks e Tiley (1987b) faz eco de um problema similar “o objetivo da arqueologia não é somente interpretar o passado, senão transformar a maneira de interpretá-lo em benefício da reconstrução social atual”. Evidentemente, as ciências sociais, por si mesmas, limitam a perspectiva e a profundidade da visão necessária que permitiriam uma reconstrução como esta. Em termos das origens e do desenvolvimento da humani- dade, o leque de disciplinas e subdisciplinas cada dia mais ramificado -antropologia, arqueologia, paleontologia, etnologia, paleontologia, etno-
antropologia etc. refletem a restrição, o efeito mutilador que a civilização personificou desde o seu começo94 (ZERZAN,2012, p. 3).