A presente tese, intitulada “Antônio Rolim de Moura e as representações da paisagem no interior da colônia portuguesa na América: (1751-1764)”, foi dividida em três partes.
No capítulo “Representações dos caminhos descritos por Antônio Rolim de Moura no interior da colônia portuguesa”, são problematizadas as imagens construídas pelo Governador em 1751, quando teve a oportunidade de observar a natureza e a cultura durante o longo percurso que fez de São Paulo até as minas do Cuiabá. Mais pontualmente, ler-se-á as imagens da viagem monçoeira a partir do porto de Araritaguaba29, localizado na capitania de São Paulo, até a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, na parte mais central da América do Sul, na recém-criada capitania de Mato Grosso. Antes, porém, um item trata da paisagem do interior da capitania: do Rio de Janeiro e de São Paulo. Esse capítulo tem quatro subdivisões: “Paisagem do caminho a Parati”; “Histórias a partir do Rio Tietê”; “Representações do Pantanal”; “Chegada à Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá”. Cada item apresenta descrições de suas especificidades naturais e culturais, com suas histórias e recursos, e em cada um deles trata-se em grande parte das representações das imagens de encantamento e de pessimismo que a percepção de Antônio Rolim de Moura pôde emitir.
O capítulo “Imagens da Vila do Cuiabá, o seu termo e a viagem ao Guaporé”
atende às decisões políticas e representações produzidas por ocasião da
29
Na língua dos índios Guaianá, Araritaguaba significa a pedra onde as araras comem. Cf. SILVA, Valderez Antônio da. Os fantasmas do rio: um estudo sobre a memória das monções no vale do médio Tietê. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004.
permanência de Antônio Rolim de Moura na Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, no ano de 1751, e outras que construiu quando estava no Guaporé, trabalhando na construção da fronteira. Foram analisadas as percepções de Antônio Rolim de Moura do espaço da Vila do Cuiabá e o seu termo, e ainda a escolha do lugar da sede do governo. É o item no qual estão problematizados alguns assuntos, obedecendo à sequência: “Representações do Cuiabá”, “Missão de Santana”, “Caminho ao Guaporé e as representações do lugar da capital” e a “Escolha do lugar da Vila Bela da Santíssima Trindade”. O capítulo mostra inicialmente que a intervenção na paisagem deu-se em ações planejadas a fim de administrar a capitania. É um capítulo marcado pela posse do seu cargo na Vila do Cuiabá e sua
chegada aoGuaporé, no papel de oficial construtor da fronteira.
O último capítulo, “Antônio Rolim de Moura: a paisagem e as imagens do Mato Grosso”, traz assuntos relacionados às percepções de Antônio Rolim de Moura da região de fronteira no lugar do Guaporé, nos anos de 1752 a 1764. As imagens do Mato Grosso e da capitania mostradas pelo Governador permitem ler o conteúdo
informado sobre a vasta região, em especial o vale do Guaporé. É dali que projeta a
maioria das inúmeras imagens, com percepções de um cotidiano vivido no Distrito do Mato Grosso, quando ali permaneceu por mais de uma década. Os registros de Antônio Rolim de Moura indicam sua face observadora de uma região que deveria receber uma estrutura política de capital quando ele, oficial da Coroa portuguesa, fundou, em 1752, a Vila Bela da Santíssima Trindade, às margens do Guaporé. Nesta parte do estudo foi relatada a visão de Rolim de Moura ao escrever os assuntos: “Viver na fronteira: um reino de dificuldades”; “Autorrepresentação”; “Imagens do ambiente natural”; “Representações do sertão”, “Índios mansos: os Paresi e os Bororo”; “Negros na paisagem da fronteira”, “Economia de Vila Bela e região”; e “Espaços de poder na fronteira: as missões e a fortaleza”.
Em todos os capítulos, estão registradas percepções da cultura e da natureza que serviram de conteúdo para reflexão, desde quando Antônio Rolim de Moura viajou para encontrar Gomes Freire no Rio de Janeiro, até quando esteve na
capitania da Bahia, para governar, e de lá também escreveu sobreMato Grosso.
As representações dos habitantes de Mato Grosso nos escritos do Governador não se apresentam separadamente das que se referem ao espaço e aos recursos naturais da região. Suas representações da população indígena, dos negros, dos colonos e como fala de si são partes que interagem, se complementam,
se imbricam e compõem o cenário de gentes que ocuparam o espaço e nele utilizaram-se dos recursos naturais.
As leituras historiográficas e documentais indicam que “a base da população em Mato Grosso era predominantemente indígena, formada por diversas nações. Também havia em expressiva quantidade a presença de escravos negros africanos trazidos para o trabalho de mineração, de produção agrícola e de criação”.30
Para finalizar o texto, as “Considerações finais” apresentam algumas imagens da capitania, escritas pelo Governador quando esteve na Bahia, entre os anos de 1765 e 1767. Nesse capítulo, tem-se uma opinião das imagens das gentes da capitania, dos recursos naturais, das problemáticas enfrentadas e a enfrentar...
Parte significativa da tese se fez fundamentalmente por meio da leitura dos documentos produzidos entre os anos de sua administração na capitania, desde sua viagem de São Paulo às minas do Cuiabá, em 1751, até sua saída do Guaporé, em
1764. Esse é o recorte temporal muito importante dos assuntos relacionados às
imagens construídas do “ambiente natural” e cultural, uma delimitação definida pelo tempo de seu governo na capitania.
Foram pesquisados quatro conjuntos de fontes. O primeiro é composto pelos
Anais de Vila Bela: 1734-1789, incluídos entre as crônicas do século XVIII, por
representar uma peça importante na história oficial de Mato Grosso. Resulta de um trabalho cronológico escrito no século XVIII e que hoje é fundamental para identificar acontecimentos de várias naturezas. É um importante registro da atuação política dos Capitães-Generais mato-grossenses em área de fronteira com as colônias espanholas. São informações que testemunham as necessidades, interesses, desejos e significam a continuidade das ações humanas no Guaporé. Além das informações relevantes sobre os tratados e transições entre as monarquias ibéricas, a economia, as lutas e negociações, oferecem ao leitor um panorama da vida
cotidiana (de homens e mulheres – negros, brancos, mestiços e índios) na região.31
A leitura dos Annaes do Senado da Camara do Cuyabá: 1719-1830, favoreceu a apreensão de múltiplos aspectos da história das minas do Cuiabá e da sua Vila, uma vez que eles representam um dos documentos mais importantes para
30
ANZAI, Leny Caselli. Doenças e práticas de cura na capitania de Mato Grosso: o olhar de Alexandre Rodrigues Ferreira. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília, Brasília, 2003. p. 47.
31
AMADO, Janaína; ANZAI, Leny Caselli (Org.). Anais de Vila Bela: 1734-1789. Cuiabá: Carlini e Carniato Editorial; EdUFMT, 2006. p. 7-38. (Coleção Documentos Preciosos).
se entender a história daquela região. “O assim chamado [sic] Anais do Senado da Câmara do Cuiabá foram produzidos por vereadores eleitos a partir de 1786, com
atividade formal da câmara da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá”.32
Em 1982, ano do bicentenário da morte do Governador e Capitão-General da capitania de Mato Grosso, foram publicados pelo Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR), da Universidade Federal de Mato Grosso, sua biografia e mais três volumes que guardam sua correspondência datada até o ano de 1758. Essas obras integram uma série de publicações de documentos históricos do período colonial. Com esse conjunto documental, é possível dar visibilidade às relações históricas entre os colonizadores, interpretando o conteúdo das cartas de Antônio Rolim de Moura nos dois termos: o Mato Grosso e o Cuiabá.
É nesta coletânea que está a Relação de Viagem realizada por Antônio Rolim de Moura do Rio de Janeiro à Vila do Cuiabá, em 1751, também conhecida
como Diário de Viagem de D. Antônio Rolim de Moura.33 É a fonte mais usada para
a construção do segundo capítulo; nela, o Governador descreveuos lugares por que
passou, apresentando as instruções de uma viagem, correspondendo a um guia de exploração. Traçou uma rota, observou os pontos, os rumos e “riscou mapa”, como se fosse um manual. É a partir da leitura da Relação de Viagem que se iniciam as problematizações das percepções do “ambiente natural” e cultural apreendidos por Antônio Rolim de Moura no interior da Colônia.
Segundo o historiador Virgilio Corrêa Filho, a “Relação de Viagem” foi escrita em forma de carta e dirigida ao seu “primo e senhor”, não há nela registrados data nem destinatário. Acredita-se que tenha sido redigida logo após sua chegada a Cuiabá, no ano de 1751, ou pouco depois, quando se enfronhava nas questões administrativas da capitania. É um guia repleto de informações úteis sobre a topografia dos caminhos terrestres e fluviais, também fonte de preciosas indicações
32
ROSA, Carlos Alberto. Mínima história dos Anais. In: ANNAES do Sennado da Camara do
Cuyabá: 1719-1830. Transcrição e organização Yumiko Takamoto Suzuki. Cuiabá: Entrelinhas;
Arquivo Público de Mato Grosso, 2007. p. 21.
33
RELAÇÃO da viagem que fez o Conde de Azambuja da cidade de São Paulo para a Vila do Cuiabá no ano de 1751. In: PAIVA, Ana Mesquita Martins de et al. (Org.) D. Antônio Rolim de Moura: primeiro Conde de Azambuja. (Correspondências). Cuiabá: EdUFMT, 1982. v. 1. p. 3-29. A primeira publicação dessa narrativa foi na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro. Tipografia de João Inácio da Silva. Tomo VII. O original pertence a essa instituição. A
Relação também pode ser encontrada em: TAUNAY, Afonso de E. Relatos sertanistas. São
Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p. 194-216; MENDONÇA, Marcos Carneiro de. Rios
Guaporé e Paraguai: primeiras fronteiras definitivas do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca
dos pontos de maior concentração de nações indígenas, das vilas, povoados, sítios. O autor Corrêa Filho avisa que há uma segunda carta que lhe serve de complemento, endereçada a Diogo de Mendonça Côrte Real.34
O relato não segue exatamente uma sequência dos acontecimentos diários e que, para o Governador, o ato de escreverrepresentava alívio e desafogo. Enquanto que, para o leitor, a quem ele dirigia sua correspondência, seu texto traria uma serventia de divertimento pelas novidades que os assuntos contidos poderiam causar. Entende-se que as informações contidas na “Relação de Viagem” e a carta35 comentada por Virgílio Corrêa Filho constituem um mapa em prosa de caminhos em direção à Vila do Cuiabá e ao Guaporé.
Foi estudada a documentação publicada por Marcos Carneiro de Mendonça, que trata da correspondência do Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, distribuídas em três volumes.36 Esse conjunto documental ilustra em detalhes um período da história amazônica brasileira e possibilita entender as ações políticas na fronteira. Trata-se de uma documentação da autoridade portuguesa no extremo norte do Brasil e apresenta, em parte, as relações políticas entre os dois Governadores, Antônio Rolim de Moura e Francisco Xavier de Mendonça Furtado.
A correspondência entre os agentes coloniais das capitanias de Mato Grosso e do Grão-Pará e Maranhão são ricas em informações da política da Coroa portuguesa, da economia, da fronteira, dos índios, do comércio, da carestia, das negociações e conflitos, dos negros, do cotidiano e se constituem em elementos de análise para a história da região.
Foi pesquisada, também, a documentação do Projeto Resgate37, parte da
qual foi transcrita para facilitar a leitura e apropriação dos escritos do Governador. A
capitania de Mato Grosso representou o palco histórico da “chave e o propugnáculo do sertão do Brasil”. A trajetória política de Rolim de Moura em Mato Grosso foi composta por um jogo de força, astúcia e diplomacia implementada com diferentes
34
A segunda carta referida por Virgílio Corrêa Filho tem essa referência: CARTA enviada por Antônio Rolim de Moura a Diogo de Mendonça Côrte Real. Vila Bela da Santíssima Trindade, 28 maio 1752. In: PAIVA, 1982, v. 1, p. 64-87. Ver: CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso. Várzea Grande, MT: Fundação Júlio Campos, 1994. p. 355.
35
CARTA enviada por Antônio Rolim de Moura a Diogo de Mendonça Côrte Real. Vila Bela da Santíssima Trindade, 28 maio 1752. In: PAIVA, 1982, v. 1, p. 64-87.
36
MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazônia na Era Pombalina: correspondência do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado: 1751-1759. Brasília: Senado Federal, 2005. 3 v. (Edições do Senado Federal, v. 49).
37
ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO. Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos
avulsos referentes à capitania de Mato Grosso existentes no Arquivo Histórico Ultramarino.
Lisboa: fontes primárias para a História da capitania de Mato Grosso existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Campo Grande: CMAEF, 1999.
segmentos sociais e culturais. A organização administrativa da capitania de Mato Grosso, com sua realidade diferencial, oferecia vários desafios que deveriam ser enfrentados pelos agentes colonizadores. O estudo dessa documentação, bem como das outras, permitiu corporificar a história lusitana colonial no Mato Grosso, na fronteira do Guaporé, em sua margem direita. Região simbolizada pela conquista, destemor, aculturação, luta e resistência.
A parte conclusiva apresenta algumas leituras da documentação do Projeto Resgate, que trata das imagens construídas por Rolim de Moura da capitania de Mato Grosso, quando governou por menos de dois anos a Bahia, entre os anos de 1765-1767. As últimas linhas contidas na conclusão são informações que se alongam ao recorte temporal estabelecido nos três capítulos da tese.
Foram, ainda, lidos os artigos que compõem o “Directório, que se deve observar nas povoações dos índios do Pará, e Maranhão, em quanto Sua
Magestade não mandar o contrario”.38 Esse conjunto de leis representa um
documento jurídico que regulamentou na América portuguesa as ações dirigidas aos índios entre os anos de 1758 e 1798. Pelo “Directório” ficava estabelecido o uso da língua portuguesa e estimulava-se o casamento entre índios e brancos, que estariam regidos pelas mesmas leis civis que dirigiam a população de Portugal. Esse conjunto de leis auxiliou na análise de uma fração das ações que o representante português dirigiu aos índios, durante o período em que governou a capitania de Mato Grosso.
Outras fontes utilizadas foram os documentos oficiais da Coroa portuguesa: cartas, ofícios, bandos e Instruções Reais, para compreender as ações do governo de Antônio Rolim de Moura na dilatada margem do Mato Grosso. Esses documentos manuscritos foram pesquisados nos arquivos de Cuiabá, fundamentalmente no Arquivo Público do Estado de Mato Grosso, no Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDHIR), e no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT), que também mantém acervo importante do período.
Por fim, foram transcritos os “Livros de Registros de Provisões, Portarias, Editais, Cartas Expedidas e Recebidas no governo de Antônio Rolim de Moura” pertencentes ao Arquivo Público do Estado de Mato Grosso. Esses Livros de Registros contêm vasta informação do governo de Antônio Rolim de Moura na capitania de Mato Grosso e, principalmente, do tempo em que esteve à frente da
38
Directório, que se deve observar nas povoações dos índios do Pará, e Maranhão, em quanto
construção da sede do governo na capitania, Vila Bela da Santíssima Trindade,
capital da capitania na época. A documentação informa das várias dimensões
políticas com outros Governadores da conquista, em assuntos que mostram preocupação com a construção da fronteira, da sua vivência cotidiana e das relações sociais ali construídas.
Toda a documentação manuscrita, no caso, os “Livros de Registros do
Arquivo Público do Estado de Mato Grosso”, a documentação do “Projeto Resgate”, a do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional, a do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, arquivos localizados na cidade de Cuiabá e dos centros de pesquisa localizados no Rio de Janeiro, foi transcrita com atualização da grafia.
Além da exploração das fontes mencionadas, a elaboração da presente tese demandou o diálogo com uma vasta produção historiográfica sobre Mato Grosso. Parte dos estudos, entre teses e dissertações consultadas, é de autores que tratam do contexto histórico mato-grossense. Esses estudos representam os resultados da profissionalização de vários historiadores vinculados à Universidade Federal de Mato Grosso e de outras faculdades do Estado. Escritores identificados como integrantes do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, cronistas, viajantes, monçoeiros, escritores da época da conquista lusa, que registraram as impressões do que viram, foram também objeto de leitura e estão agregados à reflexão dessa tese.
As obras foram consultadas tendo em vista compreender diferentes aspectos da expansão, conquista e efetiva administração luso-brasileira da região das minas do Cuiabá e, posteriormente, da efetiva colonização do extremo oeste das terras da colônia Brasil. São obras que versam sobre o entendimento da política de colonização, da construção de um aparato político-administrativo e que, mesmo que não tratem diretamente da história da atuação de Antônio Rolim de Moura, ajudaram a refazer e a recompor o contexto das ações colonizadoras no qual esta
história está inserida. A seguir, destacam-se asconsideradas mais relevantes para a
construção destatese.
A tese do historiador Otávio Canavarros, O poder metropolitano em Cuiabá
(1727-1752), é considerada para esta pesquisa o mais bem fundamentado estudo da
construção da história da região. Caracteriza-se por um conjunto documental manuscrito e impresso, cujo objetivo fundamental é o de mostrar a estruturação do
poder de Portugal na Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá. Suas hipóteses sobre o poder metropolitano, no sentido de assegurar a conquista das terras, da luta dos portugueses com os espanhóis, são discutidas no decorrer das páginas do livro. É uma tese que analisa a política do governo do rei de Portugal Dom João V em relação à estruturação de uma estratégia a fim de assegurar as terras portuguesas
que eram dos espanhóis até a vigência do Tratado de Tordesilhas.39
A tese A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá (Vida urbana em Mato
Grosso no Século -1722/1808), do historiador e filósofo Carlos Alberto Rosa, permite
entender as relações de poder que se dão no espaço urbano colonial. O autor destaca que as primeiras formas de espacializações deram-se na criação da
freguesia eclesiástica do Cuiabá em 1722 e em seguida nafundação da Vila Real do
Bom Jesus do Cuiabá, em 1727, conferindo ações significativas sobre a criação “de uma rede urbana intra-capitania, que por sua vez dicotomiza-se em redes ‘parciais’,
uma encabeçada por Cuiabá, outra por Vila Bela”.40 Carlos Alberto Rosa apresenta a
existência de uma política urbanizadora em Cuiabá, desde a época de arraial, resultado das ações das autoridades portuguesas na região. Ainda, identifica a rede articulada de consumo, produção e abastecimento que tornava possível o exercício do poder metropolitano no centro-oeste do Brasil naquele período.
A tese Mistura de cores: política de povoamento e população na capitania de
Mato Grosso - século XVIII, do historiador Jovam Vilela da Silva, argumenta, por sua
vez, que, no processo de ocupação e povoamento da região em conquista, a “população nativa recebeu atenção especial e uma legislação própria”. Segundo o autor, o Diretório “veio transformar os nativos em vassalos da Coroa com os mesmos direitos e prerrogativas (....) Como se brancos fossem”. Conforme Vilela, a Coroa portuguesa investiu em aparatos administrativos que serviram para nortear a ação política dos governantes locais tornando os nativos “guardiões de fronteiras”. Com a política de sedentarização da população nativa, defendida em meados do