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Vários investigadores se têm pronunciado contra o tipo de estrutura dos manuais escolares que, inspirada nos documentos multimédia, parece adaptar-se com dificuldade a um tipo de media tradicionalmente linear e sequencial.

Alain Choppin (1992), num livro estruturado como um manual escolar, considera que a forma dos manuais se deve à quantidade de técnicas dos programas disponibilizados hoje pelas novas tecnologias. O resultado é uma forma que por vezes se torna irritante pela quantidade de fotografias coloridas, diagramas, gráficos e mapas, de letras de diferentes tamanhos, de títulos a negrito, texto enfatizado a negrito, caixas de texto sombreadas a cinzento ou com textos abertos em fundo negro, cuja razão de ser nem sempre é clara, interrogando-se se o seu preço é tido em consideração. Curiosamente, esta obra recebeu algumas críticas relativamente à leitura desconfortável que proporcionava, provocada pela referida estrutura formal que adoptou, em jeito de manual.

Sewall (1992:27-32) membro do American Textbook Council, escreve, criticando os manuais de estudos sociais, que a exposição da matéria se “atrofiou” e que o texto escrito foi substituído por “a nervous, fragmented, kaleidoscope, multivalent learning tool that seems designed, really for nonreaders”. (…) “A riot of colors and state of the art graphics may excite textbook byers. Multiple typefaces and whitespace, photographes and sidebars, chart and boxes…create a shimmering mosaic…But such books signal by their vacuous text that the epic stories of the past do not spark or cannot sustain student interest…” 7

O nº 20 da revista francesa ARGOS sob o título Manuels scolaires Qu’en Faire ? apresenta um conjunto de artigos dedicados à problemática dos manuais escolares. Num destes artigos Alain Choppin (1997:60-70) afirma que os manuais escolares apresentam os conhecimentos como um saber pré-digerido e uma estrutura semelhante aos documentos multimédia, transformando-se em documentários, associando textos muito simples com documentos icónicos, cujo acesso facilitado       

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“Um instrumento de ensino polivalente, em forma de kaleidoscópio, fragmentado, nervoso que parece realmente desenhado para quem não sabe ler. (…) Uma profusão de cores e de formas gráficas parecem excitar os compradores dos manuais escolares. Múltiplos tipos e espaços brancos, fotografias e barras, quadros e caixas…criam um mosaico cintilante---mas tais livros conhecem-se pelo texto vazio cujas histórias épicas do passado não conseguem entusiasmar ou manter o interesse do estudante” (Tradução livre).

Capítulo 2 - O Design dos Manuais Escolares

 

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pelo índice não é sequencial. Num outro artigo da mesma revista (pp 40-42), o mesmo autor refere que, com a democratização do ensino, o manual passou a desempenhar um conjunto de funções que complicam de tal modo a sua estrutura que confundem os professores e destabilizam os alunos e os pais, sendo indispensável que os seus utilizadores se familiarizem com a organização interna, estruturada através da sinalética constituída pela cor, pictogramas e variações tipográficas.

Birglin (1997) na revista ARGOS, revela o modo como encara o manual escolar: uma ferramenta polifónica cada vez mais complexa que promove uma leitura descontínua: sequencial ao nível da página; temática ao nível da página-dupla; em rede ao nível das imagens, dos textos e dos símbolos. Considera ainda que o modo como toda a informação é apresentada, em que os recursos tipográficos e a cor adquirem valor de sinalética, induz um tipo de leitura com estratégias próximas da do hipertexto.

Segundo Raulin (1998), a estrutura actual dos manuais escolares em forma de revista deve-se, essencialmente, à heterogeneidade do público a que se destinam (alunos e professores) o que se traduz numa grande variedade de utilizações: aquisição autónoma de conhecimentos e respectiva auto-avaliação e desenvolvimento de competências para os alunos; formação para os professores. A ambiguidade do destinatário dificulta a utilização do manual escolar pelo aluno.

Boyzon-Fradet (1998:14) explica que as lições nas páginas duplas se apresentam sob a forma de textos pluri-codificados destacados (mapas, esquemas, fotos, quadros estatísticos, caixas de instrução, mini-léxicos, textos didácticos, resumos, etc,) cujos elementos se relacionam mediante múltiplas relações (redundância, complementaridade, independência, etc.), sendo a leitura planificada pela organização espacial. Acrescenta que, para descodificar este tipo de escrita sob a forma de puzzle, que procura proporcionar o máximo de informação no mínimo espaço, é necessário desenvolver competências múltiplas que apelam, quer às competências textuais, linguísticas e culturais do leitor, quer às representações que este possui dos temas a estudar.

Dominique Borne num relatório da Inspection Générale de L’Éducation Nationale de 1998, faz uma severa crítica a diversos aspectos dos manuais escolares franceses. Critica a estrutura da sua organização, salientando que esta não permite

uma exposição linear e articulada do conhecimento. Sendo uma organização por assuntos, assinalados por títulos, cores ou símbolos, funciona, essencialmente, como um conjunto de instrumentos para uso do professor; e acrescenta que, sem a ajuda deste, o acesso a esta estrutura é demasiado complicado para os alunos, apesar do manual conter a sua explicação. Refere alguns constrangimentos provocados pela estrutura baseada na lógica de página dupla, destacando a necessidade da utilização de imagens simplesmente para preencher espaço. Critica os editores que, na competição para motivar os alunos, multiplicam as cores e as imagens, muitas delas com uma função somente decorativa e acrescenta que a coabitação destas com aquelas realmente pedagógicas não propicia uma aprendizagem racional. Censura o pouco espaço do manual escolar dedicado à exposição de conhecimentos, pois cerca de três quartos são reservados a ilustrações gratuitas e decorativas, a documentos (textos e imagens), esquemas explicativos (figuras, diagramas, organigramas) e a muitos tipos de exercícios, apresentados aos alunos em “mosaíque”, não lhes permitindo estruturar os saberes. Advoga, por isso, manuais menos espessos, menos luxuosos e menos caros, devendo transformar-se em livros de referência e de leitura em vez de “CDI en miniature”.

Don Norman (1996:37-39.), referindo-se ao processo de aprendizagem multimédia versus aprendizagem manual escolar, escreve: "Multimedia education captures the experiential nature of the optimal experience, but at the neglect of all the rest" Learning, however, requires the optimal "combination of experiential and

reflective modes of cognition” 8. E acrescenta que o uso do manual escolar

proporciona este tipo de actividade "reflective".

Béguin (1998) numa investigação sobre manuais escolares de história, considera que a página dupla como unidade de organização é um forte constrangimento à aprendizagem; que os manuais escolares, em forma de revista, com o objectivo de parecerem modernos, apresentam muitos elementos dos       

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“A educação multimédia proporciona a natureza experimental da experiencia óptima, mas negligenciando tudo o resto. A aprendizagem, por outro lado, requer a óptima combinação da experiência com formas cognitivas de reflexão” (Tradução livre).

Capítulo 2 - O Design dos Manuais Escolares

 

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documentos multimédia que não levam a uma melhor apropriação dos conteúdos e que a sobrecarga de códigos utilizados contribui para a fragmentação da informação.

Avelino (1999) refere que o aspecto material do manual escolar pode funcionar como elemento de sedução e motivação quando há coerência gráfica, ilustrações de qualidade e uma organização funcional que facilite a localização da informação ou, pelo contrário, funcionar como elemento desmotivador quando a sua organização, elementos gráficos e ilustrações denotam uma infantilização do público a que se destina.

Bento (1999) revela que a qualidade gráfica do manual escolar é indispensável para que este seja considerado um bom manual, quer para alunos, quer para professores.

Stephen Budiansky (2001) numa análise muito crítica aos manuais de ciências, enfatiza a sua forma: “The form the books take borders on the hyperkinetic. They are full of sidebars, boxes, and other presumably eye-catching special features bearing such titles as "Flex Your Brain," "EXPLORE!", "Find Out!", and "Minds On!" The claim is often made that with today's generation of television-reared, short- attention-span children, books need to offer all sorts of bright, short, attention-getting tidbits” 9. E acrescenta, citando um estudo sobre como as crianças reagem ao tipo de informação textual e icónica dos manuais escolares, que ficam confusas, não respondendo naturalmente a este tipo de informação. Actualmente, precisam de instruções sobre como dar sentido a estes “texts with many features”10. Algumas lêem a página de cima abaixo como se fosse uma página tradicional e baralham-se com as interrupções causadas pelas caixas, legendas e títulos, outras olham para as ilustrações, mas nunca lêem o texto, e outras ainda lêem o texto, mas nunca os títulos das lições.

      

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“A forma dos livros tem características hipercinemáticas. Cheios de barras, caixas, e outras presumíveis atraentes particularidades com títulos como “Exercita o teu cérebro”,”Explora”, “Descobre”, e “Cérebros a trabalhar”! Estas afirmações são apresentadas como se para a geração da televisão de hoje, a das crianças com pouca capacidade de prestar atenção, os livros precisem de oferecer como que muitas espécies de gulodices, brilhantes e breves, para lhes chamar a atenção” (Tradução livre).

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Boeuf et al (2004) consideram que a estrutura dos manuais escolares se relaciona com a necessidade de dar resposta à heterogeneidade dos alunos. Embora deva estar conforme aos programas oficiais, o manual já não funciona como “livro de referência”, como outrora. Tornou-se uma ferramenta ao serviço do aluno, que contém actividades e faz parte de uma pedagogia que preconiza que este deve construir o saber. A lógica de ensino foi substituída pela da aprendizagem. Estas exigências deram origem ao manual escolar de hoje: um manual patchwork com uma estrutura e uma organização cada vez mais complexas com alguns elementos próprios dos recursos multimédia. Porque os professores e os alunos se perdem nesta complexidade crescente, são cada vez mais numerosos os apelos para que sejam legíveis para os alunos e seguros para os professores cada vez mais polivalentes.

No documento O manual escolar como objecto de design. (páginas 60-64)