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Esquema 4 – Projeto de intervenção integrado aos princípios da Educação do

6 POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DOCENTE PARA PROFESSORES (AS) DO

6.4 Escola da Terra / PE: familiarizando-se com o programa

6.4.2 Estrutura do Programa

O programa de formação docente continuada – Escola da Terra/PE, materializado no Curso de Aperfeiçoamento em Educação do Campo para Professores (as) de Escolas Multisseriadas do Campo e Quilombola, traz enquanto principais características os princípios que fundamentam a Educação do Campo. Dentre esses princípios podemos destacar a pesquisa como princípio formativo; a construção do projeto político pedagógico das escolas do campo; Alternância

conhecimento que integre saberes e promova articulação entre teoria e prática.

Considerando a fragilidade do modelo universal de sujeito, que despreza as diferenças, anula a existência do “outro” e iguala a todos (PETERS, 2000), a Educação do Campo rejeita fortemente esse modelo e evidencia sua fragilidade no trato com a multisseriação. A multissérie exige a necessidade de um trabalho conjunto e simultâneo com diferentes níveis de aprendizagem. Este entendimento nos leva a reconhecer que a especificidade de cada sujeito precisa ser reconhecida e considerada e o acesso a educação de qualidade garantida.

Então uma das coisas que a gente percebeu foi o seguinte: primeiro a gente discute em termos de série e a gente viu que a gente não pode dividir o aluno por série, mas por nível de aprendizagem, então quando a gente faz essa dimensão de atendimento, não por série, mas por nível de aprendizagem sem tornar o outro menos em sua capacidade intelectual, em sua capacidade cognitiva de aprendizagem, de participação, de dialogo, você produz muito mais. (PF1 – Área

Língua Portuguesa).

Nesta fala, a PF1 desenvolve claramente seu entendimento em relação à

multisseriação e sobre os princípios da Educação do Campo. A multissérie é uma realidade do campo brasileiro, com a qual a Educação do Campo busca desenvolver metodologias para atender os estudantes em diferentes idades, séries e níveis de aprendizado, mas que compõem as mesmas salas de aula. Compreender a necessidade do atendimento desses estudantes por nível de aprendizagem e não por suas séries - porque está na mesma série não significa está no mesmo nível de desenvolvimento do conhecimento -, além de respeitar as diferenças de cada estudante, seu tempo de aprendizado e desenvolvimento intelectual sem menosprezar sua capacidade cognitiva, apresenta um caminho bastante interessante para a construção de novas metodologias que favoreçam o desenvolvimento do ensino-aprendizagem nesta realidade educacional bastante específica. Para tanto a formação docente específica as diversas realidades que o campo apresenta constitui-se numa demanda necessária ao projeto educacional que o Movimento da Educação do Campo intenciona desenvolver.

De forma específica, o Programa Escola da Terra/PE intenciona responder a demanda da Educação do Campo no que tange a formação docente continuada dos professores das escolas multisseriadas do campo e quilombola no estado de Pernambuco, visando estratégias pra garantir o direito de acesso e permanência dos estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental nas escolas e enfatizando a

acordo com sua realidade local, como evidenciamos nas falas da coordenadora geral e da PF1 do Programa Escola da terra/PE:

As nossas realidades são totalmente diferentes, a minha [pausa] a realidade de Pernambuco não é a realidade por exemplo do Pará, nem a de Minas Gerais, então é [pausa] aquele material prontinho e acabado, por exemplo, o Pará chama o Escola da Terra das águas e das florestas né, então [pausa] é [apusa] tem toda uma especificidade , então a gente é [pausa] sempre faz essa relação, você vai vê pelas ementas de cada área como nossa realidade, no material a gente seleciona e produz as atividades que são trabalhadas no tempo-comunidade e no tempo-universidade é a própria equipe quem seleciona materiais que já existem ou/e constroem sequências de atividades. (COORDENADORA GERAL DO

PROGRAMA EM PERNAMBUCO).

As universidades elas têm autonomia para definir seu projeto e definir seu processo de formação, quando nós elaboramos o processo de formação ele se baseia nos diagnósticos que nós temos dos próprios municípios que nós temos da situação e da perspectiva dos professores, da necessidade dele de trabalho e nas experiências anteriores que se tem em relação a alguns programas da Educação do Campo, mesmo com a escola da terra, que esse já é a segunda edição. (PF1 – Área Língua Portuguesa).

Para efetivação deste trabalho, em garantia ao acesso e direito à permanência dos estudantes nas escolas, o Escola da Terra/PE pretende efetivar por meio de um constante diálogo, entre os saberes campesinos e o conhecimento formal dos saberes escolares, a ênfase na história de vida e de luta dos povos do campo desde uma realidade macro até realidade do estado de Pernambuco e a localidade onde vivem. Reafirmando o entendimento de que não existe apenas uma Educação do Campo e que por isso as territorialidades devem ser respeitadas em suas diferenças e esse respeito refletido na organização dos projetos político- pedagógicos do programa de formação.

O desenvolvimento do trabalho por meio da integração dos saberes é um elemento importante e fundamental para o programa de formação Escola da Terra/PE. A constituição de um trabalho que envolva a integração dos saberes como propõe a formação, exige de seus atores sociais conhecimentos que ultrapassam os limites estabelecidos nos currículos, organizados sob a égide disciplinar. Assim, integrarão esses saberes, juntamente com as áreas de conhecimento nos anos iniciais de ensino fundamental, estudos sobre os princípios e fundamentos da Educação do Campo; conceitos inerentes a questões da terra; a agricultura familiar; a agroecologia; e as políticas de educação para o campo. (Projeto Político Pedagógico – Escola da Terra/PE). Essa forma de organização pode ser percebida

funcionamento prático nas colocações da PF3, como veremos:

A gente viu a importância de trabalhar as áreas de conhecimentos, acho que isso inclusive é uma luta de Pernambuco tá! [pausa] a gente vai trabalhar também a formação da matemática, da língua portuguesa, das ciências humanas, das ciências naturais sempre articuladas a Educação do Campo. Trabalhar a agroecologia né! [pausa] e a gente disse não, a gente vai trabalhar com uma coisa muito mais ampla e muito mais articulada com a Educação do Campo né, que é uma questão da terra que é a agroecologia. (COORDENADORA GERAL

DO PROGRAMA EM PERNAMBUCO)

Fazer um planejamento integrado a partir das áreas de conhecimentos é trabalhar numa perspectiva transdisciplinar. Um planejamento em que um interfere e contribui no trabalho do outro, com materiais, com idéias, proposições e que a gente sabe o que o outro está trabalhando. E não somente isso. Em cada módulo que a gente trabalha tem um eixo que articula. [pausa] Os componentes curriculares eles estão integrados e eles é [pausa] estão articulados, eu [pausa] o que eu faço tem relação com o que todos os outros estão fazendo, todos os componentes estão integrados entende! O pessoal que é das humanas vai trabalhar na sua área fazendo uma referência da importância das ciências humanas, geografia, história e vai trabalhar alguns elementos práticos, vai trabalhar alguns conhecimentos históricos, mas vai trabalhar desde uma perspectiva político-pedagógica que integra no eixo que a gente está trabalhando nessa etapa. (PF3 – Área Educação do Campo: princípios, fundamentos e

políticas públicas).

Esse movimento em relação à estrutura do programa, desenvolvido por meio da articulação dos saberes entorno de um eixo que direcione os discursos, encontra- se presente nas falas de todos os formadores participantes das entrevistas. De acordo com suas colocações, o eixo que deverá permear o debate em todas as áreas de conhecimento é pensado e definido de forma coletiva nos encontros dos formadores do programa. Uma construção que se desenvolve conjuntamente, sendo pensada e socializada por todos os representantes das áreas de conhecimento. A partir dos esquemas a seguir, apresentaremos os eixos articuladores discutidos no segundo e no terceiro tempo-universidade da segunda edição da Escola da Terra/PE.

Eixo Articulador do 3º tempo-universidade (2ª edição do programa)

Fonte: a autora

Este percurso formativo, organizado e vivenciado no tempo-universidade intenciona a construção de novos saberes no tempo-comunidade e exige um constante diálogo entre os dois momentos da formação. As atividades construídas nesses diferentes momentos formativos objetivam a compreensão, reflexão e intervenção na realidade dos sujeitos educativos.

Área 1: Educação do Campo: princípios, fundamentos e

políticas públicas

Área 3: Ciências da Natureza e Educação do Campo Área 2: Ciências Humanas com

enfoque na educação do Campo

Área 6: Linguagem Matemática e Educação do Campo

Área 5: Língua Portuguesa e Educação do Campo Área 4: Agroecologia Agroecologia e Alternativas de Desenvolvimento na Perspectiva do “bem— viver” Área 1: Educação do Campo: princípios, fundamentos e políticas públicas Área 3: Ciências da Natureza e Educação do Campo

Área 2: Ciências Humanas com enfoque na educação

do Campo

Área 6: Linguagem Matemática e Educação do

Campo

Área 5: Língua Portuguesa e Educação do Campo Área 4: Agroecologia Democracia, Relações de Poder e Políticas Públicas

teórico-científicos articulados as experiências da realidade do campo. É na Alternância Pedagógica do processo formativo que os cursistas são orientados a realizar pesquisas, planejar de forma coletiva, elaborar materiais didático- pedagógicos que favoreçam o desenvolvimento de ensino-aprendizagem com base na realidade do campo e a pensar, construir e desenvolver seus projetos de intervenção social e pedagógica.

Essas ações intencionam a constituição de um professor com perfil de pesquisador que interage com sua sala de aula, mas também com a comunidade escolar e a comunidade local. É no tempo-comunidade que o cursista vivenciará o que é aprendido e apreendido, pensado e planejado no tempo-universidade, também é nesta etapa do processo formativo que os projetos de intervenção social e pedagógica são elaborados e desenvolvidos por meio do acompanhamento sistemático dos formadores e tutores responsáveis por esta orientação, conforme verificamos na fala da PF6 “num primeiro momento a gente vai pra acompanhar a construção do projeto de intervenção, num outro momento a gente faz a visita pra conhecer a realidade da escola” e nas seguintes colocações que também

evidenciam esse acompanhamento:

A gente orienta tanto na elaboração do projeto como também na execução do próprio projeto né! Aí a gente faz essa orientação, então o primeiro encontro que a gente tem nos municípios são com todos os professores, com o coordenador, com o tutor, pra saber como é que eles estão trabalhando, qual é a avaliação que ele tem do tempo-universidade, quais foram as dificuldades que eles tiveram no processo e o que é que eles esperam para o próximo, dentro do que foi discutido e como é que eles estão atuando em sala de aula com o que eles aprenderam e de que forma eles estão atuando, porque aí é uma discussão coletiva e o que coloca um professor já vai ajudando o outro nas experiências didáticas, também, que eles vão desenvolvendo. (PF1 – Área Língua Portuguesa).

A gente vive o tempo-universidade, e entre um tempo-universidade e outro, a gente realiza os tempos-comunidade. A gente faz 8h de estudo com os professores e aí a gente tem lido textos de agroecologia, assistido vídeos, feito planejamentos, uma diversidade. [pausa]. Aí a gente vai trabalhando naquele sentido, mas sempre vai garantindo momentos de estudo e momento de orientação para elaboração do projeto de intervenção, então a cada encontro de 8h a gente também guarda um momento pra vê o que eles já fizeram no projeto, saber como ta sendo feita essa construção. (COORDENADORA PEDAGÓGICA).

Ao analisarmos as colocações das PFS evidenciamos que o

desenvolvimento dos projetos de intervenção social e pedagógica é uma prática constitutiva do programa de formação e que responde a ação de trabalhar a pesquisa como princípio formativo para constituição de professores pesquisadores.

participação do cursista do Escola da Terra/PE, juntamente com 75% de sua freqüência devidamente comprovada, para legitimar sua certificação.

Porém é importante ressaltar que a construção desses projetos de intervenção, ao apresentarem uma dimensão que ultrapassa o pedagógico, amplia seu campo de atendimento e incorpora dimensões que incidem no campo político e no campo social, como se refere a PF3 ao dizer que “esse projeto de intervenção ele não é apenas pedagógico, a gente estimula que ele seja de cunho político e pedagógico e ouvindo a comunidade”, ampliando as relações entre a comunidade

escolar e a comunidade local, agregando saberes historicamente construídos, fortalecendo a identidade dos sujeitos e reafirmando a cultura do território campesino.

Esses caminhos intencionam a realização de outra ação que é a construção do projeto político pedagógico nas escolas do campo, como um instrumento norteador das práticas desenvolvidas pela comunidade escolar em diálogo com a comunidade local, legitimando a articulação entre o conhecimento formal da escola e os saberes do campo, com bases firmadas nas concepções e princípios da Educação do Campo.

6.4.3 Avanços identificados por meio da análise do programa