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5. AS TRANSFORMAÇOES SÓCIOESPACIAIS EM CHIMANIMANE

5.5. Estrutura tradicional e os aspectos sócio-culturais

foram significativas no uso da terra, nas políticas públicas e na forma de administração, pois se adere ao regime socialista que aboliu com a propriedade privada (passando tudo para o Estado) e se introduz novas formas de administração do território, desfazendo-se e/ou ignorando-se os líderes comunitários (foram criados novos representantes locais, os secretários de bairro e grupos dinamizadores – desfazendo-se as formas tradicionais de gestão das áreas comunitárias).

A luta pela libertação do território zimbabueano (terminada em 1980) teve impactos significativos para Chimanimani, manifestando-se numa destruição das infra-estruturas existentes, tais como as pontes e as vias de acesso, vetando a população a um isolamento total (TFCA PS; NDFW, S/D; SIMBINE; FOLOWARA; NHUSSI, S/D).

Após o alcance da independência, a paz teve duração de um ano, pois em 1976 inicia a guerra de desestabilização, liderada pelos rebeldes da RENAMO. A guerra teve a duração de 16 anos, com consequências significativas para Chimanimani, destruindo as infra-estruturas que haviam escapado das guerras passadas, forçando determinadas comunidades a deslocarem-se para o Zimbábue ou outras áreas consideradas seguras. Durante o período de conflito armado, parte da área foi usada como uma das bases dos guerrilheiros da RENAMO (SIMBINE; FOLOWARA; NHUSSI, S/D).

A assinatura dos acordos de paz, em 1992, marca o retorno dos anteriores residentes e de novos que olhavam com esperança para uma nova possibilidade de reprodução social e cultural. O retorno coincide com a preocupação do governo moçambicano com as áreas de conservação e com a introdução do MCRN, que viria a influenciar na criação de uma nova área de conservação.

A liderança de cada comunidade pertence a uma linhagem que a comunidade reconhece com autenticidade de sangue e de maior antiguidade. Simbine, Folowara e Nhussi (s/d, p. 4), clarificam o seguinte:

Só pode ser chefe quem prove por sua ascendência que descende, em linha direta, do fundador do grupo. Só ele reúne as condições inatas que confirmam a sua predestinação para patriarca, sacerdote, juiz, protetor e condutor da comunidade (SIMBINE, 1999). Este líder tem uma hierarquia de seguidores/vassalos e hierarquicamente estruturado cada um com funções específicas dentro do território linhageiro sob sua jurisdição, desde as funções político/administrativas, mágico/religiosa, entre outras.

Geralmente para cada território sob jurisdição do mambo recebe o nome do respectivo mambo. Normalmente o nome do mambo é herdado, isto é, cada sucessor vai ter o nome do mambo fundador da comunidade. O mambo, no exercício das suas funções, é coadjuvado por sabukus, que hierarquicamente se encontram abaixo do mambo. Abaixo dos sabukus estão os conselheiros. A hierarquia descrita apresenta-se sob a forma de pirâmide, onde no topo está o mambo e na base estão os membros da comunidade.

Apesar das terras comunitárias receberem o nome do mambo, isso não significa que a terra é privada, ou seja, pertença ao mambo. O mambo apenas tem a função de gerir a terra sob sua responsabilidade e garantir que os membros tenham o acesso (ARTUR, 2000). A terra é considerada propriedade dos espíritos, normalmente dos seus ancestrais e, aos mambos lhes é atribuído o poder de administrar em favor das comunidades locais (BELL, 2000).

Bell (2000) destaca que dentro de cada comunidade é possível encontrar-se a propriedade privada e a propriedade comum. A propriedade privada da terra é observada quando o mambo atribui uma determinada parcela de terra a uma família, através das normas e práticas costumeiras. A terra passa a ser propriedade da família podendo ser transmitida para os seus descendestes. A terra não atribuída a nenhuma família permanece sob gestão do mambo ou de um sabuku. Essa categoria de terra pode ser considerada por propriedade comum. É importante realçar que o acesso a essas áreas e aos recursos existentes está condicionado a uma autorização do mambo, dessa forma, esta categoria se apresenta diferente daquela descrita por Hardin, no seu livro “A tragédia dos comuns”.

Esta filosofia de gestão das terras comunitárias esteve presente desde sempre, apesar de algumas invasões terem estremecido e combatido. Artur (2000) refere que mesmo com a invasão dos povos Nguni, a liderança dominada conservou a administração, o usufruto das terras, a religião e até o aparelho jurídico. Artur defende este fato com base nos argumentos de Altuna que constatou que nos povos de origem bantu, que povoaram a região austral do

continente africano, apresentavam uma característica de simbiose das duas administrações (do dominador e do dominado). Para Altuna, o vencedor passava a ser o dono do povo vencido ou anexado, mas nunca autoridade política e, aproveitava-se indiretamente dos territórios conquistados através do pagamento de tributo.

Esta característica de simbiose de administração parece ter prevalecido durante a ocupação portuguesa nas terras de Chimanimani. Apesar de determinadas áreas de Chimanimani terem sido alienadas para a exploração comercial e uma pequena área declarada como reserva, constatou-se que a maior parte da terra continuou na posse das lideranças locais. Isto permitiu que os povos locais mantivessem as suas formas de gestão da terra, mas tendo que cumprir com algumas imposições do colonizador, como o pagamento de imposto.

Nos casos em que as lideranças se recusavam a cumprir com certas obrigações, os portugueses substituíam-nas por aquelas que fossem de acordo com os seus objetivos. Em alguns casos, como foi referido por José (2005) as autoridades se associavam aos portugueses como forma de manterem e ampliarem os seus poderes.

Com o alcance da independência, o governo saído vitorioso da revolução combateu as autoridades tradicionais (os mambos ou régulos) e as crenças locais. Esta luta forçou a nova administração a criar os grupos dinamizadores ou secretários de bairro em substituição das lideranças locais. Esta nova estrutura organizacional não agradou as comunidades locais e, teve resistência. Os novos líderes eleitos não tiveram aceitação no seio das comunidades e consequentemente não houve uma colaboração eficiente na implementação dos programas do governo. Estas brechas foram aproveitadas pela guerrilha da RENAMO para fortalecer a sua presença nas comunidades locais, pois estes defendiam os chefes tradicionais e as suas respectivas crenças tradicionais.

Com a entrada numa economia de mercado e com as imposições externas para a descentralização, houve a necessidade de se valorizar as autoridades tradicionais. Com isso aparece o dilema de quem deveria representar o governo ao nível local, pois em algumas comunidades chegou-se a encontrar-se três personalidades (representante tradicional - mambo, representante colonial – mambo e representante da FRELIMO – grupo dinamizador) que reivindicavam o seu poder na comunidade. Instala-se um novo conflito. Porém, seriam, em muitos casos, as comunidades locais que escolheriam os seus representantes, que em muitos casos tendeu para o mambo tradicional. Esse conflito vive-se em algumas comunidades de Chimanimani, onde alguns mambos eleitos não têm legitimidade e estão vedados de celebrarem as cerimônias tradicionais.

Apesar das invasões terem perturbado, de alguma forma, a administração política das comunidades, constatou-se que as normas e práticas locais continuaram e continuam presentes no seio das comunidades. Estas normas e práticas locais permitiram que os recursos naturais existentes continuassem conservados até aos dias atuais, como foi constatado por Artur (2000), Simbine, Folowara e Nhussi (s/d), Bell (2000) e TFCA PS e NDFW (s/d). Os autores elucidam vários exemplos que demonstram a preocupação das comunidades locais na conservação dos recursos naturais. Dentre eles podem se destacar o controle do acesso a determinadas áreas de florestas, o controle na abertura de novos campos agrícolas, a definição de épocas para a realização da caça. Nos casos de violação, os infratores são penalizados pelos “verdadeiros” donos da terra (os antepassados) com doenças ou mortes. A crença nesses mitos e ritos está presente nas comunidades locais.