CAPÍTULO II: O GÊNERO E SUAS IDENTIDADES
2.4 ESTUDANDO O GÊNERO E CONCEBENDO SUAS IDENTIDADES.
2.4.1 Conceituando o gênero a partir das Teorias Feministas.
Gênero é uma palavra que necessariamente pede uma explicação a respeito de seu significado443. Serve para classificar os mais diversos
fenômenos, tais como gêneros de literatura, de cinema, de música, dos
441 Cf. WEEKS, Jeffrey. El malestar de la sexualidad. Significados, mitos y
sexualidades modernas. Madrid: Talasa, 1993, p. 21.
442 Idem, ibidem, p. 17 e ss.
443 Gender. n specialized or fml the physical and/or social condition of being male
o female. Cambridge International Dictionnary of English; gênero. S.M. 1. Classe cuja extensão se divide em outras classes, às quais, em relação à primeira, são chamadas espécies. Novo Dicionário Aurélio. Enquanto que, em inglês, gender é um substantivo que designa exatamente a condição física e/ou social do masculino e do feminino, a palavra gênero, em português, é um substantivo masculino que designa uma classe que se divide em outras, que são chamadas espécies. Existe, portanto, uma dificuldade semântica que confunde o leitor médio e que obriga, na verdade, a uma constante necessidade em definir o que seja gênero, sempre que utilizamos tal categoria em português. Aliás, a mesma dificuldade ocorre com a língua francesa, daí a utilização da expressão rapports sociaux de sexe ao invés de gendre. MORAES, Maria Lygia Quartim de. Usos e
seres vivos na escala biológica, funcionando quase sempre como um termo classificatório. No contexto da presente tese, a palavra gênero será utilizada como termo que serve para classificar as pessoas em relação ao fenômeno da construção do masculino e do feminino, pela sociedade e pela cultura, o que fará com que tal palavra apresente diferentes concepções, diferentes focos de análise, conforme as bases teóricas que lhe servirão de sustentação.
Nessa condição, nem sempre esse foi um termo utilizado pelos cientistas sociais que, até a década de 60 do século passado, não se preocupavam com a construção social da identidade de homens e mulheres. Em verdade, no mundo acadêmico, a palavra gênero surgiu no momento em que pesquisadoras feministas buscavam, através dos chamados “estudos sobre as mulheres”, desnaturalizar a condição da mulher na sociedade444. Essa tentativa visava desconstruir a ideia de que
tudo aquilo que a ela se referia estaria em sua natureza feminina, cujas características (maternidade, delicadeza, sensibilidade, obediência, amorosidade, afetividade, etc.) eram desvalorizadas pela sociedade ocidental de mercado, onde a competitividade e a agressividade (características vistas como naturais e essencialmente masculinas) eram mais valorizadas. A desigualdade entre homens e mulheres era interpretada como um dado natural, como algo que não poderia ser modificado, funcionando aí o início da contribuição dos estudos feministas para a desnaturalização dos gêneros.
A naturalização de comportamentos foi o mesmo componente utilizado pelas Ciências Médicas no tocante à sexualidade, conforme demostrou-se no tópico anterior, todavia, no tocante ao gênero, esse componente avançou em termos negativos, pois desconsiderou que tanto mulheres como homens adquiririam suas características de feminilidade e de masculinidade na vida social, ainda antes do nascimento, através das expectativas criadas pelos pais e por todo o tecido social, tão logo saibam o sexo da criança que ainda é uma promessa. Essas expectativas, traduzidas nas cores dos brinquedos e dos enxovais, na decoração dos quartos, na escolha dos acessórios e até na forma como a mãe se comunica com o bebê em seu ventre, já carregam as formas de entender o que é ser homem e o que é ser mulher e, consequentemente, o que será ensinado ao novo ser.
444 Cf. SIMIÃO, Daniel Schroeter. Gênero no mundo do Trabalho. Cadernos
MORAES, adverte que foi no decorrer dos anos 90, em decorrência do impacto político das teorias feministas e de novas perspectivas de análise do “ser mulher”, que o uso da categoria gênero tornou-se mais frequente, sendo introduzido nas universidades e instituições acadêmicas em várias partes do mundo ocidental, inclusive no Brasil. As Ciências Sociais, seguindo a perspectiva desbiologizante445
das masculinidades e feminilidades, passou a utilizar o termo gênero partindo de uma seara culturalista, na qual as categorias diferenciais de sexo não implicariam no reconhecimento de uma essência masculina ou feminina, de caráter abstrato e universal, mas, diferentemente, apontariam para a ordem cultural como modeladora de mulheres e homens446. Em
sentido mais claro, o que chamamos de homem e de mulher não seria o produto da sexualidade biológica, mas sim de relações sociais baseadas em distintas estruturas de poder447.
Mas, antes de se chegar a esse conceito de gênero, os meios acadêmicos foram trilhando outros caminhos na construção do significado desse termo. COSTA aduz que, buscando outras interpretações, tais como “gênero como variável binária, gênero como papeis dicotomizados, gênero como uma variável psicológica, como sistemas culturais e como relacional”, foi possível compreender que gênero, sexualidade e sexo biológico não possuiriam uma relação unívoca, mas que a complexidade do fenômeno era bem maior448.
Segundo COSTA, alguns teóricos, ao invés de entenderem o homem e a mulher como opostos binários, onde o gênero funcionaria como uma característica relacionada a diferença biológica, preferiram
445 Mais adiante se realizará uma descrição concreta acerca dessa perspectiva. 446 Cf. MORAES, M., 1998, p. 2-3.
447 HEILBORN, M. Usos e abusos da categoria gênero. In. HOLLANDA, H.
B. de (org.) Y Nosotras Latinoamericanas? Estudos sobre gênero e raça. Fundação Memorial da América Latina, 1992, p.39-44. A categoria de gênero não deve ser acionada como um substituto de referência para homem ou mulher. Seu uso designa, ou deveria fazê-lo, a dimensão inerente de uma escolha cultural e de conteúdo relacional. Por outro lado, traz embutida a articulação desse código, que se apropria da diferença sexual tematizando-a em masculino e feminino, com outros níveis de significação do universo, porquanto no que respeita, por exemplo, às sociedades primitivas – e não apenas nelas – o gênero interage com outros códigos”.
448 COSTA, Claudia de Lima. O leito de procusto: gênero, linguagens e teorias
enfatizar o caráter social do gênero, conceituando-o como sendo o papel que os indivíduos assumem na sociedade. Para ela, o paradigma dos papeis tem sido usado para analisar as diferenças entre as posições das mulheres e dos homens e para explicar como ambos são moldados para essas posições. Esse marco teórico sustenta, em linhas gerais, que através da socialização, homens e mulheres aprendem e internalizam identidades específicas pelo desempenho de determinados papeis, de modo que, masculino e feminino são aprendidos através da representação de papeis masculinos e femininos, da mesma maneira como um ator ou uma atriz aprende suas falas pela leitura e memorização de um roteiro. Além disso, a sociedade recompensa aqueles que se conformam com os papeis que lhes foram designados e pune aqueles que se desviam das regras que, por sua vez, são deduzidas a partir de exigências estruturais da ordem social449.
Essa abordagem de gênero, muito embora represente um avanço no tocante ao paradigma da diferença sexual – já que entende o gênero a partir de papeis institucionais e sociais específicos e não como uma característica intrínseca à biologia dos sujeitos – contém pressuposições questionáveis e falhas graves450. THORNE aponta que a primeira
fraqueza nessa abordagem diz respeito ao fato de que a terminologia dos papeis não é de muito auxílio na compreensão do gênero. Ser homem ou ser mulher não equivale a ser um professor ou uma secretária:
[...] A terminologia dos papeis sexuais obscurece a questão sobre o efeito do gênero sobre papeis mais específicos – sobre normas, avaliações e comportamento real. Por exemplo, professoras geralmente recebem menos credibilidade, prestígio e pagamento do que professores451.
Observa-se que a metáfora de papeis infiltra percepções e termina por equacionar o papel feminino com papeis específicos de mãe e esposa, de forma que:
449 Cf. COSTA, C., 1994, p. 147 e ss.
450 Cf. THORNE, Barrie. Gender and social groupings. In.: RICHARDSON,
Laurel & TAYLOR, Vera (orgs). Feminist Frontiers: Rethinking Sex, Gender and Society. New York: Addison-Wesley, 1983, p.65.
[...] A conexão entre gênero e poder fica, portanto, fora da análise. Além do mais, muitas vezes não está claro a que o papel masculino ou o papel feminino se referem. Em alguns casos são usados para referir-se a um ideal normativo de comportamento; em outros casos, referem-se a estereótipos de papeis do homem ou da mulher452.
Uma segunda crítica demonstra que a teoria dos papeis não fornece um relato adequado da mudança social. Os teóricos dessa corrente enxergam a mudança como sendo algo que acontece para os papeis de cada gênero, não como algo que surgiria dentro das relações entre os gêneros em consequência da interação dialética entre a prática social e a estrutura social453.
A terceira critica afirma que o marco dos papeis não levanta questões de poder e desigualdade:
[...] A ideologia dos papeis masculinos e femininos obscurece as práticas material e social opressivas que sustentam distinções rígidas entre homens e mulheres. Ao enfatizar dualismos, essa teoria desvia a atenção da complexidade das relações sociais. O gênero é melhor entendido em termos políticos e sociais e com referência a formas e locais e específicas de relações e desigualdades sociais. O que a abordagem dos papeis oferece, em última instância, é uma visão abstrata das diferenças entre os sexos e suas situações, não uma visão concreta das relações entre ambos454.
Com feito, considerar o gênero como uma variável psicológica foi a opção de alguns pesquisadores ligados à área da Psicologia que
452 COSTA, C., 1994, p. 148.
453 CARRIGAN, Tim; CONNELL, Bob; LEE, John. Toward a New Sociology
of Masculinity. Theory and Society 14, no. 5, 1985, p. 551-604. Disponível em:
<http://www.jstor.org/stable/657315> Acesso em 15 ago 2016.
“optaram por conceituar gênero como uma orientação ou força da personalidade”455.
Na busca de um conceito de gênero que se baseasse mais numa continuidade do que numa dicotomia, investigadores dessa área desenvolveram um instrumento no qual as diferenças entre as masculinidades e as feminilidades constituiriam mais uma questão de grau do que de oposição456. Por este instrumento, os “coeficientes de alta
masculinidade/alta-feminilidade encontram-se no extremo da escala, com a androgenia representando uma combinação de pontuações elevadas tanto na masculinidade quanto na feminilidade”457. DALY descreveu que
o andrógeno passou a significar algo como “John Travolta e Farrah Fawcett-Majors grudados com fita adesiva Scotch”458, de forma que o ser
andrógeno designaria uma “pseudo-integridade em sua combinação de descrições distorcidas de gênero”459.
Contudo, apesar da popularidade da androgenia, o exame cuidadoso da validade da construção dessa escala não conseguia determinar o que exatamente estava sendo alvo de mensuração, tampouco o que significava. Desde então, inúmeros autores, a exemplo de LOTT460,
vêm questionando a validade conceitual e política da androgenia, oferecendo várias críticas sobre ela; outros tantos461, ao tecerem suas
críticas, afirmaram que a escala em comento faz do comportamento andrógeno uma qualidade de gênero, uma espécie de autorreferente, de acordo com um modelo ainda dualístico e rígido de masculinidades e feminilidades, o qual, ainda está enraizado em expectativas esteriotipantes462.
Nessa perspectiva, o gênero, definido como orientação psicológica, continuou, a exemplo da noção anterior, a fundamentar
455 Idem, ibidem, p. 150. 456 Idem, ibidem, p. 150. 457 Idem, ibidem, p. 150-151.
458 DALY, Mary. Gyn/Ecology: The metaethics of Radical Feminism. Boston:
Beacon Press, 1978, p. XI.
459 DALY, M., 1978, p. 387.
460 Para maiores esclarecimentos: LOTT, Berenice. A feminist critique of
Androgyny: toward the eliminatior of gender attributions for learned behavior.
In: MAYO, C; HENLEY, N. (Orgs.) Gender and nonverbal behavior. New York: Spring-Verlag, 1981, p. 171-180.
461 Cf. LOTT, B., 1981, p. 387. 462 Cf. COSTA, C., 1994, p. 150-151.
noções tradicionais de masculinidades e feminilidades, terminando por ratificar essa distinção que, na realidade, procurava dissolver. COSTA assegura que, quando se situa o gênero no âmago da “psique”, como uma força ou como uma orientação que seria em grande parte causa que explicaria o desejo e o comportamento, estar-se a excluir quaisquer considerações sobre a dimensão política de sua constituição: o gênero como efeito de práticas discursivas. Para a autora, teorizar hierarquias sexuais em termos funcionais ou psicológicos, ou ainda como um reflexo de limitações biológicas, minimiza diversas considerações sociológicas que buscam explicar como diferenças de gênero são criadas e mantidas pelas próprias relações de gênero463.
Outro marco teórico importante para o estudo que ora se estabelece foi a denominação do gênero como um sistema cultural. A influência derivada do movimento Feminismo Culturalista464 e do discurso sobre a
463 Idem, ibidem, p. 153.
464 Também conhecido como feminismo relacional, esse movimento tem como
ponto de partida a postulação da existência de diferenças fundamentais entre homens e mulheres, que apresentam diferentes processos de desenvolvimento moral. Enquanto os homens, ao depararem-se com conflitos morais, frequentemente organizam-se por meio de ideias de justiça e formulam raciocínios lógicos baseados em direitos individuais abstratos, as mulheres são mais inclinadas a uma ética de cuidado, preocupada na preservação das relações e preferindo soluções contextuais e particularizadas.
Segundo as feministas relacionais, a voz diferente resultante deste processo diferenciado de desenvolvimento moral possibilitaria às mulheres maior capacidade de solução dos problemas, dada a ênfase em valores como cuidado com o outro, abertura, simpatia, paciência e amor. A denominação culturalista deve-se ao fato de visualizar a libertação feminina através da afirmação de uma contra-cultura centrada na realidade das mulheres. A afirmação dessa contra- cultura faria a realidade feminina inassimilável à norma geral de igualdade de tratamento, daí enfantizando que o tratamento como igual destas duas realidades diversas só é possível através de medidas diferenciadas. Neste sentido, as feministas culturalistas divergem da argumentação geralmente aceita pelas feministas liberais, que defendem a superação das desigualdades experimentadas pelas mulheres mediante igualdade de tratamento, relutando admitir medidas diferenciadas por nelas vislumbrar a presença de uma ideologia de superioridade masculina que se traduz, por exemplo, em atitudes paternalistas, reforçadoras dos papéis tradicionais que inferiorizam mulheres diante de homens. NASSIF, Luis.
diferença fez com que essa visão entendesse o gênero como dois sistemas incomensuráveis. As culturalistas entendiam que as experiências típicas das mulheres, como aquelas que cuidam, alimentam e pacificam, lhes permitia criar uma espécie de cultura diferente, assim como lhes permitia articular diferentes epistemologias, assim como valores estéticos e culturais alternativos. Nessa concepção, a diferença se torna um conceito de grande importância para significar que as mulheres têm uma voz, uma psicologia e também experiências de amor diferentes. Essa concepção foi tomada como uma espécie de contra-cultura, fundada no mundo da cooperação/participação e sensibilidade da mulher no tocante às necessidades dos outros, a qual influencia o estilo do discurso proferido pelas vozes femininas, fazendo-o mais pessoal, relacional e ligado ao contexto, quando comparado ao dos homens465.
O argumento que melhor enquadra o discurso da mulher como uma subcultura linguística, distinta da do homem foi apresentado pelos autores MALTZ e BORKER. Para eles, homens e mulheres são originários de diferentes subculturas sociolinguísticas – baseada em uma extensa e retórica divisão nos universos de meninos e meninas na infância – em que ambos aprendem diferentes formas e regras de interação, assim como diferentes modos de discurso e diferentes direitos e deveres de falar e de ouvir. Acrescentam que quando tentam se comunicar uns com os outros, geralmente não são bem-sucedidos466. Ademais:
[...] sócio-linguistas e antropólogos que concebem o gênero seguindo um modelo de sistemas culturais, alegam que o fato do discurso das mulheres ter sido caracterizado como ausente de poder, ineficaz e incerto, somente revela as maneiras pelas quais os grupos dominantes (homens) distorceram e silenciaram as expressões
http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/as-divisoes-do-feminismo>. Acesso em 16 ago 2016.
465 Cf. COSTA, C., 1994, p. 153.
466 MALTZ, Daniel; BORKER, Ruth. A cultural approach to male-female
miscommunication. In.: J.J Gumperz (org). Language and social identify.
Cabridge: Cambridge University Press, 1982, p. 196-216. Disponível em: < http://courses.umass.edu/comm497c/Reading%20pdfs/MaltzBorker.pdf>. Acesso em 16 ago 2016.
de um modelo alternativo das mulheres para o mundo467.
Esse marco teórico também está repleto de problemas, tanto ao nível da prática quanto ao nível da teoria. Em primeiro lugar:
[...] embora haja fatores econômicos, políticos, históricos e ideológicos bastante reais e concretos que contribuem para mantes as mulheres como subcultura linguística separada (exe., o acesso desigual aos recursos por parte das mulheres; separação ocupacional e social entre homens e mulheres; a segregação das mulheres e de sua linguagem por instituições como o estado e os meios de comunicação em massa), o discurso sobre mundos separados põe demasiada ênfase na diferença, negligenciando as importantes semelhanças entre os seres humanos. Em segundo lugar, essa perspectiva pressupõe que só existe uma voz ou cultura feminina homogênea. Como o gênero em nossa cultura geralmente se imbrica com outras categorias de estratificação, bem como com dimensões que se encontram dentro do campo das relações de gênero (homossexuais, heterossexuais, transexuais, bissexuais, etc.), somente nos é possível falar de uma multiplicidade e diversidade de vozes femininas468.
COSTA ainda registra que essa perspectiva que assimila o gênero como um sistema cultural proporciona um movimento de idealização do mundo das mulheres, que chega a romantizar a opressão. Muito embora a celebração de uma cultura das mulheres traga resultados positivos – como por exemplo, a elevação da consciência das mulheres -, segundo essa autora, deve-se perceber que a própria noção de diferença pode agir de forma a obscurecer a dominação que os homens exercem sobre elas. Nesse sentido, a celebração da diferença, por intermédio do reforço de dualidades, como propõe essa visão de gênero, falha em desafiar e também em transformar as práticas institucionais que constituíram o
467 COSTA, C., 1994, p. 154. 468 Idem, ibidem, p. 154.
gênero como diferença hierárquica. Ou seja, pensar o gênero ao redor de oposições binárias sempre implicará na subordinação do segundo elemento em relação ao primeiro (do feminino em relação ao masculino; e mesmo que se inverta a ordem dos termos, segundo a autora, somente se repetiria o sistema que funcionava na posição inicial469.
MOI justifica que a adoção desse prisma que valora a diferença pode resultar no que ela chama de “faca de dois gumes”: a diferença, que no primeiro momento serviria para qualificar as mulheres positivamente, poderia ser utilizada como uma espécie de justificativa ideológica como forma de ratificar práticas institucionais discriminatórias (para manter as mulheres em seus devidos lugares ou mesmo para retorná-las a esses lugares)470. Aduz, ademais, que dado que os homens geralmente retêm
maior poder na sociedade, “o discurso da diferença poderia (e seria) empregado para provar que certas atividades pouco agradáveis são mais condizentes com a natureza feminina que com a masculina”471.
O quarto marco teórico representa o mais frutífero, em termos de contribuições para os estudos do gênero e das interações sociais como um todo, quando comparado aos anteriores. O ponto de partida para a compreensão das questões de gênero numa visão relacional, “não é o indivíduo, nem seus papeis, mas o sistema social de relacionamento dentro do qual os interlocutores se situam”472. A forma relacional de
entender as questões de gênero, como o nome sugere, leva em consideração uma série de relações que circundam a questão, abandonando a visão dicotômica e da divisão de papeis do gênero, onde se reconhecem “uma essência masculina ou feminina, de caráter abstrato e universal”473. Na visão relacional, o masculino e o feminino não são
dois mundos à parte; ambos possuem características que podem variar, privilegiando-se a pluralidade e não apenas as diferenças.
Segundo LOURO:
[...] O conceito passa a ser usado, então, com um forte apelo relacional – já que é no âmbito das relações sociais que se constroem os gêneros. Deste
469 Cf. COSTA, C., 1994, p. 156-157.
470 Cf. MOI, Toril. Teoria Literária Feminista. Trad. Amaia Barcéna. Madrid:
Cátedra, 1988, p. 154.
471 MOI, T., 1988, p. 154. 472 COSTA, C., 1994, p. 158. 473 MORAES, M., 1998, p. 2.
modo, ainda que os estudos continuem priorizando as análises sobre as mulheres, eles estarão agora, de forma muito mais explícita, referindo-se também aos homens474.
A visão relacional do gênero permite, na visão de COSTA, três coisas simultaneamente.
Em primeiro lugar, é possível que se desenvolva uma concepção dinâmica de masculinidades e feminilidades enquanto estruturas de