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5. A PRODUÇÃO DE SENTIDOS, AS REDES DE FORMULAÇÃO

6.6 A DINÂMICA DAS ARENAS DECISÓRIAS

6.6.2 Estudo de Atas do Conselho Regional de Saúde

Este conselho teve inicio em setembro de 2001. Algumas atas não foram encontradas prejudicando, de alguma forma, o desenvolvimento do estudo.

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Quadro 12 – Síntese das Atas do Conselho Regional de Saúde (CRS), no período de 2003 a 2004.

Fonte: Elaborado a partir do arquivo de atas das reuniões da CRS, da 13ª CRS.

O Conselho Regional de Saúde foi escolhido intencionalmente, como fonte de dados dessa pesquisa, por entender-se que o mesmo contém em sua composição representantes de toda a região de abrangência da 13ªCRS/RS e por ser a arena responsável pela formulação de estratégias e controle na execução da política de saúde, com poder deliberativo na instância regional.

Esse conselho, inicialmente, estava composto por trinta e quatro membros (34), sendo 50% de representação de usuários e os demais são gestores – estadual e municipais, trabalhadores da saúde e prestadores de serviços, respeitando uma distribuição paritária entre os mesmos. A partir de abril de 2004, esta composição foi alterada formando uma plenária de vinte e quatro (24) conselheiros. O mesmo realiza uma reunião plenária mensal, no auditório da 13ªCRS/RS, sob a coordenação colegiada de uma mesa composta por quatro membros de forma paritária entre usuários e demais segmentos com a responsabilidade de organizar as demandas que chegam ao conselho e fazer os encaminhamentos propostos pela plenária. O primeiro mandato teve a duração de um ano, após, os demais são de dois anos.

O ano de 2003 inicia com a posse da mesa coordenadora eleita em reunião anterior (2002), sendo composta por representantes sindicais, um gestor municipal e uma trabalhadora da saúde. Durante o ano, a coordenação foi revezada entre os dois sindicalistas. No início das atividades a mesa coordenadora propôs o objetivo de facilitar o acesso na região aos serviços especializados de saúde e verbalizou também o desejo de que isso viesse a acontecer até o final do ano. No decorrer das atividades de 2003, e, até o momento, o CRS vem enfrentando dificuldades pela ausência de uma secretaria executiva própria, tendo solicitado providências por diversas vezes à 13ª CRS, uma vez que é de responsabilidade da mesma o oferecimento de condições para o desempenho das atividades deste conselho; alguns funcionários desta coordenadoria têm se revezado nesta atividade, sem uma definição mais precisa. Também foi manifesto a ausência do delegado regional de saúde (membro titular, representante do governo) nas reuniões, dando origem, na III Conferência Regional de Saúde, a uma moção de repúdio.

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Este conselho possui comissões: uma Comissão Interinstitucional de Saúde do Trabalhador, instituída, uma de Acompanhamento dos Conselhos Municipais de Saúde em processo de organização, assim como, uma Câmara Técnica para acompanhamento da gestão do hospital regional e uma Comissão de Saúde Mental. Em 2003, todas funcionaram precariamente. Atualmente, apenas uma (a de Saúde do Trabalhador) vem desenvolvendo suas atividades.

Nas reuniões dessa arena decisória, o tema regionalização esteve presente desde a sua criação em setembro de 2001. Durante os últimos anos dessa pesquisa (2003-2004) ele aparece nas diferentes formas e é recorrente sem, no entanto, obter um encaminhamento mais efetivo. O sentido mais evidente nas abordagens foi a preocupação com a resolutividade das demandas de saúde curativa de média e alta complexidade, em que a prestação de serviços se fez sempre presente, delineando as relações e os interesses, muitas vezes centralizando as discussões em questões hospitalares e atendimento médico especializado. Circunscrita nessa temática está a situação financeira, que denuncia potencialidades, mas também limites e concepções diversas e, inclusive, contraditórias à proposta da política pública de saúde que afloram no momento de enfrentamento de dificuldades. A exemplo disso, retoma-se de uma das atas o seguinte discurso: “No hospital, tentam propiciar ao paciente um atendimento diferenciado, cobrando dele um valor que é maior que o do SUS, em relação ao que o hospital receberia e que é menor que o particular, possibilitando o pagamento por parte do paciente e fazendo com que ele opte por um serviço diferenciado, não usando AIHs nestes casos”.

O desempenho dessa arena tem sido pouco expressivo e limitado, principalmente no que se refere à regionalização da saúde, uma vez que seu papel seria de suporte ao processo de implementação e controle das ações desenvolvidas. No entanto, se comparado ao Conselho Municipal de Saúde de Santa Cruz do Sul, esse parece ser mais atuante, tanto em relação ao regional, quanto aos dos demais municípios. A existência de coesão entre os conselheiros, que buscam um efetivo controle social, tem resultado em discussões ampliadas, aprovações e rejeições de propostas apresentadas nessa arena municipal. Essa coesão não aparece no CRS;

os próprios gestores têm fragilidades enquanto grupo e o controle social, que na maioria das

vezes tem se pronunciado na voz de sindicalistas, de pessoas que possuem informação e desenvoltura em discussões e negociações.

Além das dificuldades operacionais, de infra-estrutura, esse conselho enfrenta ainda alguns obstáculos, dentre os quais: o tênue exercício do seu caráter deliberativo, a pouca efetividade das suas comissões técnicas, ausência freqüente de alguns conselheiros, falta de informação, grande parte do tempo gasto em denúncias e reivindicações pontuais, raros debates sobre temas do interesse coletivo, limitado apoio financeiro, pouca divulgação das atividades e decisões através dos meios de comunicação (rádio, jornal, Internet e outros).

Com a observação participante nas reuniões, foi possível detectar significados nas condutas e posições de quem emitia os discursos. Nem tudo que foi exposto nesses discursos consta nas Atas. Essa incompletude é plausível, se olhada pela extensão das abordagens e pelas condições próprias dessa forma de registro. Entretanto, negligenciar a existência de uma lacuna simplifica a análise, pois essa pode estar permeada de conteúdos significativos, sendo, por sugestão, esclarecedora da dinâmica da arena a que corresponde. A relevância da associação de vários desdobramentos metodológicos, como observação participante, análise de discurso e análise de documentos, reafirma-se aqui, como possibilidade de transcender os limites de uma análise pautada apenas em um desses recursos, como, por exemplo, a interpretação apenas dos registros das atas, tomando-os por integrais.

As arenas decisórias não são neutras, pois a própria configuração das mesmas privilegia alguns atores em detrimento de outros (IMMERGUTT, 1996). O Ministério da Saúde se coloca como o ator mais poderoso nas arenas decisórias. Apesar do mesmo estar numa situação mais distanciada do nível local, seus mecanismos e recursos institucionais são indutores de decisões. A posição de controlador de recursos dos quais dependem os demais, pode representar um claro limite à possibilidade efetiva de interferência no conteúdo das decisões (ARRETCHE, 2003). Além disso, mesmo havendo consenso em torno de uma normatização, o Ministério da Saúde tem recursos para alterar seu conteúdo na implementação das decisões através de portarias administrativas editadas unilateralmente (CARVALHO, 2001; LEVCOVITZ, 2001). Tal condição pode se tornar indutora de ações somente quando percebida pelos conselheiros de forma a instigá-los a apropriarem-se de suas funções, organizarem-se para tensionar no sentido a favorecer a população, amenizando essa 190

hegemonia de poder através de tentativas de sobrepor as determinações dessa instância com propostas e contribuições adequadas às demandas sociais. Esse é o pensamento que esteve sempre presente durante o desenvolvimento desse estudo, e, norteia a tese, pois entende-se que somente a partir de uma relação sinérgica entre os diversos atores: gestores, profissionais, prestadores de serviços de saúde e usuários, as políticas serão compreendidas e implementadas de forma condizente com as necessidades da região.

TERCEIRA PARTE

TEORIA E PRÁTICA: UM DIÁLOGO NECESSÁRIO

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