CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO
2.2 ESTUDO DE CASO COMO MODALIDADE DE PESQUISA
O conceito do estudo de caso como modalidade de pesquisa é apresentado com posições diversas na literatura mundial, entre as quais destacam-se as conceituações de Yin (2001), Hartley (1994), Goode e Hatt (1979) e Ventura (2007).
Para Goode e Hat (1979), o estudo de caso é um meio de organizar os dados, preservando o caráter unitário do objeto estudado. Considera a unidade como um todo, além do conhecimento intrínseco do objeto. Sendo assim, pretende-se investigar, por meio do estudo de caso, as características importantes para o objeto de estudo da pesquisa no contexto em que será investigada.
Hartley (1994) reforça a inserção do estudo de caso em um cenário amplificado, caracterizando-o como uma investigação detalhada de uma ou mais organizações com vistas a prover uma análise do contexto e dos processos envolvidos no fenômeno em estudo. Nessa conjuntura, o fenômeno não está isolado de seu contexto, já que o interesse do pesquisador é, justamente, a relação entre o fenômeno e o ambiente em que está inserido.
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Segundo Yin (2001), trata-se de uma metodologia válida quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e, em situações, nas quais o foco se encontra em fenômenos complexos e contemporâneos, inseridos no contexto da vida real.
A conceituação de Ventura (2007), tendo em vista as posições dos autores apresentados, é mais abrangente. O estudo de caso como modalidade de pesquisa é uma metodologia que envolve a escolha de um objeto de estudo a ser definido pelo interesse em casos individuais. Visa à investigação de um caso específico, bem delimitado, contextualizado em tempo e lugar para que se possa realizar uma busca circunstanciada de informações.
2.2.2 Classificação
O estudo de caso pode ser classificado, segundo Gil (2010), conforme: a quantidade de casos analisados, o enfoque disciplinar e os objetivos da investigação. Quanto à quantidade de casos, pode ser constituído tanto de um único, quanto de múltiplos casos, nos quais vários estudos são conduzidos simultaneamente: vários indivíduos, várias organizações, por exemplo.
Segundo o enfoque disciplinar, podem ser identificadas diferentes modalidades de um estudo de caso único: caso raro, relacionados a comportamentos e situações sociais; caso decisivo, para confirmar, contestar ou entender uma teoria; caso revelador, referente a um fenômeno inacessível a outros pesquisadores; caso típico, exploração ou descrição de objetos que melhor expressem o tipo de categoria; caso extremo, relacionado à situação limite em que um fenômeno pode se manifestar; e caso discrepante, que ultrapassa a situação limite.
Finalmente, conforme os objetivos da investigação, o estudo de caso pode ser: intrínseco (ou particular), quando procura compreender um caso particular em si, em seus aspectos intrínsecos; instrumental, quando se examina um caso, para se compreender melhor outra questão ou algo mais amplo, para orientar estudos ou ser instrumento para pesquisas posteriores; e coletivo, quando a pesquisa é estendida a outros casos instrumentais, conexos com o objetivo de ampliar a compreensão, ou a teorização sobre um maior conjunto de casos.
O estudo de caso analisado neste trabalho é único – trecho Açailândia-Barcarena da Ferrovia Norte-Sul –, com enfoque disciplinar típico, vez que o trecho analisado é uma representação do conjunto de ferrovias propostas no Programa de Investimento em
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Logística (PIL), e classificado, conforme os objetivos da investigação, como instrumental, por facilitar o entendimento de um contexto real e mais amplo, que seria a dificuldade de se concretizar a concessão de qualquer que seja a ferrovia constituinte do PIL.
2.2.3 Vantagens e Limitações
Os estudos de caso estimulam novas descobertas, em função da flexibilidade do seu planejamento; enfatizam a multiplicidade de dimensões de um problema, focalizando-o como um todo; e apresentam simplicidade nos procedimentos, além de permitir uma análise em profundidade dos fenômenos e das relações entre eles (Ventura, 2007).
Yin (2005) acrescenta que o estudo de caso torna possível uma investigação que permite preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real. Também contribui, de forma inigualável, para a compreensão que temos de fenômenos individuais, organizacionais, sociais e político.
Apesar disso, também há limitações para a adoção do estudo de caso como modalidade de pesquisa. As mais graves referem-se às dificuldades de generalização dos resultados obtidos e da replicabilidade da pesquisa (Ventura, 2007).
Para evitar prováveis equívocos, o pesquisador deve se atentar ao risco de apresentar falsa certeza de suas conclusões e fiar-se em falsas evidências, sobretudo quando se houver necessidade de fazer generalizações.
Para permitir a aplicação de sua pesquisa, o pesquisador deve se preocupar com a confiabilidade das teorias e da bibliografia aplicada e buscar, também, a delimitação de um caso dentro de um contexto relevante ao longo dos anos. Afinal, embora as observações de um caso particular não possam ser replicadas, outro pesquisador pode utilizar as mesmas teorias testadas, a conclusão e os resultados a respeito do contexto atemporal. Inclusive, desde que obtenha resultados relevantes, a metodologia também por ser replicada em diferentes casos sob condições semelhantes.
2.2.4 Metodologia
Segundo, Gil (2010), o estudo de caso não segue um roteiro rígido para a sua delimitação, contudo, é possível definir um conjunto de etapas que permitem o seu delineamento como metodologia de pesquisa:
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1. Delimitação da unidade-caso: consiste em delimitar a unidade que constitui o caso, o que exige habilidades do pesquisador em perceber quais dados são suficientes para a compreensão do objeto como um todo. Considera-se, neste trabalho, a unidade-caso como o contexto da dificuldade de concretização de novas ferrovias diante do novo marco regulatório de concessão ferroviária. 2. Seleção do caso: para um estudo de caso múltiplo, recomenda-se buscar casos
típicos, extremos e atípicos para representar os limites e a normalidade da unidade-caso delimitada. Quando o estudo de caso é intrínseco, prioriza-se o caso típico, que melhor represente a categoria. Conforme já mencionado, o caso selecionado neste trabalho classifica-se como típico e intrínseco.
3. Coleta de dados: geralmente é feita com vários procedimentos quantitativos e qualitativos, tais como: observação, entrevista, análise de documentos, levantamento e histórico de dados. Há uma pluralidade de procedimentos que podem ser incorporados. No estudo de caso apresentado neste trabalho, por exemplo, foram analisados os documentos oficiais, atas de reunião, audiências públicas, estudos oficiais de órgão competente, jornais, entre outros.
4. Seleção, análise e interpretação dos dados: esta quarta etapa é conjunta. Deve-se considerar, para a seleção dos dados, os objetivos da investigação, seus limites e uma sistema de referências para avaliar quais dados serão úteis ou não. Para a análise, recomenda-se considerar a qualidade da amostra dos dados obtidos, pois se a amostra é boa, há uma base racional para fazer generalizações a partir dos dados.
5. Elaboração do relatório: nesta etapa, o pesquisador deve especificar: como foram coletados os dados, quais as teorias embasadas e todos as demais características necessárias para a compreensão do trabalho e para a demonstração da fidedignidade dos dados obtidos. O relatório deve ser claro e conciso.
Seguindo essa orientação, delimitados o caso em si e o seu contexto, este trabalho foi desenvolvido, a partir do levantamento de dados com dois grandes focos – o científico referente à análise de técnicas pertinentes ao desenvolvimento da pesquisa; e o de informações sobre o corredor delimitado para a posterior análise de viabilidade.
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