2. PROCESSO EXTRADICIONAL NO BRASIL
2.4 Estudo de caso concreto (Cesare Battisti)
Um dos casos mais emblemáticos, polêmicos e que teve grande repercussão tanto no Brasil como no âmbito jurídico internacional, foi o processo de extradição do italiano Cesare Battisti. Tal processo configurou-se como extradição passiva (quando um Estado estrangeiro solicita a entrega de alguém ao Brasil).
Como refere-se Adriana Souza Dellova (2011), Cesare Battisti nasceu em 1954 e dedicou sua a vida a literatura atuando como escritor. Fez parte de um grupo de extrema esquerda denominado Proletários Armados pelo Consumo (PAC), que atuava na Itália nos anos 70. Grupo extraparlamentar armado considerado terrorista criado em um época de organizações revolucionárias conhecida como “anos de chumbo”.
No caso Battisti, o italiano foi julgado 1987 e condenado em seu país de origem à prisão perpétua com restrição a luz solar, onde foi acusado de ter participado de forma direta ou indireta de quatro homicídios e outro delitos inferiores.
No entendimento de Ademar Stocker (2013), logo após ter sido condenado perante a Justiça italiana, fugiu para a França. Tendo conhecimento do seu paradeiro, o governo italiano protocolou um pedido de extradição junto ao Estado francês. Tal solicitação foi indeferida por duas vezes pela Corte de Paris. Entretanto, no início de 2004, após análise dos recursos apresentados pelos representantes legais de Battisti, a Corte aceitou a nova solicitação de extradição dando provimento ao pedido. Insatisfeito com a decisão, o italiano intentou recurso junto a Corte Europeia de Direitos Humanos, que se manteve a favor da extradição negando o pedido. Aguardando o recurso ser avaliado e julgado, foi colocado em liberdade. Então, antecipando a assinatura do decreto que determinaria a sua extradição, fugiu novamente, desta vez para o Brasil.
Tendo ciência de que Cesare Battisti encontrava-se em solo brasileiro, o governo italiano requereu a sua extradição. Após o pedido, em ação realizada conjuntamente pela Interpol e policias francesa, italiana e brasileira, foi efetuada preventivamente a prisão de Battisti em 2007 no Rio de Janeiro. Diante do fato resultante, o italiano formulou pedido juntamente ao CONARE (Comitê Nacional de Refugiados) requerendo status de refugiado político em 2008, baseado no art. 29 da Lei nº 9.474/97 onde “No caso de decisão negativa, esta deverá ser fundamentada na notificação ao solicitante, cabendo direito de recurso ao Ministro de Estado da Justiça, no prazo de quinze dias, contados do recebimento da notificação”, tendo sido negado provimento ao apelo.
Já em 2009, baseado no argumento de que foi violado o direito à ampla defesa na condenação e que não havia impedimentos para conceder o refúgio, o então ministro da Justiça Tarso Genro, aceitou recurso formulado concedendo o pedido de refúgio político. Na ocasião, a decisão foi embasada também na fundamentação de que estava havendo perseguição por opinião política, fato este que encontra-se caracterizado como um dos fundamentos para a concessão de refúgio, no art. 1º, I, da Lei nº 9.474/97, o qual menciona que:
Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que:
I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;
Sendo assim, segundo ordenamento jurídico brasileiro restou caracterizado a impossibilidade de extradição de Battisti. Mediante tal decisão proferida pelo Ministro da Justiça Tarso Genro, foi instaurada uma crise política diplomática entre os Estados brasileiro e italiano. As autoridades italianas inconformadas com a decisão, acusaram o Brasil de estar aceitando os crimes de Battisti.
Conforme Poliana Bergamo Lomaz (2011), o Supremo Tribunal Federal julgou em dezembro de 2009, que o processo de extradição de Battisti, deveria ter o crivo final do Presidente da República, como também, aceitou o pedido de extradição
requerido pela Itália, em votação do Tribunal Constitucional, que foi vencida por cinco votos a quatro.
O posicionamento do STF referente a extradição restou favorável, mas caberia ao Presidente da República a decisão final. Consoante a isso, afirma Dellova (2011), que a decisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva em dezembro de 2010, foi de negar o pedido de extradição, baseado na premissa de que o italiano poderia sofrer com perseguições pelo governo italiano. Este entendimento está fundamentado no decreto Nº 863, de 9 de Julho de 1993 (Tratado de Extradição entre a República Federativa do Brasil e a República Italiana) em seu artigo terceiro, item um, alínea f, “ipsis litteris”:
1. A extradição não será concedida: [...]
f) se a Parte requerida tiver razões ponderáveis para supor que a pessoa reclamada será submetida a atos de perseguição e discriminação por motivo de raça, religião, sexo, nacionalidade, língua, opinião política, condição social ou pessoal; ou que sua situação possa ser agravada pó um dos elementos antes mencionados;
Logo após o indeferimento do pedido de extradição formulado pelo governo italiano, o qual foi negado pelo Chefe do Executivo, o STF decidiu em junho de 2011 pela soltura de Cesare Battisti. Menciona Lomaz (2011), que a negativa da extradição pelo ex-Presidente configura uma ato de soberania nacional no campo das relações internacionais e que neste sentido não caberia revisão pelo STF, cujo papel no processo de extradição diz respeito a admissibilidade do pedido. A votação dos Ministros pela soltura do italiano foi vencida por seis votos a três.
Verifica-se que, embora tivessem um fundo de motivação política, os crimes cometidos por Battisti são considerados comuns e de grau elevado de gravidade, afinal, foram praticados delitos contra a vida. Nota-se que foram preenchidos os requisitos necessários para a extradição, dependo do Brasil, mais precisamente do aval do Chefe do Executivo para a concretização do ato de entrega. Porém, defendendo a condição de refugiado de Battisti e respeitando o Tratado firmado entre Brasil e Itália, o que não deixa de ser importante, restou impossibilitada a extradição do italiano, uma vez que, perseguições motivadas por opiniões políticas, configuram um impedimento para a efetividade de extradição entre os países envolvidos.
CONCLUSÃO
O instituto da extradição atua como um importante instrumento de cooperação jurídica internacional no âmbito do direito penal entre países, pois tem o objetivo de controlar e combater a impunidade além das fronteiras territoriais. Este mecanismo desenvolveu-se ao longo da história, buscando a melhor forma de ser concretizada através da solidariedade diplomática entre os Estados, principalmente com a realização e estabelecimento de Tratados internacionais fazendo referência à matéria extradicional.
No processo de extradição devem ser respeitados alguns princípios norteadores, como o princípio da especialidade, cujo objetivo é a proteção do extraditando, uma vez que o mesmo deverá responder somente pelos crimes que deu causa; o princípio do nom bis in idem o qual garante que o criminoso responderá pelo crime em somente um Estado; e o princípio da dupla incriminação revela que o fato criminoso deve ser passível de punição em ambos os Estados envolvidos no processo de extradição.
Cabe mencionar que, o instrumento da extradição não se confunde com deportação e expulsão, ou seja, cada um destes mecanismos possui as suas peculiaridades e características próprias que as diferenciam. Enquanto a expulsão é um método que o Estado utiliza para rechaçar certo indivíduo de forma coercitiva por ele estar, de alguma maneira, criando perigo à paz social e à segurança nacional, a deportação consiste na remoção do sujeito que ingressou de forma irregular no país ou, mesmo tendo entrado de forma correta, permanece no Estado carregando alguma irregularidade.
Neste contexto, no processo da extradição, o Estado interessado em determinado indivíduo criminoso que cometeu delito e encontra-se foragido em outro país, pode formular pedido de extradição para que este responda por seus crimes perante o ordenamento jurídico do solicitante. No caso do Brasil, para que esta hipótese seja configurada, devem ser observados alguns requisitos como, de regra, que nenhum brasileiro nato será extraditado, salvo os naturalizados crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei, como também, segundo recente decisão do STF, ocorre a possibilidade de ser concedida extradição de indivíduo, mesmo que brasileiro nato, ao qual tenha sido decretada a perda de nacionalidade em virtude de optar, de forma voluntária, por adotar outra nacionalidade, abdicando, assim, de sua origem brasileira, restando caracterizado a perda da sua nacionalidade originaria, podendo assim ser extraditado. Este fato significa uma importante mudança na seara do processo extradicional, pois o que está em discussão é a primazia de uma garantia constitucional.
O Ministério da Justiça juntamente com o Supremo Tribunal Federal, são os principais agentes no processo de extradição. O primeiro é responsável por analisar os requisitos de admissibilidade do pedido de extradição. Já ao segundo, tem a competência de julgar procedente ou não o pedido extradicional. A solicitação formal para entrega do indivíduo solicitado deve passar pela avaliação destes dois órgãos controladores. Somente após uma profunda e minuciosa análise, o pedido julgado procedente será enviado para o presidente da República, a quem caberá a decisão final. Nesta conjuntura, os requisitos a serem analisados para que haja a possibilidade de extradição, compreendem impreterivelmente a verificação da nacionalidade do sujeito, o fato criminoso imputado ao indivíduo, como também a relevância do processo penal.
Na fase de conclusão do presente trabalho, foi sancionada pelo Presidente brasileiro uma nova lei, criada para substituir o Estatuto do Estrangeiro. A Lei 13.445 de 24 de maio de 2017 nomeada de Lei de Migração. A referida Lei visa regularizar de maneira mais aprofundada a situação dos estrangeiros no país. O processo extradicional também passou por algumas modificações, principalmente no que diz respeito à pessoa. Passou se a analisar a questão do estrangeiro de forma mais
humanitária, diferentemente do sistema antigo que visava primordialmente a segurança nacional.
No caso concreto analisado, verificamos que após ter cometidos crimes de natureza grave e ter sido condenado a prisão perpétua pelas autoridades italianas, Cesare Battisti fugiu primeiramente para a França, e em um segundo momento para o Brasil. Tendo ciência da sua posição, a Itália formulou pedido de extradição junto ao governo brasileiro para que ele respondesse pelos seus crimes. Por sua vez, o Brasil expressou posicionamentos opostos dos representantes legais no processo, sendo que, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela extradição de Battisti, e o Chefe do Executivo através de um ato de soberania nacional rejeitou a extradição baseado no Tratado entre os dois países que defende o indivíduo contra perseguições de cunho político impossibilitando a extradição. Como a decisão final cabe ao Presidente, a entrega de Cesare Battisti foi negada.
Por fim, o papel da extradição nos tempos contemporâneos, isto é, na sociedade globalizada, e porque não dizer violenta, é de extrema importância, pois a grande quantidade de estrangeiros se deslocando além das fronteiras requer um controle rígido de entrada, saída ou permanência destes cidadãos. Na incidência de algum destes forasteiros ter cometido certo crime e por consequência tentar se esgueirar do cumprimento da devida pena, buscando amparo em outro país, o instituto da extradição deverá ser acionado para que haja a possibilidade do indivíduo sofrer as correspondentes sanções as quais lhe são imputadas. Sendo assim, a extradição caracteriza-se por ser o principal meio de cooperação jurisdicional penal entre Estados no combate à criminalidade, que de maneira alguma deve ficar impune.
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