O estudo de caso é um tipo de investigação com uma grande relevância na investigação educacional (Ponte, 2006; Stake, 1995/2007; Yin, 1990). Para tentarmos explicar esta
tendência, podemos reflectir no que Patton (1990) aponta quando refere que “(…) os estudos de caso são particularmente úteis quando se pretende compreender determinados indivíduos, determinado problema ou uma situação particular, em grande profundidade” (p. 54). Em educação podemos pensar em diversos problemas ou situações que têm características que os tornam particulares e bem determinados. Um aluno, uma turma, um professor, uma escola, um currículo, são alguns exemplos de possíveis casos que podem ser estudados em
investigações, o que pode justificar a realização de diversos estudos de caso em educação.
O projecto Interacção e Conhecimento é, no nosso entender, uma entidade particular que pretendemos estudar, nesta investigação, por forma a compreendê-lo na sua complexidade. Este projecto é um entre muitos projectos de investigação em educação. No entanto, tem características e particularidades que o fazem destacar-se, que lhe atribuem o carácter único e específico, que se considera necessário para que assuma o estatuto de caso. Por um lado, durante os 12 anos de existência do projecto IC, a equipa central produziu vários materiais,
desde livros e artigos, a materiais usados em acções de formação, posters e tarefas propostas aos alunos, em aula. Esta equipa procedeu, também, à recolha de diversos materiais dos quais podemos destacar os protocolos de alunos, os relatórios de avaliadores e observadores
externos, ou as entrevistas a diferentes membros das comunidades educativas com que contactou. Esta situação deu origem a um corpus empírico rico e vasto, na medida em que é constituído por uma grande quantidade de documentos de diferentes tipos, recolhidos de diversas formas, em diferentes momentos e por diferentes investigadores.
Por outro lado, a equipa central do projecto IC é uma das características deste projecto que lhe conferem o estatuto de caso. Para além das diferentes formações iniciais e dos diferentes campos profissionais, os elementos da equipa central do projecto IC têm, também, diferentes percursos pessoais e académicos. Um dos aspectos que torna esse percurso relevante para este estudo são os diferentes graus académicos que completaram. Fazem parte desta equipa
estudantes de licenciatura, licenciados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutorados, sem e com agregação. Esta pluralidade rara em projectos de investigação, permite uma discussão mais rica entre os elementos da equipa central do projecto IC, já que cada situação ou aspecto teórico é analisado através de vários pontos de vista.
O projecto IC é, então, um projecto de investigação em educação com particularidades que contribuem para que, de acordo com o que Patton (1990) defende, esta investigação assuma o design de um estudo de caso. Também Ponte (2006) defende esta posição quando define estudo de caso:
Um estudo de caso visa conhecer uma entidade bem definida como uma pessoa, uma instituição, um curso, uma disciplina, um sistema educativo, uma política ou qualquer outra unidade social. O seu objectivo é compreender em profundidade o “como” e os “porquês” dessa entidade, evidenciando a sua identidade e
características próprias, nomeadamente nos aspectos que interessam ao
pesquisador. É uma investigação que se assume como particularística, isto é, que se debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser única ou especial, pelo menos em certos aspectos, procurando descobrir a que há nela de mais essencial e característico e, desse modo, contribuir para a compreensão global de um certo fenómeno de interesse. (p. 2)
Coutinho e Chaves (2002) salientam a importância do caso seleccionado quando afirmam que o estudo de caso é a abordagem metodológica que “(…) envolve o estudo intensivo e detalhado de uma entidade bem definida: o “caso”” (p. 223, aspas no original). Stake (1995/2007) começa a sua obra A arte da investigação com estudos de caso com a frase “Espera-se que um estudo de caso consiga captar a complexidade de um caso único” (p. 11). Nesta investigação, entendemos o projecto IC como um caso único, que pretendemos
compreender e interpretar, captando a sua complexidade.
Em relação às principais características, Ponte (2006) salienta que um estudo de caso “não é experimental. Usa-se quando o investigador não pretende modificar a situação, mas
compreendê-la tal como ela é” (p. 8). Para além disso, um estudo de caso pode “ajudar a gerar novas teorias e novas questões para futura investigação” (Ponte, 2006, p. 8), através do
confronto do caso em estudo com situações e/ou teorias já conhecidas.
Stake (1995/2007) apresenta uma classificação com três tipos de estudo de caso: intrínseco, instrumental e colectivo. Esta classificação é feita de acordo com o que é pretendido pelo investigador. Segundo este autor, ao realizar um estudo de caso intrínseco, um investigador pretende aprofundar o conhecimento de um caso específico, compreender as características intrínsecas. Relativamente ao estudo de caso intrínseco, Stake (1995/2007) refere que “Estamos interessados nele [caso], não apenas porque ao estudá-lo aprendemos sobre outros casos ou sobre um problema em geral, mas também porque precisamos de aprender sobre este caso em particular” (p. 19). Já no que se refere a um estudo de caso instrumental, este tem como principal objectivo compreender um caso particular de modo a que este se torne um instrumento na compreensão de um contexto ou situação mais
abrangente. Como Stake (1995/2007) defende, um estudo de caso instrumental “(…) visa alcançar algo mais” (p. 19). Por último, quando aludimos a um estudo de caso colectivo, referimo-nos a um conjunto de estudos instrumentais, ou seja, de vários casos que, quando analisados em conjunto, permitem um maior conhecimento sobre um determinado problema.
Por outro lado, Merriam (1988) apresenta uma classificação dos estudos de caso de acordo com a natureza do produto final, destacando os estudos de caso descritivos, interpretativos e avaliativos. Nos estudos de caso descritivos os fenómenos em estudo devem ser apresentados através de uma descrição pormenorizada e exaustiva. Estes estudos de caso são indicados para a exploração de áreas educativas ainda pouco investigadas, como as práticas pedagógicas
inovadoras ou a confrontação entre dois sistemas de ensino recorrente que, pela raridade de investigações existentes nestes domínios, constituem um contributo relevante para a
construção, reformulação ou refinamento futuro de uma teoria. Para Merriam (1988), nos estudos de caso interpretativos deve descrever-se pormenorizadamente o caso que se pretende estudar, de modo a poderem definir-se categorias conceptuais ou refutar ou iluminar o quadro teórico pré-existente. Já os estudos de caso avaliativos, pretendem, como o próprio nome indica, e para além de descrever, fazer uma avaliação do caso que está a ser investigado.
Segundo estas classificações, podemos olhar para o estudo que pretendemos realizar enquanto um estudo de caso intrínseco (Stake, 1995/2007), já que encaramos o projecto IC como um caso com características que nos parecem únicas e que pretendemos conhecer e compreender na sua particularidade. Por outro lado, uma vez que não pretendemos apenas descrever o projecto IC, mas também interpretar as transições teóricas e práticas que
ocorreram ao longo dos 12 anos de duração deste projecto, podemos assumir que este estudo se pode classificar como um estudo de caso interpretativo (Merriam, 1988).
Segundo Glass, McGaw e Smith (1981), a meta-análise consiste na análise de diferentes estudos realizados por diversos investigadores mas relativos ao mesmo problema em estudo. Na opinião destes autores, o confronto dos resultados obtidos por vários investigadores pode dar origem à construção de conhecimento. Uma vez que, nesta investigação, não pretendemos confrontar os estudos realizados no âmbito do projecto IC, mas compreender melhor este projecto, optamos por realizar um estudo de caso intrínseco (Stake, 1995/2007) e não uma meta-análise.
Por outro lado, um estudo histórico em educação permite a análise da génese e da evolução de um sistema educativo ou de um projecto desenvolvido em educação (Cohen, Manion, & Morrison, 2000). Tendo por base este pressuposto, poderíamos ter optado por realizar um estudo histórico sobre o projecto IC. No entanto, como defende Ribeiro de Castro (2008), a realização de um estudo histórico exige alguma distância temporal relativamente ao objecto de estudo, o que não se verifica neste caso. Apesar de o projecto IC ter tido 12 anos de duração, o seu terminus foi bastante recente, o que não aconselha a realização de um estudo histórico. Também a sua duração, apesar de ser invulgarmente longa para um projecto de investigação em educação, não comporta grandes alterações no contexto socioeconómico e político em que se desenvolveu. Assim, também a hipótese de esta investigação assumir um
design de estudo histórico foi rejeitada, o que acontece, também, pela adequação do design de estudo de caso intrínseco (Stake 1995/2007) ao problema que pretendemos estudar e às questões de investigação que orientam este estudo.
Participantes
Nesta investigação temos como participantes as pessoas relacionadas com o projecto IC, nomeadamente os professores, investigadores e professores/investigadores que fizeram parte desta equipa durante pelo menos um ano, os alunos que frequentaram turmas nas quais o projecto era desenvolvido, outros observadores, avaliadores externos e agentes educativos que actuaram como informadores privilegiados. Termos participantes com papéis tão distintos permite fazer uma triangulação de fontes, como recomendam Denzin (1978) e Patton (1999).