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Na secção anterior, é evidente o esforço envidado para outras línguas, sobretudo o inglês, no sentido de caracterizar os constituintes afirmativos e respectivos contextos de elicitação. Tanto quanto nos é possível afirmar, o presente trabalho constitui uma primeira proposta de análise destas estruturas em diálogos espontâneos adulto-adulto para PE. Como tal, a resenha bibliográfica que a seguir se apresenta vai assentar em duas vertentes: (i) descrição prosódica de estruturas declarativas e interrogativas, que correspondem aos principais contextos de elicitação das respostas afirmativas no presente trabalho; e (ii) descrição prosódica de constituintes afirmativos em fala espontânea adulto- -criança.

Os contextos declarativos e interrogativos representam os principais contextos de elicitação de respostas afirmativas em diálogos espontâneos. Em PE, os enunciados de tipo declarativo são os mais estudados, tendo sido associados, ao longo do tempo e por vários autores (e.g. Viana, 1987; Falé, 1995; Cruz-Ferreira, 1998; Frota, 2000), a contornos baixo/descendentes. Na proposta Towards a P_ToBI (Viana et al., 2007), os autores associam as declarativas neutras ao contorno H+L* L%. No que diz respeito aos contextos interrogativos, importa para o presente estudo a caracterização de interrogativas globais e interrogativas-tag. As primeiras são caracterizadas em PE por Mata (1990), em dados de fala espontânea, com o contorno entoacional Baixo-descendente ou Baixo--ascendente; por Falé (1995), com o contorno H* HL* H% e, por Frota (2000), com base em dados laboratoriais, com o contorno H+L* LH%. No que diz respeito às interrogativas-tag, estas são associadas a uma melodia Baixo-ascendente por Mata (1990).

Relativamente à caracterização de constituintes afirmativos em PE, destaque-se o trabalho de Mata e Santos (2010 e 2011) dedicados às relações prosódicas e pragmáticas entre interrogativas globais e respectivas respostas em diálogos adulto-criança. Em Mata e Santos (2010), as autoras identificaram pistas prosódicas que desambiguam interrogativas confirmativas. Por um lado, as autoras verificaram que estas interrogativas não estão associadas a um padrão entoacional único, havendo variação de acordo com a sua função pragmática. Mata e Santos (2010) verificaram que as interrogativas confirmativas de “percepção” tendem a ocorrer com os acentos H* e L+H* e as de “compreensão”, com o acento L*+H, sendo que ambas terminam frequentemente com tom fronteira não-descendente. No que diz respeito aos níveis de f0, as autoras verificaram que as interrogativas de “percepção” são produzidas num nível de registo mais elevado do que as de “compreensão”. Quanto às interrogativas confirmativas de “compreensão”, as autoras também verificaram a existência de correlações entre acentos nucleares e diferentes níveis de aceitação da pergunta.

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2. Enquadramento teórico

Em Mata e Santos (2011), as autoras observaram que os padrões entoacionais das respostas das crianças variam de acordo com a função pragmática das questões (interrogativas confirmativas de “compreensão” e de “percepção”). As respostas analisadas neste trabalho consistem em respostas afirmativas contendo somente uma palavra, nomeadamente: (i) sim, (ii) uma forma gramaticalizada do verbo ser, é/foi; ou (iii) o verbo principal ou auxiliar numa estrutura de elipse de VP (Santos, 2006). As autoras verificaram que, a partir dos dois anos de idade, as respostas das crianças convergem com o padrão entoacional das declarativas em PE, tendo sido encontrada uma correlação entre os acentos tonais baixos/descendentes – (H+)L* –, altos/ascendentes – (L+)H*, L*+H – e valores máximos de f0 em acentos tonais das respostas de aceitação neutra/não neutra em interrogativas confirmativas de “compreensão”. As autoras encontraram ainda evidências, também após a marca dos dois anos de idade, de uma correlação entre o nível de f0 nuclear em perguntas e respostas, sendo esta interpretada como manifestação de pitch concord entre falantes.

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3. Metodologia

O presente capítulo descreve a metodologia adoptada para o estudo das propriedades discursivas e prosódicas de constituintes afirmativos num corpus de diálogos de map-task. Na primeira secção (3.1), é apresentado o corpus que serviu de base a este trabalho. Na segunda (3.2), são explicitados os critérios para a selecção das estruturas afirmativas a analisar. A terceira e a quarta secções são dedicadas, respectivamente, à descrição dos critérios de classificação das funções comunicativas (3.3) e dos parâmetros de análise e anotação prosódica (3.4.) das respostas afirmativas e respectivos contextos de elicitação. Na última secção (3.5.), apresenta-se o modo como se estruturou a base de dados para posterior análise estatística.

3.1. O corpus

Para a realização deste trabalho, utilizou-se o corpus CORAL, um corpus constituído por sessenta e cinco diálogos entre trinta e quatro falantes de PE, com um total de, aproximadamente, nove horas de fala. Este corpus foi recolhido entre 1996 e 1999, no âmbito do projecto CORAL – Corpus de Diálogo Etiquetado (Viana et al., 1998; Trancoso et al., 1998). Os diálogos do corpus foram desenvolvidos em formato map-task, seguindo as linhas de orientação do The Edinburgh MapTask Corpus8, desenvolvido no Human Computer Research Centre (HCRC) na Universidade de Edimburgo.

Cada diálogo ocorre entre dois falantes, sendo atribuído a um deles um mapa com um trajecto desenhado entre vários elementos, e ao outro um mapa idêntico, mas com lacunas ou informações divergentes do original. O falante com o mapa completo adopta o papel de dador de informação e tem como objectivo dialogar com o seu interlocutor, que desempenha o papel de seguidor, para que este consiga reconstituir o mesmo trajecto no seu mapa, mesmo contendo um percurso com detalhes distintos do dador (vide Anexo 1). O corpus CORAL dispõe de dezasseis pares de mapas que são distribuídos pelos trinta e quatro falantes. Cada falante participa duas vezes como dador, utilizando o mesmo mapa, e duas vezes como seguidor, usando mapas diferentes. Para o desenho do corpus, foi realizado um diálogo de teste de modo a aferir os possíveis ajustes a efectuar nos diálogos seguintes. O diálogo de teste foi de tal forma bem sucedido que foi seleccionado como diálogo-modelo para uma análise multilinear, contendo informação sintáctica, semântica e prosódica. Todos os restantes diálogos do corpus dispõem apenas da transcrição ortográfica alinhada com o sinal. Acrescente-se

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3. Metodologia

ainda que os diálogos ocorrem num ambiente controlado, não sendo permitido aos falantes estabelecer qualquer contacto visual entre si, pelo que apenas podem comunicar oralmente.

Para efeitos do presente trabalho de investigação, dos sessenta e cinco diálogos do corpus CORAL, foi seleccionada uma amostra de aproximadamente uma hora de fala, constituída por dez diálogos entre dez falantes, equilibrada tanto em termos de sexo dos falantes como do papel desempenhado por estes. Além destes dez diálogos, foi incluído na amostra o diálogo de teste do corpus CORAL, produzido entre duas falantes do sexo feminino. A inclusão deste diálogo na amostra deveu-se ao facto de este, tal como salientado anteriormente, consistir no diálogo utilizado como exemplo da anotação multilinear do corpus CORAL.

Em síntese, dos onze diálogos que constituem o corpus de trabalho, foram extraídas 460 respostas afirmativas e igual número de contextos adjacentes, de acordo com os critérios apresentados na secção seguinte. No Anexo 2, estão representados todos os pares contexto-resposta analisados no âmbito deste trabalho.

Quanto aos critérios ortográficos utilizados neste estudo, foi feita uma adaptação da transcrição ortográfica pré-existente, alinhada com o sinal. Uma análise auditiva acompanhada da leitura da transcrição ortográfica implicou a revisão de um número substancial de constituintes afirmativos que tinham sido anotados como interrogativas quando eram, de facto, respostas afirmativas. Adicionalmente, e embora o CORAL tenha marcações de disfluências, optou-se por utilizar os critérios de delimitação de disfluências propostos por Moniz (2006), conduzindo a uma maior especificação dos diferentes tipos que podem ser encontrados nos contextos dos constituintes afirmativos.