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Estudo do parlamento: entre a cultura e a individualidade

3 A CÂMARA MUNICIPAL DE FORTALEZA

3.1 Estudo do parlamento: entre a cultura e a individualidade

As Ciências Sociais têm por finalidade explicar como se desenrolam os mais variados processos sociais. Como na maioria das disciplinas científicas, diversos são os paradigmas teóricos e os caminhos metodológicos que estão dispostos ao cientista para que ele possa observar um fato social, entretanto, mais do que uma ferramenta, optar por determinando método é também um modo de apreender determinados elementos, em preferência a muitos outros que são negligenciados por essa escolha.

Esta pesquisa analisa a produção legislativa dos vereadores de Fortaleza eleitos no pleito de 2008. Nesse sentido, nosso esforço interpretativo está voltado para determinada instituição política, a Câmara Municipal de Fortaleza. Tanto em Sociologia como em Ciência Política existe um fecundo debate denominado neo-insitucionalista, surgido por volta dos anos 1980, sobre a necessidade das instituições e a melhor forma de estudá-las.

Existem três escolas neo-institucionalistas, a saber, teoria da escolha racional, institucionalismo sociológico e institucionalismo histórico. Em nossa leitura sobre o conteúdo de cada corrente de pensamento, entendemos que as duas últimas têm abordagens similares. Nesse sentido, quando nos referirmos às duas em conjunto, nossa exposição vai denominá-las de abordagens culturalistas.

Hall e Taylor (2003, p. 194) estabelecem o debate neo-institucionalista a partir dos seguintes questionamentos: “(1) como explicar a relação entre instituição e comportamento; (2) como explicar o processo pelo qual as instituições surgem ou se modicam?”.

Para Théret (2003, p. 3) a principal diferença entre as abordagens é que para o institucionalismo histórico, as instituições seriam criadas com o objetivo de mediar conflitos entre grupos com interesses assimétricos de poder. Em contrapartida, para o insitucionalismo sociológico e para a teoria da escolha racional as instituições funcionam como canais de coordenação de ação coletiva.

No entanto, as abordagens culturalistas se aproximam quando analisam a tomada de decisão dos indivíduos que fazem parte das instituições. Nesse sentido, as instituições seriam fruto da forma como a sociedade se organiza, levando em conta aspectos como normas, hábitos, convenções, padrões morais, cultura, necessidades econômicas etc. Nessa perspectiva, as instituições não só seriam produto das necessidades coletivas, além disso, os atores inseridos nessa estrutura agiriam de forma individual buscando seus objetivos.

Portanto, as ações dos indivíduos não seriam completamente racionalizadas, mas condicionadas por aspectos culturais e por determinadas regras de conduta que são pré- estabelecidas socialmente. Desta forma, nas abordagens culturalistas os indivíduos recorrem a protocolos sociais, entretanto existe margem para escolhas autônomas. Contudo, deve-se levar em conta a trajetória de cada indivíduo e, principalmente, as assimetrias de poder de decisão. (HALL; TAYLOR, 2003, p. 198-200; THÉRET, 2003, p. 3).

Em polo oposto, temos a teoria da escolha racional, essa escola de pensamento defende que todos os indivíduos agem em sociedade buscando satisfazer suas preferências, necessidades e objetivos. Nesse sentido, os indivíduos atuam de forma calculada, buscando a forma mais racional para maximizar seus ganhos, para isso analisam o comportamento dos outros e aquilo que é esperado do seu próprio comportamento. (HALL; TAYLOR, 2003, p. 205). Quando se referem às instituições políticas, os teóricos da escolha racional justificam sua existência pela finalidade de realizar tarefas que não seriam possíveis de serem feitas de forma individual. No entanto, como criar uma instituição competente se os atores que dela participam agem buscando os próprios interesses? Para a teoria da escolha racional as instituições são constituídas por meio de uma estrutura jurídica com regras e procedimentos que contribuam para que os indivíduos busquem seus objetivos e, concomitantemente, resolvam problemas de ação coletiva. Portando, a ação individual, mesmo direcionada para um fim próprio, é moldada em benefício da coletividade.

A diferença principal entre a teoria da escolha racional e as abordagens culturalistas é que para a primeira escola as regras institucionais tem um filtro sobre a cultura, ou seja, funcionam a partir de uma lógica própria. Nessa perspectiva, cada instituição tem um modo operandis que se desenrola a partir de regras estabelecidas em função da finalidade de cada instituição, elementos como a cultura e a história são relevantes na medida em se constituem como matrizes de informações sobre as melhores possibilidades de ação do sujeito e sobre a forma esperada de ação dos outros atores. Nas abordagens cultutralistas as instituições surgem e funcionam como um sistema de convenções gerais que são moldados a partir de elementos como a cultura, os hábitos, a história, a economia etc. Nessa configuração, os atores são produtos dessa conjunção de elementos e sua ação é em parte condicionada por eles.

Consideramos relevante esse debate sobre as abordagens neo-insitucionalista porque estamos analisando o fenômeno da conexão eleitoral no caso dos vereadores de Fortaleza. Para explicar a lógica de atuação destes atores fomos buscar elementos históricos e culturais que nos dessem suporte para a construção de um modelo e para o desenvolvimento de uma tipologia dos vereadores.

Ao analisar os textos constitucionais na história brasileira e as novas atribuições dos municípios na federação, a nossa proposta foi entender em que espaço de movimentação os vereadores estão livres para produzir leis, entretanto é impossível negligenciar, tal qual nas abordagens culturalistas, aspectos culturais e históricos que influenciam essa produção. Entretanto, a teoria da escolha racional é a abordagem mais utilizada para o estudo dos temas legislativos, essa escola de pensamento argumenta que os parlamentares agem de forma racional a partir de determinado arranjo institucional. Nesse sentido, o próprio conceito de conexão eleitoral, de inspiração da abordagem citada, demonstra que os parlamentares atuam buscando a reeleição ou atingir melhores cargos. Portanto, para a análise da produção legislativa na Câmara Municipal de Fortaleza levamos o mesmo dilema de pesquisas consagradas a respeito do legislativo brasileiro: no parlamento os políticos agem em função das regras internas ou em função de influência externas?

Sobre esse questionamento, de um lado temos autores que defendem, mesmo levando em conta todas as alianças e compromissos assumidos no período eleitoral, que as regras de funcionamento do Congresso Nacional, os mecanismos de coação dos líderes partidários e do presidente fazem com que os parlamentares votem de acordo com os interesses do partido, deixando de lado compromissos eleitorais. (FIGUEIREDO; LIMONGI, 1999; SANTOS, 2008). Em contrapartida, alguns autores argumentam que no Brasil o legislativo é pouco disciplinado e que os parlamentares agem buscando contemplar suas bases de sustentação eleitoral. (AMES, 2003; MAINWARING, 1993). Carvalho (2003) tem um tom mais moderado nesse debate e admiti que no Congresso existem diferentes lógicas de atuação e que os parlamentares tomam decisões a partir do cálculo de ganhos e perdas, ora agindo em favor da bancada, ora privilegiando os interesses de seu eleitorado.

Os vereadores têm modos diferentes de atuação eleitoral, entretanto investigaremos se no parlamento eles possuem postura similar ou se são coagidos pelas orientações partidárias ou do bloco político do qual fazem parte.