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Diante das entrevistas transcritas, realizou-se a análise com base no referencial teórico sobre violência contra as mulheres e com base no método Fenomenológico- Existencial13.

13 A fenomenologia surgiu e se desenvolveu com Edmund Husserl, que sofreu influência de Platão, Descartes e Bretano (Silva, Lopes & Diniz, 2008). Posteriormente, as ideias fenomenológicas se proliferaram com outros pensadores como Heidegger, Merleau-Ponty, Gadamer e Ricoeur. O pensar fenomenológico tem crescido aos poucos e se transformado de forma constante diante do tema interrogado e o pesquisador que a interroga. Para Husserl (2002), a fenomenologia corresponde a uma ciência, uma junção de disciplinas cientificas e ao mesmo tempo, sobretudo, a fenomenologia é um método e uma atitude intelectual filosófica, assim um método filosófico.

Para Roehe (2006) a psicologia tendo como base a fenomenológica-existencial, encontra-se como possibilidade na prática do método fenomenológico, transferindo o saber do existir numa perspectiva da filosofia existencial. Isto é, cada indivíduo tem sua forma única de experimentar o mundo, mesmo que se procure uma semelhança, até mesmo em seus pequenos detalhes, de vivenciar algo idêntico ao outro, nos desapontaremos, uma vez que as percepções prosseguirão únicas. Trazendo assim uma sensação de que nos encontramos sós, paradoxalmente também estabelece uma percepção de um universo de alternativas no ato de viver. Desta forma, não é possível enquadrar uma pessoa em um modelo teórico, que seja capaz de prover algumas explicações técnicas, dado que não engloba a unicidades das experiências.

Portanto, por meio da coleta de dados pretendeu-se compreender o fenômeno não partindo de conceitos pré-estabelecidos, de crenças ou de afirmações sobre os mesmos, mas de uma atitude que permitisse que as mulheres pudessem expressar seu próprio modo de compreender o fenômeno.

O método fenomenológico é uma ciência que tem como finalidade descrever um fenômeno, por meio de experiências vividas, (Oliveira & Lopes, 2010) procura compreender os relatos sobre o que e como manifestam os aspectos históricos, sociais, políticos, sentimentais e da vivência do ser humano (Buffon, Martins & Neves, 2017).

A pesquisa fenomenológica trabalha com o qualitativo, o que traz sentido para os indivíduos que participam do processo de interação, percebendo-o e manifestando-o pela linguagem, conjuntamente trabalhando com o significado relevante na circunstância na qual a percepção e a manifestação ocorrem (Buffon, Martins & Neves, 2017; Martins & Bicudo, 1983). Sendo que a fenomenologia surge como um método alternativo de pesquisa, visto que, pode caminhar pela compreensão mais básica dosensível até a compreensão mais elaborada de si, levando à apreensão completa, através do processo de diálogo, e possibilitando a reflexão de como as coisas realmente se manifestam (Oliveira & Lopes, 2010; Terra, Silva, Camponogara, Santos, Souza &

Erdmmann, 2006). Esta ideia permitiu que o fenômeno da violência fosse visto a partir das próprias mulheres, ainda que a pesquisadora também fosse uma mulher na mesma condição social e cultural.

É um método de pesquisa que tem como forma a contextualização de situações inseridas nos costumes sociais, indagando pressupostos aceitos e buscando demonstrar

uma nova concepção para compreensão do fenômeno (Martins & Bicudo, 2006;

Oliveira & Lopes, 2010).

Os tópicos mais indicados para o método de investigação fenomenológica correspondem às experiências da vida de uma pessoa, a felicidade, os compromissos, o medo e os significados de algo (Oliveira & Lopes, 2010; Streubert & Carpenter, 2002).

Assim, ouvir os relatos de mulheres que passaram ou passam por violência física, psicológica ou sexual, entre outras, pelos seus cônjuges, é um assunto pertinente para o método fenomenológico, posto que é uma experiência vivida. “Esse método filosófico desvela a cotidianidade do mundo do ser onde a experiência se passa, transparece na descrição de suas vivências. ” (Silva, Lopes & Diniz, 2008, p. 255).

O pesquisador vai ao encontro do fenômeno da experiência, busca vê-lo no aspecto que se mostra, na própria experiência que é percebida, através dos depoimentos que a existência se demonstra pelo ser-aí que transmite o significado dos fenômenos (Martins & Bicudo, 2006; Oliveira & Lopes, 2010).

A fenomenologia apresenta-se como uma proposta metodológica que abre caminhos para o campo da saúde, uma oportunidade de entendimento do ser humano, e destaca, segundo a OMS (2002), a violência contra as mulheres como um problema de saúde pública. Nesta ocasião, o método fenomenológico transforma-se numa possibilidade para compreensão da estrutura ou essência da experiência vivida do fenômeno da violência, trazendo suas significações (Oliveira & Lopes, 2010).

Desta feita, a pesquisa fenomenológica em Psicologia da Saúde pode desenvolver um campo de investigação metódica capaz de afirmar e promover a vida, possibilitado uma reflexão teórica com a finalidade de refletir as estruturas do real

“sobre a forma de conhecer e validar o conhecimento para que a Saúde possa ser compreendida e produzida como afirmação da vida. ” (Costa & Castro, 2017, p. 136).

Então, no campo da fenomenologia, parte-se do contexto vivido pelo sujeito, baseado pelas considerações de experiências vividas e relatas por este, levando à compreensão teórica que possibilitou ao pesquisador a compreensão do fenômeno vivido pelas entrevistadas. Enquanto pesquisa, ela começa com o contato com o fenômeno, neste caso, com a entrevista semiestruturada realizada com as mulheres que sofreram violência, facilitando o acesso das entrevistadas à própria experiência subjetiva, que engloba memórias e significados (Amatuzzi, 2009).

Para Teixeira (2008) quando no encontro com o outro, este traz sua experiência que tem do mundo, indicando sua relação existencial, que abrange com e

estar-para. Sendo que a relação existencial é caracteriza por estar-com, que é o encontro propriamente dito, de uma existência com outra existência, incluindo a presença sentida (estar-por-si), uma reciprocidade (estar-para-o-outro), cuidado (acolhendo o outro na sua vida), o laço emocional (constituído pelo eu/tu que juntos criam o “nós” dentro de uma reciprocidade que possibilita que o outro se ilumine e descubra), levando a uma comunicação autêntica, por meio das vivências ou intencionalidades significativas. Do qual a atitude fenomenológica é fundamental para aproximação a experiência do mundo do outro, como uma descoberta dos significados que o outro atribui, desta forma possibilitando ampliar a consciência que tem de suas próprias experiências (auto-consciência), compreendendo o valor que concede as suas decisões (auto-realização) e a perspectiva de autenticidade nas suas formas de agir (autodeterminação), fundamentadas na individualidade e integradas no seu projeto.

A aplicação do método fenomenológico se estabelece no encontro com o outro, caracterizado pelo comportamento mútuo de correlação (coerência), de forma fortuita, pois pode acontecer de forma imprevista, tendo liberdade de que o outro seja como é, possibilitando novas aberturas, em um encontro que ocorre por meio do olhar, uma vez que se constitui face a face. Sendo que a finalidade é facilitar que a participante aceite-se, como é, queira a si mesmo, sentindo-se e escolhendo-se. Com a entrevista se observa um conjunto de focos (experiência subjetiva, intencionalidade, liberdade, responsabilidade, escolhas, autenticidade e o mundo pessoal) e dinâmicas existenciais (incorporação do passado e do futuro no presente, assim como o comprometimento para vir-a-ser). (Teixeira, 2008).

Posteriormente, voltou-se para análise dos dados, na busca dos eixos de significados de todo o material coletado, construídas a partir das leituras das entrevistas com aspectos e conexões significativas que construíram respostas parciais à pergunta da pesquisa, voltando-se para o referencial metodológico para fundamentar cada um dos eixos significativos (Amatuzzi, 2009), que nesta presente pesquisa se encontram nas discussões.

Assim, o processo de análise e interpretação ocorreu tentando compreender quem era a mulher que participava da pesquisa, sua localização social quanto à idade, profissão, tempo de casamento, filhos. Ao buscar sua inserção no mundo, foi se revelando que, antes mesmo da relação conjugal, viveram situações de violência desde a infância, o que perdurou em outras fases do desenvolvimento. Neste percurso, o próprio vínculo íntimo delineou que suas relações e interações sociais ficassem em volta do

casamento. Nestas circunstâncias, a vida das mulheres se restringiu basicamente aos cuidados do marido, da casa e dos filhos. Quando trabalhavam fora de casa, ainda continuavam com as mesmas obrigações residenciais. Somente quando chegaram num serviço interdisciplinar conseguiram olhar para si e refletir sobre quem eram ou estavam sendo, o que possibilitou a compreensão do ser humano como um ser integral, que se encontra em constante desenvolvimento, mesmo tendo sofrido violência, e encontra-se diante de novas escolhas e possibilidades, nas quais as mulheres puderam decidir ou não permanecer com os autores da violência. Portanto, o próprio trajeto de novas descobertas sobre a vida destas mulheres conduziu à construção das análises desta investigação.