1.1 Utilização de psicofármacos em transtornos psiquiátricos
1.1.5 Estudos de utilização de medicamentos
1.1.5.2 Estudos brasileiros de utilização de psicofármacos
Os países desenvolvidos são responsáveis pelo maior número de investigações envolvendo o uso de medicamentos. O maior produtor de conhecimentos nessa área, até o ano de 2011, era os Estados Unidos. Embora o Brasil tenha se destacado nas publicações em relação aos países da América do Sul, representou aproximadamente 10% das publicações dos Estados Unidos (Baldoni et al., 2011).
Investigações de base populacional são pouco frequentes no Brasil, especialmente as dedicadas à saúde mental. Menos frequente ainda são os estudos que investigam o uso de psicofármacos utilizados na população geral e entre indivíduos com transtornos psiquiátricos. O restrito número de estudos existentes, em sua maioria com problemas metodológicos, dificulta a obtenção de um panorama sobre a realidade brasileira em relação à prevalência de transtornos mentais e do acesso a tratamento. Contudo alguns estudos epidemiológicos investigando a saúde mental têm sido realizados nas últimas décadas e serão comentados a seguir.
O estudo pioneiro foi o de Tancredi (1979) na cidade de São Paulo. Nesse inquérito domiciliar entre indivíduos com 16 anos ou mais, o autor constatou que o uso de psicofármacos foi de aproximadamente 12%, sendo a maioria benzodiazepínicos (8,8%). A limitação mais importante desse estudo foi a ausência de medida de psicopatologia. Outro estudo clássico realizado na cidade de São Paulo (Bairros Aclimação, Vila Guilherme e Brasilândia) é o de Mari et al. (1993). Estudando o uso de psicofármacos em uma amostra de 1.792 sujeitos da comunidade, verificaram que em torno de 10% usaram
psicofármacos, sendo os tranquilizantes os mais prescritos, a maioria receitados por clínicos gerais e por cardiologistas. O uso maior foi em mulheres, com possível diagnóstico de transtorno mental medido por um instrumento de rastreamento. O consumo de tranquilizantes era maior em sujeitos de maior renda e com o aumento da idade.
Ainda no estado de São Paulo, Lima et al. (2008) conduziram um estudo na cidade de Botucatu, em sujeitos com 15 anos ou mais. O uso de psicofármacos foi 13,3% na população geral nos 3 dias anteriores à entrevista e 27,1% entre os sujeitos com transtornos psiquiátricos. Na amostra total, 13,4% procuraram serviços de saúde na quinzena anterior à entrevista, sendo a maior procura feita por mulheres e por sujeitos com transtornos mentais comuns. Os antidepressivos (5,0%) e os benzodiazepínicos (3,1%) foram os medicamentos mais referidos pelos sujeitos.
Carvalho et al. (2003), em um estudo realizado em algumas regiões do Brasil, avaliaram o uso de qualquer medicamento nos 15 dias anteriores à entrevista na população geral e verificaram que entre as classes utilizadas, as drogas psicoativas representaram 5%.
No ano de 2003, Rodrigues et al. (2006) investigaram o uso de psicofármacos nas duas semanas anteriores à entrevista, em indivíduos de 15 anos ou mais, residentes na área urbana de Pelotas, Rio Grande do Sul, para posterior comparação com estudo semelhante realizado na mesma região realizado no ano de 1994. A prevalência de uso de psicofármacos foi 9,9%, maior entre as mulheres com aumento da idade, em hipertensos e em usuários dos serviços de saúde. A maioria dos usuários usava psicofármacos há mais de 3 meses e por indicação médica, mas somente 20% das prescrições foram
realizadas por psiquiatras. Os indivíduos que consultaram médico nos últimos três meses apresentaram consumo significativo maior de psicofármacos do que aqueles que não o fizeram em ambos os anos. No entanto, no estudo de 2003, observou-se redução significativa do consumo de psicofármacos entre os que realizaram consulta médica em comparação a 1994. Houve um aumento significativo no uso de antidepressivos, redução no uso de antipsicóticos, mas a prevalência de uso de benzodiazepínicos permaneceu a mesma na comparação entre os anos de 1994 e 2003. Para esses autores, embora a prevalência do uso de psicofármacos em geral permanecesse alta, o consumo de psicofármacos não aumentou, comparada à prevalência encontrada no ano de 1994 (11,8%). Nesse estudo, destacou-se a importância da prescrição adequada e do acompanhamento médico, dada à associação encontrada entre as consultas e o consumo de psicofármacos.
Em estudo mais recente, Quintana e colaboradores (2013) investigaram a prevalência de uso de psicofármacos no mês e no ano anterior à entrevista, na cidade do Rio de Janeiro, onde foram entrevistados 1208 sujeitos, com 15 anos ou mais. A prevalência de uso de psicofármacos encontrada no ano anterior à entrevista foi 11,2%. A prevalência de uso de psicofármacos no mês anterior à entrevista foi 6,55%, maior entre as mulheres, entre sujeitos mais velhos, com maior renda, com transtornos psiquiátricos e com história familiar de transtornos mentais. Entre indivíduos com transtornos psiquiátricos nos 12 meses anteriores à entrevista, a prevalência de uso de psicofármacos nos últimos 30 dias foi 16%. Aproximadamente 80% dos sujeitos com algum transtorno mental não utilizaram psicofármacos e cerca de 90% dos psicofármacos utilizados foram pagos pelos próprios pacientes. Os
antidepressivos foram os mais relatados pelos participantes do estudo. O maior número de prescrições foi realizado por médico geral (46,3%) do que por psiquiatra (29,3%).
Os principais estudos nacionais de base populacional de uso de psicofármacos encontrados estão aexpostos no Quadro 2, o qual apresenta referência, local onde foi realizado o estudo, tamanho amostral, instrumento diagnóstico utilizado e período avaliado do uso de psicofármacos.
Quadro 2 – Estudos de base populacional de utilização de psicofármacos
realizados no Brasil
Referênci
as Local/ ano Amostra Idade (anos) Instrumento diagnóstico Período avaliado
Prevalênciade uso de psicofármacos população geral sujeitos com
diagnóstico
Tancredi,
1979 São Paulo 3690 ≥16 - - 12% -
Mari et
al., 1993 (Aclimação, São Paulo Brasilândia e Vila Guilherme) 1742 ≥14 QMPAa 12 meses 10% - Lima et al., 2008 (2001 e 2002) Botucatu/SP 1023 ≥15 SQR-20 b 3 dias 13,3% 27,1% qualquer transtorno Rodrigues et al., 2006 Pelotas/RS
(1994 e 2003) 1277/ 3542 ≥15 Questionário estruturado 15 dias 11,8%/ 9,9% Quintana
et al., 2013
Rio de janeiro
(2007-2008) 1208 ≥15 CIDI 2.1/ DSM-IVc 30 dias/ 12 meses 6,55%/ 11,2% 16% uso qualquer transtorno últimos 30 dias aAdult Psychiatry Morbidity Questionnaire
bSelf Reporting Questionaire
cComposite International Diagnostic Interview/Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fourth Edition