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PARTE II – Projetos desenvolvidos

1. Fluralaner

1.8. Estudos comparativos

A eficácia do fluralaner por via oral foi comparada com a eficácia da aplicação tópica de imidaclopride/moxidectina contra a demodicose num grupo de 16 cães durante 12 semanas. Nos animais tratados com fluralaner, após 4 semanas do início do tratamento houve uma redução dos ácaros de 99,8% e após 8 e 12 semanas não foram detetados quaisquer ácaros; no caso da imidaclopride/moxidectina, apesar de também eficaz contra a demodicose, os cães ainda apresentavam alguns ácaros nos 3 momentos avaliados: verificou-se uma diminuição do número de ácaros de 98% após 4 semanas, de 96,5% após 8 semanas e 94,7% após 12 semanas do início do tratamento [35]. Um outro estudo que desta vez usa o fluralaner de aplicação tópica, chega a uma conclusão semelhante: o fluralaner é mais eficaz a eliminar os ácaros do que a combinação de imidaclopride e moxidectina [36].

Também a eficácia do fluralaner por via oral em 479 cães infestados com pulgas e/ou carraças foi comparada com o fipronil, existe no mercado em soluções

spot-on. O estudo concluiu que o fluralaner é superior contra pulgas mas que contra carraças o efeito dos dois produtos é muito semelhante [14].

Comparou-se também a eficácia da administração oral de fluralaner com a aplicação tópica de permetrina/imidaclopride contra a transmissão de Ehrlichia canis

para os cães por carraças Rhipicephalus sanguineus infetadas. Neste caso, os cães tratados com permetrina/imidaclopride abrigaram menos carraças R. sanguineus

durante o estudo quando comparados com os cães tratados com fluralaner. A combinação permetrina/imidaclopride conseguiu matar a carraça em menos tempo, sendo assim capaz de bloquear a transmissão de E. canis ao contrário do fluralaner que apenas foi capaz de conferir um bloqueio parcial [37].

Um outro estudo realizado em cães, concluiu que uma coleira de imidaclopride/flumetrina é mais eficaz do que o fluralaner por via oral contra carraças uma vez que para além de as matar tem também um efeito repelente [38].

Nenhum produto atualmente disponível no mercado é capaz de conferir uma total proteção contra os parasitas externos e como tal não consegue prevenir também a transmissão de doenças por estes mesmos. Uma estratégia plausível para aumentar a eficácia de proteção deveria ser o uso combinado dos dois tipos de produtos: tópico e oral [20]. No entanto, e apesar de o fluralaner não possuir uma atividade repelente, o facto de uma só aplicação ter uma duração de ação de 3 meses faz com que os donos dos animais de estimação adiram mais facilmente à terapêutica quando comparados por exemplo com as aplicações mensais de fipronil [14]. Uma hipótese para tentar minimizar as falhas dos antiparasitários é a combinação de diferentes produtos, no entanto, para tal, essas possibilidades devem ser estudadas.

A título de exemplo temos o facto do fluralaner não proteger o cão contra a leishmaniose; por sua vez a deltametrina, que existe em coleira, confere uma ação contra ectoparasitas, incluindo mosquitos e flebótomos durante 6 meses, sendo estes últimos os vetores da Leishmania spp. [39]. Assim, uma forma de colmatar esta falha é a utilização concomitante destes dois produtos que foi já estudada num grupo de cães saudáveis por um período de 24 semanas, tendo sido bem tolerado [40].

1.9. Conclusão

Para a realização deste projeto, a pesquisa e leitura foram indispensáveis, nomeadamente do Resumo das Características do Medicamento assim como de outros documentos presentes no website da Agência Europeia do Medicamento. A obtenção de toda a informação e respetivas explicações para a elaboração do poster não foi fácil, todavia, permitiu-me aprender conceitos e aprofundar conhecimentos.

A apresentação do poster à equipa permitiu um importante momento de instrução e debate sobre esta nova substância desparasitante. Após a sua apresentação, o poster foi afixado na farmácia para permitir que fosse fácil a sua consulta pelos membros da equipa, nomeadamente aquando do surgimento de dúvidas colocadas pelos utentes, o que se verificou por várias vezes.

2. Escabiose

2.1. Enquadramento

No decurso do meu estágio, realizei por várias vezes atendimentos de utentes diagnosticados com escabiose, apercebendo-me que a maioria deles achava que esta doença já não existia ou que era exclusiva dos animais, não entendendo como a tinham contraído, notando muitas vezes os utentes um pouco envergonhados. Devido à falta de informação em geral no que se refere a esta doença, elaborei um panfleto resumo de fácil leitura para os utentes.

2.2. Etiologia

A escabiose, mais conhecida como sarna, é uma infestação cutânea causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis, causadora de um intenso prurido [41, 42]. O S. scabiei é um artrópode ectoparasita obrigatório que se move lentamente e penetra na pele do hospedeiro [43-45]. Taxonomicamente pertence à classe Arachnida, subclasse Acari, ordem Astigmata e família Sarcoptidae [43-45].

O ciclo de vida do S. scabiei começa com o acasalamento dos ácaros adultos, após o qual se acredita que o macho morre, enquanto a fêmea atravessa a epiderme e escava túneis na camada córnea, onde começa a depositar ovos [44]. Em média, durante um período de cerca de 6 semanas, a fêmea não sai da sua galeria e põe cerca de 1 a 3 ovos por dia [44, 45]. Estes ovos passam por várias fases de desenvolvimento, demorando cerca de 2 semanas até atingirem o estadio adulto [44- 46]. No entanto, menos de 1% dos ovos são capazes de se transformar em ácaros adultos [44-46]. A entrada destes parasitas na pele pode ocorrer em menos de 30 minutos, sendo que para isso, secretam enzimas capazes de dissolver a epiderme que é subsequentemente ingerida [44].

Estes ácaros são capazes de sobreviver fora do hospedeiro por um período de 24 a 72 horas à temperatura ambiente, observando-se os tempos mais longos em climas mais frios e húmidos [44, 47-51].

A carga média num caso de escabiose clássica é de cerca de 10 a 15 ácaros, ao invés dos casos mais graves, como é a escabiose crostosa ou norueguesa, onde se observam de milhares a milhões de ácaros [44, 48, 49, 51].

Estima-se que a prevalência mundial da escabiose se encontre entre os 200 a 300 milhões de pessoas, não diferenciando género, idade, etnia ou nível socioeconómico, estando o papel da falta de higiene frequentemente sobrestimado

[48, 52-54]. Apesar de se tratar de uma doença endémica em vários países em desenvolvimento de clima tropical, no nosso país, tal como acontece com os outros países desenvolvidos, a sarna ocorre normalmente de forma esporádica ou em pequenos surtos epidémicos [48, 51, 54-57]. Em 2017, a escabiose foi incluída na lista de Doenças Tropicais Negligenciadas pela Organização Mundial de Saúde [53].

2.3. Sintomas

Os sintomas da escabiose devem-se a uma reação de hipersensibilidade por parte do sistema imunitário do hospedeiro face ao parasita e seus produtos. O início da sintomatologia ocorre normalmente ao fim de 3 a 6 semanas, no caso de se tratar de uma infestação primária, ou após 1 a 3 dias quando falamos de uma re-infestação isto porque a reação de hipersensibilidade é mais rápida sendo o período de incubação da doença mais curto [48, 54, 58-60].

O sintoma mais característico desta doença é o intenso prurido que normalmente se agrava à noite, uma vez que o aumento da temperatura torna mais fácil ao parasita a sua movimentação [48, 50, 51, 54, 55, 61].

Podem observar-se pápulas, nódulos, vesículas e até mesmo as galerias ou túneis que são lesões patognomónicas que se apresentam como uma linha fina [54, 55, 59]. Na população adulta, as lesões encontram-se abaixo do pescoço, nomeadamente nas axilas, cotovelos, umbigo, cintura, nádegas, face interna das coxas, tornozelos, pés, espaço interdigital dos dedos da mão e face anterior do punho [50, 51, 61]. As mulheres podem apresentar lesões nas auréolas mamárias e os homens na região genital [50, 51, 61]. Já no caso dos bebés e crianças, a escabiose pode-se manifestar praticamente em todo o corpo, não sendo a cabeça, pescoço e tronco poupados, explicando-se o envolvimento da cabeça devido ao elevado contacto com a pele infetada da mãe durante a amamentação; no entanto estão concentradas nas mãos, pés [51, 54, 62, 63]. Apesar de tudo, as crianças podem não apresentar prurido e apresentar outros sintomas não específicos como falta de apetite e irritabilidade [48, 51, 54, 64]. De referir que no idoso, tal como na criança, a cabeça e o dorso podem também ser acometidos [49, 51, 65].

Existem variantes clínicas da escabiose, nomeadamente a escabiose nodular (reação de hipersensibilidade exagerada com aparecimento de nódulos), a escabiose crostosa ou norueguesa (forma mais grave da doença onde se dá a hiperproliferação

escabiose bolhosa (aparecimento de bolhas podendo ser confundida com o pinfigóide bolhoso) [51, 61, 66].

Enquanto o prurido causa sofrimento e irritação, as aberturas na epiderme causadas pela escavação dos ácaros e as lesões na pele que causamos a nós próprios enquanto arranhamos, podem servir de porta de entrada a muitas bactérias patogénicas [44, 54, 59].

2.4. Transmissão

A sarna é uma doença altamente contagiosa, ocorrendo a sua transmissão principalmente pelo contacto cutâneo prolongado pessoa a pessoa, sendo por isso comum entre os membros de uma família e em instituições como lares e escolas [45]. Entre os adultos, o contacto sexual é um meio de transmissão importante [45, 51, 67]. A probabilidade de um indivíduo saudável ficar infetado está relacionada diretamente com o número de ácaros na pessoa infetada e com a duração do contacto [45, 48, 54, 58]. Esta doença pode também, apesar de muito menos frequente, ser transmitida por fómites como toalhas e roupas; é uma transmissão que deve ser considerada sobretudo em casos de escabiose mais grave como a crostosa devido à elevada carga de ácaros [45, 48, 50, 51, 68].

Tal como o Homem, animais como o cão e o gato, com quem grande parte da população contacta diariamente, podem estar infetados com S. scabiei [50, 54]. No entanto, nestes casos trata-se de uma subespécie diferente, e embora seja possível a transmissão entre espécies, esse cenário é pouco provável – dificilmente o animal vai passar a sarna ao Homem [50, 54].

2.5. Diagnóstico

O diagnóstico da sarna é sobretudo clínico: a combinação de uma história de prurido mais intenso à noite, aliada à observação das lesões que caracterizam a doença, assim como a sua distribuição são indícios que podem levar ao diagnóstico da escabiose [42, 44]. A existência de contacto com outros casos pode ainda suportar mais o diagnóstico [42].

A confirmação da doença pode ser feita pela observação microscópica dos ácaros e/ou ovos após uma raspagem cutânea ou ainda por dermatoscopia, técnica não-invasiva que permite a observação de típico sinal de “asa-delta” que representa uma parte do ácaro [51, 69, 70].

Por sua vez, existem ainda alguns diagnósticos diferenciais da escabiose, entre os quais se destaca a dermatite atópica, dermatite herpetiforme, urticária papular, urticária pigmentosa, líquen plano e pinfigóide bolhoso [50, 54, 58, 71]. No caso das crianças, a sarna faz parte do diagnóstico diferencial com acropustulose infantil, histiocitose das células de Langerhans e mastocitomas [51, 72, 73].

2.6. Tratamento

Existem inúmeros medicamentos aprovados e aconselhados para o tratamento da escabiose, no entanto, nem todos estão disponíveis em todos os países. Os principais medicamentos recomendados pela European guideline for the management of scabies são: permetrina a 5% em creme; ivermectina 200g/kg via oral; e o benzoato de benzilo a 10-25% em loção [60]. O malatião a 0,5% em loção aquosa; a ivermectina a 1% em loção; o enxofre a 5-10% em pomada; e o crotamiton a 10% em loção ou creme são outros dos medicamentos recomendados para o tratamento da escabiose [53, 60, 74]. Já o caso do lindano a 1% em loção, parece não reunir tanto consenso devido ao seu potencial neurotóxico [53, 60, 74].

Em Portugal, os fármacos que se encontram aprovados e comercializados para o tratamento desta doença parasitária são o benzoato de benzilo e a crotamiton, embora o enxofre esteja também disponível no nosso país na forma de manipulado nomeadamente na forma farmacêutica de precipitado de enxofre a 5-10% em vaselina [51].

O benzoato de benzilo 277 mg/ml em solução cutânea encontra-se no nosso país sob o nome de Acarilbial e a crotamiton 100 mg/g creme e líquido cutâneo sob o nome de Eurax.

O sucesso da terapêutica instituída encontra-se relacionado com a realização de um diagnóstico correto e com a explicação detalhada de como usar os medicamentos receitados [54]. No entanto, também se devem tratar em simultâneo as pessoas mais próximas do afetado mesmo que assintomáticas, como os familiares da mesma casa, desinfetar os fómites e não repetir o tratamento só pela continuidade do prurido, uma vez que é normal que possa durar cerca de 2 a 4 semanas [54].

O mecanismo de ação do benzoato de benzilo é ainda desconhecido, no entanto pensa-se que atua no sistema nervoso do parasita com a sua consequente

morte [75]. Relativamente a este fármaco, as indicações para uma correta utilização são:

 Tomar banho de água quente e secar a pele;

 Embeber algodão hidrófilo no medicamento e aplicar levemente em todo o corpo exceto face, olhos, mucosas e meato uretral, e deixar secar;

 Repetir a aplicação, deixar secar novamente e vestir;

 Repetir todo o processo novamente 1 a 2 dias depois tendo o cuidado de não esquecer de mudar a roupa do corpo e da cama;

 Se necessário, isto é, se ocorrer o aparecimento de novas lesões passados 7 a 10 dias, repetir o tratamento [75].

O volume usado em cada aplicação não deve ultrapassar os 20ml em crianças e os 30ml em adultos; no entanto, em crianças com menos de 10 anos deve ser usado com precaução e, devido à inexistência de estudos durante a gravidez e aleitamento, a sua prescrição deve avaliar a relação risco/benefício [75].

Como efeitos adversos pode ocorrer irritação, sensação de queimadura, prurido e reação alérgica na pele; nos idosos pode causar xerose e irritação cutânea [48, 54, 75].

Quanto à crotamiton, o seu mecanismo de ação enquanto acaricida passa por suspender irreversivelmente a movimentação espontânea do ácaro, atuando assim no seu sistema motor; adicionalmente é capaz de aliviar a irritação e prurido e possui uma atividade bacteriostática sobre o Estafilococos e o Estreptococos que pode ajudar nos casos mais graves de escabiose [76].

Relativamente a este fármaco, as indicações para uma correta utilização são:

 Tomar banho de água quente e secar a pele;

 Aplicar o medicamento levemente em todo o corpo exceto na face e no couro cabeludo, até que se complete a sua absorção;

 Repetir a aplicação, de preferência à noite, durante 3 a 5 dias;

 Dar mais atenção às regiões preferidas pelos ácaros como espaços interdigitais, punhos, axilas e órgãos genitais;

 Em caso de piodermia, aplicar um penso com o fármaco;

 O paciente não deve tomar banho durante o tratamento, só o podendo fazer 2 ou 3 dias após o seu término [76].

Este produto não deve ser aplicado em pele lesada exsudativa e/ou inflamada tal como em eczema (este deve ser tratado antes da escabiose) [76]. Devido à inexistência de estudos durante a gravidez e aleitamento, o seu uso não está recomendado durante a gravidez, principalmente no 1º trimestre, e só deve ser usado em mães a amamentar quando prescrito pelo médico após avaliar a relação risco/benefício [76].

Como efeito adverso mais comum temos o prurido, estando também reportados casos de dermatite de contacto e reações de hipersensibilidade [76].

O enxofre é o tratamento mais antigo para a escabiose, sendo pouco dispendioso e com baixa toxicidade; pela sua segurança é normalmente o tratamento de eleição para grávidas, mães a amamentar e crianças pequenas [48, 51, 54]. A sua aplicação deve ser feita à noite após o banho durante 3 dias seguidos, sendo preciso repetir a aplicação 1 semana depois [48, 54, 58, 63, 77].

Quando um escabicida é prescrito, o paciente deve ser informado que o prurido pode continuar por 4 semanas de forma a evitar que repita o tratamento sem necessidade e por livre vontade, sem aconselhamento médico prévio [42]. Dois importantes alertas a ter também em atenção é não esquecer de dizer ao doente que não deve lavar as mãos após aplicar o tratamento ou, caso seja uma outra pessoa a aplicar o tratamento, a utilização de luvas por este mesmo [54, 78].

Como são comuns as queixas de prurido intenso mesmo após o tratamento, o uso de anti-histamínicos oral, corticosteroides tópicos leves, hidratantes corporais ou mesmo loções contendo calamina, podem fazer parte duma estratégia pós-tratamento [51, 60].

2.7. Prevenção e Cuidados

A sarna pode ser prevenida evitando o contato direto de pele com pele com uma pessoa infestada ou com artigos pessoais como roupa, lençóis e toalhas [79]. O tratamento concomitante de todas as pessoas próximas do doente é importantíssimo até para evitar as possíveis re-infestações [51, 67, 79]. Os animais domésticos não precisam ser tratados [50, 51, 54].

passíveis de serem lavados devem ser selados num saco de plástico por pelo menos 3 dias [42, 48, 51, 54, 57, 79].

2.8. Conclusão

A pesquisa para a elaboração do panfleto recaiu principalmente em artigos de revisão e em entidades como a Organização Mundial de Saúde, de modo a fornecer um resumo fidedigno e de fácil leitura e compreensão para o utente. Foram impressos cerca de 250 panfletos que foram distribuídos pelos balcões da farmácia de modo a estarem acessíveis ao utente.

O panfleto permitiu acima de tudo informar os utentes acerca desta doença e minimizar o estigma de que a sarna é uma doença só dos animais ou que reflete falta de higiene. Como se trata de um documento físico que o utente pode levar para mais tarde consultar, isto é, não obriga o utente a consultar a informação na farmácia, acaba por se tornar um meio eficaz de informar a população, principalmente a que não faz perguntas, muitas vezes por vergonha, nem mostra abertura para a possibilidade de explicações da nossa parte.

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