A bibliografia referente aos estudos da gestualidade hoje é vasta e abarca diversas áreas do conhecimento humano. No campo das ciências humanas, encontramos estudos voltados para a temática dentro da Psicologia, da Comunicação Social, da Etnografia, da Antropologia e dos Estudos Folclóricos. No
86 caso da Linguística, a sua associação com os estudos dos gestos não é nova, mas ainda é pouco investigada, se levarmos em conta a intersecção da ciência linguística com as outras áreas das ciências. Temos trabalhos focados no processo de aquisição da linguagem e em indivíduos afásicos ou com Alzheimer, como já mencionado.
Podemos dizer que somente a partir da segunda metade do século XX, houve uma investida nos estudos dos gestos. Entretanto, há registros de estudos voltados para os gestos na tradição romana, quando voltados para a oratória. Séculos depois encontramos mais estudos dos gestos vinculados aos estudos da oratória. Um pouco mais tarde, no período iluminista, os estudos ganharam força com uma abordagem que associava o gesto ao pensamento, influenciando, de certa forma, os estudos posteriores (KENDON, 2004; PEREIRA, 2010).
Após esses momentos, os gestos passaram novamente a fazer parte da agenda dos estudos das interações humanas, uma vez que a linguagem não verbal passou a ser enfocada dentro dos estudos da comunicação humana. “na década de 50, [...] a pesquisa em comunicação finalmente começou a ser levada a sério” (DAVIS [1979]1999, p. 84). Nesse ínterim, a Linguística já vinha se consagrando como a ciência voltada para os estudos da linguagem verbal.
Em uma pesquisa bibliográfica, Kendon (1981a) identificou apenas seis livros eruditos sobre gestos, publicados entre 1900 e 1979 em inglês (KNAPP e HALL, [1972] 1999, p. 191). Segundo Davis ([1979] 1999, p. 84), “a investigação sobre os estilos gestuais começou em princípios de 1940, através de um estudo realmente notável levado a efeito por David Efron.”. Nesse trabalho pioneiro, Efron estudou os gestos de imigrantes italianos e judeus de Nova Iorque. Seus resultados apontaram para a existência de diferenças gestuais entre os dois grupos étnicos que
87 ele atribuiu às questões de identidade de cada grupo. Um dos pontos importantes de seu trabalho é que Efron percebeu que a segunda geração de imigrantes que mantinha contato com a primeira geração conservava o estilo gestual, enquanto aqueles que iam se aproximando do estilo de vida americano iam perdendo o estilo característico de seu grupo (DAVIS, [1979] 1999). A partir dessa constatação de Efron, percebemos, então, que a associação entre gesto e cultura é um fator importante para os estudos da gestualidade, como enfatizaremos mais adiante.
Após o trabalho de Efron, que foi relançado na década de 70 do século passado, Rector e Trinta (1985) citam ainda as pesquisas de Hayes (1959), de Ekman e Friesen (1969), de Knapp (1972), de Poyatos (1976) e, por fim, a de Kendon na década de 1980, que trouxeram valiosas contribuições para os estudos da gestualidade. Grosso modo, cada pesquisa deu um passo em busca de ampliar não somente a classificação dos tipos de gestos existentes, mas, também, de mostrar como a associação entre os gestos e a linguagem verbal é fundamental para os estudos do gesto. Ainda dentro dessa proposta classificatória, não poderíamos deixar de mencionar a classificação de McNeill (1992, 2000). Uma de suas contribuições mais evidentes foi apresentar uma perspectiva cognitiva para se entender o processo de construção do gesto. Destacamos ainda os trabalhos de Susan Goldin-Meadow, Sotaro Kita, Lorenza Mondada, entre outros, como Pereira (2010) salienta. Até então predominava uma visão mais antropológica dentro dos estudos da gestualidade. De modo geral, cada sistema classificatório cria novas categorias para os tipos de gestos existentes. Há, entretanto, alguns pontos que podem ser vistos como convergentes em cada uma delas.
O primeiro a ser considerado é que estudar os gestos é, de certa forma, debruçar-se sobre a cultura de um grupo, como também é investigar a linguagem
88 humana. Não há como desvencilhar um de outro, até porque, como a linguagem verbal, os gestos apresentam uma relação muito forte com o espaço de produção e com os seus interactantes. Todas as pesquisas que resultaram em uma proposta classificatória partiram de situações reais de uso da linguagem independentemente de apresentar uma abordagem antropológica ou cognitiva.
O outro ponto está em torno da conceituação do que vem a ser gesto. De início, o gesto pode parecer de fácil definição: um movimento da mão, ou talvez de ambas as mãos, produzidos por um ser humano. No entanto, quando se pensa de forma mais precisa sobre isso, é possível questionar se um gesto só é realizado com as mãos ou se pode envolver outras partes do corpo, como a cabeça.
Nas propostas classificatórias citadas anteriormente, os pesquisadores não caracterizam como gestos os movimentos que envolvem o arrumar de roupa, a movimentação de objetos, o afagar de cabelo, ou, como afirmam Knapp e Hall ([1972] 1999, p. 192), “as ações que não fazem parte das atitudes próprias de uma pessoa não são normalmente consideradas gestos”. Os seguintes autores, por sua vez, enxergam que um gesto é uma ação relacionada à conversa em curso. Para Davis ([1979] 1999, p. 83), “grande parte da gesticulação comum vincula-se, na verdade, ao discurso, como uma forma de ilustrar ou sublinhar o que se diz.”. Na visão de McNeill (1992, p. 11, tradução nossa), “quando as pessoas falam elas podem fazer movimentos espontâneos chamados de gestos. Eles são movimentos de braços e de mãos e são quase sempre sincronizados com o fluxo do discurso.”8.
Por fim, ainda dentro dessa discussão, os autores comungam com o fato de existirem gestos que se relacionam com a fala e gestos independentes dela. Vale
8 When people talk they can be seen making spontaneous movements called gestures. These are
89 salientar que “assim, mesmo que os gestos independentes da fala possam comunicar mensagens sem um discurso anexo, seus significados são ainda influenciados pelo contexto” (KNAPP e HALL, [1972]1999, p. 194).
No caso dos gestos independentes da fala – os emblemas – todos os autores apontam para a sua existência e mostram que muitos desses gestos são culturalmente estabelecidos e que sua significação é, em certa medida, independentes da fala, ou seja, é pré-estabelecida a ela. Já quando se tratam dos gestos dependentes da fala, as propostas classificatórias apresentam, em acordo, os gestos dêiticos que se associam com o ato de apontar. Já há entre os autores uma oscilação quanto aos outros tipos de gestos. Peguemos, por exemplo, os gestos ligados ao referente, como na classificação de Knapp e Hall ([1972]1999), que poderiam ser equivalentes aos gestos metafóricos e aos gestos icônicos propostos por McNeill (1992, 2000).
Para os nossos objetivos de investigação, assumiremos a proposta de McNeill (1992, 2000), que será explicitada a seguir.