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ESTUDOS DAS MASCULINIDADES E DISCURSO DAS

2 HISTORICIZAÇÃO E INSTITUCIONALIZAÇÃO DAS MASCULINIDADES

2.9 ESTUDOS DAS MASCULINIDADES E DISCURSO DAS

MASCULINIDADES

Conforme analisamos, os estudos das masculinidades funcionam como um discurso fundacional do discurso das masculinidades. Mas eles são distintos, não possuindo nem as mesmas funções, nem a mesma cronologia, por exemplo. Entretanto, ambos estão ligados entre si por se sustentarem em um mesmo “saber”, no sentido foucaultiano da palavra:

Um saber é aquilo de que podemos falar em uma prática discursiva que se encontra assim especificada: o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico (...); um saber é, também, o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (...); um saber é também o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam (...); finalmente, um saber se define por possibilidades de

utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso (...); (...) não há saber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma. (FOUCAULT, 2005, p. 204-5)

No entanto, enquanto o procedimento da “arqueologia” de Foucault encontra o ponto de equilíbrio de análise no saber, entendido como “um domínio em que o sujeito é necessariamente situado e dependente, sem que jamais possa ser considerado titular” (ibidem, p. 205), a nossa análise busca compreender “os efeitos de sentido” inerentes à atividade da linguagem, atividade determinada pelas atuações da língua, história e inconsciente. É na relação entre língua e história que situamos o saber foucaultiano.

O discurso das masculinidades aqui analisado se inscreve em uma formação discursiva, que chamamos de FD 2, caracterizada por significar a discussão sobre o masculino como algo contemporâneo e novo. Assim, esse discurso constrói fronteiras, opondo-se a uma formação discursiva em que a abordagem do masculino é significada pelo discurso das masculinidades como equivocada, desatualizada e antiga, que chamamos aqui de FD 1.

Nessa FD 2, há o sentido de considerar as práticas efetivas de exercício da masculinidade e de que essas práticas indicam a pluralidade da masculinidade, ou seja, há o sentido de que a interpretação das masculinidades decorre de uma análise e observação da realidade. Isso constrói uma fronteira com uma formação discursiva, a FD 1, significada pelo discurso das masculinidades como produtora de sentidos a-históricos, já que desconsidera tal realidade, produzindo sentidos que reproduzem a tradição e estratégias de dominação.

Além do “saber” compartilhado, outro ponto em comum entre o discurso das masculinidades e os estudos das masculinidades são os seus sujeitos locutores. Nos estudos das masculinidades, o sujeito que enuncia é o que se apresenta como cientista; no discurso das masculinidades, o sujeito que diz sobre as masculinidades é predominantemente o que se apresenta como cientista também, embora, sob o efeito desse discurso, outros sujeitos possam enunciar sobre esse saber, como o publicitário, o militante, o cidadão comum etc.

Em uma busca do vocábulo masculinidades no site Google Brasil, por exemplo, em outubro de 2009, encontramos aproximadamente 90.100 resultados. Desses, grande parte se refere a pesquisas científicas sobre o assunto, principalmente na área das ciências humanas. Ou seja, em grande parte das enunciações o sujeito é cientista.

É interessante observar que “quem” instaura um discurso sobre as masculinidades não é um autor, mas sim uma disciplina acadêmica, os estudos das masculinidades, que são obviamente filiados ao discurso científico, o da ciências humanas, mais precisamente o dos estudos de gênero. Segundo Foucault:

(...) os textos que chamaríamos de científicos, relacionando-se com a cosmologia e o céu, a medicina e as doenças, as ciências naturais ou a geografia, não eram aceitos na Idade Média e só mantinham um valor de verdade com a condição de serem marcados pelo nome do seu autor. “Hipócrates disse”, “Plínio conta” não eram precisamente as fórmulas de um argumento de autoridade; eram os indícios com que estavam marcados os discursos destinados a serem aceitos como provados. Um quiasmo produziu-se no século XII, ou no XVIII; começou-se a aceitar os discursos científicos por eles mesmos, no anonimato de uma verdade estabelecida ou sempre demonstrável novamente; é sua vinculação a um conjunto sistemático que lhes dá garantia, e de forma alguma a referência ao indivíduo que os produziu. A função autor se apaga, o nome do inventor servindo no máximo para batizar um teorema, uma proposição, um efeito notável, uma propriedade, um corpo, um conjunto de elementos, uma síndrome patológica. (FOUCAULT, 0000, p. 275-6)

Isso é o que ocorre com os estudos das masculinidades. Eles constituem, no conjunto dos estudos de gênero, um campo coerente que legitima a discussão em geral sobre a pluralidade do masculino, ou seja, eles instauram um discurso. Entretanto, essa instauração de um discurso sobre as masculinidades, com todas as suas especificidades, é sempre remetida a esses estudos. Do ponto de vista discursivo, não há um autor responsável por tal instauração. Na gênese do discurso das masculinidades, os autores são lembrados pela sua contribuição com algo para o desenvolvimento da teoria em questão, como é o caso de Connel, a quem se atribui a definição de masculinidades e feminilidades como “configurações de prática de gênero”.

Os estudos das masculinidades também são transdiscursivos, à medida que produzem um território onde outros discursos podem colocar-se. O discurso das masculinidades, portanto, reverbera e ecoa sentidos no nosso dia- a-dia, e encontramos o sentido de uma pluralização do masculino em blogs pessoais, em textos jornalísticos, onde os locutores são distintos dos locutores desses estudos.

2.10 CONCLUSÃO

A compreensão da masculinidade como algo plural, que abarca distintas e diversas possibilidades de construção masculina, incluindo tipos hegemônicos, mas também “marginais”, não é um sentido dominante em nossa sociedade. Exemplo disso são os dicionários, que apresentam as seguintes definições contemporaneamente:

Masculinidade mas.cu.li.ni.da.de sf (lat masculinitate) 1

Qualidade de masculino ou másculo 2 Virilidade (MICHAELIS, 2008c)

Masculinidade (...) Acepções: (substantivo feminino) qualidade

de masculino ou de másculo (...) Antônimos: feminilidade (HOUAISS, 2008)

Conforme verificamos, a definição de masculinidade apresentada atualmente nos dicionários é a mesma de décadas atrás. Tal definição se refere a atributos de uma construção masculina idealizada e, principalmente, homogênea, como “virilidade” e “másculo”. Certamente essa concepção também participa da imagem dominante que a sociedade contemporânea constrói dos homens, como já dissemos.

Parece-nos que não será por meio do discurso das masculinidades que a lei da masculinidade dominante será subvertida. Há algo dessa lei que insiste em retornar nesse discurso, e esse algo está na dimensão de um real da

língua. Conforme abordamos no primeiro capítulo sobre o tema da construção da masculinidade hegemônica e da vitimização das masculinidades não hegemônicas, há uma fantasia que estrutura o gozo dessas masculinidades naquela.

Entretanto, podemos pensar que o discurso das masculinidades, hoje em dia, não para de roçar a lei que produz e regula a chamada masculinidade hegemônica. Um exemplo de transformação que ainda não abordamos nesse trabalho são as políticas públicas a respeito das masculinidades. Elas são um dos importantes efeitos da historicização e institucionalização das masculinidades no Brasil, conforme abordaremos no quarto capítulo.

3 O DISCURSO FUNDACIONAL DAS MASCULINIDADES: