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A EXPRESSÃO ASPECTUAL DA PERÍFRASE “ESTAR” + GERÚNDIO Neste capítulo, apresentaremos dois trabalhos que servirão de base para o

4.1. ESTUDOS DE REFERÊNCIA 1. WACHOWICZ (2003)

Uma importante estudiosa dos temas do aspecto e da perífrase “estar” + gerúndio é Wachowicz (2003). Seguindo a proposta de aspecto de Castilho & Moraes de Castilho (1994), a autora considera em sua tese que, além do aspecto imperfectivo na perspectiva qualitativa, a perífrase “estar” + gerúndio (tratada pela autora como “progressiva”) apresenta variação de leitura aspectual na perspectiva quantitativa entre os aspectos35 semelfactivo e iterativo, que prefere chamar de episódico, iterativo e habitual, por considerar mais abrangente e intuitivamente aceitável. Pois, segundo a autora, na literatura linguística não há uniformidade quanto a essa nomenclatura e, a partir das análises feitas sobre os dados do progressivo, optou por utilizar essa divisão tripartida. Segundo Wachowicz (2003:38), os aspectos episódico e iterativo correspondem a uma e a mais de uma situação, respectivamente, e tem correspondência com intervalos de tempo determinados. Ao passo que o aspecto habitual tem correspondência com intervalos de tempo indeterminados, ou seja, a estrutura temporal da interpretação habitual é indefinida.

Na ilustração dada pela autora, as adaptações (2) a (4) de (1) podem ajudar a sedimentar essas noções. Ainda sem considerar a atuação contextual, e se centralizando na denotação do argumento interno, Wachowicz (2003) afirma que tanto (2) quanto (3) e (4) expressam o aspecto episódico, mas (3) pode ser iterativo, e (2) e (4) podem ser habituais:

                                                                                                               

(1) Estou pagando uma fonoaudióloga duas vezes por semana, e tal.

(2) Eu estou pagando uma fonoaudióloga.

(3) Eu estou pagando três fonoaudiólogas.

(4) Eu estou pagando fonoaudiólogas.

Segundo a autora, assumindo que a complexidade desses aspectos recai na inerente ambiguidade das sentenças, bem como na estruturação de níveis de interpretação (do VP ao contexto), a autora interpreta (1) como habitual, pois a modificação adverbial “duas vezes por semana” opera sobre a sentença “Estou pagando uma fonoaudióloga”, definindo sua face aspectual quantitativa. No entanto, tomando a estrutura da sentença isoladamente, como em (2), a ambiguidade se refaz: de um lado, estruturalmente a sentença é episódica porque o NP argumento interno (NPint) denota um único indivíduo, como se o evento de eu estar pagando uma fonoaudióloga fosse único; mas, por outro lado, o contexto pode atuar sobre a sentença e  quantificá-la para a leitura habitual, como se “uma fonoaudióloga” fosse interpretado genericamente, e “eu” tivesse o hábito de “pagar uma fonoaudióloga” (qualquer).

Em (3), para a autora, a ambiguidade continua, mas com outras condições. Segundo Wachowicz (2003:39), estruturalmente, a sentença pode apresentar três situações, que resultam em duas leituras: eu posso estar pagando três fonoaudiólogas juntas, ou eu posso estar pagando duas juntas e outra separadamente, ou eu posso estar pagando uma de cada vez. A primeira situação leva ao aspecto episódico, pois só houve um evento de pagar; as outras duas situações são iterativas, pois há dois ou três eventos determinados, respectivamente, de pagar. O contexto ainda pode atuar sobre qualquer uma das leituras, quantificando-as para a habitualidade.

Para a autora, em (4), o raciocínio é quase o mesmo. Estruturalmente, a sentença tem duas situações: eu posso estar pagando todas as fonoaudiólogas juntas, resultando no aspecto episódico, ou eu posso estar pagando grupos indeterminados de fonoaudiólogas ou cada uma das fonoaudiólogas por vez, resultando no aspecto habitual. Mais uma vez, segundo a autora, o contexto também pode atuar sobre qualquer um dos aspectos, quantificando-as para a habitualidade.

Quanto ao aspecto permansivo, a autora afirma que o problema não é analisar a denotação ou não do ponto final, nem tampouco a denotação do número de vezes em que as situações se repetem. A interpretação aspectual de uma sentença como (5),

adaptada de (1), por exemplo, foge a essas possibilidades, restringindo a uma leitura homogênea e contínua da estrutura temporal, como se a sentença denotasse um estado de coisas que ‘permanece’ no tempo, num estado de coisas na classificação especial de ‘permansiva’36:

(5) Eu estou sabendo da fonoaudióloga.

Quer dizer, para a autora, o fato de “eu estar sabendo da fonoaudióloga” não pode ser distribuído em sub-eventos no tempo. Não há como saber uma vez, depois deixar de saber e depois saber de  novo, numa repetição de situações de saber. Se eu estou sabendo, esse fato percorre homogeneamente todos os intervalos de tempo do presente.

Segundo Wachowicz (2003:40), com esses pressupostos notacionais delineados, pode-se dar continuidade à apresentação das sentenças do VARSUL37, no que se refere à variação episódico, iterativo, habitual e permansivo, e procurar intuir melhor sobre os fenômenos aspectuais, para podermos entender do que depende estruturalmente a expressão de um aspecto. Para tanto, a autora apresenta uma exposição em função do tipo de estrutura linguística verificada.

Com relação à análise dos valores aspectuais, a autora conclui o seguinte: 1) Segundo à natureza quantitativa do aspecto, os aspectos podem ser episódico, iterativo ou habitual. Quanto ao aspecto episódico, ele pode aparecer em estruturas intransitivas com verbos dinâmicos (6), em estruturas transitivas com NP argumento interno denotando entidade com cardinalidade igual a 1 (7), em estruturas com advérbios momentâneos ou aspectualizadores episódicos (8), ou na atuação do contexto (9).

(6) “... hoje tem funcionário que está estudando” (p.42)

                                                                                                               

36  Adaptando os estudos de Castilho (1967) e Castilho & Moraes de Castilho (1994), Mendes (1999 apud Wachowicz 2003) refere-se a um novo esquema de tipologia aspectual, segundo o qual “os estados de coisas que se estabelecem na predicação podem ser permansivos, operativos ou resultativos”, conforme pode ser visto  na Introdução da tese de Wachowicz (2003). A denotação aspectual das sentenças com verbos ‘estáticos’, segundo Mendes (1999 apud Wachowicz 2003), estaria no conjunto dos estados  de  coisas permansivas. Por outro lado, a denotação das sentenças com valores perfectivo / imperfectivo e episódico / iterativo / habitual estaria no conjunto dos estados de coisas operativas.

(7) “Já estou lendo o livro.” (p.45)

(8) “Era dez e pouco, onze da manhã, estava dormindo tranquilo.” (p.52) (9) “Ela está evoluindo hoje às 14 horas.” (p.55)

2) O aspecto iterativo é, entre eles, o que tem mais restrições. Ele é lido em estruturas transitivas em que o NP argumento interno denota uma entidade cardinalizada e maior que 1 (10) ou com modificações adverbiais aspectualizadoras específicas (11).

(10) “O meu avô estava brigando com os três, né?” (p.43) (11) “Ele está tentando vestibular três vezes.” (p.52)

3) O aspecto habitual parece ser o que tem menos restrições. Ele é lido em estruturas intransitivas com verbos não só estáticos ou dinâmicos, mas também com verbos que são lexicalmente iterativos (12). Ele também é lido em estruturas transitivas com NP argumento interno com quantidade não especificada (13), em estruturas com modificações adverbiais aspectualizadoras específicas (14) e também na atuação do contexto (15).

(12) “Você estava panfleteando na cidade industrial.” (p.42) (13) “Eles estão fazendo dragagem nos ribeirões.” (p.44) (14) “Sempre está gastando alguma coisa.” (p.53)

(15) “... hoje tem funcionário que está estudando todos os dias.” (p.55)

4) Quanto ao aspecto permansivo, ele independe do tipo de estrutura argumental. Se o verbo, transitivo ou intransitivo, tem denotação estática, a leitura aspectual parece ficar reduzida invariavelmente ao aspecto permansivo (16).

(16) “Meu filho está crescendo, sabe?” (p.41)

5) O argumento externo, por não estar temporalmente vinculado ao verbo, não tem papel na leitura aspectual quantitativa (17).

(17) “Agora, as fábricas estão vendendo hoje com um preço muito alterado.” (p.46)

6) Os advérbios podem atuar recursivamente nos valores aspectuais quantitativos (18).

(18) “Maria está plantando uma árvore todos os dias durante a semana mês a mês.” (com a inserção dos advérbios a sentença passa de episódico para habitual, em seguida volta a ser episódico e logo passa para habitual) (p.53)

7) O contexto é o último nível em que se pode interpretar o aspecto, ora selecionando, ora quantificando, numa espécie de regra ‘vale tudo’ que ganha restrições diferentes em estruturas diferentes (19).

(19) “Era dez e pouco, onze da manhã, estava dormindo tranquilo.” (p.56) Wachowicz (2003) também aplica e estende a teoria de Verkuyl para os dados do progressivo do PB. Segundo a autora, há como aplicar a teoria à leitura aspectual durativa (ou imperfectiva), principalmente se considerarmos que a flexão “–ndo” atua

como operador em posição ASPα38, na aspectualidade interna. Mas há também como

extrair da teoria subsídios para a leitura de outros valores. Sua intenção é mostrar que

as informações [±ADDTO] e [±SQA]39, na aspectualidade interna, também

contribuem para a leitura episódico, iterativo, habitual e permansivo – pelo menos no que se refere ao progressivo.

Suas estruturas representacionais, no entanto, divergem das de Verkuyl pelo fato de a autora estar assumindo em seu trabalho que o sujeito (ou argumento externo) não tem papel determinante na leitura aspectual. Pois, segundo ela, o argumento externo não está temporalmente vinculado ao verbo, não possuindo papel na leitura aspectual quantitativa. Nesta dissertação, entretanto, o argumento externo também será analisado na composição do aspecto iterativo em sentenças com EG, observando sua real participação na expressão desse aspecto.

De forma resumida, a hipótese teórica dessa autora é que essas leituras dependem de um tratamento composicional do aspecto nos termos de Verkuyl (1993). Para tanto, foi buscar dados no corpus VARSUL e, através de testes de interpretação

                                                                                                               

38  ASPα (aspecto α) opera sobre a aspectualidade interna e pode explicar fenômenos de morfologia verbal relacionados ao aspecto.

39  O traço [±ADDTO] (additive) é dos verbos dinâmicos/estáticos; e o traço [±SQA] (specified quantity of A) é dos NPs com quantidade definida/sem quantidade definida.

aspectual, constatou que o primeiro valor aspectual lido é o imperfectivo, sob o critério qualitativo, e isso seria determinado pela marca morfológica “–ndo” do verbo principal. E observou também que os aspectos episódico, iterativo e habitual são dependentes de uma leitura composicional (como, por exemplo, a natureza semântica do verbo no gerúndio, a natureza semântica do argumento interno e modificações adverbiais).

Do ponto de vista crítico, o trabalho de Wachowicz (2003) apresenta um quadro aspectual extenso e com traços muito semelhantes entre eles, tornando a classificação um pouco confusa e cheia de nuances. Inicialmente, a autora considera três diferentes aspectos que EG poderá expressar, como o episódico, o iterativo e o habitual. Mas, ao final, acrescenta ainda o aspecto semelfactivo. Entretanto, nesta dissertação, levamos em consideração as ideias do Programa Minimalista (1995), buscando propor um quadro aspectual mais econômico e que possa abarcar melhor as diferenças aspectuais.

Pensando nos moldes do Programa Minimalista (1995), observamos que os valores iterativo e habitual possuem o mesmo traço de [+ quantidade], e o que os diferenciaria para Wachowicz (2003) seria a determinação x indeterminação dessa quantidade. Segundo a autora, como vimos mais acima, em “pago a três fonoaudiólogas”, se um evento iterativo, mas em “pago a fonoaudiólogas”, tem-se um evento habitual. Nas duas tem-sentenças percebemos um evento plural, e não importa se pago juntamente ou separadamente a cada fonoaudióloga. Com isso, mesmo que haja uma expressão adverbial quantificada como “duas vezes por semana”, podemos considerá-los iterativos, pois, de qualquer forma, representará uma repetição do evento analisado.

Da mesma forma, segundo a autora, os aspectos episódico e semelfactivo, que se definem por representar uma situação e um estado de coisas que permanece no tempo, respectivamente, têm o traço de [- quantidade] presente em ambos e que possivelmente pode ser representado por apenas um desses valores, como o semelfactivo, por exemplo.

Abaixo descrevemos outro trabalho, também bastante importante dentro dos estudos sobre o aspecto e a perífrase EG, que, embora tampouco seja de cunho gerativista, possui uma classificação mais interessante a ser considerada.

4.1.2 MENDES (2005)

Na tese de Mendes (2005), se observa o estudo das perífrases “estar” + gerúndio (EG) e “ter” + particípio (TP) tanto na sincronia (50 entrevistas – NURC/SP e PEUL/RJ) quanto na diacronia (textos do século XVI ao XIX – Corpus Diacrônico TychoBrahe).

Com relação ao estudo diacrônico, TP expressava basicamente o aspecto resultativo40 até o século XVII, firmando-se como “perífrase iterativa” a partir do final do século XVIII. Por outro lado, a perífrase EG era mais largamente empregada na composição do que se entende por progressivo: a duração de uma ação ou de um estado de coisas concomitante à sua enunciação numa frase; o emprego de EG na composição dos aspectos durativo e iterativo é mais tardio. Segundo o autor, trata-se de uma evidência diacrônica o fato de que, no decorrer de sua história, ambas as perífrases acumularam “papéis”, alguns deles específicos (distintos) e outros funcionalmente idênticos.

No corpus sincrônico, ao controlar quantitativamente as ocorrências das perífrases, o autor constata que o emprego de TP está se tornando mais restrito, tanto linguística quanto socialmente, configurando mudança em curso, através do construto teórico “tempo aparente”. Nesse processo, “estar” + gerúndio se revela como a forma preferida entre os falantes mais jovens, na expressão daqueles aspectos, independentemente de fatores linguísticos, tais como a classe semântica do verbo principal e a presença de adjuntos aspectualizadores nos argumentos verbais.

Quanto aos demais elementos das sentenças em que essas perífrases aparecem, para Mendes (2005), eles são observados no papel de coadjuvantes, mas também são tomados como variáveis que podem estar envolvidos na seleção de uma ou de outra perífrase. Além disso, sua pesquisa, assim como a de Wachowicz (2003), também se aproxima das considerações de Verkuyl (1993) na medida em que o próprio termo aspecto é empregado para denominar uma categoria que se atualiza composicionalmente na sentença. Distintamente, porém, a proposta vendleriana – cuja importância é minimizada em Verkuyl (1993) – é aqui contextualizada nos termos da variação: considera-se a hipótese de que certos tipos de verbos podem oferecer restrição ao emprego de uma ou de outra construção perifrástica. Dito de outro modo,

                                                                                                               

40  Segundo Castilho (2002 apud Mendes 2005), o aspecto resultativo é um subtipo do aspecto perfectivo, uma vez que ele implica uma predicação acabada.

as classes de Vendler (1967) são tomadas pelo autor como um grupo de fatores, e como tais podem ser quantitativamente controladas, assim como adotamos nesta dissertação.

O que seu trabalho quer evidenciar é que, dependendo do modo como o progressivo41 é entendido, certos casos de EG escapam da categoria simbólica a que a denominação remete. E são justamente esses casos cujo termo não se aplicaria que mais lhe interessam. Vejam-se os exemplos:

(20) Maria está fritando bolinhos.

(21) O senhor não sabe com quem está falando.

Em seu trabalho, Mendes (2005:34) propõe que a nomenclatura “progressivo” denomina melhor o aspecto em (21) que em (20). Em (21), considerando que o interlocutor que pronuncia a sentença é o mesmo referente do pronome quem, a única interpretação possível é a de que a “conversa” está ocorrendo no momento em que (21) é enunciada. Já em (20), a sentença não é verdadeira apenas quando “Maria está fritando bolinhos” no momento em que a sentença é enunciada; em outras palavras, a sentença em (20) pode ser verdadeira mesmo se “Maria não estiver fritando bolinhos” naquele exato momento. Ou seja, o termo progressivo pode ser tomado como mais conveniente em (21) porque de fato descreve uma ação em progresso, em curso.

Assim sendo, para esse autor, os usos de EG que configurem casos de progressivo, nos termos acima, não são considerados em sua pesquisa e, sobretudo, não são incluídos na análise quantitativa, pois a perífrase TP não pode ser usada em seu lugar, como forma alternativa. Já que TP não veicula o progressivo e, consequentemente, indica que EG e TP não são variantes quando a sentença está no progressivo. Por outro lado, a imperfectividade permanece inalterada no par “Maria está fritando bolinhos” e “Maria tem fritado bolinhos”, e o que há em comum entre elas é o fato de que podem ambas remeter a um intervalo de tempo que não engloba, necessariamente, o momento da enunciação. A sentença em (20), na verdade, pode ser considerada ambígua fora de contexto, pois a leitura progressiva também é possível. Tal leitura é facilitada em (20b).

                                                                                                               

41  Mendes (2005), assim como Wachowicz (2003), trata a perífrase “estar” + gerúndio como sinônimo de progressivo, mas também considera como o aspecto default expresso pela perífrase “estar” + gerúndio.

(20b) Maria está fritando bolinhos. [Ela não pode te dar atenção agora, infelizmente]

(20c) [Infelizmente, a Maria perdeu aquele emprego]. [Agora acabou a moleza]. Maria está fritando bolinhos.

Mais uma vez, para Mendes (2005), a diferença entre (20b) e (20c) é que, na primeira, o momento da enunciação da sentença está obrigatoriamente incluído no intervalo de tempo caracterizado pelo progressivo. Distintamente, em (20c) o evento não tem que estar acontecendo no momento de sua enunciação. Portanto, para a leitura em (20b), o emprego de TP é bloqueado; mas para a leitura em (20c), TP é uma forma alternativa. Assim, visando estabelecer uma terminologia que reflita as distinções observadas, o autor propõe que a leitura em (20c) seja denominada “durativa”. Ou seja, o autor considera que há dois subtipos de imperfectivo: o progressivo e o durativo. Esses subtipos não guardam relação com as fases da operação da ação ou do evento, como na proposta de Castilho (2000), mas sim com o fato de se o momento da enunciação está ou não englobado pelo intervalo de tempo que caracteriza a imperfectividade.

Com isso, podemos dizer que o progressivo é contínuo por excelência, mas o que se chamou de durativo acima, o aspecto imperfectivo cujo intervalo de tempo não engloba o momento da enunciação da sentença, pode ser efetuado de maneira contínua ou escalonada. Se o evento é continuamente representado, ele é percebido como “único”, o que nos remete ao semelfactivo, que também é tratado por Wachowicz (2003). Distintamente, se há escalonamento no decorrer do tempo, o evento não é visualizado como único, é antes percebido como um evento que se repete. Neste caso, o evento é considerado como iterativo.

Segundo Mendes (2005), iterativo e semelfactivo são, portanto, subtipos de durativo, que, por sua vez, é um subtipo de imperfectivo, na proposta terminológica desse autor. Castilho (2000) já havia proposto essa relação, indicando que o iterativo não precisa ser tomado como “um outro aspecto”42, e pode ser entendido como um modo especial de marcar imperfectividade. No entanto, nos parece controversa a

                                                                                                               

42  Nas palavras do autor: o aspecto iterativo “representa uma quantificação do imperfectivo e do perfectivo. Desse ponto de vista, não se trata, a rigor, de ‘um outro aspecto’ e, em consequência, haverá um iterativo imperfectivo e um iterativo perfectivo” (Castilho 2000:32).

proposta de uma vertente perfectiva e imperfectiva para o iterativo, já que para um evento apresentar repetição parece haver a necessidade de um evento observado do seu interior (imperfectivo) e não sendo observado como um todo, como um evento completo (perfectivo). Por isso, nesta dissertação, relacionamos o iterativo ao imperfectivo sim, mas o consideramos como um outro aspecto, pois apenas compartilharia traços semelhantes com o imperfectivo.

Com base na hipótese de que a variabilidade no emprego de EG e TP pode apresentar diferenças conforme o aspecto seja este ou aquele, Mendes (2005) optou por chamar de durativo propriamente os casos semelfactivos, em oposição aos iterativos. Ou seja, o autor opõe a ideia de um evento único ou singular, versus um evento múltiplo ou repetido.

Em resumo, o autor observa a possibilidade de EG também expressar o aspecto iterativo, além do já canônico aspecto progressivo. O que este autor traz de novidade é a possibilidade dessas duas formas perifrásticas serem variantes na expressão de uma ou de outra ideia aspectual. Para tanto, ambas precisam estar com o verbo auxiliar no presente do indicativo.

Além disso, através da análise de entrevistas compartilhadas do Projeto NURC/SP, Mendes (2005) verifica também que EG se mostrou mais frequente para expressar o iterativo nos casos em que o sujeito é plural ou há ocorrência de uma expressão quantificada, como no exemplo dado pelo autor em “Muita gente está morrendo”. E, no que diz respeito aos adjuntos adverbiais, EG é mais frequente em sentenças com um adjunto adverbial quantificador, como no exemplo “sei lá, estão falando muito nisso, viu? Poluição do ar agora é moda mesmo”. Já o tipo semântico do verbo principal (classificação de Vendler, 1967) não foi selecionado como relevante, bem como a variável “número do argumento interno”.

Esse estudo utiliza um bom argumento para a aplicabilidade da teoria da tipologia verbal do Vendler. E, além disso, aproxima as noções de duratividade e iteratividade por serem co-ocorrentes em sentenças com EG. No entanto, a sua hipótese de variação entre TP e EG talvez não seja aplicável ao espanhol, já que não podemos falar categoricamente que EG esteja substituindo “haber” + particípio no espanhol, pois TP é descrito com uma significação totalmente diferente. Entretanto, em Maggessy (2012), pude verificar através de teste que há uma flutuação no usos de EG, TP e “haber” + particípio em contexto iterativo no espanhol, apresentando a possibilidade dessas expressões verbais serem intercambiáveis. De todas as formas, o

modo como Mendes (2005) classifica aspectualmente as sentenças com EG parece perfeitamente aplicável tanto ao PB quanto ao EM.

Com isso, a partir da leitura dessa tese, a pergunta que podemos nos fazer tem relação com a divisão de traços dos aspectos durativo e iterativo, já que, para Mendes e Castilho, o iterativo não precisa ser considerado como um aspecto à parte, mas sim como um subtipo do aspecto durativo. Quais seriam, então, os traços compartilhados pelos aspectos durativo e iterativo, que fazem com que este último seja um subtipo do primeiro? Diante dessa pergunta, assumimos que esses aspectos realmente compartilham traços entre si. No capítulo de análise dos dados, trataremos mais especificamente dessa questão.

Para que fique mais claro o que consideramos sobre os aspectos durativo e iterativo dentro da teoria linguística, resumimos abaixo as ideias centrais que estão em consonância com a proposta de classificação aspectual adotada nesta dissertação.

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