CAPÍTULO 1: ESTUDOS SOBRE O EMPREGO DOMÉSTICO NO BRASIL
1.2 ESTUDOS DO CAMPO MARXISTA E AS TEORIAS DO
No campo da análise marxista, o livro “Emprego Doméstico e Capitalismo”, de Saffioti (1979), é um marco da produção de conhecimento sobre o tema. Considero que esta construção teórica se inscreve em um processo de construção da teoria social feminista que tenta superar os limites da teoria marxista na explicação do trabalho doméstico e da exploração das mulheres no contexto do trabalho assalariado.
A autora realizou um estudo empírico, no município de Araraquara, São Paulo, tendo como um dos objetivos teóricos “medir indiretamente em que medida as empregadas domésticas estariam preenchendo uma das funções do exército industrial de reserva” (SAFFIOTI, 1979, p. 19), isto é, em que medida as empregadas domésticas podem ser consideradas uma força de trabalho disponível para ser recrutada pelo setor capitalista da economia, nos seus momentos de expansão. Para isso, investigou o contingente de empregadas domésticas que transitaram para outros tipos de atividades remuneradas em um determinado período. De acordo com os resultados obtidos, a autora considera significativo o número de trabalhadoras que fizeram esse trânsito, o que a leva a considerar que o setor capitalista da economia absorve uma parcela de trabalhadoras domésticas remuneradas dentro do contexto estudado.
Na sua investigação, partindo da concepção de “exército industrial de reserva”15,
Saffioti apresenta duas constatações: a primeira diz respeito à diferença entre os resultados de seu trabalho e a situação observada por Marx na Inglaterra do século XIX. Enquanto aí a grande recrutadora de mão-de-obra dos setores não capitalistas da economia era a indústria,
no Brasil é o setor terciário de atividades econômicas o responsável por isso; a outra é que a categoria ocupacional empregada doméstica preenche uma das funções indicadas no conceito de “exército industrial de reserva” (SAFFIOTI, 1979, p. 21).
Ressalta ainda que a pesquisa não possibilitou, pois não foi planejada para isso, que fosse verificado o segundo requisito indicado por este conceito relativo ao fato de se as empregadas domésticas estão contribuindo como fator de contenção dos salários dos que estão empregados no setor capitalista da economia. Há, também, em sua análise, uma indicação para a necessidade de repensar o conceito de exército industrial de reserva a partir do “modelo de industrialização dos países capitalistas periféricos”, que é distinto daquele que “norteou o processo das nações hoje desenvolvidas” (SAFFIOTI 1979, p. 22).
O pressuposto teórico que constitui a base do estudo em questão é que “nas formações capitalistas, como é sabido, o modo de produção capitalista coexiste com formas não- capitalistas de trabalho” (SAFFIOTI, 1979, p. 23). Considera essa coexistência como dinâmica e integrada, de acordo com os interesses e necessidades do setor capitalista da economia. Para a autora, os trabalhadores dos setores não capitalistas estão à margem do modo de produção capitalista, mas, por outro lado, estão integrados no sistema capitalista e “permitem” a este “alcançar uma taxa mais elevada de acumulação”, à medida que realizam tarefas necessárias à reprodução ampliada do capital.
Segundo a autora,
o assalariamento da força de trabalho específica para desincumbir-se de serviços domésticos em residências particulares foi inaugurado pelo capitalismo. Em modos de produção pré-capitalistas, a escrava e a serva realizavam as tarefas domésticas na casa do senhor sem retribuição pecuniária...Entretanto, as atividades desenvolvidas por empregadas domésticas em residências particulares não se caracterizam como capitalistas. Com efeito, não se encontram elas subjugadas ao capital, mas são remuneradas diretamente pela renda pessoal (SAFFIOTI, 1979, p. 191).
Esse estudo, que aborda o emprego doméstico dentro dos marcos de uma teoria sobre reprodução do sistema capitalista, foi e permanece sendo uma referência importante para a produção sociológica sobre o tema. Por outro lado, a tentativa de encaixar a análise dentro de uma única grade analítica, a qual não considera o trabalho doméstico como objeto da sua formulação, é um problema e evidencia a necessidade de construir ou utilizar, em diálogo com esta matriz teórica, categorias analíticas apropriadas ao estudo da questão. Para Saffioti
(1979), é a ideologia patriarcal que induz as mulheres à aceitação dos empregos mal remunerados. A menção à ideologia patriarcal pode ser tomada como um indicativo de que o problema analisado exige referências teóricas analíticas fora do campo marxista. A questão do patriarcado vai ganhar densidade e profundidade na pensamento da autora em obras subseqüentes como no livro “Gênero, Patriarcado,Violência” (SAFFIOTI, 2004)16.
Por fim, Saffioti (1979) remete, criticamente, ao debate marxista sobre trabalho doméstico “nos países desenvolvidos”, que naquele contexto dos anos 1970 tendia a cair em uma circularidade de divergências sobre trabalho produtivo e trabalho improdutivo. Essa circularidade está em princípio imposta pelo fato de limitar a análise do trabalho doméstico ao marco da teoria marxista, que sendo uma base fundamental para compreensão da relação capital e trabalho, não pode dar conta de um problema que não se constitui como objeto da sua elaboração.
Neste sentido, Saffioti (1979) avança na conclusão:
Parece mais lógico admitir-se que as atividades domésticas, quer desempenhadas gratuitamente, quer assalariadamente, vinculam-se historicamente ao modo de produção doméstico...Trate-se, pois, de trabalho gratuito ou de trabalho remunerado, o serviço doméstico constitui sempre tarefa feminina. É que sob o capitalismo periférico a liberação de certos contingentes femininos dos trabalho domésticos faz-se às expensas do sacrifício de outras mulheres, ou seja, as empregadas domésticas. Trata-se de maneiras diferentes de realização histórica da sociedade de classes. O que permanece constante, independentemente do grau de desenvolvimento do capitalismo, é a injusta divisão do trabalho segundo o sexo, que destina aos homens a esfera pública da economia e às mulheres o mundo restrito da família e da residência (SAFFIOTI, 1979, p. 44-45).
A autora abre, assim, a própria estrutura analítica na direção de uma abordagem mais complexa do problema, que reflete sua concepção dialética de produção do conhecimento.
A relação entre as fases dos processos de industrialização e o crescimento ou declínio do emprego doméstico é abordada por outras autoras, em outros países, e a partir de outros
16 De acordo com a classificação de Abbott & Wallace (1997), a corrente de pensamento do feminismo dos
sistemas-duais defende justamente a tese de que o patriarcado, como sistema de poder anterior ao capitalismo, toma uma nova e específica forma neste sistema. Sem intenção de enquadrar a abordagem de Heleieth Saffioti nesta classificação, quero, no entanto, sublinhar uma diferenciação feita pela autoras entre feministas marxistas, que circunscrevem sua reflexão nos limites da teoria marxista, e uma abordagem que colocando-se também na tradição do campo marxista, extrapola seus limites ou, dito de outra forma, rompe com a visão de um único ponto de partida para pensar a realidade social (de uma única determinação).
modelos teóricos. É o caso, por exemplo, de Higman (1993)17, em estudo sobre a Jamaica e
tendo as experiências da Inglaterra e dos Estados Unidos como referências comparativas. Nesse caso, o modelo de análise leva em conta outros fatores para explicar o declínio do emprego doméstico em determinados períodos, além do desenvolvimento da economia industrial e do aumento de oportunidades de trabalho para as mulheres, como a redução do tamanho da família de classe média e a comercialização e mecanização de tarefas do lar. De acordo com o modelo tomado como referência por Higman,
o relativo grande número de trabalhadores domésticos que hoje em dia se encontra em muitos países latino-americanos ocorre em função de sua economia, que se encontra em um estado intermediário de desenvolvimento, estado pelo qual passaram as economias industriais desenvolvidas ao final do século XIX (HIGMAN, p. 42, 1993)18.
Em suas conclusões, contudo, ela afirma que este modelo se encaixou “muito pobremente” no caso da Jamaica. Sobre a questão do tempo de trabalho doméstico na Jamaica, Higman (1993) nos traz dados importantes que interessa salientar, no sentido de mostrar a historicidade do problema da jornada de trabalho como uma dimensão fundamental da relação de exploração no emprego doméstico. Segundo essa autora, no ano de 1925, a média de horas trabalhadas pelos “domésticos jamaicanos” era de 74 horas por semana, o que significava 20 horas a mais do que aquelas horas trabalhadas por outros trabalhadores de qualquer ocupação e sem o recebimento de horas extras. Acrescenta, ainda, que esta situação permaneceu pelo menos até 1960, enquanto ocorriam mudanças nas jornadas de trabalho em outras ocupações (HIGMAN, 1993, p. 59).
A pesquisa de Farias (1983), realizada na cidade de Fortaleza e que deu origem ao livro intitulado “Domesticidade: ´cativeiro` feminino?”, tem como ponto de partida para sua análise e elaboração teórica, dentro de uma abordagem marxista, a relação entre emprego doméstico e as condições histórico-estruturais nas quais essa relação de trabalho remunerado se realiza e se reproduz. Desenvolve uma elaboração sobre o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro como “concentrador da riqueza nacional nas mãos de poucos cidadãos e grupos do país, ocasionando assim a reprodução da situação de pobreza generalizada”
17 Esta autora sustenta sua análise remetendo-a e baseando-se em outras autoras/es, das/os quais ressalto o
nome de Ester Boserup (1970), teórica de referência no debate sobre mulheres e desenvolvimento e autora do famoso livro “Women´s Role in Economic Development” (O Papel das Mulheres no Desenvolvimento Econômico).
(FARIAS, 1983, p. 22). A autora trata o emprego doméstico a partir de sua inserção no sistema capitalista, considerando, ainda, como parte deste modelo a desigualdade regional, que está diretamente relacionada ao problema. Segundo Farias, “além de ser um indicador da pobreza regional nordestina, no caso, a reprodução do “emprego” doméstico se relacionaria, de um modo mais específico, com a situação da mulher na sociedade brasileira” (FARIAS, 1983, p. 22).
A vinculação do emprego doméstico com a questão da pobreza é um ponto importante da reflexão da autora, que tenta construir uma relação entre a situação de classe e a posição social da mulher a partir do conceito de papéis sociais, o que posteriormente resulta numa relação entre classe e sexo no que diz respeito ao emprego doméstico.
Para se compreender, no entanto, o lugar social tão desprestigiado da empregada doméstica, pensamos ser necessário, ainda, associar – articulando à explicação a nível dos condicionantes de classe – a exploração a nível dos condicionamentos sociais ligados a sexo, pois, como sabemos, homens e mulheres estão desigualmente situados na ´produção social da existência` na maioria das sociedades humanas, como nos informam alguns estudos antropológicos. E a empregada doméstica, além de ser pobre, é mulher (FARIAS, 1983, p. 77). A amostra de Farias (1983) inclui empregadas domésticas e patroas. Mas nenhuma das empregadas domésticas pesquisadas trabalhava para as patroas pesquisadas. Uma de suas considerações sobre os resultados alcançados diz respeito à dependência que as patroas inseridas no mercado de trabalho têm das empregadas domésticas. Caracteriza a relação como de violência e dominação e mostra as diferentes percepções das patroas, que variam entre mais igualitaristas e conservadoras.
Duas questões levantadas pela autora me interessam de maneira especial: a primeira diz respeito ao emprego doméstico não se constituir como uma forma de emancipação para as mulheres; a outra é de que essa relação de trabalho não modifica a tradicional divisão do trabalho entre os sexos.
A nosso ver, a entrada de mulheres na “força de trabalho”, por sua participação no emprego doméstico – como vem a ser o caso de maioria das mulheres brasileiras incluídas na PEA – não se constitui numa forma de emancipação para essas mulheres, apesar do assalariamento (e de por isso terem sido incluídas na PEA). Além do mais, achamos que a persistência do emprego doméstico, apesar de compreendida como estratégia de sobrevivência para as empregadas, em nada modifica a tradicional divisão do trabalho entre os sexos, nem pelo lado da empregada – futura dona-de-casa, nem pelo lado da patroa a quem ela substitui ou ajuda (FARIAS, 1983, p. 82).
Partindo de uma análise do conteúdo geral apresentado, a autora desenvolve uma perspectiva de transformação que a leva, talvez, a tratar da emancipação como um projeto totalizador, como algo que se realiza de uma só maneira e em um determinado momento. A relação entre salário e servidão coloca muitas contradições que a autora aponta, mas sobre as quais não avança. Apesar de essas questões não serem exploradas com mais densidade em sua análise, considero que elas são fundamentais na reflexão sobre o emprego doméstico quando pensado a partir da divisão sexual do trabalho e da questão do sujeito. Esses pontos farão parte da minha elaboração em Capítulos posteriores.
A análise das questões estruturais está referenciada em abordagens marxistas. Para a relação entre patroa e empregada, que está caracterizada como de “dominação”, essa autora vai buscar em Weber sua sustentação para analisar o que chama de “poderes senhoriais” (FARIAS, 1983, p.116). Daí parte para uma afirmação de que esses poderes estão sustentados na situação de classe.
Nesse trabalho, a relação entre campos teóricos de diferentes matrizes, como marxismo e funcionalismo (quando trabalha com o conceito de papéis sociais) e teoria weberiana, se faz de maneira estanque. Essa escolha está, de uma certa forma, relacionada também ao período no qual foi elaborado. Ora a autora se pauta por uma concepção, ora por outra, sem fazer qualquer mediação e conexão entre essas diferentes correntes. O resultado é uma fragmentação de abordagens pelo uso atomizado dos conceitos.
Na pesquisa intitulada “Emprego Doméstico em Salvador”, Alda Britto da Motta (1985) expõe as dificuldades encontradas nos anos 1970, quando começou seus estudos nesta área, para encontrar bibliografia sobre o assunto. Se hoje encontramos uma maior produção neste campo, pode-se, no entanto, dizer que a escassez permanece como uma marca.
O emprego doméstico é tratado por Britto da Motta a partir da relação entre capitalismo e trabalho doméstico, com o reconhecimento da existência de traços comuns universais neste trabalho, no contexto do capitalismo dependente. Três traços comuns são destacados: o primeiro deles diz respeito a ser um trabalho que, na sua quase totalidade, é realizado por mulheres. Nessa relação, o trabalho doméstico aparece como uma ´segunda natureza` da mulher. O segundo traço diz respeito ao desvalor social atribuído a esta atividade. E o terceiro, decorrente do inicial, é a falta de limite de horário para o seu exercício.
A autora faz ainda uma divisão de traços específicos que são comuns às duas categorias de trabalhadoras: as donas de casa, cujo elemento também comum é a gratuidade do trabalho doméstico, e empregadas domésticas; neste caso é o assalariamento, mal pago e só parcialmente monetarizado, o elemento partilhado. E como um traço comum às duas formas, destaca o fato de que “quase todas as mulheres exercem – pelo menos em um período da sua vida – parcial ou totalmente, o trabalho doméstico não remunerado” (BRITTO MOTTA, 1985, p. 17-18). Acrescenta, ainda, que no “capitalismo dependente” grande parte das mulheres pobres exerce, pelo menos em um determinado período de sua vida, o trabalho doméstico remunerado (BRITTO MOTTA, 1985, p. 18).
Alda Britto Motta faz uma análise sobre a desigualdade de classe entre as mulheres no emprego doméstico e, por fim, afirma que “uma dona de casa e uma empregada doméstica podem estar em posição social oposta, representando interesses sociais e econômicos opostos, mesmo quando não representam a contradição principal de classes da sociedade. Então, mesmo conservando o substrato feminino, ´natural`, doméstico e subordinado comum, não raro os interesses de classe predominam – é o grande impasse que o feminismo vive.” (BRITTO MOTTA, 1985, p. 18).
A investigação realizada em Salvador trata de várias dimensões do problema, condições de trabalho, relações entre patroa/ões, carreira ocupacional e a das relações das empregadas domésticas no contexto social da cidade. Uma rica narrativa é feita sobre os resultados encontrados para mostrar as contradições e dificuldades vividas no interior dessa relação. Logo de início a autora adverte sobre a impossibilidade de análise “estritamente econômica do Serviço Doméstico” ou de qualquer outro tipo de trabalho classificado como “feminino”. “No caso do Serviço Doméstico, a dificuldade é maior por causa da desconcertante associação de elementos de diferentes formas organizativas que o compõe: traços servis, fortes elementos da produção doméstica para o autoconsumo, elementos do assalariamento capitalista” (BRITTO MOTTA, 1985, p. 25).
Em sua análise a autora ressalta, ainda, a contradição entre a importância do emprego doméstico no acesso ao mercado de trabalho e a ausência de direitos trabalhistas no Brasil. Como seu trabalho é anterior a 1988, as conquistas das empregadas domésticas na Constituição ainda não constavam. Essas conquistas, ainda que incompletas, significaram um
avanço, mas a contradição permanece em decorrência dos limites presentes no acesso dessa categoria aos direitos.
O trabalho de Britto Motta oferece uma base importante de dados que podem ser sempre buscados como uma fonte para estudos posteriores, no sentido de compreender os processos em curso. Também coloca questões para o debate teórico sobre o trabalho das mulheres e a questão da exploração e da dominação. Situado no campo da análise feminista marxista, seu estudo aponta para a necessidade de incorporação de outras referências na compreensão do problema.
Em sua tese de doutorado, VERGOLINO (1989) desenvolveu um denso e interessante trabalho sobre a relação patroa-empregada doméstica em Recife, a partir de uma pesquisa quantitativa sustentada, também, em dados qualitativos. Para mim, esse trabalho se reveste de uma importância especial por se tratar de um estudo situado em Recife, cidade referência da pesquisa empírica que compõe meu processo de elaboração. Salienta que o serviço doméstico absorve um contingente significativo de trabalhadoras, que facilita a participação das mulheres patroas profissionalizadas no mercado formal de trabalho. Para a autora, no Brasil, desde o período escravocrata, “o serviço doméstico é o tipo de atividade que não tem sido feita por donas de casa nas classes médias e altas da sociedade” (VERGOLINO, 1989, p. 6)19.
A autora situa o emprego doméstico como parte do setor informal da economia e, partindo dos resultados de sua pesquisa qualitativa, debate três questões teóricas: a primeira delas é em que medida a presença das empregadas domésticas ou o salário dos maridos encorajam a decisão das mulheres a trabalhar fora de casa. Nesse ponto, chega à conclusão de que o salário do marido não influi na decisão e de que o percentual de mulheres trabalhando fora é maior quando elas têm empregada doméstica (62,25%).
A segunda questão diz respeito ao papel que as empregadas domésticas jogam no rebaixamento dos salários dos membros de famílias das classes média e alta. Constata como muito improvável que uma família de classe média ou alta pudesse comprar no mercado formal os serviços que a empregada realiza por um preço igual ou equivalente. Assim, uma empregada por cozinhar, lavar, tomar conta das crianças, isto é, cumprir um conjunto de
atividades por um valor menor do que seria pago na compra de cada um desses serviços20.
Toma esses resultados como indicação de que as empregadas domésticas jogam em potencial um papel importante na redução dos salários recebidos por famílias de classes média e alta.
Como terceira questão teórica avalia a aplicabilidade do conceito de Quijano sobre “pólo marginal da economia” para as empregadas domésticas. E conclui que os dados coletados mostram a evidência que sustentam este conceito (VERGOLINO, 1989, p. 218- 219).
Na sua revisão bibliográfica sobre a questão do trabalho doméstico, aborda a discussão das teóricas marxistas sobre trabalho produtivo e improdutivo e sugere que a abordagem desse problema é inapropriada, uma vez que o trabalho doméstico não se constituiu em um objeto de análise de Marx. Estabelece, nesse ponto, um diálogo crítico com as autoras Saffioti (1978) e Britto da Motta (1981), as quais, evocando Marx, analisam a contribuição do serviço doméstico para a produção e reprodução da força de trabalho como mercadoria, em contraste com o que Marx afirma. Vergolino (1989) não concorda com esta abordagem, pois afirma, citando Marx, que há uma diferenciação entre força de trabalho e força de trabalho como mercadoria, e essa diferença não é considerada pelas autoras em questão (VERGOLINO, 1989, p. 52). Acrescenta, ainda, que no seu entendimento a realização do trabalho doméstico é uma função básica para qualquer modo de produção.
Segundo Vergolino (1989), entre as empregadas domésticas pesquisadas, 77,98% trabalhavam mais de 8 horas por dia e 70% das patroas entrevistadas, as quais trabalham fora, afirmaram que mesmo com uma só criança com menos de 12 anos seria “muito difícil” ou “impossível” trabalhar fora de casa sem a presença de uma empregada doméstica (p. 172). Esta é uma questão inteiramente conectada com os objetivos de minha análise.
Um estudo forjado segundo a autora, Lêda Maria Teles de Souza (1991), no compromisso político com a organização das empregadas domésticas, toma um aspecto