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Estudos do plano de conteúdo da linguagem

A definição usual de semântica como sendo a área da linguís-tica que estuda o significado das línguas naturais não é tão escla-recedora, já que para entendê-la precisamos definir, antes, o que é significado. Tarefa que se torna difícil, já que os semanticistas possuem diferentes visões acerca do que seja significado, senti-do e significação. Pode-se, então, afirmar que não existe uma se-mântica e sim várias sese-mânticas, pois o seu estudo pode ser reali-zado a parir de vários ângulos, considerando-se as possibilidades de atuação do objeto de estudo da linguagem.

Podemos perceber que os tipos de semântica não são total-mente estanques e incompatíveis, apenas fazem uso do mesmo objeto (o significado) de perspectivas diferentes. Como pode ser confirmado a partir de Müller e Viotti (2005, p. 137): “[...] pode-mos dizer que há semântica de todo tipo. Há semântica textual, semântica cognitiva, semântica lexical. Há semântica

argumen-tativa, semântica discursiva [...]. Todas elas estudam o significa-do, cada uma do seu jeito”.

Tendo em vista o fato de existir uma diversidade de semânti-cas, e que cada uma permite ampliar o alcance de visão do dado examinado, destacamos para este estudo algumas abordagens que nos influenciaram no âmbito de uma semântica geral.

Abordagem formal

A semântica formal “considera como propriedade central das línguas humanas o ser sobre algo, isto é, o fato de que as línguas naturais são utilizadas para estabelecermos uma referencialidade”

(MÜLLER e VIOTTI, 2005, p. 139). Para a semântica formal, as lín-guas naturais são utilizadas para referir, falar sobre, fazer menção a algo que existe no mundo e que está fora da própria linguagem.

A referência consiste no ser, objeto, que ela aponta no mundo, se esta for analisada dentro de uma sentença, o valor de verdade será o fator referencial. O significado passa a ser entendido como aquilo sobre o que se fala e o sentido expressa a forma com a qual o objeto se apresenta e de que modo chegamos a ele: o trajeto percorrido.

Essa semântica se apoia nas condições de verdade. Nela, o sig-nificado é o tipo de situação que ela descreve. Assim, um texto só terá seu significado conhecido quando pudermos reconhecer suas condições de verdade. Cada parte de um texto contribui para o seu significado, possibilitando aos sujeitos a produção e com-preensão de novos significados, mas ele não é produzido apenas pelo significado das palavras, individualmente, depende também da estrutura textual e do contexto.

Abordagem estrutural

Para compreendermos os objetivos e características principais da semântica estrutural, precisamos relembrar o legado de Saus-sure para os estudos linguísticos. Para SausSaus-sure (1969, p. 31-102), a língua é “um sistema que conhece apenas sua própria ordem”;

sendo “um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica”. A língua é con-siderada uma estrutura, na qual todas as palavras possuem um posicionamento específico e assim as partes constroem a unida-de e sincronicidaunida-de sintagmáticas. Saussure dividiu a língua em relações dicotômicas. As mais famosas são as que ocorrem entre sincronia e diacronia, langue e parole (língua e fala), sintagma e paradigma, significado e significante. A língua é vista como for-mada por oposições.

Abordagem cognitiva

Os estudos semântico-cognitivos estão diretamente ligados a fatores extralinguísticos. Para esse ramo semântico, os sentidos se constituem além das sentenças. Fatores que estão fora das es-truturas gramaticais influenciam na construção dos significados.

Isto é, aspectos sociais, históricos e culturais permitem ampliar os estudos semânticos em prol da compreensão dos sentidos que estão além do que está verbalizado. Fodor e Katz propuseram em 1963 a criação de uma teoria semântica que tinha por objetivo principal unir os fatores semânticos aos componentes

gramati-cais já existentes. Para eles, assim como as ideias estruturalistas e formais, o objeto de estudo principal da semântica seria algo que estaria “contido” na sentença. Entretanto, a semântica se di-ferenciaria dos demais ramos de estudos linguísticos pelo fato de não tomar apenas a sentença para a análise, mas partir dela em busca do que significa ou produz sentido no texto e no contexto.

Para a semântica cognitiva, os sentidos contidos nos fatos enunciados significam para nós conhecimentos e experiências adquiridas ao longo de nossa vida. Isto se refere, explica Gomes (2003), à natureza e experiência das espécies e comunidades. A sua noção fundamental é o componente corporal, elemento de li-gação mais direta com a significatividade das expressões linguís-ticas, isto é, as estruturas conceituais são significativas porque são corporalizadas, nascem das experiências de cada ser huma-no. Mediante tais estudos podemos constatar a importância das experiências humanas para o exame dos sentidos produzidos pe-las práticas sociais, que são coerentes nas diversas culturas e se diferenciam de acordo com as experiências particulares de cada indivíduo ou família.

Por sua vez, a semântica argumentativa faz ligação dos senti-dos das palavras com a intencionalidade do locutor ao produzir o texto. Quem produz um texto tem sempre o objetivo de expressar sua opinião, como também convencer o interlocutor da verdade de suas palavras. Argumentar diz-se do fato de fazer uso dos ele-mentos de linguagem, como cores, palavras e imagens, de modo a convencer o leitor da verdade daquilo que é apresentado, fazen-do assim com que os interlocutores sejam persuadifazen-dos.

Fica evidente que para a semântica, o sentido só pode ser iden-tificado e analisado a partir do conhecimento das circunstâncias em que o discurso é atualizado. Deve ser observado, portanto, o local em que o enunciado é produzido, o momento histórico, fatores sociais e ideológicos. A semântica é, dessa forma, de gran-de auxílio para o estudo da linguagem e dos processos gran-de signi-ficação semiótica do texto, com destaque neste estudo para os anúncios publicitários que fazem uso dos sentidos produzidos/

negociados através de imagens, palavras, sons, cheiros e cores.