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PARTE II DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL E PRÁTICAS DE MOBILIDADE NA AML

2.1. Estudos e tipologias de referência (1990 – 2000)

A relação entre forma urbana e mobilidade é concebida como tendo consequências visíveis ao nível da sustentabilidade: verifica-se o aumento da utilização do transporte individual privado devido “à maior dispersão da localização dos empreendimentos habitacionais (na cidade e na AML) e do emprego” (CML, 2005:31). De 1991 para 2001 o fluxo de veículos a entrar em Lisboa aumentou 60% (CML, 2005), colocando não só os mais conhecidos desafios ambientais, de congestão e disfuncionalidade da rede viária mas também questões de diferenciação social que poderão acentuar-se numa cidade cuja mobilidade parece cada vez mais dependente do transporte individual.

Alguns estudos, que usamos como referência, analisaram e descreveram dinâmicas socio-espaciais da AML através da construção de tipologias (INE, 2001 e 2004; Salgueiro, 2001) a partir dos dados dos Censos de 1991 e de 2001. A tipologia de Salgueiro alicerça- se na caracterização socioprofissional dos residentes e nas condições do edificado produzindo um mapa síntese de áreas sociais na região de Lisboa (2001: 193) que traduz uma leitura muito rica sobre tipos de territórios a que corresponde a preponderância de determinados grupos sociais. Se o desenho de coroas urbanas parece traduzir as leituras clássicas funcionalistas sobre zonamento ou segregação, o aparecimento de bolsas ou pequenas manchas polarizadas anuncia o que a autora denomina de cidade fragmentada.

A tipologia do INE (20048) utiliza como unidade a subsecção estatística e considera a composição sociodemográfica da população e das famílias, o parque habitacional, a mobilidade casa-trabalho e o sector de ocupação da população empregada. A partir de algumas variáveis-base9 foi realizada uma análise em componentes principais da qual

8 Foi publicada recentemente a tipologia do INE a partir dos dados dos Censos 2011, já após termos

construído as nossas tipologias. Daremos conta adiante da comparação entre a nossa proposta e o estudo mais recente do INE (2014).

9 Variáveis-base: Idade média dos edifícios (anos); Proporção de edifícios com 7 ou mais alojamentos

(%); Proporção de edifícios não exclusivamente residenciais (%); Proporção de alojamentos arrendados (%); Proporção de alojamentos do próprio sem encargos (no total de alojamentos do próprio) (%); Proporção de alojamentos sublotados (%); Proporção de alojamentos com aquecimento (%); Proporção de alojamentos precários (%); Média de famílias por alojamento (nº); Proporção de famílias unipessoais (%); Proporção de famílias com 5 ou mais pessoas (%); Proporção de núcleos familiares de casais com filhos (no total de casais) (%); Idade média dos residentes (anos);

Habilitação académica média dos residentes (anos de escolaridade); Proporção de população cujo principal meio de vida é o trabalho (%); Proporção de população com profissões socialmente menos valorizadas (%); Índice de terciarização (do emprego dos residentes) (%); Índice de diversificação

61 resultaram seis dimensões socioeconómicas de diferenciação da AML: Renovação; Qualificação, Urbanização, Mobilidade, Migração e Precariedade, por ordem explicativa descendente. A dimensão Renovação é a que explica mais variabilidade e opõe o envelhecimento da população, acompanhado da maior presença de famílias unipessoais, e envelhecimento do edificado à construção e ocupação recentes do território, com maior peso das famílias com filhos. A Qualificação, segunda dimensão explicativa, refere-se à habilitação académica e grupo socioprofissional da população e às condições de habitabilidade e respectivos indicadores de conforto, como a utilização do automóvel e a propriedade da residência. A Urbanização descreve-se pela densidade do povoamento, diversidade funcional, terciarização e qualificação da população empregada. A Mobilidade diz respeito aos movimentos pendulares: sua duração e se implicam deslocação para outro concelho. A presença de população de nacionalidade estrangeira e de residentes recentes (menos de 5 anos) e a presença de mais que uma família (ainda que unipessoal) num mesmo alojamento são congregadas na dimensão Migração. A Precariedade, para além da presença de estrangeiros, associa condições vulneráveis de habitabilidade (maior presença de alojamentos não clássicos) a modelos familiares informais e de maior dimensão e fraca qualificação da população, indicando potencial exclusão social.

A partir destas dimensões, o estudo elabora uma análise de clusters que resulta em seis tipos de unidade territorial: urbano consolidado, (sub)urbano qualificado, suburbano novo, (sub)urbano desqualificado, rural e precário (fig. 2.1).

social; Proporção de casados sem registo (no total de casados) (%); Proporção de população de nacionalidade estrangeira (%); Proporção de população que trabalha/estuda noutro concelho (%); Tempo médio das deslocações casa-trabalho/escola (minutos); Proporção de utilização do automóvel nas deslocações casa-trabalho/escola (%); Proporção de população que 5 anos antes residia fora do concelho de residência (%) (INE, 2004).

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Figura 2.1 – Síntese descritiva da tipologia socio-económica de Lisboa do INE 200110

Urbano consolidado (21,6% da pop.) (Sub)urbano qualificado (28,3% da pop.) Suburbano novo (21,7% da pop.) (Sub)urbano desqualificado (13,2% da pop.) Rural (10,7% da pop) Precário (4,6% da pop.) Famílias unipessoais ↑ Envelhecimento da pop. e edif. ↑ Aloj. Arrendados ↑ Aloj. sem encargos ↑ Terciarização ↑ Famílias com filhos ↓ Pop. com rendimentos do trabalho ↓ Pop. trabalha/ estuda noutro concelho ↓ Utilização do automóvel ↓ Habilitação académica ↑ Condições de habitabilidade ↑ Utilização do automóvel ↑ Terciarização ↑ Proprietários ↑ Aloj. sem encargos ↑ Profissões menos valorizadas ↓ Aloj. Arrendados ↓ Uniões de facto↓ Pop. com rendimentos do trabalho ↑ Pop. residente há menos de 5 anos↑ Utilização do automóvel ↑ Trabalha fora do concelho ↑ Densidade de alojamentos ↑ Famílias com filhos ↑ Idade média da pop. e dos edifícios ↓ Aloj. sem encargos ↓ Aloj. arrendado↓ Duração mov. Pendulares ↑ Trabalha/estuda noutro concelho↑ Densidade de alojamentos ↑ Famílias com filhos ↑ Alojamentos arrendados ↑ Condições de habitabilidade ↓ Utilização do automóvel ↓ Aloj. sem encargos ↓ Famílias unipessoais ↓ Profissões menos valorizadas ↑ Aloj. sem encargos ↑ Terciarização ↓ Densidade de alojamentos ↓ Habilitação académica ↓ Duração mov. Pendulares ↓ Edif. não exclusivamente residenciais ↓ Pop. residente há menos de 5 anos ↓ Pop. trabalha/ estuda noutro concelho ↓ Famílias unipessoais ↓ Famílias numerosas ↑ Uniões de facto↑ Nacionalidade estrangeira ↑ Profissões menos valorizadas ↑ Alojamentos arrendados ↑ Condições de habitabilidade ↓ Utilização do automóvel ↓ Habilitação académica ↓

Fonte: adaptado de INE (2004)

A sua interpretação e denominação resultam da leitura territorial dos tipos definidos. Segundo este estudo a AML revela-se, em 2001, “um território metropolitano extremamente fragmentado, onde coexistem em áreas de proximidade, características da população residente e do parque habitacional contrastantes” (INE, 2004:150), em linha com o que Salgueiro (2001) propôs. Esta fragmentação é mais visível nos denominados eixos de expansão suburbana associados às vias de comunicação ferroviárias e rodoviárias, como a linha de Sintra e o eixo Odivelas-Vila Franca de Xira ou o arco Almada-Montijo, na margem sul.

Os centros urbanos tradicionais de Lisboa e Setúbal sobressaem pela mancha contínua de urbano consolidado. Contudo, o sector oriental de Lisboa e as áreas limítrofes do concelho são marcados como áreas do (sub)urbano desqualificado e do precário. Também nas freguesias mais periféricas, tal como nalgumas áreas centrais, se destaca o (sub)urbano qualificado. Em Setúbal, à parte o urbano consolidado, é o suburbano novo que prevalece, ainda que também se observem os grupos menos qualificados e as áreas rurais, dada a extensão do concelho.

Enquanto o urbano consolidado corresponde essencialmente aos núcleos urbanos mais antigos, a expansão suburbana traduz-se na tipologia em (sub)urbano desqualificado e

63 bolsas de precário, incluindo áreas de urbanização resultantes do êxodo rural e da população das ex-colónias, nos anos 70, e também da imigração de países lusófonos que lhes sucedeu, integrando bairros de autoconstrução, urbanizações privadas em terrenos rurais, urbanizações privadas de fraca qualidade urbanística, ainda que legais, e habitação social (Programa Especial de Realojamento – PER) (INE, 2004:151). Nestes dois últimos grupos associam-se condições débeis de habitabilidade a situações de fragilidade social, o que “aponta para a incidência de trajetórias de exclusão social das populações e marginalidade destas áreas” (INE, 2004:152).

Contudo, identificam-se áreas de suburbano novo e de suburbano qualificado. No eixo Oeiras-Cascais destaca-se o (sub)urbano qualificado, ainda que se observe uma diferenciação norte-sul, marcada pela linha ferroviária, e nascente-poente, influenciada pela proximidade a Lisboa. Encontramos também (sub)urbano desqualificado, bolsas de precário e, sobretudo em Cascais, manchas de rural. Nalgumas áreas de Oeiras limítrofes a Lisboa, observam-se características semelhantes a Amadora ou Odivelas.

Algum (sub)urbano qualificado e suburbano novo envolve os concelhos de Sintra e Mafra mas também outros concelhos da margem sul, como Almada. Sesimbra, na faixa costeira, assinala a transformação do que eram espaços tradicionais de segunda residência em residência permanente. Assim, na Península de Setúbal, entre o eixo Almada–Montijo e Setúbal, para além das áreas de suburbanização intensiva centrada em Lisboa vemos também territórios periféricos de valorização ambiental.

Do estudo do INE (2004), verificamos que as mudanças de 1991 para 2001 mais marcantes estão associadas à mobilidade: a duplicação da utilização do automóvel, o aumento da importância de população que trabalha ou estuda fora do concelho de residência e a diminuição da duração média das deslocações pendulares. Também se destaca o aumento da população de nacionalidade estrangeira e dos indivíduos casados sem registo. Outras tendências importantes são o envelhecimento da população, a diminuição da dimensão média da família, o aumento da residência em alojamento próprio e a melhoria das condições de habitabilidade (INE, 2004: 167).

Uma primeira nota sobre a evolução 1991-2001 da tipologia é a verificação que mais de metade das unidades territoriais, onde residiam 1,2 milhões de pessoas, pertence em 2001 a um tipo diferente de 1991. No estudo, o INE (2004) observa 3 tipos de variação: a variação da inscrição da unidade territorial num tipo, a variação da população nesse tipo e, por último uma variação mais qualitativa que é a do comportamento das variáveis na descrição desse tipo. Os tipos mais estáveis qualitativamente são o rural e o urbano consolidado.

A qualificação do território e a suburbanização do rural está presente no crescimento dos tipos urbano consolidado, suburbano novo e (sub)urbano qualificado e perdas

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populacionais mais significativas para o (sub)urbano desqualificado, o precário e o rural. As duas últimas, perdendo unidades territoriais, cresceram (ainda que em menor dimensão) em população nas unidades que permaneceram, sendo esta tendência mais notória no precário. No rural as perdas são maiores, com um decréscimo de 30% da população no saldo total. A tendência de expansão metropolitana também se demonstra na forma como o urbano consolidado ganhou população através do acréscimo de unidades territoriais embora nas unidades que manteve tenha perdido população. Já o (sub)urbano qualificado foi o tipo que mais cresceu não só por expansão territorial mas também por ganhos na população das unidades constantes, enquanto o suburbano novo cresceu por densificação. Relativamente a este tipo, o INE (2004:179) sublinha dois tipos de processos: “a qualificação de unidades territoriais suburbanas e a suburbanização qualificada de espaços que não eram suburbanos”. Já a consolidação urbana faz-se sobretudo através da reclassificação de espaços anteriormente inscritos no (sub)urbano desqualificado.

Este tipo de evolução tem repercussões qualitativas no que define os tipos. O urbano consolidado perde na volumetria e idade dos edifícios e em diversificação funcional e aumenta a dependência funcional (população que trabalha/estuda fora do concelho de residência). O aumento do (sub)urbano qualificado traduz-se numa qualificação material (melhoria nas condições de habitabilidade e aumento do uso do automóvel), mas implicou um decréscimo na habilitação académica da população que aqui reside (contrário à tendência na AML de aumento da escolaridade da população). O suburbano novo já não demonstra construção tão recente como em 1991 e reflete a suburbanização do emprego, com menos pessoas a trabalharem fora do concelho de residência e diversificação funcional. Por outro lado, aumenta o peso das profissões menos valorizadas e a presença de população de nacionalidade estrangeira e ainda de casais casados sem registo, sobretudo jovens, completando a heterogeneidade deste tipo. O (sub)urbano desqualificado, apesar de perder população, mantém as condições difíceis desde 1991, indiciando em 2001 um envelhecimento da população, tal como no rural, paralelamente ao aumento das famílias unipessoais e da utilização do automóvel. A persistência de bolsas de precário faz-se agora com mais habitação social (diminuição de alojamentos não clássicos e aumento da volumetria dos edifícios), alguma diversificação funcional e com o aumento do número de estrangeiros e de casados sem registo. Estes são sinais também de alguma consolidação da precarização.

Retiramos das observações do estudo do INE que a mobilidade emerge como uma dimensão autónoma que explica a diversidade da AML e que esta dimensão cresce de importância de 1991 para 2001. Por outro lado, a diferenciação socioeconómica da AML constrói-se associando num mesmo sentido condições de mobilidade a condições de vida.

65 As dimensões combinam-se de tal forma que mobilidade, qualificação e urbanização, ou até renovação, favorecem ou penalizam particularmente determinados territórios.

As condições de mobilidade fazem parte integrante dessa condição socioeconómica ou reforçam-na, constituindo uma condição igualmente social e territorial. Se no (sub)urbano qualificado ou no precário esta correspondência entre estatuto socioprofissional e recursos de mobilidade parece ser quase imediata (mais recursos, mais mobilidade), ao que acresce serem tipos que se localizam tanto no centro como na periferia, não podemos deixar de reparar na aparente imobilidade como condição privilegiada da população empregada e residente no urbano consolidado. Pelo contrário, os residentes no precário da periferia da AML, periféricos em relação à rede de transportes públicos, estarão potencialmente mais penalizados não só pelos seus escassos recursos socio-económicos e condições frágeis de habitabilidade como pela marginalização ou desintegração territorial que experimentam no contexto da AML.

De modo a identificar das mais recentes mudanças, ensaiámos uma tipologia idêntica à do INE com dados de 2001 e 2011, agora ao nível da freguesia, de forma a cruzar posteriormente com as análises mais específicas sobre as variáveis de mobilidade e a elaborar comparações entre os dois períodos. Seguidamente, apresentamos os principais resultados que, de uma forma geral, alinham com as conclusões do estudo do INE.