6. Estudos Experimentais com o Modelo Integrado

6.1 Estudos Precursores

Mesmo antes do fechamento de uma proposta de tese, alguns estudos investigativos já haviam sido realizados. Tais estudos se prestaram mais à exploração e desenvolvimento da técnica, do que à validação formal de hipóteses. Eles tiveram um papel importante na “prova de conceitos” e na compreensão, triagem e amadurecimento das idéias. Os primeiros estudos foram individuais ou executados por alunos (seção 6.1.1). Posteriormente, empreendeu-se um estudo que, diferentemente dos demais, foi um estudo de caso real (seção 6.1.2). Por último, um estudo com profissionais serviu como investigação preliminar sobre a uniformidade de MDs (seção 6.1.3). Na época desses estudos, a MIC se encontrava em uma versão preliminar, na qual os critérios para o particionamento do sistema em ICs não haviam sido ainda totalmente explicitados (embora, eles fossem aplicados intuitivamente). Igualmente, os termos info case (IC) e modelagem com ICs (MIC) ainda não existiam; no seu lugar eram utilizados os termos objetivo informacional e Modelagem Informacional de Requisitos (MIR). Isso explica a utilização desses últimos nas três próximas seções.

6.1.1 Experimentação Didática e Individual

Em suas primeiras versões, a MIR foi utilizada por alunos de graduação em Administração de Empresas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Os alunos eram introduzidos à técnica e desenvolviam o modelo informacional de uma aplicação. Em seguida, derivavam e implementavam (em MS Access) o modelo E/R associado, e construíam consultas SQL que eram executadas para concretizar algumas das saídas especificadas no modelo informacional.

Também desde as primeiras versões, a MIR foi aplicada em vários estudos individuais52 para a modelagem de sistemas de pequeno porte em vários domínios, tais como gerência de bar, restaurante, vídeo-locadora, biblioteca, hotel, agendamento de ações e acompanhamento de projetos, agendamento de reuniões (LAMSWEERDE, 1992), medicina e segurança do trabalho, dentre outros. Alguns dos modelos produzidos foram implementados em sistemas que, durante certo tempo, eram utilizados rotineiramente.

6.1.2 Estudo Precursor 1 (EC-1): SIMEL

Para explorar o comportamento da MIR em um sistema real e de maior porte, foi empreendido o estudo de observação relatado nesta seção.

Esse estudo de caso envolveu uma equipe com 1 engenheiro de requisitos, 4 analistas-programadores e 4 especialistas de domínio, no desenvolvimento de um sistema web multiusuário53, para apoiar as atividades de uma empresa de medicina e engenharia de segurança do trabalho. O sistema SIMEL (SIstema de MEdicina e Engenharia EmpresariaL) foi desenvolvido pelos analistas em PHP e MySQL, diretamente a partir do modelo informacional elaborado pelo engenheiro com o apoio e validação dos especialistas, constituído de 30 objetivos informacionais, totalizando 40 páginas de especificações. O desenvolvimento demandou 4 meses de trabalho. Consultas informais aos desenvolvedores, especialistas e stakeholders, realizadas durante o estudo e após o seu término, evidenciaram uma impressão positiva dos mesmos sobre a MIR e o sistema desenvolvido.

Alguns aspectos que valorizam os resultados obtidos são:

a) Nenhum dos analistas tinha conhecimento e experiência anteriores na MIR e no

52 Realizados pelo autor desta tese.

domínio da aplicação;

b) Os analistas trabalharam os 3 primeiros meses praticamente sem contato presencial com o engenheiro de requisitos, sendo a comunicação realizada por escrito via um software do tipo instant messenger;

c) As especificações foram elaboradas em paralelo com o desenvolvimento do sistema, cada objetivo informacional sendo liberado assim que a sua definição ficava pronta;

d) Toda a divisão de trabalho entre os analistas foi feita por objetivo informacional; e) O esquema conceitual e o projeto do BD do sistema foram elaborados de forma

incremental (por objetivo informacional) pelos analistas, sem a participação do engenheiro.

O estudo de caso SIMEL antecede a definição das regras de derivação do MD (seção 5.4.2) e, portanto, o MD do SIMEL foi obtido de forma ad hoc a partir da sua especificação informacional. Mesmo assim, o esquema conceitual do BD, elaborado pelos analistas, atendeu as expectativas do engenheiro. O Apêndice 2 apresenta o MD do SIMEL, com o intuito de dar uma idéia do porte do sistema construído.

6.1.3 Estudo Precursor 2 (EC-2): 1º Estudo da Uniformidade dos MDs

Outro estudo foi realizado com a finalidade de avaliar, preliminarmente, a compreensibilidade e usabilidade das regras de derivação e respectivos padrões sintáticos (seção 5.4.2), bem como ter uma primeira avaliação do grau de uniformidade dos MDs resultantes da sua aplicação. Participaram do estudo, em momentos diferentes, dois profissionais graduados em Ciência da Computação, analistas de sistemas de uma empresa de medicina e segurança do trabalho, ambos com 2 anos de experiência no desenvolvimento de sistemas e 1 ano na leitura dos objetivos informacionais de um sistema em fase de manutenção. Primeiramente, um dos analistas aplicou as regras utilizando a especificação informacional de um sistema de biblioteca com 19 objetivos informacionais, fornecida pelo experimentador54. O modelo de classes obtido foi comparado com o modelo de classes construído previamente pelo experimentador, pela aplicação das mesmas regras. As diferenças detectadas revelaram dificuldades do analista na compreensão de algumas regras, o que motivou a revisão do manual de regras. Posteriormente, e com o manual revisado, o outro analista executou o mesmo

estudo. Para avaliar a uniformidade dos resultados, foram contadas as diferenças entre o modelo obtido por cada analista e o modelo construído pelo experimentador. Consideramos diferença, para fins dessa avaliação, os elementos (classes, atributos, associações e operações) a mais ou faltando em relação ao modelo produzido pelo experimentador. A Tabela 6.1 apresenta os resultados dessa avaliação.

Tabela 6.1 – Resultados do Estudo Precursor 2

Analista 1 Analista 2 Legenda

Elementos #E #D %S #D %S

Classes 5 0 100 0 100

Associações 11 1 91 0 100

Atributos 20 4 80 0 100

Operações 41 4 90 1 97

#E: Nr. de elementos no modelo do

experimentador.

#D: Nr. de diferenças.

%S: Perc. de sucesso em reproduzir o

modelo do experimentador.

6.1.4 Considerações sobre os Estudos Precursores

A experiência didática com a MIC mostrou que a técnica pode ser ensinada sem maiores dificuldades, e que mesmo profissionais fora da área da computação são capazes de ler e elaborar modelos simples utilizando a técnica. O Estudo 1 (SIMEL) funcionou como uma “prova de conceito”, mostrando que a técnica pode ser utilizada para sistemas de porte médio a grande. O Estudo 2 (uniformidade dos MDs) revelou o potencial da MIC para resolver o problema das diferenças entre MDs produzidos por diferentes modeladores para um mesmo sistema.

Esses resultados favoráveis incentivaram o prosseguimento da pesquisa e a realização de novos estudos experimentais, agora mais formais e objetivando o teste das hipóteses construídas ao longo do trabalho de tese.

6.2 Estudo 1 (EXP-1): ICs - Granularidade e Cobertura Funcional

No documento Publicações do PESC Info Cases: Um Modelo Integrado de Requisitos com Casos de Uso (páginas 127-130)