4.2 A obra: rastros e relato
4.2.1 Estudos preliminares
Para Azevedo (2017, informação verbal, Apêndice C), provavelmente a primeira vez que ponderou-se sobre o MF ter um espaço dedicado às torcidas foi em um workshop realizado no ano de 2005. O evento contou com a participação de nomes do esporte e pessoas que trabalham diretamente com futebol, de onde surgiram muitas ideias sobre os temas a serem
contemplados pela instituição, inclusive a de que o museu deveria prestar uma homenagem aos torcedores. Com esse pontapé inicial e a partir das plantas de requalificação mais definitivas, onde era possível vislumbrar o formato que o museu assumiria, começam os trabalhos de criação cenográfica e expográfica com a cenógrafa Daniela Thomas e o arquiteto Felipe Tassara, sob supervisão do curador Leonel Kaz.
Existem três estudos preliminares do circuito expográfico do MF: o primeiro, de 30 de março de 2006; outro, de 22 de agosto de 2006; e o último, de dezembro de 2006. O primeiro foi produzido para apresentação ao prefeito de São Paulo do período, José Serra. Esses documentos tinham a função de guia para criação das exposições: suas temáticas, localização, textos e planejamento visual. Nessa primeira versão do estudo, a proposta do trabalho é a seguinte:
Estamos pensando a museografia do Museu do Futebol à partir (sic) de dois conceitos principais: o percurso experiencial e a linguagem vernacular urbana. Nesse museu experiencial, o trajeto do visitante deve proporcionar a ele a vivência de uma série de experiências que o mobilizem psíquica e fisicamente. Os estímulos vão desde o dimensionamento e a configuração das salas, a preocupação com o ritmo do trajeto, alternando intensidades de experiências, o uso extensivo de imagens em movimento, sempre acompanhadas de dramaturgia (a narração que as torna emocionais), o reforço da comunicação dos conteúdos no design dos suportes museográficos, o fascínio do uso de tecnologias inovadoras, até a interatividade e a busca de identificação entre visitante e visitado [...] a linguagem vernacular urbana é o partido que escolhemos para o design das estruturas dos suportes expositivos. Em conversas com o arquiteto Mauro Munhos (sic) concordamos que a museografia seria 'despregada' da
estrutura do prédio, cujo charme reside em exibir-se tal como é: o outro lado, o
'negativo' da imensa arquibancada em curva do estádio do Pacaembu. As paredes e o teto do museu serão a própria estrutura da arquibancada, livre das camadas de massa e tinta que a cobrem há tantos anos (MUSEU DO FUTEBOL, 2006a, p. 2, grifo nosso).
Essas ideias para a formação dos espaços se mantêm até a abertura do museu. Entretanto, algumas salas foram substituídas ou trocaram de lugar. Nesse estudo, ainda não existia uma divisão por eixos temáticos (emoção, história e diversão, como observamos no tópico 3.2) e a Sala da Exaltação estaria posicionada em outro local, como exposição de abertura do primeiro andar do museu. O espaço seria feito com uma estrutura de ferro, onde estariam dispostas oito telas que exibiriam um vídeo de cinco minutos com imagens do futebol do ano de 2006. Chegamos a essa informação a partir do texto de apresentação da sala, ao afirmar que a captação de imagens seria em ano de copa do mundo e anterior ao de abertura do museu (que até então estava previsto para 2007):
Exaltar é tornar alto, sublime, erguer, elevar, celebrar. Celebrar é comemorar, acolher com festejos. Esta é a sala de acolhimento de nosso torcedor-visitante, onde estaremos celebrando o ano que passou. Um roteiro, dramatizado, dos principais lances e
momentos vividos no ano anterior (a Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro, os campeonatos estaduais) farão recriar não os melhores momentos de lances, mas os mais apaixonantes momentos. Entramos pela lembrança e pelo imaginário do vivido há pouco para recuperar, por meio de imagens em fusão, o espetáculo do futebol, a música que o acompanha, a batida da percussão, a força da narrativa falada (MUSEU DO FUTEBOL, 2006a, p. 11, grifo nosso).
O quadro 3 ilustra o circuito expositivo do estudo preliminar de março de 2006:
Quadro 3 - Circuito do Museu do Futebol – Estudo Preliminar - Março 2006 Destaque para a Sala da Exaltação
Fonte: Museu do Futebol, 2006a
Segundo Mauro Munhoz (2017), a ideia da Sala da Exaltação ocupar a posição de abertura do primeiro andar do museu foi do Secretário Geral da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto. Ele queria reproduzir as sensações de se chegar atrasado num jogo de futebol no Maracanã, onde o visitante subiria das bilheterias por um elevador até as arquibancadas. Quando as portas do elevador abrissem, a pessoa já se encontrava no meio da torcida. Alocando a Exaltação nesse ponto, os visitantes subiriam a escada rolante e ao chegarem no primeiro pavimento, já estariam no calor da multidão, reproduzindo a experiência do Maracanã.
Figura 10 – Exaltação – Perspectiva espacial e localização – Março 2006
Fonte: Felipe Tassara e intervenções da autora
Figura 11 – Projeção espacial – Março 2006
Fonte: Museu do Futebol, 2006a
Através das imagens é possível notar que o espaço era irrelevante. A partir da reflexão anterior sobre a distinção entre uma obra de arte e exposição (tópico 2.1), podemos afirmar que a Exaltação nessa versão seria classificada enquanto exposição, já que as posições das telas poderiam ser facilmente alteradas, bem como o formato ou o posicionamento da sala. Existiria a relação de vários intermediários. Enquanto isso, para a constituição de uma obra de arte, é possível notar a associação entre diversos mediadores.
A revelação das câmaras acontece entre o primeiro e o segundo estudo expográfico, (em junho de 2006), do qual trataremos no próximo tópico. Mas, vale destacar, que mesmo com a descoberta desses espaços, eles não são considerados nos estudos do circuito expositivo do ano de 2006, como se pode observar no prosseguimento deste relato.
O segundo estudo expográfico é de 22 agosto de 2006 e foi cedido por Felipe Tassara após a nossa entrevista. Nesse estudo, a Exaltação permanece como sala de abertura do primeiro andar do museu. Mas, em comparação com o projeto anterior, existe uma alteração no formato da sala: as projeções das torcidas seriam feitas sobre o pedaço de arquibancada observável nesse ponto do MF.
Essa modificação aconteceu pois, segundo Tassara (2017), o projeto arquitetônico aumentou o pé direito do hall de entrada para dois pavimentos (térreo e primeiro andar), fazendo com que o circuito expositivo fosse “empurrado”, dando espaço ao novo vão. A alteração arquitetônica faria com que a Exaltação utilizasse a estrutura da arquibancada como parte da concepção da sala, criando uma videoinstalação, uma obra, que mesclaria o ambiente e as projeções, não podendo ser transposta para qualquer outro lugar, como no caso do estudo de março de 2006. Contudo, esse formato ainda possui uma diferença chave da versão atual: poderia ser idealizada sob a base de qualquer arquibancada ou qualquer outro ponto do museu que deixasse a estrutura arquitetônica à mostra (que são muitos, já que o MF foi construído no interior da fachada).
Figura 12 - Exaltação – Perspectiva espacial e localização – Agosto 2006
Figura 13 - Projeção espacial – Agosto 2006
Fonte: Felipe Tassara, 2006
Nessa versão, a SE possuiria som ambiente com altura elevada. A figura 12 ilustra a construção de paredes do chão até o teto da obra para isolamento acústico. Além disso, o acesso à sala seria realizado através de portas giratórias, que também contribuiriam para a proteção sonora, como acontece atualmente.
Os estudos de agosto de 2006 e de dezembro de 2006 apresentam projeções espaciais idênticas da Sala da Exaltação. Não consta em nenhum desses estudos o período de captação das imagens para a obra, pois a equipe do museu já contava com atrasos para a montagem e, consequentemente, para a abertura da instituição. Nesses anteprojetos, a inauguração estava prevista para o início de 2008. Entretanto, o museu inicia suas atividades com o público em 29 de setembro de 2008.
Considerando as alterações no formato da Exaltação e nos possíveis atrasos no cronograma de montagem e inauguração do MF, a versão de dezembro de 2006 traz modificações no texto de apresentação do espaço, que havia sido produzido no estudo preliminar de março de 2006:
Exaltar é tornar alto, sublime, erguer, elevar, celebrar. Esta é a sala de acolhimento de nosso torcedor-jogador. Um primeiro momento da visita ao museu, procurando congregar e unir, numa experiência coletiva, os sentimentos do torcedor, fazendo desatar e fluir sua paixão. O objetivo é suscitar nele a consciência de que o Museu do Futebol é o 'meu museu'. Para tal, o visitante será cercado por imagens - projetadas do chão ao teto, contra o próprio fundo da arquibancada - e por sons - hinos, gritos, canções, que pretendem suscitar no espectador a forte emoção que precede o começo de uma partida (MUSEU DO FUTEBOL, 2006d, p. 8).
No estudo de dezembro, os pontos que diferem do atual são: a posição e formato da Sala da Exaltação, Pé na bola e Homenagem ao Pacaembu; a atual Grande Área era intitulada Salão dos Torcedores; a existência da Sala das Ciências, que foi excluída do projeto final; e a ausência da Sala Jogo de Corpo, incluída nos estudos finais. No que diz respeito a aspectos similares,
além da posição e formato das outras salas, já é possível observar a categorização do circuito por eixos temáticos, como exploramos no tópico 3.2:
Quadro 4 - Circuito do Museu do Futebol – Estudo Preliminar – Dezembro 2006
Tema Localização Sala
Emoção Térreo Salão dos Torcedores
Emoção Escada rolante de acesso ao primeiro andar Pé na Bola
Emoção Primeiro andar Sala da Exaltação
Emoção Primeiro andar Sala dos Anjos Barrocos
Emoção Primeiro andar Sala dos Gols
Emoção Primeiro andar Sala dos Rádios
História Segundo andar Sala das Origens
História Segundo andar Sala dos Heróis
História Segundo andar Rito de Passagem: a Copa de 1950 História Segundo andar Sala das Copas do Mundo
História Segundo andar Experiência Pelé e Garrincha Passarela de Vidro
Diversão Segundo andar Números e Curiosidades Diversão Segundo andar Visita à Arquibancada Diversão Segundo andar Salão da Dança do Futebol Diversão Primeiro andar Sala das Ciências
- Térreo Homenagem ao Pacaembu
Fonte: Museu do Futebol, 2006d
Tais divisões permaneceram até a inauguração do museu. Entretanto, a distribuição dos espaços se altera com a inclusão de um mediador nessa associação: as câmaras. Esses espaços geraram controvérsias na criação do MF, uma vez que foram responsáveis pela alteração do circuito expositivo e pela modificação do local de acesso do primeiro para o segundo andar do museu. A associação das câmaras com os outros actantes agenciou a transformação do que seria uma exposição ou pequena obra sobre torcidas, para uma obra monumental em homenagem aos torcedores.