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3 FORTUNA CRÍTICA DE MILTON HATOUM

3.1 ESTUDOS QUE VERSAM SOBRE PATERNIDADE E RELAÇÕES

A fortuna crítica com relação às obras de Milton Hatoum é extensa e variada.

Um número expressivo de estudos está circunscrito aos temas da memória, do orientalismo e das relações com a história recente do Brasil. Uma parte desses estudos e artigos estão listados nas referências bibliográficas, para posterior aprofundamento daqueles que se interessarem.

Contudo, como o escopo desta tese é a paternidade, o recorte do material que apresentaremos a seguir privilegia estudos que tratam da questão paterna, ampliando o foco para aqueles que falam das relações familiares na obra de Hatoum.

Apresentaremos também algumas entrevistas do autor, pois as consideramos uma boa oportunidade de conhecermos suas ideias acerca da literatura, da obra dos clássicos e de suas influências, além de informações sobre seu próprio caminho literário. Por ser um autor em evidência, seu nome tem aparecido em diversos trabalhos apresentados desde em congressos internacionais, até em congressos mais regionais, e por estudiosos de todo o Brasil.

Nossa intenção ao apresentar alguns estudos é ressaltar o que cada um aporta à reflexão sobre paternidade e conflitos familiares na obra de Milton Hatoum, e como esse aporte marcou a pesquisa que ora desenvolvemos.

3.1 ESTUDOS QUE VERSAM SOBRE PATERNIDADE E RELAÇÕES FAMILIARES

A seguir compilamos alguns estudos que se centraram na discussão de relações familiares, tema onipresente nos romances de Hatoum e em alguns de seus contos, e daquela referente à paternidade, objetivando apresentar as ideias já discutidas por diferentes estudiosos, dialogando com o que desenvolvemos na tese.

O artigo de Gloria Carneiro do Amaral, Dois trajetos para o porto, publicado na coletânea organizada por Pereira (2009), é um dos poucos textos sobre a obra de Milton Hatoum em que a paternidade é um dos temas abordados, porém sem que haja um aprofundamento da questão, pois à discussão deste tema, Glória Amaral adiciona aquela sobre o papel dos narradores e dos odores nas duas narrativas que ela analisa, Dois irmãos e Cinzas do Norte. A autora afirma que Cinzas do Norte é construído em torno do tema da paternidade questionada, que ela diz possuir um “sabor folhetinesco”. Aponta igualmente a profusão das figuras paternas no romance: “um pai

oficial; um pai oficioso, que se pode supor verdadeiro, e um pai biológico, cuja identidade só se revela na página final” (AMARAL, 2009, p. 15).

Na sequência, a autora vai atribuir a Ranulfo a paternidade mais “aguerrida”

de Mundo, pois desde o nascimento do menino, é Ranulfo quem sempre está por perto e com quem Mundo realmente conta. E essa suposta paternidade é alimentada inclusive pelo narrador, Lavo, que também nutria dúvidas sobre esse aspecto.

A autora aponta, inclusive, a aproximação entre os temperamentos de Ranulfo e Mundo, no referente à “revolta e insurreição contra qualquer ordem estabelecida”

(AMARAL, 2009, p. 17).

O pai biológico, Alduíno Arana, é citado como figura controvertida, para todos os personagens que convivem com ele. Essa paternidade biológica de Mundo, revelada apenas nas últimas páginas do romance, não foi indiciada em nenhum momento anterior, o que causa uma surpresa ainda maior, tanto ao leitor quanto a Lavo, um dos narradores, uma vez que aparentemente Ranulfo (o segundo narrador do romance) e Jano morrem sem saber que Arana era o pai biológico de Mundo.

Glória Amaral amplia a questão da paternidade questionada para Alícia e a irmã Algisa, que também não tinham certeza de quem era seu pai.

Ela aproxima Cinzas do Norte de Dois irmãos no referente à temática da paternidade, à ambientação em Manaus, à abertura por prólogos em que se revelam as motivações dos dois narradores, e à oposição entre a ordem instituída e o laisser aller existencial (Yaqub e Ramira X Omar e Ranulfo). Cita, inclusive, uma fala do próprio Milton Hatoum, quando este afirma que “Na literatura é importante estabelecer vínculos de afinidade e oposição” (AMARAL, 2009, p. 23).

A autora inova ao olhar a questão da paternidade nos romances citados, porém acaba misturando-a a aspectos que estariam mais relacionados à cor local amazonense e, possivelmente em função do escopo do artigo, não aprofunda nem a questão da paternidade nem a da valorização do local frente ao universal.

Para o trabalho desta tese o artigo foi importante na medida em que explorou a força que a paternidade desempenha sobretudo em Cinzas do Norte, com a coexistência de três pais que assumem um papel determinante em diversos encaminhamentos na trama, e mantêm com o protagonista Mundo relações diferentes, mas de grande intensidade.

Inclusive, a análise que desenvolveremos será baseada tanto na fala dos narradores, quanto nos diálogos e monólogos dos personagens que desempenham

os papéis de pais e filhos, caminho que nos possibilitou observar a complexidade do caráter destes personagens e a relação diversificada que cada um mantém com Mundo e com os demais personagens.

Gabriel Albuquerque, no artigo Um autor, várias vozes: identidade, alteridade e poder na narrativa de Milton Hatoum (2006), afirma que nos três romances lançados por Hatoum até 2006 (Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte), mudam os personagens mas permanecem dois aspectos: “a obsedante atenção aos grupos familiares que vão se arruinando em meio ao projeto político-militar para a Amazônia brasileira” (ALBUQUERQUE, 2006, p. 125) e o poder do pater familias que, em Cinzas do Norte, assume uma dimensão mais ampla na figura dos militares com os quais Jano colabora. Ressalta que o conceito mesmo de patrimonialismo está presente nos três romances, repetindo-se um microcosmo brasileiro no qual aos homens cabem os negócios da família e às mulheres a ordem doméstica e familiar.

Fala, ainda, da bastardia que marcaria os narradores de Relato de um certo Oriente e Dois irmãos e o protagonista Mundo, de Cinzas do Norte, este reconhecido legalmente, mas apartado pela genética e pelo amor paterno, que lhe falta. Mesmo com três personagens desempenhando papéis paternos, o que prevalece no romance é uma dificuldade de relacionamento perpétua com Jano, seu pai oficial na narrativa, e uma falha de afeto com Ranulfo e principalmente com Arana. De Ranulfo, Mundo diz a Lavo nunca tê-lo considerado como um possível pai; de Arana, mesmo após saber que ele era seu pai biológico, o protagonista Mundo não nutre nenhum afeto, ao contrário, afirma que só sente desprezo por ele.

O que nos chamou atenção é a relação que o autor cria entre a história recente do país e a figura paterna, ressaltando que o abuso do poder por parte do pai, ou sua atitude como patriarca clássico, reproduziria a atitude despótica dos militares no poder. Essa aproximação será desenvolvida na análise que faremos, sobretudo no referente a Cinzas do Norte, romance em que a história brasileira aparece de forma mais clara no pano de fundo da narrativa.

Nádia Barbosa da Silva (2008), em seu artigo Memória e identidade: uma leitura do romance Dois irmãos de Milton Hatoum, ressalta a discussão da paternidade no romance e afirma que o narrador de Dois irmãos escreve para buscar a identidade de seu pai, um dos homens da casa, e, “num jogo de inventar memória”, tenta reconstruir seu passado via histórias dos outros.

Segundo a autora, Milton Hatoum utiliza como motivo de sua narrativa o drama familiar, a casa que se desfaz. O autor lança mão de um narrador que, depois de trinta anos, quando todos já estão mortos, resolve contar uma história que também é a sua. Ele inicia a narrativa para descobrir, entre os homens dessa família, aquele que é seu pai. Esse narrador observador, testemunha privilegiada, tenta reconstruir sua própria identidade em meio aos estilhaços das histórias dos outros, que ouviu e guardou, ou dos fatos que presenciou, do seu quartinho afastado no fundo do jardim.

Ampliando a análise, Nádia Barbosa afirma que o fluir do tempo é construído pelos narradores, que lembram o que sabem ou supõem saber e imaginam o que não sabem. Os romances de Hatoum são histórias em pedaços, que exigem um trabalho cuidadoso com os narradores e remetem tão longe quanto às Mil e uma noites. Este componente da tradição literária é o que sustenta o tema central, dramas humanos.

A autora afirma que a narrativa se sustenta em dois eixos: o anúncio e o segredo, e prende a atenção do leitor por meio de indícios aqui e ali disseminados pelo narrador, cuja identidade, a princípio, não se conhece; aos poucos, novas chaves vão sendo introduzidas que adiam o desenlace. Neste raciocínio, os narradores, que detêm o poder do segredo e do anúncio, funcionam como verdadeiros oráculos, que decifram os indícios ao seu redor. Estes, recuperados pela memória ou reconstruídos na imaginação, orientam os caminhos da leitura, sendo responsáveis por toda a fabulação romanesca.

Ao contrário do que ocorre com boa parte das narrativas contemporâneas, em que personagens, estrategicamente não verticalizados, vagam na história, surgem e desaparecem, alteram suas identidades e movimentam-se na narrativa, em Dois irmãos o que se vê são personagens bem-estruturados, com perfis densos e profundos, que se permitem viver dramas intensos. São personagens altamente verossímeis, com pés fincados em solo amazônico, cujos traços, articulados à própria história da região, ainda não se apagaram na memória dos narradores.

Manaus é apresentada como locus de confluência de culturas e seres diferentes, cidade que acolhe a todos, e reserva espaços para que esses imigrantes e migrantes do próprio Brasil, principalmente do interior do Amazonas, consigam manter sua identidade e incorporar o que a cidade pode lhes oferecer, em termos linguísticos, culinários, étnicos.

Seu estudo, contudo, centra-se na questão da paternidade de Nael, não explorando mais a fundo o relacionamento de Halim e os filhos, principalmente com os gêmeos, que desenvolveremos na nossa pesquisa.

Em Órfãos do Eldorado: mito, história e orfandade, Helena Friedrich (2009) afirma que, nos tempos atuais, hipermodernos, vivemos uma individualização exacerbada, que se transforma em narcisismo. É a chamada “Era do vazio”. Mesmo assim, aponta que ainda há lugar para uma literatura que fale de mito, como Órfãos do Eldorado. Lendas e mitos, nessa obra, mesclam-se aos pensamentos, às sensações e sentimentos dos personagens, revelando o que elas sentem, explicando seus sentimentos e ações, revelando seu modo de ser. O mito constitui um modo de ver e de sentir a realidade, de conferir significado a dimensões da realidade que, talvez, seriam inatingíveis racionalmente.

Ao lado disso, a obra tematiza um conflito entre pai e filho. Amando Cordovil, à semelhança de Jano, de Cinzas do Norte, é o pai que não soube amar o filho. O narrador cita que sua lembrança mais doída era do desprezo e do silêncio que o pai nutria com relação a ele. Ao lado disso, há a metáfora da orfandade como outro poderoso significante da novela, presente já no título. Metáfora espalhada por toda a obra, caracterizando não apenas os personagens, mas o espaço onde eles se movem.

Orfandade como abandono, carência, tanto do protagonista como da própria cidade.

Embora centrando a análise em Órfãos do Eldorado, o texto de Helena Friedrich levanta questões que já existiam em Cinzas do Norte, da dificuldade (quase impossibilidade) do amor entre pai e filho, bem como do desprezo e silêncio do pai com relação ao filho, que aprofundaremos na análise do romance, ao mostrar que existia mais diálogo entre Jano e o narrador Lavo, do que entre ele e seu filho. Mesmo com três personagens desempenhando o papel de pai, há no romance uma enorme dificuldade de expressão do amor paterno, e Mundo morre sem conseguir sentir-se filho de nenhum dos três homens que figuram exercícios diferentes da paternidade na narrativa.

Heitor Ferraz Mello (2005) afirma, no artigo Romance é mais seco e mantém jogo de duplos, que, no universo ficcional de Milton Hatoum, Manaus sempre surge como uma espécie de personagem, uma cidade entre a província e a turbulência da metrópole, um canto do mapa do país onde a vida parece sair dos modos mais arcaicos de produção para um capitalismo ruidoso e destruidor, pois é sempre precário. Não só Manaus mostra suas caras, momentos históricos e precariedades:

seus personagens de "carne e osso" parecem sofrer de um desenraizamento e todo o passado de cada um deles é algo sempre nebuloso, com segredos.

Ferraz diz que, em cada romance, Hatoum “torce a cravelha” das situações morais familiares, busca levá-las ao limite, com seus personagens desnorteados, sobrevivendo entre as ruínas do passado e as ruínas (ou cinzas) do presente.

Em Cinzas do Norte Hatoum abre mão dos personagens de origem árabe ou libanesa, e também quase não há estrangeiros. Essa mudança já se faz sentir no próprio estilo do autor, que deixa de lado as descrições voluptuosas de comidas, cheiros, ambientes carregados de figuras religiosas.

Fala que, nos romances de Hatoum, há sempre um segredo que vai sendo desvendado pouco a pouco: é o segredo da origem. O mais interessante é que essa própria origem, quando descoberta, passa a ser apenas uma informação esbatida. É como se essa busca caísse sempre no vazio. Ela já não é mais suficiente para mudar o destino dos personagens. Reatar esse nexo com o passado - e essa é a grande dor - não garante mais nada. Tudo vira cinza, apenas cinza.

Ao falar da questão da origem como marca dos romances de Milton Hatoum, Heitor Ferraz aponta para a questão da paternidade e da absoluta insignificância que a revelação da origem acaba tendo ao final das narrativas. Isso se deve, a nosso ver, ao fato de o destino dos personagens não poder ser alterado, como afirma Ferraz, mas também porque o anúncio da identidade do pai não muda em nada a falta de relacionamento paterno entre os personagens e seus pais, tanto nos romances analisados nesta tese, quanto em Órfãos do Eldorado. Isto é, o que poderia salvá-los teria sido outra vida, que não pode ser recriada.

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