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2. REVISÃO DA LITERATURA

2.5 ESTUDOS REALIZADOS

Referente ao capítulo do saneamento básico, o objetivo maior é apresentar as características do saneamento no Brasil e, especificamente, tecer considerações a respeito das características regionais, a saber: o consumo médio, tarifas e despesas por região, e quantidade de pessoal empregado no setor.

No estudo sobre a evolução da cobertura dos serviços de saneamento básico no Brasil a partir da década de 1970 até 2004, Saiani, Toneto Junior e Dourado (2013) consideram as seguintes variáveis regionais, municipais e domiciliares: (i) região geográfica; (ii) porte do município (tamanho da população); (iii) taxa de urbanização do município; (iv) localização do domicílio (rural ou urbano); e (v) renda domiciliar mensal. Essa análise permitiu avaliar: (i) se as características do déficit de acesso domiciliar eram recentes ou já existiam em 1970; e (ii) se estava ocorrendo uma convergência dos índices de acesso domiciliar. Além disso, os autores averiguaram qual tipo de política pública

adotada para o setor gerou investimentos capazes de atingir as localidades mais necessitadas.

As análises realizadas por Saiani, Toneto Junior e Dourado (2013) apontam a existência de um sério déficit de acesso aos serviços de saneamento básico no Brasil, déficit que se distribui de maneira desigual pelo país. Considerando algumas características regionais, municipais e domiciliares, os autores observaram que, em algum tipo de serviço e em determinado momento, a distribuição desigual do acesso se agravou, mas, no período como um todo (1970 a 2004), ocorreu uma pequena convergência dos indicadores, principalmente na década de 1990.

Sousa e Costa (2011) estudaram a ação coletiva e veto em política pública, no caso do saneamento no Brasil no período de 1998 a 2002, procurando identificar os atores, as agendas e os interesses presentes nessa coalizão setorial. Segundo os autores, em 1999, em busca de recursos para debelar ou minimizar a crise fiscal, o governo federal comprometeu-se junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) com a privatização do setor de saneamento básico e outros serviços públicos. Na ocasião, o governo propôs o Projeto de Lei nº 4.147/01 como o marco regulatório que daria a segurança necessária aos investidores interessados na concessão das empresas públicas estaduais de saneamento. Contra essa iniciativa, houve uma coalizão de interesse setorial, que se mobilizou para vetar a proposta de privatização: a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA). O estudo demonstra que esse movimento atuou decisivamente como instância de veto, limitando os efeitos do acordo firmado com o FMI sobre a política de saneamento do Brasil no período analisado.

Scriptore e Toneto Junior (2012) compararam o desempenho dos provedores públicos e privados de serviços de saneamento básico no Brasil. Utilizaram os dados do SNIS de 2010 a partir de uma estimativa em cross-section para uma amostra de 4.930 municípios brasileiros. Os resultados não forneceram evidências fortes de que determinado grupo seja superior a outro na maior parte dos indicadores. Dado que os grupos revelaram superioridade em indicadores específicos, eles propuseram o desenho de uma política que considerasse diversas modalidades de gestão e provisão como possível solução para o desafio de universalizar os serviços no país.

Ainda com relação à atuação de empresas públicas ou estatais, Sousa e Costa (2013) demonstram que a posição de dominância das empresas estaduais de saneamento condiciona o processo decisório da política pública setorial no Brasil. No estudo, os autores descreveram o processo de aprovação da Lei do Saneamento Básico nº 11.445/2007, a qual estabeleceu o atual regime regulatório da indústria. Concluíram que o novo arranjo institucional, a partir da Lei, preservou a hegemonia das empresas estaduais de saneamento, e essa hegemonia poderia ser associada à baixa responsabilização das decisões de investimento e ampliação de cobertura do setor.

Teixeira et al. (2014) desenvolveram um estudo do impacto das deficiências do saneamento básico sobre a saúde pública, no Brasil, no período de 2001 a 2009. Nessa pesquisa, os autores verificaram que os óbitos resultantes de doenças relacionadas ao saneamento básico inadequado corresponderam, em média, a 13.449 mortes por ano, ou seja, cerca de 1,31% do total. A média anual de casos de notificação compulsória devido a doenças relacionadas a saneamento básico inadequado foi de 466.351 casos, com uma despesa de R$ 30.428.324,92 em consultas médicas nesse período. Os autores identificaram uma média anual de 758.750 internações hospitalares devido a deficiências do saneamento básico, resultando em uma despesa total de R$ 2,11 bilhões no período. A despesa total com consultas médicas e internações hospitalares devido a doenças associadas ao saneamento básico consumiu 2,84% dos gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) nesse intervalo de tempo.

Murtha, Castro e Heller (2015) avaliaram, sob a perspectiva histórica, os fatores que induziram ou influenciaram as primeiras políticas públicas de saneamento e de recursos hídricos no Brasil. Esse estudo parte da interpretação histórica brasileira de autores como Celso Furtado e Caio Prado Júnior e suas perspectivas sobre a posição periférica do país no sistema econômico global. Na perspectiva dos autores, a política de saneamento se desenvolveu em consonância com iniciativas e interesses europeus na área e que, em diferente sentido, as políticas de recursos hídricos emergiram da necessidade de regular o uso da água.

O estudo proposto por Pertel, Azevedo e Volschan Junior (2016) analisou o uso de indicadores de perdas para seleção de um benchmarking entre as companhias

estaduais de serviço de distribuição de água no Brasil. Nesse estudo, os autores verificaram que, para o ano-base de 2010, dentre as 22 companhias estaduais analisadas, somente Cagece, do Ceará, Saneatins, do Tocantins, e Sanepar, do Paraná, apresentaram, de forma consistente, resultados compatíveis aos valores de benchmarking propostos para os indicadores operacionais de desempenho.

Reis et al. (2016) mapearam, selecionaram e analisaram as principais características do perfil da produção científica nacional e internacional acerca do saneamento, para o período de 1994 a 2015. Os achados indicaram 153 trabalhos que versavam sobre saneamento. A pesquisa se deu por meio de mapeamento das produções acadêmicas disponíveis nos periódicos da Capes, nos anais de eventos nacionais (Anpec, Enaber e Sober), nos bancos de dados e nos indexadores Scopus e Web of Science. A busca ocorreu nos idiomas português, inglês, francês e espanhol, por meio de 17 chave que poderiam estar contidas em títulos, resumos, palavras-chave e textos dos periódicos.

QUADRO 1 – PALAVRAS-CHAVE UTILIZADAS EM PESQUISAS A PERÍODICOS E ANAIS

Português Inglês Espanhol Francês

Saneamento Sanitation Saneamiento Assainissement

Esgoto Sewer Servicios de

alcantarillado Eaux usées

Esgotamento Exhaustion Agotamiento Épuisement

Abastecimento de água Water supply Abastecimiento de agua Approvisionnement en eau

Distribuição de água Water distribution Distribución de agua Distribution d'eau Qualidade da água Water quality La calidad del agua Qualité de l'eau Serviço da água Service water Servicio de agua Eau de service Mortalidade infantil Child mortality Mortalidad infantil La mortalité infantile Estrutura sanitária Health structure Estructura de la Salud Structure de la santé Água contaminada Contaminated water El agua contaminada L'eau contaminée Saneamento básico Basic sanitation Saneamiento assainissement Tratamento de esgotos Sewage Treatment

Plants Tratamiento de aguas residuales Usine de traitement des eaux usées

Cólera Cholera El cólera Choléra

Hepatite infecciosa Infectious hepatitis La hepatitis infecciosa Hépatite infectieuse Febre tifoide Typhoid fever Fiebre tifo Fièvre typhoïde Leptospirose Leptospirosis La leptospirosis Leptospirose

Diarreia Diarrhoea diarrea Diarrhée

O universo verificado pelos autores foi de 153 artigos científicos sobre economia e saneamento no período de 1994 a 2015. Quanto à aplicação de métodos quantitativos, o estudo verificou o constante do quadro a seguir:

QUADRO 2 – MÉTODOS EM ANÁLISE QUANTITATIVA SOBRE SANEAMENTO (1994-2015)

Método Concepção Número de

aplicações

Estatístico Exposição quantitativas por meio de instrumental básico:

Frequências, médias, correlação, taxas, entre outros. 26 Matemáticos Aplicações de técnicas matemáticas: equações, funções, matrizes,

entre outros. 11

Regressões Cálculo de regressões lineares: simples ou multiplicas 47 Dados em

painel Combinações entre séries temporais e cross-section. 10 Diferenças em

diferenças Estimação realizadas por meio da utilização de grupo de tratamento e grupo de controle. 7 DEA Técnica quantitativa para medir a eficiência relativa, ou

produtividade das empresas 10

SFA Técnica quantitativa de modelagem para estimar a fronteira de

produção das empresas 3

FONTE: Reis et al. (2016)

Os autores ainda destacaram que, à medida que o setor evolui, as pesquisas tendem a acompanhar esse movimento do setor, e que, além disso, a comunidade científica tem aumentado a preocupação com o desenvolvimento econômico sustentável. Quanto à aplicação das técnicas SFA e DEA, observa-se que há dominância do método Data Envelopment Analysis (DEA) em grande parte devido a sua flexibilidade na função de produção e no tratamento da característica intrínseca de multiproduto do setor.

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