O assédio moral no trabalho apresenta-se como um tema com um número significativo de produções, como artigos, dissertações, teses e livros. É discutido por diversas áreas do conhecimento possibilitando concepções da psicologia, do direito,
da medicina, da administração, entre outras. Alguns autores se destacam pela maneira peculiar de observar o fenômeno e pela profundidade de seus estudos e serão destacados a seguir.
Para a elaboração do arcabouço teórico do presente estudo, foram consultados artigos, dissertações e teses sobre o assunto, em periódicos indexados em bases de dados como Scielo, Science Direct, CAPES e Lilacs, e em bibliotecas virtuais, como BDTD – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, e BVS – Biblioteca Virtual em Saúde. Também foram utilizados livros de autores referenciais e contemporâneos na discussão do assédio moral no trabalho.
Primeiramente, destaca-se a produção de Barreto, Freitas e Heloani (2008), onde os autores apresentam o assédio moral dentro do contexto histórico do trabalho, suas raízes nos modos de organização da produção, as características e os impactos nos trabalhadores e na sociedade. Além deste estudo os autores se destacam por diversas publicações em revistas e pela fundação de um site sobre o assunto3, que utilizam para divulgação do tema e também como canal para recebimento de histórias e denúncias de assédio moral. As informações coletadas durante o período de 2010 e 2014 através do site (3.613 questionários e 530 histórias), foram apresentadas por por Barreto e Heloani (2014) em um capítulo do livro Atenção à saúde mental do trabalhador: sofrimento e transtornos relacionados ao trabalho.
Um outro estudo que merece destaque é o de Muçouçah (2014), que coloca o assédio moral como um fenômeno que fere os direitos humanos e o relaciona com o abuso do poder diretivo que o empregador possui legalmente, na medida que pode estabelecer o modo de organização do trabalho e a maneira de controlar a produção.
O livro organizado por Lis Andréa Soboll (2008), Violência psicológica e assédio moral no trabalho: pesquisas brasileiras, é uma referência para o estudo do tema, pois apresenta diversos estudos sobre o assédio moral, sob diferentes enfoques, de autores de diferentes áreas do conhecimento, como Adriane Araújo, Roberto Heloani, André Aguiar, Ivana Rizvi, Juan Brandt e Sueli Damergian, entre outros.
Emmendoerfer, Tolfo e Nunes (2015), são os organizadores do livro Assédio moral em organizações públicas e a (re)ação dos sindicatos, que conta com a participação de vários pesquisadores da área e apresenta estudos que relacionam as organizações sindicais e o tema do assédio no trabalho. Este tipo de relação, sindicato
3 www.assediomoral.org
– assédio moral, não se encontra com facilidade na literatura, podendo ser considerado um dos poucos livros a respeito, produzidos até o momento.
Rossi e Gerab (2009) apresentam um panorama histórico do sindicalismo no Brasil e os momentos socioeconômicos vivenciados ao longo dos anos, contextualizando-os às formas de organização do sistema produtivo e do movimento sindical.
Araújo e Ferraz (2006) não falam diretamente sobre assédio moral, mas contribuem para a reflexão sobre os modos de produção e as formas coletivas de resolução de conflitos, fazendo uma análise crítica do papel dos sindicatos e sua atuação contemporânea.
A pesquisa de Soares (2006) identificou as práticas de assédio moral no trabalho através da pesquisa participante em uma instituição financeira. Além de apresentar as principais práticas de assédio moral, o estudo mostra as percepções dos assediados e das testemunhas, bem como as repercussões físicas, afetivas, cognitivas e sociais para os assediados.
O trabalho de Bradaschia (2007) apresenta uma sistematização dos estudos realizados até a data. Fala do contexto organizacional, e de como o tema tem sido mais frequentemente abordado pelas pesquisas brasileiras e internacionais e expõe os mecanismos de combate e prevenção.
Schinestsck (2009) traz o enfoque do Direito sobre o tema e apresenta a importância da visão humanista do meio ambiente do trabalho, com respeito aos direitos fundamentais e preservação da saúde mental dos trabalhadores, destacando, ainda, a responsabilidade dos sindicatos nesta questão.
O assédio moral no trabalho, investigado através das suas representações na mídia impressa, é o enfoque da pesquisa de Garbin (2009), que desvela o quanto e como o tema é abordado pelos jornais de grande circulação de São Paulo e de jornais elaborados pelos sindicatos para a sua respectiva categoria.
Fistarol (2014) caracteriza as práticas de assédio moral no trabalho conforme a perspectiva do judiciário e dos sindicatos dos trabalhadores e sindicatos patronais.
Seu estudo analisa as ações relativas a assédio moral impetradas no Tribunal Regional do Trabalho, identificando as condutas consideradas como assédio moral nas sentenças judiciais. Dessa forma, verifica se o entendimento dos juízes está consoante com o que a literatura caracteriza como assédio.
O estudo de Costa et al. (2015), recentemente publicado, de natureza
bibliométrica, apresenta dados sobre a produção científica acerca do assédio moral em teses e dissertações realizadas no Brasil, durante o período de 2002 a 2012. A amostra desse estudo foi composta por 57 trabalhos, sendo 52 dissertações e 5 teses, demonstrando um expressivo volume de produções durante a década estudada. Além do panorama das produções acadêmicas, o estudo apresenta um mapa conceitual do assédio moral, a partir dos descritores encontrados na literatura pesquisada.
Um estudo semelhante foi realizado por Cahú et al. (2011) que analisou a produção científica sobre assédio moral em periódicos online no período de 2002 a 2010. Os trabalhos encontrados foram organizados em três categorias: Instituições de ensino, Órgãos públicos e Empresas privadas, demonstrando os principais cenários da prática do assédio moral.
Duas outras pesquisas ratificam os principais cenários de prática de assédio moral. O artigo de Rodrigues e Freitas (2014) que trata do assédio moral nas instituições de ensino superior e o artigo de Maciel et al. (2007) com situações de assédio moral no contexto bancário.
A relação da saúde mental com o trabalho pode ser vista nos estudos de Bottega, Perez e Merlo (2013) e de Barreto (2009) que apontam o sofrimento e o adoecimento dos trabalhadores como decorrentes de um processo histórico e cultural de precarização do trabalho e destacam a necessidade de enfrentamento desse problema. As pesquisas de Seligmann-Silva et al. (2010) e de Lima, Lima e Vieira (2012) também abordam os modelos contemporâneos de gestão como incipientes do assédio moral e intrinsecamente relacionados aos processos de adoecimento dos trabalhadores. Um outro estudo interessante acerca da saúde dos trabalhadores, é apresentado por Ricardo Lara (2011) que aborda as mudanças nos perfis patológicos derivados do trabalho relacionando-as com as crises que afetaram a materialidade do trabalho.
Vale destacar os artigos do volume 37 da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional de 2012, uma edição temática sobre o assédio moral no trabalho que reuniu produções de diversos estudiosos da área, contribuindo com análises contemporâneas e diversificadas sobre a caracterização do assédio moral, seus impactos e possíveis intervenções.
A respeito da relação dos sindicatos com o tema do assédio moral, a literatura ainda é escassa, sendo possível encontrar alguns artigos que de alguma forma se aproximam do assunto do presente estudo, como por exemplo, o artigo de Cotanda
(2008) que discorre sobre o posicionamento dos sindicatos frente às inovações tecnológicas e organizacionais e aponta para o pouco interesse das entidades sindicais sobre o assunto. Caso semelhante é o estudo de Cruz, Sarsur e Amorim (2012) que apresenta a visão dos sindicalistas em relação a determinadas práticas organizacionais, mais especificamente, à gestão por competências. Os autores colocam que além do desinteresse, há também pouca habilidade para tratar de assuntos como esse.
Face ao exposto nesse referencial teórico, entende-se que o assédio moral no trabalho é um tipo sutil de violência decorrente das transformações nas relações de trabalho, orientadas para a exploração dos trabalhadores e com vistas ao acúmulo de capital. Dessa forma, destaca-se a participação das entidades sindicais no enfrentamento de condutas abusivas em prol da saúde dos trabalhadores.