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estudos sobre a aquisição do sujeito nulo do PB

90) a. cv se pode circular da uma nação a outra nação sem problema.(s1)

4.5 Generalização da análise dos dados

4.5.1 estudos sobre a aquisição do sujeito nulo do PB

Simões (1997) desenvolveu um estudo sobre a aquisição do PB como língua materna, em que examina as propriedades do sujeito nulo nas produções espontâneas de uma criança brasileira com idade entre 2;4 e 3;0. Mostram-se, a seguir, de forma resumida, os resultados desse estudo. Simões compara os dados de André, o sujeito de sua pesquisa,

com os dados de outras crianças, na mesma faixa etária, adquirindo diferentes L1, com relação ao uso de sujeitos nulos e plenos. Os resultados encontrados mostram que as crianças usam percentuais muito altos de sujeitos nulos em línguas pro-drop prototípicas, como o italiano e o PE; e que esses mesmos percentuais continuam até a idade adulta. Ao contrário do que acontece nas línguas pro-drop, o percentual de sujeitos nulos encontrados em crianças falantes de línguas não pro-drop é mais baixo. O mesmo foi verificado para a criança falante do PB, cujo percentual de nulos se aproxima mais daquele de crianças falantes de uma língua não pro-drop.

A autora examina também o número de sujeitos pronominais lexicais encontrados entre o número total de sujeitos preenchidos e mostra que o percentual de 80% de sujeitos pronominais lexicais de André está mais próximo daquele encontrado em crianças falantes de inglês – em que a incidência de uso do pronome é bastante alta (86%) – do que do percentual de 35% encontrado para crianças falantes de italiano.

Comparando, ainda, os dados de André com os dados do PB em falantes adultos, Simões afirma que há uma diferença acentuada em termos percentuais entre os dados desse informante, que mostram 55,5% de nulos, e os dados dos falantes adultos que, de acordo com Duarte (1995), exibem o percentual de 29% de nulos no PB. Embora, em termos percentuais, André apresente um número mais alto de nulos do que os falantes adultos, a autora mostra que a distribuição desses pronominais nulos entre as três pessoas gramaticais é semelhante à distribuição atestada em Duarte (1995). A criança apresenta um maior percentual de sujeitos nulos para a 3ª. pessoa, seguida da 1ª. e 2ª. pessoas. A partir de uma análise qualitativa dos dados, Simões (op.cit.) sugere que o uso do sujeito nulo pela criança que está adquirindo o PB sofre, desde as fases iniciais de aquisição, as mesmas restrições impostas ao uso do nulo na gramática do adulto. Para a autora, portanto, embora o índice de nulos na fala de André seja maior do que aquele registrado nas produções de falantes adultos, a distribuição dos sujeitos nulos por pessoa e tipo de construção pode ser comparada à do adulto.

Outro trabalho que trata da aquisição do sujeito nulo em língua materna é apresentado por Magalhães (2006). A autora analisa o sujeito nulo em fases iniciais de aquisição, nas produções de duas crianças brasileiras e duas crianças portuguesas com idade entre 1;9 e 3;0. Apresenta-se, a seguir, um resumo dos resultados encontrados.

Magalhães (2006) mostra que a aquisição do sujeito por crianças brasileiras compreende dois estágios: num primeiro estágio, as crianças usam mais sujeitos nulos, o que é incompatível com a gramática-alvo; num segundo estágio, as crianças dão preferência aos pronomes lexicais em substituição aos nulos referenciais, mostrando, em suas produções, percentuais mais próximos daqueles encontrados na gramática do adulto.

As crianças portuguesas, por outro lado, apresentam uma produção bastante significativa de sujeitos nulos. Segundo a autora, embora haja oscilações entre as sessões, os índices de sujeitos nulos encontrados nos dados dessas crianças estão em conformidade com aqueles observados para a gramática-alvo, desde o início. Ao contrário dos resultados encontrados para as crianças brasileiras que apresentam uma queda significativa entre a primeira e a última sessão na produção de sujeitos nulos, nas produções das crianças portuguesas os altos índices de nulos se mantêm estáveis por todas as sessões, o que a autora considera como um resultado esperado para uma língua de sujeito nulo como o PE. Assim, enquanto as crianças portuguesas exibem percentuais de nulos acima dos 65% em quase todas as sessões, as crianças brasileiras, ao contrário, começam com percentuais altos (acima de 70% ou 80%), que vão caindo até alcançarem índices abaixo de 40%.

Com relação ao uso dos pronomes lexicais, enquanto foi verificado um percentual mínimo nos dados das crianças portuguesas, 10% para João (POR) e 21% para Raquel (POR), nos dados das crianças

brasileiras, verificou-se um alto percentual de pronomes, equivalente ao dobro daquele verificado para as crianças portuguesas.

Magalhães analisou também a concordância sujeito-verbo presente nos dados. Verificou que a ausência de concordância sujeito-verbo está relacionada, principalmente, ao uso da terceira pessoa em

autorreferência (3sg/1sg) tanto para as crianças portuguesas quanto para as brasileiras. No entanto, a autora considera o uso das formas de terceira pessoa pouco significativo, em se tratando das crianças portuguesas, uma vez que a maioria dos contextos de 3sg/1sg consiste das formas “que(r)” ou “quer”. Para as crianças brasileiras, por outro lado, Magalhães mostra que, entre a idade de 2;4 e 2;9, a forma verbal de 3ª.pessoa usada com referência de 1ª. pessoa é encontrada nos dados dessas crianças com verbos diversos: “gosta”, “vai”, “brinca”, “tenta”, entre outros.

Resumindo, os dados de sua pesquisa mostram que: a) tanto as crianças portuguesas quanto as crianças brasileiras usam mais sujeitos nulos de terceira pessoa do singular, com exceção de Raquel (BRA), que mostrou uma preferência também pela primeira pessoa; b) a ausência de concordância sujeito-verbo sempre envolve a terceira pessoa do singular nas produções das crianças brasileiras e nas produções das crianças portuguesas; c) a criança brasileira apresenta dois estágios na produção de sujeitos nulos: um em que produz sujeitos nulos em percentuais maiores que os encontrados para os adultos, e outro em que os resultados já refletem a gramática da língua-alvo; d) a criança portuguesa, por outro lado, apresenta, desde o início da aquisição, uma produção alta de sujeitos nulos, que se mantém constante por todo o período analisado.