2.1 EMPREENDEDORISMO E O PROCESSO EMPREENDEDOR
2.1.1 Estudos sobre processo empreendedor no contexto brasileiro
O primeiro a ser apresentado é o de Onozato e Teixeira (2010), no qual as autoras, utilizando o modelo de Borges, Filion e Simard (2008), buscaram analisar o processo de criação de 03 empreendimentos sociais em Curitiba/ PR. As conclusões corroboraram em partes com a estrutura utilizada, revelando que, embora as etapas ocorressem de forma similar ao que propõe o modelo utilizado, algumas atividades não ocorreram ou ainda, apareceram em fases distintas.
Posteriormente, González, Añez e Machado (2011) utilizaram a abordagem effectuation (SARASVATHY, 2001b), já discutida nesta seção, para explicar o processo de criação com base em um estudo de caso único. Os resultados do estudo corroboraram com elementos contemplados na abordagem utilizada, quais sejam: relação entre (a) meios que o empreendedor possuía e a maneira pela qual formatou o negócio; (b) preferência da estratégia de desenho sobre a estratégia de decisão e;
(c) priorização de parcerias estratégicas sobre a realização de pesquisas de mercados formais. Em outras palavras, a lógica effectuation aplicou-se totalmente a este estudo. Teixeira e Carvalho (2012) também enfocaram o processo de criação de empresas onde analisaram sete categorias (perfil do empreendedor; motivações; planejamento e obstáculos apresentados; influência das experiências anteriores; influência da família; fontes de recursos e apoio do setor público) para verificar quais possuíam maior ou menor influência na criação de negócios do setor de turismo. As principais constatações apresentaram escolaridade, apoio familiar e experiência em atividades anteriores como fatores com maior grau. Ademais, destacou-se que embora instruídos, os empreendedores não são preparados para atividades gerenciais ou de planejamento, o que os torna frágeis perante as dinâmicas impostas por um mercado competitivo (TEIXEIRA; CARVALHO, 2012).
No mesmo ano, outro estudo desenvolvido com quatro organizações do setor de turismo foi realizado no estado do Paraná por Teixeira (2012). Nesta pesquisa também adotou-se o modelo teórico de Borges, Filion e Simard (2008). Como principais conclusões, apontou-se que no estágio inicial os empreendedores tinham pouco ou nenhum conhecimento sobre o setor, e que não houve realização de plano de negócios como ferramenta de preparação. A fase de consolidação surgiu como a mais complexa, especialmente quando levado em consideração fatores externos (sazonalidade) e internos (equilíbrio de fluxo de caixa) capazes de afetar a estabilidade do empreendimento.
Outra pesquisa realizada sobre a temática no estado do Paraná (FERREIRA; GIMENEZ; AUGUSTO, 2014) contrapõe algumas destas considerações. Os autores realizaram um estudo longitudinal com quatro empreendedores, utilizando como base as propriedades emergentes de criação de organizações – intencionalidade, recursos, limite e troca (KATZ; GARTNER, 1988). Através de uma análise narrativa das entrevistas realizadas, constatou-se, dentre outros resultados que: (1) os empreendedores procuram se embasar tecnicamente antes de criar sua organização; (2) estudar mercado, concorrentes e clientes são atividades prioritárias; (3) embora o plano de negócios seja formalizado, procedimentos de revisão e atualização não são feitos; (4) meios tecnológicos são fundamentais para divulgar a empresa no mercado; (5) recursos utilizados são preponderantemente do empreendedor e (6) parcerias e desenvolvimento do produto e serviço proporcionam aprendizado e aprimoramento.
Para os autores, os resultados corroboram tanto na formação quanto na continuação da empresa, com as propriedades apresentadas por Katz e Gartner (1988).
Mais recentemente, Teixeira, Andreassi e Bomfim (2018) buscaram analisar como empreendedoras fazem uso de redes sociais no processo de criação de seus empreendimentos, adaptando para tanto, o modelo de Borges, Filion e Simard (2008) para três estágios: (a) concepção (agrupamento das fases de iniciação e preparação); (b) start-up e (c) consolidação. Realizando um estudo com sete empreendedoras de agências de viagem de micro e pequeno porte, os principais resultados evidenciaram um forte uso das redes na fase da concepção do negócio, mostrando ainda a importância da experiência profissional anterior na promoção de auxílio para construção de redes diversas.
Ainda nesta pesquisa, os resultados revelaram que a quantidade de atores envolvidos nas redes era diretamente proporcional à quantidade de recursos obtidos. Em outras palavras, isto significa dizer que o número de pessoas com as quais o empreendedor se relaciona pode auxiliar ou dificultar a reunião dos recursos necessários à abertura de seu empreendimento. A importância do suporte familiar e da ajuda de amigos para aprimoramento das ideias, especialmente quando as empreendedoras não tinham conhecimento acerca do nicho específico onde montariam o negócio (turismo), também foi aspecto apontado.
Em relação aos estudos empíricos apresentados, é possível notar que a dinâmica de criação de negócios possui particularidades contextuais, capazes de refutar, corroborar ou ainda, acrescentar informações aos modelos utilizados como base para suas realizações. Por exemplo, enquanto o estudo de Onozato e Teixeira (2010) corrobora em partes com o modelo de Borges, Simard e Filion (2008) utilizado para embasar a pesquisa, o de González, Añez e Machado (2011) apresenta uma aplicação total da lógica effectuation conforme apresentada por Sarasvathy (2001b). Ainda sobre este ponto, Teixeira, Andreassi e Bomfim (2018) oferecem contribuição ao adaptarem o modelo de Borges, Filion e Simard (2008) para três fases, acrescentando a importância de aspectos de relacionamentos interpessoais nos estágios que compõem o processo de criação, fator inexplorado até então no modelo original.
Além disto, os estudos de Teixeira e Carvalho (2012) e Teixeira (2012) demonstram uma ausência de preparação dos empreendedores para atividades gerenciais ou de planejamento, o que pode caracterizar uma especificidade do setor
de turismo, onde ambos foram realizados. Já o de Ferreira, Gimenez e Augusto (2014) aponta que características como procura por embasamento técnico prévio, elaboração – embora não revisão – do plano de negócios, estudo de mercado, dentre outros, fizeram parte da preparação dos empreendedores analisados. Como ponto em comum, é importante ressaltar que a maioria estudos empíricos, com exceção do realizado por Onozato e Teixeira (2010), focaram em criação de negócios voltados para aspectos econômicos.
Nesta seção, buscou-se inicialmente dissertar acerca do campo do empreendedorismo, evidenciando a importância exercida por esta atividade dentro de um contexto econômico cada vez mais exigente e competitivo. Conforme foi possível observar, o fato da prática empreendedora ser frequentemente vinculada a geração de emprego, renda, criação de oportunidades e desenvolvimento econômico resulta em um alto número de esforços voltados à sua definição, compreensão e explicação. No contexto das várias maneiras de explicar como o empreendedorismo se desenvolve, evidenciou-se uma atenção crescente de estudos voltados para o processo empreendedor. Neste sentido, por ser esta a perspectiva utilizada nesta pesquisa, diferentes modelos de processo foram apresentados e discutidos. Para finalizar, dedicou-se um espaço para dissertar acerca de estudos empíricos realizados no contexto brasileiro que se preocuparam em compreender a dinâmica de criação de novos negócios. Tanto a análise dos modelos, quanto a análise dos estudos empíricos reforçam que não há uma maneira universal de explicar o processo empreendedor, especialmente quando levadas em consideração as peculiaridades das ações envolvidas.
Na seção que segue, será apresentado o campo do Empreendedorismo Sustentável (ES), subcampo relevante da área de empreendedorismo (GAST; GUNDOLF; CESINGER, 2017) e que, embora tenha protagonizado um aumento de interesse acadêmico nos últimos anos, ainda aspira por melhores compreensões sobre sua natureza teórica e prática (MUÑOZ; COHEN, 2018). A respeito desta temática, maiores aprofundamentos serão necessários visando sua compressão. Desta forma, aspectos relacionados ao desenvolvimento da prática dentro das organizações, motivação dos empreendedores sustentáveis e fatores que influenciam a identificação de oportunidades para criação de negócios desta natureza, serão discutidos.