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Estupro e honra: desvendando a objetividade jurídica da norma

CAPÍTULO 3 AFERINDO O MARCO REGULATÓRIO INTERNACIONAL

3.4 Teorias feministas e o DIH: aplicação ou revisão?

3.4.3 Estupro e honra: desvendando a objetividade jurídica da norma

Como visto em alguns tópicos acima, somente em três dispositivos a conduta do estupro encontra-se expressamente encartada no DIH: art. 27 da IV Convenção; art. 76 do I Protocolo e art. 4º, item 2, “e” do II Protocolo, in verbis:

Art. 27: Pessoas protegidas têm direito, em todas as circunstâncias, ao respeito a suas pessoas, sua honra, seus direitos familiares, suas convicções e práticas religiosas, e seus hábitos e costumes.

[...]

Mulheres devem ser especialmente protegidas contra qualquer ataque à sua honra, particularmente contra o estupro, prostituição forçada, ou qualquer forma de atentado ao pudor.

art. 76, 1: As mulheres serão objeto de um respeito especial e protegidas em particular contra a violação, a prostituição forçada ou qualquer forma de atentado ao pudor.

art. 4º, 2: Sem prejuízo à generalidade do acima mencionado, os atos seguintes contra as pessoas referidas no parágrafo 1 são e devem permanecer proibidos a qualquer tempo e em qualquer lugar:

[...]

e) ultrajes à dignidade pessoal, particularmente tratamento humilhante e degradante, estupro, prostituição forçada e qualquer forma de atentado ao pudor [...].

Quatro aspectos sobressaem com a leitura dos dispositivos acima. Primeiramente, as únicas modalidades de violência sexual reconhecidas pelos instrumentos do DIH são o estupro (não sem problemas, como veremos a seguir) e a prostituição forçada. Fora do alcance legal, portanto, estão outros crimes como gravidez forçada, mutilação sexual, esterilização forçada e escravidão sexual (o Estatuto de Roma, como vimos no último capítulo, é muito mais abrangente nesse sentido). Em segundo lugar, somente o II Protocolo determina

595 Nöelle Quénivet, op. cit., p. 231.

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claramente que a conduta deve ser proibida – o regime jurídico aplicável aos conflitos armados internacionais (IV Convenção e I Protocolo), ao contrário, enquadra a temática sob a ótica da proteção da vítima. A matéria, como se vê, em geral não é posicionada em lugar proeminente na hierarquia normativa: o estupro não consta nas infrações graves do art. 147 da IV Convenção e do art. 85 do I Protocolo, assim como não figura nas hipóteses do art. 3º comum às Convenções. Nada obstante a já sedimentada possibilidade de aplicação extensiva de certas normas com vagueza linguística para criminalizar a questão, o fato é que somente em 1977 uma norma do DIH nasceu com a intenção de proibir a conduta (o que, para feministas como Judith Gardam e Michelle Jarvis, demonstra a existência de uma hierarquia de gênero que inferioriza as regras que lidam especificamente com as mulheres597).

De qualquer forma, as referências tortas não deixam de ter sua importância histórica: somente com as Convenções de Genebra é que se quebrou o silêncio jurídico sobre o tema e

se inaugurou o que Alona Hagay-Frey chama de “Era da Honra” (Era of Honor)598 – o que

nos leva ao terceiro aspecto: todas as disposições ligam a violência sexual a conceitos como honra, pudor, humilhação e degradação. Esse é o ponto que mais angaria a atenção da literatura feminista, já que expõe a real objetividade jurídica das normas do DIH: a proteção ofertada constrói o estupro enquanto ilícito violador de uma determinada moralidade sexual e não como crime que afronta a integridade física/psíquica e a autodeterminação sexual da pessoa estuprada599. De que moralidade sexual estamos falando? Quem está tendo sua honra

desrespeitada? Todos/as nós somos titulares da mesma honra?

Comecemos pela última pergunta: a resposta é não. O conceito de honra é bifurcado e determinado em razão do gênero da pessoa em questão. Para homens, a honra é edificante e decorrente de sua própria humanidade: “o direito ao respeito à honra dele é um direito investido no homem porque ele é dotado de razão e consciência”600. Para mulheres, por outro

lado, honra é conceito que se constitui exclusivamente a partir de certos atributos sexuais, a saber, castidade e modéstia – trata-se, por conseguinte, de construto masculino que tem pouquíssima relação com a realidade da violência sexual para mulheres601. Exemplo notável

dessa interpretação: de acordo com os Comentários do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a expressão “direitos de família” do art. 26 da IV Convenção tem a intenção de “salvaguardar os laços matrimoniais e a comunidade de pais e filhos que constitui a família”,

597 Judith Gardam; Michelle Jarvis, op. cit., p. 99. 598 Alona Hagay-Frey, op. cit., p. 69.

599 Valerie Oosterveld, Feminist Debates on Civilian..., p. 392.

600 ICRC, Geneva Convention relative to the Protection of Civilian..., p. 202 (tradução livre). 601 Judith Gardam; Michelle Jarvis, op. cit., pp. 97, 108.

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sendo a cláusula proibitiva de estupro e de outros ataques à honra das mulheres uma medida para justamente fazer respeitar tais direitos602. Em relação ao dispositivo que menciona o

estupro, os Comentários apontam que a previsão está fundada nos princípios de “respeito à pessoa”, “honra” e “direitos de família”: “mulheres, qualquer que seja sua nacionalidade, raça, crenças religiosas, idade, status marital ou condição social têm o direito absoluto ao respeito à sua honra e à sua modéstia, isto é, à sua dignidade enquanto mulheres”603. De

acordo com essa ideia, será a conformidade com uma determinada vida sexual que determinará se uma mulher ainda possui, em última instância, a sua própria dignidade.

Opera-se, pela lei internacional, uma visão preconceituosa do significado, para a feminilidade, de uma experiência traumática como o estupro: a verdadeira ruína da moralidade de uma mulher é ser violada por um terceiro – uma relação sexual fora do enquadramento formal e da força legitimadora do casamento. A mulher estuprada, nessa interação, torna-se mero instrumento para a desestabilização da instituição heteronormativa do casamento, ecoando a tradição cavalheiresca que valoriza a santidade do laço matrimonial, a posse exclusiva do marido sobre o corpo da esposa e a certeza da pureza do filho herdeiro604.

A pretensão de proteção à pessoa, portanto, é meramente superficial e voltada para a atualização de certos valores morais a respeito da disponibilidade/possibilidade de acesso ao corpo feminino por outros homens. Nesse sentido, o estupro não é um ato propriamente subversivo da unidade familiar heterossexual – é, antes de tudo, um mecanismo para reforçá- la.

O diagnóstico aqui feito pode parecer inacurado se considerarmos as longínquas proibições embrionárias do estupro em outras épocas e a conclusão, tirada pelo próprio pai do Direito Internacional, de que somente nações incivilizadas legitimam o estupro de mulheres. Segundo Helen Kinsella, no entanto, a “ironia fundamental” na invocação de Grócio como uma voz esclarecida e progressista para seu tempo é que sua obra não estava primariamente preocupada com a dignidade e opressão das mulheres, mas sim com a criação e regulação de

uma hierarquia bem particular entre nações605, encapsulada pela dicotomia

barbárie/civilização. Para Grócio, a ilegalidade da conduta não reside nela mesma, mas sim em sua intenção – o estupro constitui uma aberração do apetite sexual que atinge não somente a vítima como também o perpetrador:

602 ICRC, Geneva Convention relative to the Protection of Civilian..., p. 202. 603 Ibidem, p. 206 (tradução livre).

604 Judith Gardam; Michelle Jarvis, op. cit., p. 108. 605 Helen Kinsella, Gendering Grotius..., p. 171.

132 [...] ela desnaturaliza e desumaniza os homens, prevenindo sua ascensão a relações progressivamente mais civilizadas. A distinção entre barbárie e civilização é estabelecida, ganha substância, através desta análise do efeito do estupro na capacidade dos homens em governar a si mesmos – rendendo-se aos seus apetites, homens rendem sua “humanidade”, tornando-se bestas606.

A linha de pensamento de Grócio apenas superdimensiona o processo de instrumentalização, mas não o supera: destarte, a violação sexual da mulher representa simultaneamente uma ofensa ao marido-proprietário, à unidade familiar e à nação – não a ela mesma. O discurso sobre estupro que opera tanto em Grócio quanto no DIH contemporâneo cristaliza tanto a diferença sexual entre homens e mulheres (homens estupradores/mulheres estupradas) quanto uma ordem internacional fraturada entre civilizados (aqueles que teoricamente não estupram) e bárbaros (aqueles que estupram). É esse aspecto “mitológico”607

do estupro que viabiliza a crença na necessidade de correção social de muitas sobreviventes (mediante estigmatização e ostracismo) e que preenche a feminilidade com conceitos como “honra”, “pudor”, “modéstia” e “direitos familiares”608. Nesse estado de coisas, mulheres

podem até precisar de proteção, mas não existem como sujeitos de direitos609.

Em último lugar, também é significativo o fato de que somente o artigo previsto no II Protocolo utiliza uma linguagem neutra quanto ao gênero, abrindo espaço (não necessariamente de maneira intencional) para considerar a possibilidade de homens também serem vítimas de estupro. Os outros artigos, por outro lado, referem-se expressamente às mulheres como objeto de sua proteção, presumindo sua natural vulnerabilidade a esse tipo de violência. O Direito de Genebra é bem claro ao caracterizar um sujeito feminino impotente e humilhado pela invasão física e imoral de seu corpo por outrem, exacerbando as dualidades protetor/protegida, homens poderosos/mulheres impotentes e paz feminina/guerra masculina610. Voltaremos a essa questão no capítulo 4.

O DIH, frise-se, não apresenta essência. Os discursos de gênero que determinam os comportamentos permitidos/proibidos e produzem certas identidades podem ser desconstruídos de forma mais emancipadora e sensível às necessidades das mulheres (e homens) – inclusive aquelas (e aqueles) que vivenciam o estupro. A alegação de que o mandato do DIH é limitado e não pode abarcar dentro de si questões de estrutura social, como

606 Ibidem, p. 172 (tradução livre).

607 Referência aos modelos explicativos de Paul Kirby, conferir tópico 2.1.

608 Em relatórios mais recentes, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha reconhece que o conceito “honra” está frequentemente ligado a conceitos como castidade e pureza sexual (Charlotte Lindsey, Women Facing War, p. 55), porém – provavelmente em respeito ao princípio da neutralidade – não verte críticas em relação ao DIH. O Comitê já afirmou que não tem intenção de mudar relações de gênero (ICRC, Annual Report 2008, p. 21). 609 Rhonda Copelon, Gender Crimes as War Crimes...

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desigualdades de gênero, não dá conta da real capacidade de transformação do Direito e olvida o fato de que as normas não estão cristalizadas em uma dimensão descolada da realidade: ao contrário, as regras são fruto de negociação. Partindo de uma concepção dinâmica e conflitante do Direito, é possível imaginar a norma como algo que nasce das expectativas dos grupos sociais e que é efetivamente capaz de produzir mudança nas relações concretas de gênero611. Uma perspectiva de gênero feminista pode contribuir sobremaneira

para a desmistificação de representações patriarcais que essencializam a mulher como eterna vítima sem agência, podendo dar conta das múltiplas experiências que ela é capaz de vivenciar na guerra e, ainda, lutando pela condenação apropriada do estupro como uma violência sexual contra a pessoa e não como um delito contra a honra.

611 Anna Loretoni, op. cit., p. 509.

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