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4.3 – Etanol celulósico ou bioeletricidade?

Muitas coisas mudaram desde o início das reformas do setor energético iniciadas em meados dos anos 90. A produção e distribuição de energia elétrica foi desverticalizada, ao mesmo tempo em que se criou um livre mercado de energia, onde produtores independentes podem vender sua produção para o sistema elétrico nacional através de leilões ou negociar livremente com os consumidores livres. Além disso, novos atores surgiram, como a pequena central hidrelétrica, a energia eólica e a bioeletricidade proveniente do excedente gerado nas caldeiras das usinas de açúcar e álcool.

Porém, outros aspectos mantiveram-se quase inalterados, como a produção de eletricidade, que permanece fortemente centralizada nas grandes centrais hidrelétricas. O setor sucroenergético também continuou concentrado na região centro-sul, onde estão a maior parte das usinas e da produção de cana-de-açúcar. Mesmo a produção de bioeletricidade ainda é subutilizada.

Além disso, como discutimos na seção 3.3, a forma como o etanol é distribuído fortalece ainda mais essa centralização, dificultando a entrada de novos e pequenos produtores, assim como fortalecendo os já estabelecidos.

A partir do material consultado e dos relatórios oficiais da EPE, pudemos constatar uma controvérsia relacionada ao uso produtivo do bagaço excedente das usinas e da palha, posto que a produção de bioeletricidade e o etanol de segunda geração competem por esses insumos.

Baseado nos conceitos do nosso referencial teórico, podemos considerar o bagaço da cana e a palha como importantes actantes da rede tanto do etanol celulósico quanto da cogeração, posto que são importantes elementos não-humanos cuja figuração ainda não esta definida. Se o bagaço excedente e a palha vão figurar enquanto principal insumo da bioeletricidade ou do E2G nos próximos anos, ou ainda dividir esse papel, é uma questão ainda aberta, apesar de alguns apontamentos.

O etanol de segunda geração revela-se ainda mais controverso quando consideramos a questão da centralização, posto que ainda é um investimento muito elevado, deve fortalecer ainda mais a posição das grandes usinas num primeiro momento.

Como vimos na seção 3.4, o etanol celulósico pode contribuir com a concentração e centralização da produção de etanol nas grandes usinas do Centro Sul, já

98 que, de acordo com os técnicos do CTC, somente grandes usinas, aglomeradas em torno de clusters, poderão investir em plantas de segunda geração no médio prazo. Já a produção de bioeletricidade contribui com a descentralização da matriz elétrica, e não necessita de investimentos tão grandes por parte das usinas, podendo se dar de forma mais distribuída.

O incentivo à produção de bioeletricidade nas usinas de cana poderia contribuir inclusive com a desconcentração da produção de cana e etanol no Brasil como um todo. Ao tornar o investimento em usinas de cana-de-açúcar mais rentáveis devido à produção complementar de bioeletricidade (sem a necessidade de grandes investimentos como o E2G), novas usinas poderiam se instalar espalhadas pelo Brasil, longe do Centro Sul.

Entretanto, isso não deve se tornar realidade a não ser que a política energética tome uma nova direção e incentive a produção de bioeletricidade e instalação de microusinas, assim como fez com a energia eólica (Camillo, 2013). Segundo Goldemberg (2008), os principais instrumentos regulatórios que podem ser utilizados para promover o uso de fontes alternativas são:

a) regulamentos ambientais em geral; b) padrões de desempenho de equipamentos;

c) políticas de compra do governo que privilegiem certos tipos de equipamentos ou fontes de energia;

d) imposição de uma parcela mínima de fontes alternativas no portfólio de empresas distribuidoras;

e) planejamento integrado de recursos; f) programas informativos.

Várias ações nesse sentido poderiam ser tomadas para incentivar o uso e produção de bioeletricidade e a instalação de novas usinas, como: imposição por parte da ANEEL de uma parcela mínima de energia alternativa por parte das concessionárias (sistema de cotas); direcionamento de recursos para P&D em bioeletricidade por meio da já existente lei nº 9.991/2000 que obriga as empresas do setor elétrico a aplicarem pelo menos 1% de seus lucros líquidos em P&D para a eficiência e conservação energética; leilões específicos para a compra de bioeletricidade como os que foram feitos para a energia eólica; programas de financiamento para novas usinas que utilizem

99 cogeração e reforma de antigas usinas; entre muitas outras saídas que poderiam envolver regulamentos ambientais, padrões de desempenho, etc.

Portanto, apesar de seus benefícios, produzir bioeletricidade também envolve questões ainda abertas que requerem esforços dos governos e investimentos das usinas, assim como o etanol celulósico. Ao contrário da maior parte do mundo, o etanol de segunda geração no Brasil não vem para substituir o de primeira geração ou tornar a produção de etanol mais competitivo, mas sim para complementá-lo, posto que o Brasil produz o etanol de primeira geração mais barato do mundo (ver figura). Enquanto na maior parte do mundo produzir etanol é mais caro do que produzir gasolina e as políticas de incentivo ao uso de etanol são mais ambientais do que econômicas, o Brasil é uma das únicas exceções em que produzir etanol pode ser mais barato que a gasolina. Por isso, enquanto países como os EUA e França querem um etanol de segunda geração a preços competitivos, no Brasil esse etanol será mais caro que o de primeira geração no médio prazo.

Como os números do BNDES (2011) apontam, a maior parte das novas usinas está investindo em processos avançados de cogeração, o que indica o seu interesse em produzir e exportar energia em curto ou médio prazo. Isso nos leva a crer que o etanol celulósico ainda é visto com cautela pela maior parte das usinas, que preferem investir na produção de bioeletricidade por enquanto, mesmo que no longo prazo, se um dia decidirem produzir E2G, o bagaço tenha que ser divido entre essas duas coisas.

O que provavelmente deve acontecer em nossa opinião é que no longo prazo, as usinas equipadas para exportar eletricidade e produzir E2G equalizem a produção de bioeletricidade ou E2G, assim como já fazem com o etanol comum e o açúcar, de acordo com o que for mais vantajoso naquele momento, tornando a rentabilidade da usina mais segura em relação às flutuações do mercado de eletricidade, etanol e açúcar.

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5 – O Etanol celulósico: rede e translações

Nesta seção, apresentamos, relacionamos e analisamos os principais atores-rede, humanos e não-humanos, que formam a rede do etanol celulósico no Brasil. Em um primeiro momento, descreveremos como o etanol de segunda geração pode ser produzido e quais são as tecnologias e elementos técnicos fundamentais dessa rede que envolve pesquisa, desenvolvimento e produção simultaneamente. Nossa premissa básica é demonstrar como esses atores não-humanos (ou actantes) atuam e influenciam o destino dessa rede. Em seguida, abordamos as principais políticas e programas públicos de pesquisa e financiamento sobre o assunto, descrevendo o seu funcionamento e seu grau de importância dentro da rede. Em um terceiro momento, trataremos das principais iniciativas identificadas, apresentando o histórico dessas empresas sobre o assunto, suas estratégias, alianças, desafios e expectativas. Por fim, debateremos com base em nosso referencial teórico como esses diversos atores formam uma rede, seu grau de importância e força e as questões e controvérsias encontradas.