5. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS
5.2 Apresentação dos dados coletados junto aos grupos focais
5.2.1 Etapa de imersão: Mapa de empatia e Brainstorming
Para dar início a cada grupo focal, foi aplicado a ferramenta Mapa de empatia, com o objetivo de conhecer as semelhanças e as diferenças entre os participantes. Essa ferramenta é utilizada para propiciar um melhor entrosamento e estimular a empatia. Normalmente as pessoas têm dificuldade em iniciar o exercício, principalmente porque, muitas vezes, este é o primeiro exercício da oficina.
O primeiro passo foi apresentar um membro ao outro, permitindo a aproximação entre eles. A introdução de grupo focal aconteceu conforme a seguir: “Antes de iniciarmos nossa discussão, creio que seja útil que conheçamos um pouco uns aos outros. Vamos começar com alguns comentários introdutórios sobre nós mesmos. X, por que você não começa e então vamos fazendo a volta para que todos digam seus nomes e falem um pouco sobre o que fazem da vida? Antes de entrarmos em nossa discussão, deixem-me fazer alguns pedidos a vocês. Primeiro, vocês devem saber que estamos gravando a sessão, de modo que eu possa voltar a nossa discussão quando eu for escrever meu relatório. Se alguém aqui se sente constrangido pela gravação, por favor, o diga, e, é claro, tem toda a liberdade de não
participar. Falem bem alto e vamos tentar fazer com que apenas uma pessoa fale por vez. Eu vou fazer um papel de mediador e, assim, garantir que todos tenham sua vez de falar. Por último, por favor, digam exatamente o que vocês pensam. Não se preocupem com o que eu penso ou com o que seu colega pensa. Estamos aqui para trocar opiniões e para nos divertir enquanto fazemos isso. Que tal começarmos nos apresentando?” (baseado em Stewart e Shamdasani, 1990, p. 92-93).
Após a apresentação do grupo, fichas foram entregues para preenchimento individual do perfil de cada participante da oficina (ANEXO 4). A seguir, forneceu-se uma explicação sobre os procedimentos a serem aplicados. Aqui foram apresentadas as expectativas em relação aos participantes, ou seja, a discussão de problemas e soluções em conjunto.
A discussão em grupo teve início com um estímulo. O moderador enfatizou o embasamento comum dos membros a fim de facilitar ou de reforçar um laço grupal. Os participantes foram instruídos a encontrar em 10 minutos quais os programas de assistência em comum entre eles e quais julgavam os mais importantes.
Em seguida, foi aplicado o segundo exercício de empatia, que também serviu para identificar e compreender mais a fundo o perfil do usuário, só que de forma visual e tangível, gerando ainda mais aproximação. Aqui foram estabelecidas hipóteses claras a respeito das necessidades e comportamentos do grupo focal. Esta atividade durou aproximadamente 15 minutos e se utilizou do modelo da figura 38, construído coletivamente pelos integrantes por meio de post-its em que compartilharam os pontos de vista de cada um.
Por meio do mapa de empatia buscou-se compreender as definições subjetivas dos estudantes a fim de mapear um perfil do grupo focal e entender o contexto de vida e das experiências. Neste procedimento, dividimos o mapa em 4 temas, voltados para discutir a assistência estudantil da UnB: 1 – O que eu vejo e sinto? (qual é a minha percepção?); 2 – O que eu espero? (Quais as minhas esperanças e quais os desejos futuros?); 3 – O que me inspira? (O que me motiva? O que me alegra? Quais as minhas satisfações?); e 4 – O que eu temo? (Quais as minhas dores, os meus medos, frustrações e insatisfações?). Os resultados são apresentados nos quadros 02 e 03 e registrados nas figuras 38 e 39.
Figura 38. Mapa de Empatia – Oficina 1 Foto: produzida pelo autor
O QUE VEJO E SINTO O QUE TEMO? Medo
Incapacidade Ansiedade Solidão
Necessidade de mobilização Medo do sonho acabar
Medo de outros não terem acesso Governo não apoia as diferenças sociais
Pressão Tristeza Pavor
Sinto que tenho necessidade de ajudar meu povo
Perder a bolsa
Retrocesso na educação Corte do auxílio alimentação Governo atual
Perder o passe livre
Não conseguir continuar o curso devido às nossas necessidades na cidade Ficar dois meses sem pagar aluguel Corte do Restaurante Universitário Ficar sem passe livre estudantil Desinformação dos políticos sobre nossa realidade
Governo atual
Perder o auxílio alimentação Ficar sem a bolsa permanência Ficar sem o auxílio moradia
Continuarem nos negando o direito de existir na UnB, no Brasil e no mundo
O QUE ESPERO? O QUE ME INSPIRA? Ajudar o meu povo
Que considerem as especificidades indígenas
Melhorias nas universidades federais Levar todo conhecimento adquirido de forma positiva ao meu povo
Que a educação seja valorizada Contribuir com a luta dos povos indígenas após a minha formação Concluir a minha graduação
Me formar com saúde mental em dia Que a educação seja entendida como investimento
Que a bolsa permanência se torne lei e não mais decreto
Acesso para todos
Saber que sou o primeiro da família e quero mudar essa realidade
Meus amigos indígenas Meus amigos não indígenas
A esperança em me tornar enfermeira Minha mãe
Meus pais
Os 519 anos da resistência indígena Me formar e ajudar minha etnia Meu povo Boniwa
Meu povo Tupinikim Minha família
As dificuldades que o meu povo passa
Quadro 02. Mapa de Empatia – Oficina 1 Fonte: elaborado pelo autor com base na pesquisa realizada
Figura 39. Mapa de Empatia – Oficina 2 Foto: produzida pelo autor
O QUE VEJO E SINTO O QUE TEMO? Gestantes alunas desassistidas
Medo de perder a bolsa
Abuso de poder na Casa do Estudante, praticada pela equipe da CGCEU Injúria racial da Life/UnB (empresa de segurança terceirizada) contra mim e alunos
Diversos estudantes prejudicados por problemas no pré ou pós atendimento da DDS
Dificuldade de aceitação de corpos negros na academia
Falta de sensibilidade da DDS Preconceito contra estudantes que recebem assistência
Não querer fazer reparação histórica Bolsas sem reajustes
Comunicação truncada e omissão de informação por parte da DDS
Os seguranças da Life/UnB Suspensão da bolsa A polícia militar no campus Perder as bolsas
Não conseguir concluir o curso
O QUE ESPERO? O QUE ME INSPIRA? Formar
Me formar e me empregar
Formar e trabalhar na periferia e com a periferia
Continuar o processo de aprendizado e aprendizagem em universidade pública, gratuita e com excelência
A minha mãe
Saber que sou inteligente e vou conseguir
Família, professores e amigos Minha ancestralidade
O Centro de Convivência Negra (CCN) Perceber que não é por capacidade, mas ter possibilidade
Quadro 03. Mapa de Empatia – Oficina 2 Fonte: elaborado pelo autor com base na pesquisa realizada
Ao finalizar o preenchimento do mapa, estimulou-se algumas reflexões como: “Quais necessidades foram observadas?” e “Quais novas ideias surgiram?”. Desta forma os participantes começaram a ter um maior entendimento sobre quais desafios seriam explorados na fase de cocriação. O grupo apresentou todas as análises e conclusões do uso da ferramenta. Os resultados auxiliaram na criação do entendimento do perfil do usuário e suas necessidades reais. Foi preciso tomar cuidado para que o perfil criado não fosse apenas a descrição de um único entrevistado, o mapa tinha que refletir os principais pontos em comum de usuários com perfis semelhantes.
Conhecendo melhor o perfil do grupo focal, a próxima ferramenta utilizada foi o brainstorming e serviu para entender o contexto dos problemas e necessidades, a fim de explorar a criatividade das pessoas. Ferramenta para estimular a geração de
muitas ideias em um curto espaço de tempo, o brainstorming teve a duração de aproximadamente 30 minutos. Nessa etapa, o mediador deixou claro para os integrantes as regras básicas do brainstorming como: respeitar a fala do outro, esperar a vez; procurar criar o máximo de ideias possíveis; construir sobre as ideias dos outros; encorajar as ideias diferentes; ser visual; manter o foco no assunto proposto; e não fazer críticas nem julgamentos. Também foi papel do mediador instigar o grupo com novas perguntas para enriquecer a geração de ideias e mantê- lo produtivo, além de garantir o momento para que todos mostrassem o ponto de vista e ideias.
Aqui as avaliações sobre a assistência estudantil da UnB começaram a ser exploradas a partir da pergunta “Quais os pontos negativos “de hoje” e quais as melhorias desejadas “para amanhã”?”. A seguir, apresentamos os resultados de cada oficina (figuras 40 e 41 e quadros 04 e 05).
Figura 40. Brainstorming – Oficina 1 Foto: produzida pelo autor
PONTOS NEGATIVOS “DE HOJE” MELHORIAS PARA ÄMANHÔ Demora do Auxílio Emergencial
Burocracia (Des)governo
Os cortes provocam retrocessos na educação
Não acesso imediato à moradia estudantil
Demora para avaliação dos auxílios que o estudante deve receber Bolsa Permanência como decreto e não lei
Poucas bolsas para os estudantes indígenas
Política específica para assistência de estudantes indígenas
Matrícula online Documentos online Rapidez na avaliação de documentação
Morando no campus da UnB não temos custos com transporte e alimentação
Apartamentos para estudantes indígenas na CEU
Construção de uma casa transitória para os estudantes
Demora na avaliação dos documentos O MEC quer revogar constantemente as bolsas
Dificuldade na entrega da documentação
O provável fim das bolsas
DDS não conhece a realidade indígena Morar fora da Universidade é caro Preconceito por parte de alguns professores
Reconhecimento da cultura indígena como ciência
Quadro 04. Brainstormig – Oficina 1
Fonte: elaborado pelo autor com base na pesquisa realizada
Figura 41. Brainstorming – Oficina 2 Foto: produzida pelo autor
PONTOS NEGATIVOS “DE HOJE” MELHORIAS PARA “AMANHÔ Não reajuste do auxílio permanência
Limite de bolsas reduzido Suspensão sem aviso prévio Atraso da bolsa sem atribuição de juros
Falta de consciência da sociedade para entender que assistência não é caridade
Governo não querer fazer reparação histórica
Preconceito com estudantes da assistência
Insensibilidade para cada caso específico
Dificuldade de aceitação de corpos negros na Academia
Falta de acolhimento e alojamento de trânsito
Informações truncadas por parte da DDS
Atendimento qualificado Ensino público de qualidade
Compreensão da nossa realidade pela sociedade
Equidade de emprego
Viabilidade para formação, pois o estudante que participa da assistência, na maioria das vezes, precisa
complementar sua renda com
trabalhos informais, fora a realidade de morar na periferia e outras dificuldades Um melhor atendimento por parte da DDS
Reajuste do valor das bolsas Falta de respeito
Governo gerar mais empregos Acabar com o racismo dentro da Universidade
Campanhas/ações práticas para combater e desestimular o preconceito
Informações erradas
A DDS pressupõe que os alunos já possuem as informações necessárias, o que não é verdade
Dificuldades de atendimento da DDS Burocracia do sistema e
documentação
Mais educação, saúde, segurança e oportunidades
Pacto entre sociedade civil, cidadãos, empresas e poderes da república pela educação do país
Mais investimento público
Equipe que atenda e cuide da saúde mental dos estudantes da assistência estudantil
Acabar com os assassinatos da juventude negra
Acabar com a homofobia Acabar com o feminicídio Quadro 05. Brainstorming – Oficina 2
Fonte: elaborado pelo autor com base na pesquisa realizada