4.2 ANÁLISE DO PROCESSO EMPREENDEDOR
4.2.4 Etapa IV – feedback
Feedback, conforme Bhave (1994), é o retorno de informação do mercado. Sendo
assim, a etapa IV do processo empreendedor corresponde ao retorno de respostas, tanto de consumidores e empresas que não estavam no início do processo, como do mercado internacional, de visitantes e por premiações com que as vinícolas certificadas pela IG foram agraciadas. Outra subcategoria que emergiu foi repensar a estratégia a partir do retorno de informações. A Figura 59 apresenta a Etapa IV – Feedback e suas subcategorias que emergiram das análises, conforme serão apresentadas a seguir.
Figura 59 – Etapa IV - feedback
4.2.4.1 Etapa IV – feedback – reconhecimento do consumidor
Uma forma de obter informações sobre o produto é observar as informações que o consumidor emite. Assim, quando há o reconhecimento por parte dos consumidores, esse vem por meio do aumento da procura por vinhos com a indicação geográfica. Esse fato é relatado nas falas dos Entrevistados A1, A3 e A5.
[...] o consumidor de vinho quer saber quais foram os lançamentos, se tem variedades novas (ENTREVISTADO A1).
[...] o maior valor agregado que nós tivemos foi a procura por produtos do Vale dos Vinhedos, a procura de pessoas para vir ao Vale dos Vinhedos, isso é o maior valor agregado que nós tivemos [...] em 2012 saíram os primeiros vinhos com a Denominação de Origem, aí foi um ganho maior ainda, porque a mídia espontânea que deu, o que chamou, principalmente restaurantes, que é muito importante, que quer vinho da DO (ENTREVISTADO A3).
[...] esse retorno do próprio consumidor brasileiro, em acreditar no produto brasileiro, isso nos anima muito (ENTREVISTADO A5).
É possível concluir que os esforços da indústria do vinho vêm sendo reconhecidos pelo consumidor brasileiro. Todavia, o consumo de vinhos permanece baixo no Brasil, se comparado a outros países produtores, não ultrapassando dois litros por habitante por ano (SEBRAE, 2018).
4.2.4.2 Etapa IV – feedback – reconhecimento do visitante
Outra forma de obter feedback é o reconhecimento do visitante. Isso se deve ao aumento da procura do Vale dos Vinhedos como roteiro turístico. No ano de 2017, foi registrado um fluxo de 415.957 turistas, sendo que os meses de maior fluxo de visitantes são junho e julho.
[...] a gente mostra o vinhedo, faz degustação e eles veem que tem um diferencial. Todo mundo “bah, mas esse vinho é bom” [...] todo mundo que vem para o Vale dos Vinhedos fala a mesma coisa “não sabia que existia no Brasil uma região que é idêntica a alguns outros países (vinícolas)” (ENTREVISTADO A2).
[...] o número de turistas, pessoas que vêm nos visitar. Então nós tivemos, ano passado, se eu não me engano, 415 mil pessoas visitando o Vale dos Vinhedos. É um número que há dez anos atrás nós recebemos 45 mil pessoas, ou seja, nós multiplicamos por dez quase a procura pelo Vale dos Vinhedos (ENTREVISTADO A6).
pessoal que vem de fora. Que vem para cá procurar a tua cultura, que vem para cá querendo conhecer o que é produzido aqui, o que é feito aqui (ENTREVISTADO E8).
Segundo informações da Aprovale (2018), essa procura se deve a alguns fatores, tais como: valorização territorial obtida a partir da obtenção da IG, crescente investimento na qualificação da produção do Vale dos Vinhedos, gestão da “marca” Vale dos Vinhedos, investimento em marketing e divulgação do roteiro e produtos, participação em feiras e eventos destinados ao turismo e ao vinho, incentivos que propiciaram o turismo no território nacional, divulgação dos destinos brasileiros no exterior e participação em ações da Secretaria de Turismo de Bento Gonçalves na divulgação das rotas locais, eventos e programações com foco em turismo executados no Vale dos Vinhedos, entre outros fatores.
4.2.4.3 Etapa IV – feedback – reconhecimento internacional
O feedback internacional é observado por meio de reportagens em veículos de circulação internacional, assim como pelo aumento da exportação dos vinhos com IG. Os Entrevistados A1, A5, A6 e E9 apontam esse fato.
[...] um produto de alta qualidade, de um produto reconhecido com uma DO a nível internacional (ENTREVISTADO A1).
[...] o reconhecimento, muitas vezes você acredita no teu potencial, muito forte. É como lhe falei, o país, o Brasil, é diverso talvez de todo o mundo, você tem que ser muito bom lá fora para ser bom aqui dentro (ENTREVISTADO A5).
[...] nosso setor de exportação, ele nos dá esse feedback. Assim, “bah, mas olha, o pessoal tá procurando muito DO”, muita denominação de origem, que é uma referência de qualidade lá fora, não plena, porém é a referência de vinho de qualidade (ENTREVISTADO A6).
[...] no mundo do vinho lá fora foi uma conquista muito fundamental, impôs respeito que nós precisávamos para os nossos produtos. Então, eu vejo a nossa DO como balizadora de um trabalho que já existia, ou seja, de melhoria, de qualificação do nosso produto da viticultura. Lá fora é uma condição fundamental, lá eles respeitam e eu acho que aqui nós não conseguimos vender comercialmente (ENTREVISTADO E9).
A Aprovale confirma essa informação em seu relatório quando informa que os vinhos com IP passaram a ter reconhecimento no mercado pela qualidade diferenciada (APROVALE, 2019).
4.2.4.4 Etapa IV – feedback – reconhecimento por premiações
Outro indicador é quando o reconhecimento vem por meio de premiações. Os Entrevistados A2 e T3 abordam o assunto em suas falas.
Os nossos vinhos, dos últimos anos para cá, tiveram um ganho muito grande em qualidade. A gente se especializou tanto nas uvas como nos equipamentos [...] As vinícolas aqui estão ganhando muitas premiações, tanto as nacionais, como as internacionais (ENTREVISTADO A2).
[...] premiações em concursos ou eventos, participações em feiras. Por exemplo, os vinhos, quando participam de concurso, são premiados. Em um concurso às cegas, patrocinado pela OIV, com a chancela da OIV, significa dizer o seguinte: este vinho tem qualidade [...] (ENTREVISTADO T3).
Conforme dados da Aprovale (2018), o Challenge International du Vin é o maior evento realizado na França, que teve sua edição 2018 nos dias 20 e 21 de abril, em Bordeaux. É a mais antiga avaliação de vinhos realizada na França. Dentre as 5 mil amostras degustadas, entre os melhores chardonnays avaliados, está o Casa Valduga Leopoldina Gran Chardonnay 2017 D.O., elaborado pela Casa Valduga Vinhos Finos, e dentre os melhores tintos, está o Miolo Merlot Terroir 2015 D.O., elaborado pela Miolo Wine Group. Assim, o concurso, que contou com 800 degustadores especialistas, reconheceu a qualidade e o diferencial dos vinhos da Denominação de Origem Vale dos Vinhedos (APROVALE, 2018).
4.2.4.5 Etapa IV – feedback – reconhecimento de empresas que estavam fora do projeto
Outro indicador de reconhecimento vem por meio de pessoas ou empresas que não estavam no início do projeto, mas que, com sua consolidação, criaram empresas voltadas ao setor vitivinícola e se associaram à Aprovale. Os Entrevistados A1, E5, E11, E13 e E14 destacam esse fator em suas falas.
[...] a grande maioria já existia, mas não quis apostar no começo. Depois, vendo que isso dava espaço, que projetava (a região), resolveram entrar na carona (ENTREVISTADO A1).
[...] abriram novas vinícolas. Por exemplo, nós viemos depois da IG. Não trazidos por ela, mas assim, o Vale dos Vinhedos ter uma indicação geográfica, tu só tende a crescer (ENTREVISTADO E11).
[...] trouxe mais desenvolvimento. Porque o que eu observo é que algumas pessoas que simplesmente eram moradoras daqui, com a denominação, com o desenvolvimento turístico que ela acabou trazendo para o Vale e para a região como um todo, algumas pessoas se entusiasmaram e acabaram abrindo seu negócio
(ENTREVISTADO E13).
Para comunidade foi interessante, porque houve um fluxo interessante de turistas na região e com isso pessoas dessa região aqui colocaram restaurantes, alguns hotéis também [...] (ENTREVISTADO E14).
[...] querendo retornar e desenvolver uma atividade aqui, então tem um potencial muito grande aqui de desenvolvimento de criar novos negócios (ENTREVISTADO E5).
A Aprovale também confirma essa procura. A associação afirma que a certificação atraiu novos investidores, sejam ligados ao turismo, sejam novas vinícolas se instalando no roteiro (APROVALE, 2019).
4.2.4.6 Etapa IV – feedback – repensar a estratégia
O feedback também serve para repensar a estratégia, o que se percebe na fala de A4.
[...] o vinho é diferente, tu não pode tratar ele meramente só como um produto que tu fabrica, o vinho não é fabricado, ele é elaborado [...]ele é essencialmente cultural [...]. Tudo depende agora das pessoas que estão dentro da Aprovale se estão pensando para ela ou para o Vale dos Vinhedos. Se for uma única questão mercadológica e usar isso só como uma ferramenta de marketing ou não. [...] se não voltar para questão agrícola e para o agricultor, eu não vejo um futuro (ENTREVISTADO A4).
[...] e de forma alguma tu pode desvincular o vinho do homem, o vinho da terra. Quando há esse afastamento, acontecem alguns problemas. Tem que ter um equilíbrio muito grande nessa questão do vinho, a questão do marketing é importante, a questão da venda do vinho é importante, a questão do produto. O que eu quero dizer, de uma forma, da percepção mercadológica dele é importante, mas nunca se pode perder a questão de onde vem o vinho, que é a terra, que é a uva, que são as pessoas (ENTREVISTADO A4).
No início da Aprovale, da entidade, havia sim uma participação maior dos agricultores, da comunidade e tal, o que já não existe mais hoje. Hoje, o que eu considero a Aprovale hoje virou mais uma espécie de marca, seria quase que uma marca coletiva e não como uma associação (ENTREVISTADO A4).
No momento assim que gera um conflito natural, alguns geram milhões de litros e outros querem ser terroaristas, dentro de uma mesma associação é complicado (ENTREVISTADO A4).
Como exposto pelo A4, não é possível desvincular o vinho do homem, do produtor. Assim, é necesssário um olhar sobre a estratégia para o desenvolvimento da região, incluindo os produtores como peça-chave para o auxílio e alavancagem da região.