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3 METODOLOGIA

3.3 ETAPAS DA PESQUISA E A ESCRITA ETNOGRÁFICA

Na pesquisa se seguiu as etapas preconizadas por Andion e Serva (2006), que sugerem a divisão em três momentos da elaboração científica baseada na etnografia para a construção do que denominam “tecelagem etnográfica”: (1) concepção do campo temático de estudo; (2) realização do trabalho de campo; e (3) elaboração do texto. Note-se, no entanto, que esses momentos não foram estanques, de forma que cada uma das etapas foi interpenetrada pelas demais e em algumas ocasiões houve revisões, redimensionamento do objeto e escopo da investigação, assim como ajustes de foco.

3.3.1 Concepção do campo temático de estudo

A definição do tema de estudo teve origem nas inquietações do autor em relação aos efeitos do uso turístico do espaço, discussão enfrentada na dissertação de mestrado, no âmbito do turismo rural. Em pesquisas posteriores a perspectiva da tangência entre cultura e turismo passou a ser abordada pelo pesquisador, que também concentrou suas atividades no Litoral do Estado do Paraná, aspecto importante para a delimitação geográfica do tema.

O carnaval consiste em um dos maiores eventos culturais da região, em especial no que tange à atração de turistas e, por essa razão, optou-se por discutir a natureza da manifestação e as tradições carnavalescas em Matinhos.

Nessa trajetória também foi relevante a realização de estágio de doutorado “sanduíche”, no Norte de Portugal, o que proporcionou a aproximação com teorias e metodologias de pesquisa, em especial os trabalhos de Paulo Raposo acerca do Carnaval de Podence, na Região de Trás-os-Montes, onde foi desenvolvido um estudo piloto da pesquisa, que também contemplou o Carnaval de Ovar, cidade do litoral português.

De acordo com Fino (2003), a definição das categorias de análise pode se dar na forma de perguntas às quais se procurará responder. No caso desta investigação, no estabelecimento das categorias se seguiu a lógica proposta por aquele autor e foram definidas a partir das perguntas da pesquisa. Essas questões, no entanto, foram construídas por meio da observação e da experiência empírica no campo. Assim, as categorias podem ser qualificadas como não apriorísticas.

Nesse sentido, Campos (2004) explica que a definição das categorias de análise pode seguir uma lógica apriorística ou não apriorística. No primeiro caso, o pesquisador já conta com categorias pré-definidas, colhidas na teoria ou em experiências prévias, o que significa, em princípio, a comodidade de um balizamento da investigação. Por outro lado, o autor adverte que a opção pela pré-definição pode limitar o aparecimento de conteúdos relevantes que não se encaixem nas categorias prévias, o que iria determinar o engessamento da análise.

No caso da categorização não apriorística, opção adotada nesta investigação, as categorias emergem “[...] do contexto das respostas dos sujeitos de pesquisa, o que inicialmente exige do pesquisador um intenso ir e vir ao material analisado e teorias embasadoras, além de não perder de vista o atendimento aos objetivos da pesquisa” (CAMPOS, 2004, p. 614).

Ainda que se tenha adotado a perspectiva não apriorística, os conceitos apresentados e discutidos na revisão teórica do trabalho foram úteis no processo de observação de campo,

que proporcionou o delineamento do caso de estudo e suas categorias iniciais, posteriormente desdobradas em categorias de análise. Nesse sentido, a discussão acerca dos formatos e discursos do carnaval foi influenciada pela leitura de Ferreira (2004); DaMatta (1997); e Risério (1995); as ideias de invenção ou resignificação e patrimonialização das tradições apoiaram-se nos conceitos de Hobsbawm e Ranger (2006); Raposo (2010); Hall (2006); e Claval (2001). As considerações relacionadas à espetacularização e consumo na cultura, e a turistificação do carnaval tiveram origem em pressupostos teóricos de Debord (1997); Talavera (2001); García Canclini (2001; 1997); e Raposo (2010). Finalmente, para a discussão acerca de lugar se buscou subsídios em Tuan (1983; 1980); Hall (2006); Nora (1993); e Augé (1994), entre outros.

No Quadro 2 se apresenta esquematicamente a unidade de análise, seus aspectos principais, que correspondem às categorias iniciais, e sua relação com a teoria. Convém reiterar que se trata de uma analogia com as ideias e constructos teóricos, já que para a investigação se optou por categorias não apriorísticas, conforme mencionado anteriormente.

Também parece pertinente observar que alguns dos pressupostos apresentados na fundamentação teórica foram relativizados na perspectiva adotada nesta investigação, de forma que não foram tomados como verdades absolutas ou cristalizadas no tempo. Assim, aspectos ali discutidos como, a título de exemplo, o conceito de “autenticidade encenada”, de Luchiari (2001) ou a ideia de “artificialização”, de Carlos (2001), assim como a própria noção de “não-lugar”, de Augé (1994) foram utilizados antes como ilustração do contexto de debate e não necessariamente como ancoragem da pesquisa.

Unidade de Análise – Caso Aspectos Principais Sustentação ou Relação com Pressupostos Teóricos

Tradições Carnavalescas em Matinhos

Discurso ou Formato Carnaval Ferreira (2004); DaMatta (1997); Risério (1995)

Invenção/Resignificação da Tradição e Alternativas de Patrimonialização

Hobsbawm e Ranger (2006);

Raposo (2010); Claval (2001); Hall (2006).

Espetacularização e Consumo da Cultura e Turistificação do Carnaval

Debord(1997); Talavera(2001); García Canclini (2001; 1997); Raposo (2010)

Lugar Tuan (1983; 1980); Hall (2006); Nora

(1993); Augé (1994). QUADRO 2 – UNIDADE DE ANÁLISE E RELAÇÃO COM PRESSUPOSTOS TEÓRICOS FONTE: Elaborado pelo Autor (2014)

No Quadro 3 se apresenta a trajetória para a definição das categorias de análise. Antes de se chegar às categorias finais, descritas nos resultados do trabalho, foram observados na

atividade de campo alguns aspectos, que se optou por denominar aqui de “Categorias Iniciais”, posteriormente aglutinadas nas Categorias de Análise (Finais).

Aspectos ou Categorias Iniciais

Categorias Intermediárias ou Características Principais Categorias Finais Discurso ou Formato do Carnaval Invenção/Resignificação da Tradição e Alternativas de Patrimonialização Espetacularização e Consumo da Cultura e Turistificação do Carnaval Lugar

Interação amistosa entre moradores e veranistas Surgimento espontâneo

Criação da Caiobanda Desfile no chão

Nível de organização amador: auto-organização Ideia de pertencimento intermitente vispertença

Carnaval do Encontro

Participação e convivência de diferentes estratos etários

Preocupação com segurança dos foliões Ideia de pertencimento a um grupo social Permissividade controlada

Carnaval Família

Transição de ritual para performance espetacularização

Introdução do trio elétrico Profissionalização da organização

Maior preocupação com o resultado econômico do evento

Carnaval Negócio

Antimodelo – Contraponto aos demais formatos pela idealização do passado e necessidade de reinvenção

Episódios de violência e consumo

indiscriminado de drogas

Predominância de público jovem

(monogeracional)

Dificuldades na organização e sinais de esgotamento

Moradores locais em condição servil

Carnaval Caótico

QUADRO 3 – PROCESSO DE DEFINIÇÃO DAS CATEGORIAS DE ANÁLISE FONTE: Elaborado pelo Autor (2014).

3.3.2 Realização do trabalho de campo

A realização do trabalho de campo, no Litoral do Estado do Paraná, foi precedida de um estudo piloto, durante uma estada de quatro meses do autor em Portugal, no qual foi possível testar as técnicas e estratégias que seriam posteriormente utilizadas, particularmente no que tange à experiência etnográfica.

Conforme mencionado anteriormente, o pesquisador concentrou suas atividades laborais no litoral do Estado do Paraná, mais precisamente em Matinhos, localidade selecionada para a investigação, o que em alguma medida facilitou os deslocamentos e também foi importante para a escolha da perspectiva etnográfica e, consequentemente, a identificação de fontes e realização das observações de campo, conforme vaticinado por Fino (2008, p. 44):

Durante a estada no campo, os dados recolhidos são provenientes de fontes diversas, nomeadamente observação participante, propriamente dita, que é o que o observador apreende, vivendo com as pessoas e partilhando as suas atividades. Mas, também, através das entrevistas etnográficas, que são as conversações ocasionais no terreno, portanto não estruturadas, e mediante o estudo, quer de documentos ‘oficiais’, quer, sobretudo, de documentos pessoais, nos quais os nativos revelam os seus pontos de vista pessoais [...] (FINO, 2008, p. 44).

As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas de forma literal, com a obtenção de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no qual os respondentes autorizavam o pesquisador a publicar os depoimentos em trabalhos de natureza científica.

Além das entrevistas, também foram realizadas inúmeras conversas informais e recolhidos documentos como fotografias, matérias jornalísticas, publicações eletrônicas na Internet, em redes sociais e outros registros sobre o objeto da investigação. Esse material contribuiu para as inferências e conclusões da pesquisa, assim como para a sustentação dos resultados.

3.3.3 Elaboração do texto

A elaboração do texto decorreu da análise das informações recolhidas no trabalho de campo, com apoio na revisão teórica. As categorias empíricas sustentaram a estrutura da redação dos resultados, em uma operação em que “[...] essas totalidades são identificadas e descritas por categorias que apresentam [...] um duplo estatuto: surgem a partir do reconhecimento de sua presença empírica, [...] e podem também ser descritas num plano mais abstrato” (MAGNANI, 2009, p. 152).

Assim, foram erigidas as seguintes categorias de análise, que representaram as tradições do Carnaval de Matinhos: i) Carnaval de Encontro (Espontâneo); ii) Carnaval Família; iii) Carnaval Negócio; e iv) Carnaval Caótico.

A análise dessas categorias demandou o desdobramento em diversos aspectos, relacionados aos formatos e especificidades do carnaval na localidade de Matinhos, como a ideia de um carnaval eclético ou de múltiplas influências, em que coexistiam trios elétricos, escolas de samba e outras formas de manifestação da festividade. Além disso, também se discutiu as alternativas de invenção ou resignificação das tradições carnavalescas no lugar, a partir das representações dos organizadores abstraídas das entrevistas.

Na redação se utilizou de citações, descrições, fragmentos dos depoimentos e excertos de documentos, que foram organizados em texto, além de quadros, diagramas e imagens, para

embasar a interpretação, que evidentemente também carregaram a perspectiva e experiências do próprio pesquisador na “tecelagem etnográfica”.