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Para a realização desta pesquisa, foram utilizados diferentes instrumentos de coleta de dados, em diferentes etapas, contando com um momento inicial de elaboração do projeto de pesquisa, durante o ano de 2004, concomitante ao curso das disciplinas do mestrado. Nesta etapa, foram realizadas diversas leituras sobre a problemática, levantamento de material prévio sobre a região estudada e preparação dos instrumentos para o trabalho de campo.

No trabalho de campo, primeiramente, realizou-se um estudo exploratório, que ocorreu entre os meses de janeiro e junho de 2005. Neste período, foram realizadas visitas aos órgãos responsáveis pela gestão da unidade de conservação, pela assistência técnica e capacitação do agricultor no município, ao Sindicato dos Trabalhadores rurais de Joinville, às associações de moradores da região, além de diversas conversas com agricultores e lideranças comunitárias em toda a extensão da APA.

Após esse período, iniciou-se o trabalho de apresentação da pesquisa às comunidades existentes dentro da região da APA, o que se fez através da exposição da pesquisa em espaços concedidos nas reuniões das associações de moradores.

Durante este período, também foram acompanhadas diversas reuniões que ocorreram, promovidas tanto pelas associações de moradores quanto pelos órgãos de assistência ao agricultor. Este processo levou cerca de dois meses, entre os meses de julho e agosto de 2005.

Subseqüentemente, realizou-se uma etapa em que se buscou vivenciar com maior intensidade a realidade dos moradores da região, de modo a subsidiar a elaboração das entrevistas e a definição dos entrevistados. Para tanto, participei de diversas festas, encontros, comemorações e reuniões realizadas. Permaneci pelo período de dois meses, entre os meses de outubro e novembro de 2005, residindo

na região do Quiriri, principal locus de conflitos gerados pela questão ambiental na região, por ser uma área extensa, que tem sofrido pressões de urbanização e por estar à montante da captação de água que abastece o município de Joinville. Tal fato permitiu um contato intenso com a comunidade, essencial para que as entrevistas posteriores se baseassem em uma certa confiança na relação entrevistador x entrevistado.

A partir do mês de novembro de 2005, portanto, iniciei as entrevistas com os agricultores, etapa esta que perdurou até o mês de março de 2006, no qual realizaram-se entrevistas com agricultores, considerados nesta pesquisa informantes diretos.

Há ainda informantes indiretos ou secundários, membros da família que participavam das entrevistas, as quais foram realizadas nas propriedades dos agricultores, marcadas previamente por contato telefônico.

Entre os meses de março e abril de 2006 foram realizadas entrevistas com os técnicos dos órgãos públicos responsáveis pela gestão da APA, os órgãos de assistência ao agricultor, os membros da sociedade civil organizada e da iniciativa privada, encerrando-se desse modo o trabalho de campo, ao qual se segue período de análise e redação final.

A partir da exposição destas etapas da pesquisa, pode-se citar os diferentes instrumentos de coleta de dados, quais sejam:

a) Observação participante: compreender o sentido das ações dos agricultores familiares e dos atores das outras arenas exigiu uma participação em diversas reuniões, encontros, festas, cursos e diversificadas atividades da vida destes agricultores, todas registradas em diário de campo e com alguns registros fotográficos. É uma imposição do problema pesquisado, já que se trata de compreensão dos sentidos da ação e da inserção e participação destes em um espaço eminentemente político, criado em torno dos problemas ambientais. Esta abordagem de pesquisa, na qual o “observador está em relação face a face com os observados, e, em participando com eles em seu ambiente natural de vida, coleta dados”45, possui algumas implicações e limitações, que são, na realidade, as mesmas que se originam na escolha pela pesquisa qualitativa, qual seja, o controle

45 SCHWARTZ e SCHWARTZ apud HAGUETTE, T.M.F.. Metodologias qualitativas na sociologia.

Petrópolis: Vozes, 5ª ed., 1997, p.71.

da subjetividade do pesquisador, sua influência sobre os pesquisados, a influência dos pesquisados sobre ele e a possibilidade, (ou não) de generalização dos dados obtidos. Entretanto, entendemos como válida esta técnica à medida que vai ao encontro do objetivo da pesquisa, que como já foi exposto, dirige-se à necessidade de compreensão da intensidade do fenômeno analisado, e não apenas de sua extensão, implicando, portanto, na análise do sentido dado à ação por cada sujeito, individual e coletivamente. A observação foi, neste sentido, uma das principais técnicas de coleta de dados utilizada nesta pesquisa, sendo realizada durante todo o período da pesquisa, mesmo depois de encerradas as entrevistas.

É justamente no sentido colocado por Schwartz e Schwartz que se compreende a observação participante nesta pesquisa, ou seja: um meio de coleta de dados, no qual o observador pode adotar uma postura formal ou informal, que se inscreve em um determinado espaço de tempo e, fundamentalmente, uma situação na qual o pesquisador tem um papel ativo, influenciando e sendo influenciado pelo contexto observado. Este último ponto parece ser o mais problemático, pois transgride a lógica da objetividade, por admitir a interferência do pesquisador no meio. No que tange este assunto, pode-se recorrer a Demo46, no sentido de que:

(...) posição nenhuma não existe porque não há ser humano que não seja sujeito e que não esteja contextualizado no espaço e no tempo (...) neutralidade só pode significar a tentativa, o propósito, ou mesmo o compromisso de não-interferência, não para que não se faça qualquer interferência, mas para que se possa controlar minimamente a interferência inevitável.

A preocupação maior passa a ser, portanto, a objetivação – um esforço para captar a realidade como ela realmente é47, o que nunca é cabalmente cumprido, pois somos seres interpretativos, que reconstruímos mentalmente a realidade da forma como conseguimos padronizá-la. O esforço da objetivação é necessário para controlar o efeito deturpante dos processos de captação.

Por fim, pode-se citar as vantagens da observação participante, de acordo com Alves-Mazzotti e Gewandsnajder48:

46 DEMO, op.cit., p.24.

47 ibidem, loc. cit.

48 ALVES-MAZZOTTI, A.J. e GEWANDSNAJDER, F.. O método nas ciências naturais e sociais:

pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira, 2ª ed., 1998, p.164.

a) independe do nível do conhecimento ou da capacidade verbal dos sujeitos; b) permite ‘checar’, na prática, a sinceridade de certas respostas que, às vezes, são dadas só para ‘causar boa impressão’; c) permite identificar comportamentos não-intencionais ou inconscientes e explorar tópicos que os informantes não se sentem à vontade para discutir; e d) permite o registro do comportamento em seu contexto temporal-espacial.

A observação participante permite a compreensão da dinâmica do contexto, o que a entrevista e o levantamento documental sozinhos não conseguem captar.

b) Entrevista com roteiro semi-estruturado: entrevista qualitativa, baseada em questionário aberto e individual. É um procedimento interativo, que permite tratar temas complexos que dificilmente podem ser explorados com questionários, explorando-os em profundidade. As entrevistas realizadas basearam-se num roteiro semi-estruturado, dividido em partes de acordo com os tipos de perguntas: sobre a produção, sobre a propriedade, sobre as questões ambientais e sobre a ação dos outros atores (poder público, ONG’s, iniciativa privada). As questões sobre a produção e sobre a propriedade são quantitativas, passíveis de tabulação, já que se referem a valores exatos e não a discursos e representações.

A entrevista permite levantar o espectro de opiniões existentes sobre um dado assunto, bem como captar determinados dados da realidade ao qual o pesquisador não tem acesso diretamente, como no caso desta pesquisa, as mudanças na forma de realizar a produção agrícola e a motivação para tais mudanças. Ela nos “fornece os dados básicos para o desenvolvimento e a compreensão das relações entre os atores sociais e sua situação”49.

c) Levantamento documental: foram coletados dados documentais sobre a formação da área rural de Joinville, e mais especificamente sobre os espaços de discussão e dados relativos aos problemas ambientais da região, como atas das reuniões do Conselho Diretor da APA, das reuniões do CCJ, de associações de moradores e da APROÁGUA, além de documentos relativos ao zoneamento econômico-ecológico da área.

49 GASKELL, G. Entrevistas individuais e grupais. In: BAUER, M.W. e GASKELL, G.. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002, p.64.

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