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Partindo da premissa de que instituições de ensino superior, conforme já discutido anteriormente, na introdução deste relatório, reúnem em um mesmo espaço e em torno de objetivos semelhantes pessoas de comunidades de práticas distintas, definiu-se que o recrutamento de participantes se daria entre estudantes de uma determinada instituição pública de ensino superior localizada no Sul do Brasil, a que chamei de Universidade Federal do Sul do Brasil (UFESUL). Os participantes da pesquisa seriam estudantes multilíngues cujos repertórios linguísticos são de tipo marcados: isto é, com base em Urciuoli (2016, p. 30), aqueles repertórios compostos também por itens que são tidos como “atípicos” ou “problemáticos”, em oposição aos itens “normais” ou “não marcados”, como línguas nomeadas nacionais em variedades padrão.

Pensando em termos de experiências e em como o roteiro da entrevista (apêndice B) precisaria ser construído para contemplá-las, fiz uma distinção inicial entre dois perfis de participantes: pessoas nascidas no Brasil (perfil A) e pessoas não nascidas no Brasil (perfil B). Cada perfil foi subdividido em três subperfis. O quadro 1, abaixo, apresenta os perfis definidos para participantes.

QUADRO 1 PERFIS DE PARTICIPANTES PERFIL A PESSOAS NASCIDAS NO BRASIL

Pessoas nascidas no Brasil cujos repertórios podem ser identificados como multilíngues por pertencerem a grupos que mantêm ou prestigiam a transmissão intergeracional e o uso de outras línguas além do português:

(A1) integrantes de comunidades de imigrantes ou de descendentes de imigrantes; (A2) integrantes de comunidades indígenas;

(A3) integrantes ouvintes de comunidades surdas, fluentes em libras.144

PERFIL B PESSOAS NÃO NASCIDAS NO BRASIL

Pessoas não nascidas no Brasil cujas línguas de preferência não são o português ou, tal como no perfil A, não exclusivamente o português:

(B1) migrantes por motivos pessoais que adquiriram o português em adição a outras línguas já existentes em seus repertórios;

(B2) pessoas que chegaram ao Brasil em situação de refúgio ou com visto humanitário sem o português em seus repertórios;

(B3) migrantes por motivos pessoais de países que têm o português como língua oficial e integrantes de comunidades que mantêm ou prestigiam a transmissão intergeracional e o uso de outras línguas.

FONTE ELABORADO PELA AUTORA (2018)

Dentro do perfil A, os subperfis representam grupos que estão no centro de debates contemporâneos brasileiros sobre diversidade e políticas linguísticas e também, em maior ou menor medida, debates sobre ações afirmativas de democratização do acesso ao ensino superior. Tendo esses processos em consideração, pareceu fundamental ter como um dos subperfis pessoas com repertórios que contassem com libras e que fossem parte da chamada “comunidade surda”. Três empecilhos acompanhavam essa decisão: eu não poderia realizar a entrevista em libras; o orçamento disponível para a pesquisa não seria suficiente para remunerar um intérprete; e, mesmo que conseguisse um intérprete voluntário, achei arriscado, em virtude da minha inexperiência, adicionar à análise dos dados a complexidade interacional de uma entrevista via interpretação. Decidi entrevistar filhos de surdos, pois seriam fluentes em libras e — à época tinha motivos para crer — membros da “comunidade surda”.145

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O desenho dos perfis de participantes foi elaborado durante a etapa de construção do projeto desta investigação. À época, não estava ainda de todo nítida a relevância da discussão em torno do próprio conceito de comunidade. Optei por não modificar as informações do quadro, que trago desde o texto projeto; até mesmo como evidência da trajetória de reflexões geradas pela própria investigação.

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Essa iniciativa foi recebida com entusiasmo pelas pessoas que intermediaram meus contatos com participantes do perfil e pelos próprios interlocutores, que sinalizaram descontentamento com o fato de que a comunidade surda e a libras costumam apenas ser envolvidas em pesquisas que abordam

Diferentemente do perfil A, em que a composição do repertório linguístico do participante está em alguma medida pressuposta em virtude das categorias sociais, culturais, étnicas ou identitárias que utilizei como critério, os repertórios linguísticos dos participantes do perfil B seriam menos previsíveis e possivelmente abrangeriam desde “línguas nacionais” ou “oficiais” ou “majoritárias” até “línguas” mais locais e não padronizadas. Assim, os subperfis se dividem, em essência, por condições de migração. O perfil B3 seria assim também, ainda que não explicitamente, pois foi determinado em virtude da intensificação de ações de cooperação entre a UFESUL e outras instituições de ensino superior do Sul Global e do contingente de estudantes migrando por essa via.

Explanada a lógica que orientou a construção desses perfis de tipo a priori, tomo espaço para discuti-la. A proposta foi reunir participantes cujas trajetórias biográficas estivessem explicitamente marcadas por questões de linguagem em virtude dos tipos de repertórios que teriam construído ao longo da vida e em virtude de suas experiências de mobilidade. Suas experiências de socialização linguística teriam sido distintas da minha, por exemplo, que cresci numa família brasileira de classe média que me socializou sempre numa variedade prestigiada do português. Assim como os participantes, também experiencio através da linguagem o mundo e as minhas relações sociais, mas questões de linguagem nunca tiveram papel explicitamente central em minha biografia. Nem eu nem minha família precisamos tomar decisões quanto à configuração de nossos repertórios pensando no acesso a recursos de que necessitaríamos para viver. Tampouco passamos por situações explícitas nas quais nossos repertórios nos impediram acesso a recursos ou a direitos. Um repertório como o meu não é objeto de políticas linguísticas explícitas nem de ações voltadas à promoção e à preservação da chamada “diversidade linguística”. Os repertórios dos participantes frequentemente são. Esse seria o fio condutor da narrativa; era isso que justificava reunir pessoas dos distintos perfis traçados numa mesma investigação.

Não obstante, o campo logo tornou evidente que engendrar perfis de pessoas com base em experiências linguísticas por mim imaginadas e a elas tentar reduzir os

especificamente a temática. Os intermediários desse perfil foram os mais receptivos e fui repetidamente “parabenizada” pela iniciativa. A minha impossibilidade de entrevistar diretamente os surdos não pareceu ter sido percebida como um deslocamento de protagonismo ou como uma subtração de lugar de fala por essas pessoas, que mantêm relações profissionais e familiares com a “comunidade surda”. No entanto, destaco que não tive a oportunidade de conversar a esse respeito com nenhum surdo.

participantes foi de duvidosa relevância, se não um atitude contraditória à abordagem a que me propus. Isto é, criei perfis que enclausuravam as experiências linguísticas das pessoas às minhas expectativas e ideologias de linguagem para posteriormente perceber (e, adiante no relatório, asseverar) que as características nas quais os centrei não necessariamente eram centrais aos próprios participantes.146

Como parte dos procedimentos que se entende como etapas preliminares, eu já havia sondado a possibilidade de encontrar estudantes da UFESUL que se enquadrassem nos subperfis determinados. Muito antes de iniciar o recrutamento de fato, já vinha conversando com pessoas conhecidas que eu sabia que poderiam atuar como intermediárias para contato com pessoas que se enquadravam em alguns dos perfis. A reação comum era de entusiasmo (ou, no mínimo, de disposição amistosa) frente à possibilidade de colaborar em alguma medida com uma pesquisa que consideravam relevante: imediatamente começavam a mencionar amigos que poderiam me apresentar. O entusiasmo dava lugar ao desconcerto quando eu informava que o contato não poderia ser efetivado até que o projeto da pesquisa fosse aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Parte dos meus intermediários eram eles mesmos pesquisadores, e em mais de uma ocasião acharam engraçado o fato de eu estar seguindo um procedimento ainda quase que exclusivamente associado a espaços de pesquisa de fora das Ciências Humanas. O recrutamento de fato teve início apenas após a emissão do parecer de aprovação do CEP, no começo de outubro de 2018. A partir daí passei a acionar aqueles com quem já havia conversado: “Lembra de quando eu te falei da minha pesquisa e tu ficou de me apresentar à fulana? Chegou a hora.”

O projeto previa recrutamento exclusivamente via “bola de neve” e sempre pelo contato inicial de um intermediário, que averiguaria a disposição e o interesse do potencial participante em conversar comigo. Só a partir desse assentimento eu entraria em contato com a pessoa, que informava ao intermediário como eu poderia contatá-la. Essa restrição exigiu um pouco de jogo de cintura, uma vez que eu não tinha de antemão intermediários que poderiam me levar a todos os perfis de participantes que projetava recrutar, e nem tinha notícia específica de onde poderia

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Agradeço à banca examinadora por apontar a necessidade de o texto incluir uma reflexão maior

acerca da construção desses perfis — daquilo que a profa. Luciene Simões chamou de “gesto

encontrar estudantes de todos os perfis. Eu tinha, em contrapartida, determinação e meios para encontrar e contatar pessoas com quem eu não me relacionava que poderiam vir a atuar como intermediárias. Optei por não fazer esse tipo de contato até que tivesse como uma espécie de credencial a aprovação do projeto pelo CEP, já que a credibilidade e relações de confiança do intermediário estariam em pauta quando contatassem potenciais participantes em meu benefício. Cheguei a esses intermediários com quem eu não mantinha relação prévia por diversas vias, como através de professores envolvidos em ações com determinados grupos de pessoas, ou pedindo a alguém que me indicasse alguém que poderia conhecer alguém do perfil que eu buscava. Eu vinha também intensificando minha presença e participação em espaços da UFESUL em que ocorriam atividades relacionadas a assuntos que eu entendia como de potencial interesse de pessoas dos perfis que eu buscava recrutar. Isso me permitia tanto encontrar amigos ou conhecidos cujas áreas de envolvimento eu desconhecia ou não lembrava (logo, potenciais intermediários) quanto ter notícia de pessoas que poderiam vir a ser potenciais participantes — desde que tivesse alguém para intermediar o contato.

O projeto propunha o número total de doze participantes, dois de cada um dos subperfis. Além disso, propunha a distribuição equilibrada de participantes dos sexos feminino e masculino e alguma diversificação de amostra entre maiores e menores de 35 anos.147 Muito embora eu acredite que o produto da investigação não tenha sofrido um impacto deletério — visto que não ambicionei construir um tipo de amostra com pretensões de significância estatística —, nenhuma dessas projeções pôde ser plenamente concretizada. O quadro 2, abaixo, relaciona os participantes recrutados e entrevistados.

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Conforme Maher (2018) e Freire (2018), a Constituição Federal de 1988 constitui o marco histórico de um processo de reversão da hegemonia de ideologias de monolinguismo em operação desde o período colonial. A participação de pessoas com mais de 35 anos ofereceria a perspectiva de quem vivenciou o período de transição, em oposição aos mais jovens, que teriam experiências sociolinguísticas já influenciadas pelo precedente jurídico que o novo texto constitucional estabeleceu.

QUADRO 2 APRESENTAÇÃO SINÓPTICA DE PARTICIPANTES DA PESQUISA

PERFIL SEXO PARTICIPANTE148 IDADE CURSO

A1 M Kaliay 24 Agronomia

A1 H Marcos Hayao149 25 Matemática LC

A2 M Fabiane 20 Direito

A2 H Tarcísio 25 História LC

A3 H Cassiano 23 História LC

A3 H Ariel 25 Ciências Atuariais

B1 M Arleth 28 Informática PG

B1 H Bolívar 25 Economia PG

B1 M Carmelita 36 Teatro LC

B2 H Jacques 26 História LC

B3 H Bakanja 31 Educação PG

LEGENDA MULHER (M) HOMEM (H) LICENCIATURA (LC) PÓS-GRADUAÇÃO (PG) FONTE ELABORADO PELA AUTORA (2019)

A respeito das informações contidas no quadro 2, destaco que o fato de três participantes serem estudantes do curso de Licenciatura em História não foi premeditado, mas guarda relação com as poucas possibilidades de recrutamento que obtive para os perfis A2, A3 e B2. Não tenho notícias de que os três participantes se conheçam e não cheguei até eles pelos mesmos intermediários. Como o próprio quadro demonstra, os demais participantes são estudantes de graduação e de pós-graduação em diferentes áreas do conhecimento e em cursos pertencentes a diferentes institutos da UFESUL.

O trabalho de campo foi encerrado em abril de 2019, já com atraso em relação ao cronograma da pesquisa, após a realização de entrevistas com apenas onze, e não doze, participantes. Desses, apenas quatro foram mulheres — menos da metade —, e apenas uma participante tinha mais de 35 anos. O projeto previa

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Os participantes da pesquisa são sempre mencionados por seus pseudônimos, que foram

definidos em conjunto no momento de encerramento da entrevista — ou, quando necessário, em

contato posterior —, visando à adoção de pseudônimos que, sem prejuízo a seus direitos de

privacidade e anonimato, preservassem níveis de significado mobilizados por seus nomes de registro. Por níveis de significado entendemos tanto aqueles particulares referentes às motivações familiares para a escolha de nome quanto aqueles que, segundo relatos dos participantes, emergem

socialmente, como estranhamentos, particularidades de pronúncias não observadas e

pressuposições acerca de traços de identidade. Alguns participantes solicitaram que eu utilizasse nomes que tinham relevância particular para eles e pouca ou nenhuma relação com o nome de registro, por exemplo homenagens a outrem. Essas solicitações foram atendidas.

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Hayao funciona, neste pseudônimo, como nome do meio, e não um sobrenome. O participante prefere ser referido por seu nome do meio, de origem japonesa, e não por seu primeiro nome, um nome “brasileiro”.

que em caso de inviabilidade de recrutamento de participante de algum subperfil, eu poderia remediar com o recrutamento de participante de outro subperfil. Utilizei esse recurso quando tornou-se evidente que, em virtude da necessidade de encerrar o trabalho de campo, não seria possível recrutar um segundo participante para os perfis B2 e B3. Pude recrutar outra participante de perfil B1 antes do encerramento do trabalho de campo.150

Apenas sete dos onze participantes figuram na análise dos dados. Isso, no mínimo, testemunha ao questionamento do número total de participantes. A previsão de doze sempre me pareceu razoável o suficiente em termos do que seria factível para uma experiência de investigação de mestrado; mas também suficientemente abundante para que a análise tivesse fôlego. Avalio agora que poderia ter alcançando resultados mesmo com um número menor de participantes: o campo poderia ter sido executado conforme cronograma e os dados poderiam ter sido trabalhados com maior equilíbrio.

Como procedimento para minimizar riscos decorrentes da participação na pesquisa (desconforto e constrangimento), procurei, conforme a disponibilidade dos potenciais participantes, agendar um encontro preliminar para que nos conhecêssemos e eu pudesse pessoalmente informá-los a respeito da pesquisa e dirimir dúvidas. Esses encontros preliminares tinham o objetivo de que o potencial participante, caso viesse a participar da pesquisa, estivesse já familiarizado comigo, o que poderia minimizar os riscos de desconforto e constrangimento durante a condução da entrevista. Esse procedimento também me pareceu eticamente apropriado uma vez que a reação imediata das pessoas era de plena disposição em participar. Eu entendia que essa disposição imediata poderia ser impulsiva e levar posteriormente a algum arrependimento; além disso, entendia que poderiam se sentir constrangidos em recursar a participação ali, diante de mim. Combinar de agendar a entrevista para um segundo encontro possibilitava que os potenciais participantes dispusessem de alguns dias para refletir sobre a decisão, construir talvez outros questionamentos e, se fosse o caso, não precisarem recursar-se a participar pessoalmente, até mesmo simplesmente deixando de retornar meus contatos — o que de fato aconteceu com uma pessoa. Apesar de toda essa preparação, duas entrevistas aconteceram no mesmo dia do primeiro encontro —

150 Meu entendimento agora é de que esses “problemas” eu mesma criei ao previamente delimitar

sobre isso, mais detalhes na seção a seguir, sobre o trabalho de campo —, e as consequências disso ficaram evidentes.

A definição do local e do dia e horário para a realização das entrevistas obedeceu ao critério definido no projeto da pesquisa: o participante informou onde e quando poderia ocorrer com o mínimo de importunação possível. Em sua maioria, tanto os encontros preliminares quanto as entrevistas foram conduzidas em espaços diversos da UFESUL: salas, laboratórios, bibliotecas ou espaços de convivência como restaurantes ou bancos ao ar livre. Apesar de eu reiterar que me adequaria às suas possibilidades e necessidades, muitos quiseram saber primeiro sobre as minhas disponibilidades para determinar, dentre elas, as suas. Aos poucos percebi que alguns demonstravam certo desconforto ou tinham dificuldade de determinar um dia e horário sem qualquer parâmetro mínimo. De início não sabia como agir diante dessa reticência, pois havia sido mais do que orientada a interferir tão pouco quanto possível na vida dos participantes e a jamais induzi-los a privilegiar as minhas preferências. Passei, então, a fazer os agendamentos por partes: primeiro, discutindo com o participante qual local seria mais conveniente para ele/a. A partir disso, o/a participante tinha mais facilidade de manifestar suas disponibilidades de dias e horários, a que eu sempre respondi que eram compatíveis com as minhas. Apenas uma entrevista precisou, por necessidade do participante, ser reagendada.

A realização das entrevistas teve um formato mais ou menos recorrente. O encontro sempre iniciava com conversas amenas, que eu procurava não interromper e nem deixava de contribuir como faria em qualquer outra interação social minha. Aos poucos, enquanto ainda conversávamos, eu começava a tirar da mochila o material e colocá-lo calmamente sobre alguma superfície. A pastinha com os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o caderninho azul de anotações do campo, o porta-óculos em que guardava o gravador.

FIGURA 1 EQUIPAMENTOS DO TRABALHO DE CAMPO

FONTE ARQUIVO DA AUTORA (2019)

Geralmente o participante transicionava a conversa para a pesquisa quando passava a reparar nos objetos, ou eu iniciava o tópico quando algum assunto encerrava e nenhum outro era introduzido. Nesse momento eram reforçadas as informações quanto aos objetivos da pesquisa e informados explicitamente os direitos da pessoa-participante, conforme disposto na Resolução 510 (CNS, 2016) — tudo que ela também leu depois no TCLE. O enquadramento da interação sempre mudava quando eu introduzia o documento na conversa, mostrando-o, explicando para que servia e pedindo que a pessoa lesse. Perguntava se tinha mais alguma dúvida que eu pudesse sanar. Depois que assinávamos as duas cópias do termo, eu pedia permissão para ligar o gravador.

Desde o momento em que o TCLE (apêndice C) era introduzido, ficava visível que o enquadramento da conversa mudava. A interação tornava-se um evento contratual e formal. Geralmente as pessoas se ajeitavam no assento, retesando a postura. Tentei desenvolver algumas táticas para suavizar o enquadramento da formalidade antes do início da entrevista propriamente dita: deixava para buscar a água nesse momento, entre a assinatura do TCLE e o início da entrevista; se

estávamos numa sala, produzia nesse momento um cartazinho para colocar na porta pedindo que não fôssemos interrompidos, coisas assim. Não tenho certeza de que esses mecanismos funcionavam. No início das entrevistas o nervosismo era sempre palpável, os participantes mostravam-se logo muito preocupadas em dizer o que eu precisava que dissessem, como se a sua conduta de entrevistado estivesse sendo avaliada. Iniciava a conversa pedindo que a pessoa se apresentasse, fazendo perguntas sobre a vida e a família; apesar disso, na primeira oportunidade o entrevistado introduzia alguma informação sobre linguagem. Afinal de contas, era sobre linguagem que eu queria conversar, não era mesmo? Levava um tempo para que deixassem essa meta de lado e conversassem comigo sem aparentemente monitorar em demasia os tópicos em orientação aos meus interesses de pesquisa.

No encerramento das entrevistas, não raro os participantes comentavam estarem surpresos com o desenrolar do evento. Certamente esperavam um jogo de pergunta e resposta da ordem de questionários ou de tipo jornalístico; mas comentavam que haviam se sentido participando “de uma conversa normal”. Eu tinha um roteiro para as entrevistas (apêndice B), mas, depois de uma entrevista de ensaio com uma colega e da primeira entrevista efetiva, percebi que não precisava ficar consultando-o, que os tópicos eram abordados naturalmente no decorrer da nossa conversa, que eu, com o tempo cada vez mais ia conseguindo direcionar, às vezes mais, às vezes menos discretamente.