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2. O Contexto

2.5. O ethos institucional macro e micro dos jornais Ponto Final e A

Nosso objetivo, diferente do de Hanks (2008), não foi propor uma síntese entre a abordagem estrutural e fenomênica – uma conciliação entre estrutura e ação, mas sim tentar expressar as diferenças entre as noções de campo e mundo, utilizadas por Bourdieu e Becker respectivamente, e aproximá-las aqui do que chamamos de contexto. Não nos apropriamos da ideia de uma síntese, pois concordamos que esses dois níveis (estrutural e da ação) estão contemplados em ambas as teorias (de Bourdieu e de Becker). O primeiro trata do campo, porém não deixa de tratar dos hábitos, que consolidam o campo em termos de práticas sociais e simbólicas comuns, mas que são antes o resultado das pressões desse campo. O segundo trata do mundo organizacional, numa perspectiva quase-clínica, para entender o mais imediato, porém não ignora a possibilidade de podermos encontrar uma estrutura comum de funcionamento num conjunto de organizações. Esses dois níveis (estrutural/macroscópico e fenomênico/microscópico) aparecem em outras teorizações sobre a linguagem, porém com outra roupagem teórica. Poderíamos associá-los aqui, por exemplo, às noções de

ideologia dominante e ideologia do cotidiano, respectivamente, proposta pela filosofia marxista da linguagem de Volochinov (1924). Não é objeto de discussão deste trabalho as bases teóricas dessas duas abordagens sociológicas, o que demandaria um esforço grande para uma pesquisa de mestrado, e, por isso mesmo, resolvemos deixar em aberta a definição sobre qual dessas abordagens aproxima-se mais do escopo teórico da nova retórica de Perelman. O artigo de Stuart Hall, “O interior da ciência: Ideologia e ‘Sociologia do Conhecimento’” (1980), que traça as bases da noção de ideologia e suas relações com a sociologia do conhecimento – os modos como esta teorizou sobre aquela – aponta duas grandes formulações sobre a sociologia do conhecimento resultantes dessas teorizações acerca da noção de ideologia: uma fenomenológica, na América do Norte, e uma estruturalista, na França. Neste trabalho, essas duas vertentes são representadas por Howard Becker e Pierre Bourdieu, respectivamente.20

20 Sobre as diferenças entre as noções de mundo e campo, indicamos uma entrevista concedida por Becker

a uma revista de arte francesa, e publicada depois também em inglês. Nessa entrevista, o teórico norte- americano procura explicar alguns equívocos em associar essas duas noções. Não nos referiremos mais do que esta nota à entrevista por ela estar carregada da visão de Becker (e da sociologia de Chicago) acerca das noções utilizadas por Bourdieu. Utilizar dos dados da entrevista para explicar a noção de campo de

Esses modos de abordagem do contexto propõem – e é isto que gostaríamos de enfatizar – leituras diferentes da situação social. E, embora não seja nosso objetivo propor uma síntese entre essas abordagens, não descartamos a possibilidade de ambas serem úteis para descrevermos aspectos importantes da realidade social. Se em Bourdieu temos a sociedade vista de cima e disposta diacronicamente, como uma sucessão de mapas que guardam (na medida em que se estendem e variam no tempo) características dominantes do mapa social anterior, em Becker temos a sociedade vista de baixo e disposta sincronicamente, também como um mapa, todavia um mapa restrito a uma localidade específica (a uma organização que pensa essa localidade mais especificamente) e a um período de tempo limitado. Neste trabalho, apropriamo-nos dessas duas dimensões do contexto para apresentarmos uma descrição mais densa sobre a situação social que envolve o jornalismo e a política no município de Mariana. Nosso objetivo, nesse sentido, não foi valorizar uma abordagem em detrimento de outra. Concordamos que, dependendo do corpus estudado, a possibilidade de utilizar uma noção como a de mundos fica impedida: pensemos, por exemplo, num estudo sobre jornais da década de 1920 a 1930 em Mariana/MG, realidade impossível de ser acessada pelo método da observação. Para um corpus como este, a perspectiva dos campos serviria bem, uma vez que permitiria enquadrar os sujeitos sociais em termos de papeis e funções, pressupondo-se assim sentidos tanto para as ações dos sujeitos produtores da notícia quanto para seus possíveis receptores.

As descrições feitas neste capítulo, sob as lentes do macroscópio e do microscópio, permitem termos uma compreensão mais ampla desse “nível institucional”, seguindo a abordagem de Amossy (2008), do ethos jornalístico. Num nível estrutural, que a transcende e a constitui, a prática jornalística realizada em Mariana durante o período eleitoral participa de um campo de trocas simbólicas sob a influência direta do campo econômico. O ethos institucional do jornalismo é construído no decorrer da história dessa prática e sustentado por teorias que visavam legitimar a atividade jornalística pelo caráter de verdade que essa atividade desempenha na sociedade. Como aponta Nelson Traquina, que propõe uma síntese dessa sociologia

Bourdieu seria explicá-la segundo uma visão que a questiona em seus fundamentos de modo a invalidá- los. Entretanto, a entrevista de Becker demonstra a preocupação de uma abordagem sociológica (fenomenológica) não ser confundida com outra abordagem (estruturalista), e por isso expõe a realidade dessas diferentes visões da sociedade. Conferir entrevista: BECKER, H. An Introduction to “A Dialogue on the ideas of ‘World’ and ‘Field””. Sociological Forum. Vol 21, nº 2, june 2006.

histórica do jornalismo em Teorias do Jornalismo (2005), com o intuito de responder a pergunta: por que as notícias são como são? O resumo teórico de Traquina alcança a seguinte reflexão: embora o jornalismo não conceba mais a notícia como um espelho da realidade social, pois essa concepção de verdade já foi superada, ele ainda se apropria desse valor de verdade para legitimar sua prática social (Traquina, 2005, p. 149). Num nível fenomenológico, organizacional, o jornalismo praticado em Mariana durante o período eleitoral tem suas características próprias, que o distingue mesmo do jornalismo praticado fora do período eleitoral. É claro que tanto fora quanto em período de campanha o jornal estará dependente das relações econômicas para entrar em circulação. Entretanto, em período de campanha, os jornais estreitam suas relações com os políticos por intermédio das assessorias de campanha, e têm seu funcionamento dependente dessas assessorias, ao menos no que tange as pautas relacionadas aos candidatos, como já foi exposto. Nestes dois níveis (macroscópico e microscópico), a análise do ethos institucional dos jornais, seguindo ainda Amossy (2008), permite-nos perceber essa face dupla dos jornais atuando em período de campanha. A dependência do campo econômico e a relação estreita com o mundo da política são características da atividade jornalística.

No capítulo 3, apresentaremos as análises do ethos dos jornais por nós aqui estudados, sendo este concebido em termos do que caracterizamos por definição oratória. Os dados apresentados nas descrições que fizemos do contexto de produção e circulação das notícias em Mariana servirão como base para procedermos às análises. Desse modo, consideraremos também os releases na análise das notícias. Escolhemos a definição oratória, essa figura da escolha, para estudarmos a dimensão argumentativa das notícias. Estas argumentam não a partir da defesa de teses, de pontos de vistas explícitos, mas através da reificação de valores sociais, alcançada através da escolha e da presença conferida aos objetos discursivos: os políticos e a campanha eleitoral. Durante o período eleitoral em Mariana, as páginas dos jornais são como que a ágora dos políticos que pleiteiam o voto do leitor/eleitor. Não podemos dizer que a atividade jornalística define totalmente a realidade para esse leitor, pois existem outros meios de se informar sobre os fatos políticos (rádio, TV, comícios, palestras e reuniões nos bairros, propaganda política etc). Porém, podemos dizer que os jornais participam do processo de estruturação da realidade política percebida pelo público eleitor em

Mariana. Essa dimensão performativa das notícias, de propor uma realidade ao leitor, uma realidade verdadeira, assegurada pelo “valor da notícia”, propomos designar como a retoricidade do discurso noticioso, retomando a reflexão de Wellbery (1998). Passemos ao próximo capítulo, em que analisaremos o ethos no “nível interacional”, prosseguindo ainda no esquema de Amossy (2008).