1 O ESTADO DA ARTE
2.2 REPRESENTAÇÃO DISCURSIVA
2.2.1 Ethos, logos e pathos: a relação entre esses componentes
Em qualquer movimento argumentativo pode-se perceber a presença de três componentes da persuasão, a saber, o ethos, o logos e o pathos, em uma relação que é, segundo Adam (2011b, p. 94), mais complementar do que concorrente. “A prioridade atribuída a este ou àquele componente, em um discurso, tem efeitos tanto sobre sua composição quanto sobre seu estilo, nos detalhes de sua verbalização”. Assim, qualquer representação discursiva deve ser considerada uma estrutura dinâmica submetida a atrações tendenciais entre esses três componentes, em que se enfatize, por um lado, a pessoa, a função e o papel do orador, e por outro, a imagem que seu discurso faz de si.
Na visão aristotélica, o discurso ou a argumentação se constroem com base nesses três componentes. O logos diz respeito à argumentação racional propriamente dita; o pathos, por sua vez, corresponde ao envolvimento e ao convencimento do interlocutor; finalmente, o ethos refere-se ao aspecto ético ou moral que o enunciador deixa entrever em seu discurso a fim de garantir o sucesso da oratória. Nessa visão, esses componentes se unem na arte do convencimento, sobressaindo o ethos como primordial dentre esses elementos destacados para a eficácia da oratória, bem como para a construção de uma imagem positiva do orador.
O ethos retórico foi retomado e elaborado, principalmente, nos trabalhos de Maingueneau (2005; 2011). Para ele, o enunciador, em seu discurso, atribui uma posição institucional e marca sua relação a um saber. Isso significa que, se cada tipo de discurso
comporta uma distribuição preestabelecida de papeis, o locutor pode escolher mais ou menos livremente sua cenografia.
Para Maingueneau (2011, p. 69), “Além da persuasão por argumentos, a noção de ethos permite, de fato, refletir sobre o processo mais geral da adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva”. Duas razões levaram o autor a recorrer à noção de ethos: “seu laço crucial com a reflexividade enunciativa e a relação entre corpo e discurso que ela implica”. (Idem, p. 70). Desse modo, por meio da enunciação, revela-se a personalidade do enunciador. Assim, a eficácia do ethos envolve de alguma forma a enunciação, mesmo que não esteja explícito no enunciado. Maingueneau (Idem, p. 72) informa que o ethos não se refere apenas à eloquência judiciária ou aos enunciados orais. Isso significa que o ethos é válido para qualquer discurso, inclusive para o escrito.
Com efeito, o texto escrito possui, mesmo quando o denega, um tom que dá autoridade ao que é dito. Esse tom permite ao leitor construir uma representação do corpo do enunciador (e não, evidentemente, do corpo do autor efetivo). A leitura faz, então, emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito (MAINGUENEAU, 2005, p. 98, grifo do autor).
Nesse sentido, o ethos configura-se como a voz do fiador ou o tom que o enunciador insere em seu texto.
[...] qualquer discurso escrito, mesmo que a negue possui uma vocalidade específica, que permite relacioná-lo a uma fonte enunciativa, por meio de um tom que indica quem o disse: o termo ‘tom’ apresenta a vantagem de valer tanto para o escrito quanto para o oral: pode-se falar do ‘tom’ de um livro (MAINGUENEAU, 2011, p. 72).
O ethos se traduz também no tom, que se relaciona tanto ao escrito quanto ao falado, que se apoia em uma dupla figura do enunciador, a de um caráter e de uma corporalidade.
Essa noção de ethos compreende não só a dimensão propriamente vocal, mas também o conjunto das determinações físicas e psíquicas ligadas pelas representações coletivas à personagem do enunciador. Ao fiador, cuja figura o leitor deve construir a partir de indícios textuais de diversas ordens, são atribuídos um caráter e uma corporalidade, cujo grau de precisão varia segundo os textos (MAINGUENEAU, 2005, p. 98, grifos do autor).
Nesse contexto, o caráter corresponde aos traços psicológicos, à maneira de dizer do enunciador. Já a corporalidade corresponde a uma compleição corporal, a uma forma de
vestir-se e mover-se no espaço social. Desse modo, o ethos implica uma disciplina do corpo apreendido por intermédio das representações sociais (estereótipos culturais) valorizadas ou desvalorizadas, “[...] sobre as quais se apoia a enunciação que, por sua vez, pode confirmá-las ou modificá-las” (MAINGUENEAU, 2005, p. 99).
Para Maingueneau (2005), a maneira de dizer autoriza a construção de uma verdadeira imagem de si e, na medida em que o interlocutor se vê obrigado a depreendê-la a partir de diversos índices discursivos, ela contribui para estabelecer uma interação entre o locutor e o seu parceiro.
O universo de sentido propiciado pelo discurso impõe-se tanto pelo ethos como pelas ideias que transmite; na realidade, essas ideias se apresentam por intermédio de uma maneira de dizer que remete a uma maneira de ser, à participação imaginária em uma experiência de vida (MAINGUENEAU, 2005, p. 99).
O ethos discursivo mantém estreita relação com a imagem prévia que o auditório pode ter do orador, ou pelo menos, com a ideia que este faz do modo como seus alocutários o percebem. Isso significa que ao mesmo tempo, o ethos está ligado ao estatuto do locutor e à questão de sua legitimidade, ou melhor, ao processo de sua legitimação pela fala.
O poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente especificados. A qualidade do ethos remete, com efeito, à imagem desse ‘fiador’ que, por meio de sua fala, confere a si próprio uma identidade compatível com o mundo que ele deverá construir em seu enunciado (MAINGUENEAU, 2005, p. 99).
Deste modo, Maingueneau retoma a ideia de discurso eficaz, recusando-se totalmente a considerá-lo uma coleção de procedimentos a serviço de um conteúdo que procura encontrar uma forma: “O reconhecimento dessa função do ethos permite novamente que nos afastemos de uma concepção do discurso segundo a qual os ‘conteúdos’ dos enunciados seriam independentes da cena de enunciação que os sustenta” (Ibidem). De fato, conforme enfatiza Maingueneau (2011, p. 73), “O discurso não resulta da associação contingente entre um ‘fundo’ e uma ‘forma’”. Assim, o discurso é concebido como um acontecimento inscrito em uma configuração sócio-histórica que não pode ser dissociado da organização de seus conteúdos e do modo de legitimação de sua cena de enunciação, isto é, da situação de comunicação.